Consciente ou inconscientemente, às vezes, me esqueço que meu filho nem completou seis anos. Falo com ele quase tudo, converso de igual para igual, e há quem diga que isso é muito natural: afinal, os dois têm a mesma idade mental, dirão meus detratores.

Mas para além desse detalhe, é o próprio menino quem me alerta quando estou indo rápido demais, quando estou usando palavras incompreensíveis ou quando minhas ideias são completamente irracionais. Ele me olha no fundo dos olhos, seriíssimo, espalma a mão direita, dobrando levemente o polegar para dentro da mão e pergunta. Suas questões são diretas, nem sempre vocalizadas com precisão, pois a boca não acompanha o pensamento. E é aí nesses momentos em que o menino me ensina, me mostra que a inocência está ali, que um estágio superior ao humano pode se manifestar numa criaturinha como aquela.

Alguém, cético até a medula, já diagnosticou que a inocência é um câncer. Mas vá lá! Permita-se relembrar o que é estar inocente, desconhecer, acreditar numa nuvem como chão… Ser inocente é um estado de graça, um átimo de segundo que nos escapa à medida que envelhecemos.

Noites passadas, eu assistia à TV com o pequeno e ele me perguntou onde o apresentador do programa morava. Eu disse que ele era de bem longe, que era um novaiorquino típico. O menino me olhou incrédulo. Me concedeu um, dois segundos. No terceiro, suas sobrancelhas – que são as minhas em miniatura – subiram até a metade da testa. “Então, ele não fala português?”

“Não, ele fala inglês!”

“Mas, pai – mão espalmada para a frente, polegar ajudando a fazer um quatro – mas, pai, ele tá falando português agora. Eu tô entendendo…”

A inocência despencou sobre o meu colo. Entendi que o menino simplesmente ignorava que o programa era dublado. Ele sequer imaginava que havia muita gente por trás daquilo de traduzir, dublar, sincronizar, modular os tons, gravar e substituir a voz original.

Fiz um esforço sobrehumano para explicar a ele que alguém “emprestava” a voz ao apresentador da TV, que alguém falava em português o que era dita anteriormente em inglês. O menino ouviu tudo com uma calma de lama do Tibete. Apenas o par de sobrancelhas dançava pra cima e pra baixo. Os olhos, de repente, se abriram, cresceram, brilharam. O rosto dele ficou todo iluminado. O pequeno não disse mais nada. Mas não foi preciso: eu tinha certeza de que ele estava descobrindo algo novo, novíssimo para ele. Como quem olha o mar pela primeira vez. É a descoberta em estado bruto, seminal, primitivo, sem fingimentos ou arremedos. Dessas descobertas que apenas são o efeito colateral da inocência. Essas descobertas só existem porque descortinam para a gente um mundo novo, um panorama inédito, uma paisagem jamais vista.

Eu sorri para ele, que me devolveu na mesma moeda. Ele entendeu. Eu percebi que tinha testemunhado um instante importante ali. A descoberta dele, a inocência se lhe escapando, a luz do conhecimento apagando a ingenuidade. Isso não durou mais que poucos minutos. Não havia mais ninguém na sala. Não tive cúmplices. Foi tão sensível e duradouro que me fez pensar nisso que escrevo. Nas perdas e nos ganhos; no paradoxo que junta consciência e inocência, feito ímãs. Conhecer é perder a inocência; saber é sepultar a ingenuidade; saber é tornar-se mais familiar às coisas e ao mundo; saber é se localizar melhor no mundo e na vida… Coisas tão importantes e tão desimportantes diante daqueles dois olhinhos me mirando sérios. Olhinhos e sobrancelhas que me fazem agora – solitário num quarto de hotel – escrever essas divagações que apenas um post pode conter.

4 comentários em “lições de inocência com meu filho

  1. Eu não desisti da ideia de casar com o Vini, ok? Seu filhote é sensacional. Aproveite. Ame. Contemple. Tenha seis anos e cresça junto com ele. Um abraço, Rogério.

  2. Eu tive a mesma sensação quando minha sobrinha de quatro anos atendeu ao telefone e, adivinhe, era o Sr. Coelho da Páscoa. O entusiasmo e aquela crença tão ingênua me deixaram sem palavras. Criança é isso. É bom demais.

  3. Larissa, apesar de já ter algumas namoradinhas por aí, o Vini ainda não manifestou nenhuma preferência por mulheres mais velhas… mas a esperança sobrevive, né?

    Epifania é pouco, Marcita!

    Cê disse tudo, Bruna!

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