um centésimo de segundo em seis minutos

Um dilema ético clássico do fotojornalismo num filme curto e certeiro.

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  1. Rodrigo Faveri

    Dilema ético? Não seria esta uma forma branda de se referir ao problema? Ética ou hipocrisia (no sentido estrito da palavra)? Achei hipo-crítico principalmente a narrativa sobre a fotografa, mais do que ela propriamente, quando tem seu xilique burguês. Demorou muito pra ela ter sua crise (ou deveria dizer hipo-crise) de consciência. O filme é uma caricatura do problema, que é real. Esta sempre foi uma questão que me ocorreu, desde a primeira vez que vi as fotos do Sebastião Salgado: o que é e o que faz, afinal, um fotógrafo jornalista? Levei tempo pra enteder, entender o papel dele. Hoje aceito melhor. Por que a moça fotógrafa do filme não interferiu na situação que ela fotografava? Medo? Missão a cumprir? O filme é meio irreal, como disse, caricato. Acho que um fotógrafo jornalista não dispõe da segurança que ela expressava no rosto no momento da cena que fotografava. O numero de foto-jornalistas e jornalistas mortos por ano é enorme, certo? E, ao final, ela chora! Qual o motivo do choro? 10 contra 1 que ela chora por causa de si mesma, pena, vergonha de si, por fazer parte de um grupo social de hipócritas (o que é visivel, não é apenas minha opinião).

  2. Demétrio

    Taí uma equação complicada: se ela interfere, muito provavelmente morrem as duas e ninguém fica sabendo da foto, do que ela (a foto) conta da guerra. Outra opção é a fotógrafa interferir e nada ocorrer, nem mesmo a foto. Aí tem-se pelo menos uma vida salva. Por outro lado, se ela não interfere, como o fez, a foto pode denunciar algo grave, como uma guerra em que crianças são mortas, ainda que, como o filme sugere, o custo possa ser alto. (O prêmio, neste caso, não entra na discussão, haja vista que é dado a posteriori.) “Malhas que o império tece”, diria Fernando Pessoa.

    • Rodrigo Faveri

      Há vários equívocos na sua interpretação: 1. ela já interferiu ao fotografar; 2. a interferência, feita de outra forma que não a foto, não garante que “uma vida seja salva”, como vc diz. Opção? Como assim? 3. denunciar atrocidades de uma guerra? Alguém ainda não sabe o que ocorre em uma? Alguém ainda tem ilusão sobre “guerra cirúrgica” ou “guerra justa”, sobre as quais se diz só morrem os malvados? Qual é o preço de uma informação inútil? O prêmio serve apenas para aplacar o ego da sociedade que fomenta a guerra, não aparece como tal, e ainda bota banca de bom moço. As “malhas do império” colonizam mentes e entorpecem o espírito crítico. Sua interpretação soa muito reconfortante.

      • Rogério Christofoletti

        Certo, Rodrigo. Então, diante de tantas certezas suas, me diga aí: o que você faria no lugar da fotógrafa?

  3. Rodrigo Faveri

    Repara como todas minhas “certezas” aparecem em forma de pergunta. Sobre estas eu realmente tenho certeza (quer dizer, tenho certeza apenas do que eu não sei). “O que vc faria no lugar da/o” eis aí um argumento que é quase um golpe abaixo da linha da cintura. A propósito, mais uma pergunta: tu não concordas com minha intepretação (as duas)? Se discordas, seria mais interessante saber tua opinião, não a minha. A minha eu já dei, e nela está implícita “o que eu faria”. Mas posso explicitá-la: eu passaria por um dilema ético. Mas um verdadeiro, não um de brincadeira, caricato, como mostra o filme. Será que não fui claro o suficiente a respeito de minha critica ao filme? Aliás, o caráter hipócrita do prêmio está explícito o suficiente na narrativa final, ou não? Com certeza eu não teria uma crise de choro como forma de auto-comiseração. E tu, o que farias?

    • Rogério Christofoletti

      Não, você não foi claro. O que faria? Faria a foto? Salvaria a menina?
      Eu insisto porque é sempre muito fácil julgar as atitudes dos outros quando estamos confortavelmente resguardados. Isto é: no plano das ideias, vale tudo. Mas na vida real.
      Insisto mais: é um dilema ético o que se impõe. Fazer a foto ou não. A questão não é abstrata, é real, e vai ter desdobramentos de um jeito ou de outro. O dilema não é a escolha entre uma coisa positiva e outra negativa, entre o bem e o mal. O dilema se dá na encruzilhada entre duas ou mais assertivas defensáveis do ponto de vista moral, diante de caminhos reais e efetivos. Isto é: é defensável que a fotógrafa faça a foto para denunciar atrocidades, documentar violências para permitir a punição dos responsáveis; e é defensável também que ela intervenha na ação e tente salvar a garotinha. São valores em jogo. Valores de um fazer jornalístico e valores mais amplos, humanos.
      Portanto, volto a perguntar: o que você faria, amigo?
      Tá vendo como não é fácil decidir?

      • Rodrigo Faveri

        É tão simples responder a esta pergunta e é exatamente por isso que este não é um dilema ético. Dilemas não se resolvem com perguntas que pedem respostas do tipo sim ou não, como está sendo proposto aqui (tu mesmo pareces perceber isto). O que é que estamos discutindo aqui, afinal? O filme ou uma possível realidade do tipo “o que vc faria se” estivesse em determinada situação. Oras, eu faria o que fosse preciso fazer e isto seria decidido no momento da situação, meu caro. Não há por que sermos normativos e determinarmos de ante mão, em questões de ética, o que é certo ou errado. Nem mesmo as éticas mais normativas, acredito, propõem soluções deste tipo. Esta é minha resposta.

  4. Rodrigo Faveri

    É um engano achar que “no plano das idéias vale tudo”. Não é possível atribuir qualquer interpretação à narrativa do filme em questão. E o julgamento sobre a forma como a narrativa foi construída é perfeitamente válido. Agora, se estivermos falando de uma pessoa real, que enfrentou esta ou aquela situação, a história é diferente, muito diferente. Mas não é disso que se trata, estamos lidando com uma situação hipotética, padrão, por assim dizer, que no caso do filme assume contornos de caricatura. E é por isso que, como tu mesmo muito bem observasse não cabe a decisão pelo sim ou pelo não. Por que insistir na pergunta “o que vc faria”, se nesse contexto não é um pergunta legítima? Eu chamei a atenção para este problema no momento em que me referi à questão como uma espécie de “golpe abaixo da cintura”. E eu insisto, minha resposta é a de que eu tomaria a decisão no momento, e esta poderia sim vir a ser julgada como certa ou errada. O problema é que o filme não faz isso, ou tenta fazer mas não consegue e apresenta uma caricatura de mal gosto com ares de crítica.

  5. Rodrigo Faveri

    Roger, me desculpa, mas não consigo esperar pela tua resposta. Precisamos esclarecer algumas coisas aqui. É preciso que arranjemos, nesta discussão, uma “balança” pra pesar as coisas e determinar seus valores. As tuas duas afirmações como possíveis respostas defensáveis, não possuem o mesmo valor. Enquanto “valor humano” há uma relação de hierarquia entre elas e, na sua relaçao, consequências éticas que determinam a solução para o problema que estamos discutindo. Vejamos:

    Afirmação (solução) 1. “fazer a foto para denunciar atrocidades, documentar violências para permitir a punição dos responsáveis”.

    Afirmação (solução) 2. “intervir na ação e tentar salvar a garotinha”.

    Digamos que ela adotasse, como adotou no filme, a solução 1. Digamos que ela o fizesse como forma de denuncia e possivel punição. Onde está o dilema aqui? Ainda não está. No filme ele só surge no momento em que ela chora. E por que ela chora? Ela chora pq não adotou a solução 2. Certo, ou não? Digamos que sim. Mas por que ela não o fez? Vejamos se conseguimos descobrir.

    Digamos agora que ela adotasse a solução 2. Como ela salvaria a menina? Jogaria a maquina na cabeça do homem que está com a arma? É claro que não. Ela não poderia salvar a menina! Ela estaria se arriscando mais do que ja estava, tentando fotografa-la. Se ela tentasse, seria insanidade pura.

    Logo, percebemos que uma decisão do tipo ética, precisa de uma racionalidade que a justifique. Assim, a fotografa agiu correto. Foi racional, salvou a si mesma e poderá denunciar as atrocidades. Se tentasse o contrário perderia duplamente, triplamente: perderia a vida, a foto e não salvaria a menina. Seria uma decisão irracional, portanto não-ética. O fato de ela, talvez, como uma super heroina, conseguir salvar a menina e ainda se salvar, não torna a ação ética, continuaria sendo irracional, e portanto não-ética. O resultado não pode ser parâmetro de avaliação do valor de uma decisão e consequente ação, certo?

    Pois bem. Acontece que enquanto “valor humano” salvar a menina está hierarquicamente acima do que tirar a foto, concorda? Assim, podemos concluir que apesar de ser mais humano, (tentar) salvar a menina seria irracional. Agora, pra terminar. Por que ela chora ao final? Chora por que não conseguiu ser tão humana quanto desejaria, preferiu ser acertadamente mais racional.

    Abraços.
    R.

    • Rogério Christofoletti

      Rodrigo, eu sei. Você não gostou do filme, achou forçado e hipócrita o comportamento da personagem. Tranquilo. É a sua opinião, claro. Mas é só um filme, uma representação de uma situação, uma interpretação do que pode ser importante ou não.
      Postei aqui porque o blog é lido por meus alunos também e pelos colegas que comigo discutem e pensam a ética jornalística. Você pode até não enxergar um dilema ali, mas que existe, existe. É como eu escrevi um dilema clássico na profissão jornalística, quase um cacoete se falar sobre isso. Um dilema que opõe o jornalismo como forma de representação da realidade ao jornalismo como forma de ação e de intervenção social. Isto é: ficamos entre mostrar ou ajudar a fazer. Por essa razão e as subjacentes que se trata de um dilema.
      Eu acho esta uma escolha difícil, muito difícil de se tomar. Hoje, com um filho de seis anos, os assuntos relacionados ao sofrimento de crianças me pesa muito mais, o que dificultaria a tomada de uma decisão. De qualquer forma, eu estaria inclinado a fazer a foto.
      As escolhas éticas não são totalmente racionais. É um erro pensar nisso. Há valores que nos apelam aos sentimentos… abs

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