wikileaks, jornalismo e a preservação de fontes

A primeira semana de setembro foi crítica para a equipe do WikiLeaks. Em poucos dias, o mais famoso site de vazamentos foi hackeado, trocou farpas com grandes jornais, sofreu críticas globais sobre seus métodos, e ainda viu seu mentor – Julian Assange – na iminência de sofrer mais um processo, agora do governo australiano. Não bastasse isso, começam a despontar dois concorrentes no mercado de vazamentos: o OpenLeaks, do dissidente Daniel Domscheit-Berg, e a SafeHouse, do The Wall Street Journal.

Apesar de viver sempre com a navalha na garganta, sentindo o cerco se fechar sobre seu projeto, Assange parece ter o sangue frio dos enxadristas. A semana foi difícil, mas isso não o impediu, por exemplo, de participar por teleconferência de um importante evento no Brasil sobre tecnologia – o InfoTrends – e disparar contra veículos de comunicação que há pouco tempo eram parceiros do WikiLeaks. Sempre é bom lembrar: Assange cumpre uma espécie de prisão domiciliar na Inglaterra, pois responde judicialmente a diversas acusações, entre as quais a de estupro.

O estopim para o mais recente tiroteio foi a divulgação pelo Wikileaks de quase 134 mil documentos, dos quais alguns traziam as identidades das fontes, contrariando a rotina de vazamentos anteriores. O Departamento de Estado dos EUA reagiu, argumentando que a publicação colocava em risco as pessoas mencionadas e prejudicava operações de contraterrorismo.. O procurador-geral da Austrália, Robert McClelland, também se enfureceu, pois do lote de documentos, constavam os nomes de 23 australianos suspeitos de participação em grupos terroristas do Iêmen. Para McClelland, a informação “compromete a segurança nacional” de seu país. O WikiLeaks se defendeu das acusações, colocando a culpa no jornal britânico The Guardian, um de seus parceiros na mídia tradicional no que foi chamado de “o maior vazamento público de documentos da história”. Segundo Assange, o livro publicado em fevereiro pelos jornalistas David Leigh e Luke Harding revelava a senha para acessar documentos na íntegra, sem ocultação dos informantes. O jornal alegou que seus jornalistas haviam sido informados por Assange que a senha era temporária e seria trocada em poucos dias. Verdadeiro jogo de empurra…

No primeiro dia de setembro, Assange voltou a atirar, descarregando agora também contra The New York Times, outro ex-colaborador. Segundo o mentor do WikiLeaks, os grandes conglomerados de mídia estão mais comprometidos com os governos de seus países do que com os interesses dos leitores. Na sequência, o WikiLeaks publicou o lote de 251 mil documentos da diplomacia norte-americana – aquele do maior vazamento do mundo – em versão não-criptografada, colocando mais gasolina na fogueira. Quatro de seus parceiros na imprensa – The Guardian, The New York Times, El País e Der Spiegeltrataram de condenar a ação, eximindo-se de qualquer responsabilidade. Ao que tudo indica, acabou o casamento entre o maior site de vazamentos e alguns dos mais influentes veículos de comunicação mundial. Azedou de vez a relação entre o resultado de uma nova cultura de tratamento da informação surgida com a internet e os meios midiáticos tradicionais.

Mas é preciso entender alguns aspectos dessa novela. O primeiro é que o WikiLeaks não tem os mesmos compromissos que a imprensa ou órgãos governamentais. Não se pode esperar que opere com as mesmas preocupações de preservação de fontes. O WikiLeaks parece não manter esses compromissos, e – claro! – corre o risco de ser considerado “irresponsável” e “negligente”. Por outro lado, os cinco parceiros na mídia convencional sabiam que pouco poderiam confiar no site de Assange. Cresceram os olhos com o volume das informações exclusivas a que teriam acesso, e se arriscaram na joint-venture. A decisão não foi apressada; a costura da parceria demorou meses. Foram ingênuos? Difícil afirmar que alguém nesse episódio esteja isento de responsabilidades.

O fato é que a sequência de capítulos traz à tona – para além de nomes e relatos – questionamentos sobre os limites e os compromissos que devem ter aqueles que detêm informações estratégicas. Pode-se pode colocar vidas em risco por conta da divulgação de dados? O que vale mais: o direito à vida ou o direito de ser informado? Quem define a preponderância de um sobre o outro? Quem deve garantir cada um desses direitos? A quem cabe zelar pela integridade dos informantes? De que forma sites como o WikiLeaks devem se orientar nesses casos? Os critérios jornalísticos valem para organizações não-jornalísticas?

Na nova ecologia comunicacional, não existem apenas os dinossáuricos jornalistas e suas paquidérmicas organizações de informação. Outros animais midiáticos também compõem a fauna, e dividem os recursos e o território. Julian Assange e o WikiLeaks são espécimes recentes, sem catalogação ainda. Conviver com estranhos assim, num cenário em ebulição, é desafiador não apenas para quem trabalha nas redações ou no serviço diplomático. O público – de forma muito sábia e silenciosa – assiste à reacomodação das forças.

(publicado originalmente no objETHOS e republicado no Observatório da Imprensa)

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