zero: a versão dos editores

Rogério Christofoletti e Samuel Lima

Jornalismo se faz a partir de escolhas, como em qualquer atividade humana. Nas redações, escolhe-se uma foto para ilustrar uma reportagem, descartando-se as demais; decide-se por um enfoque numa matéria e não por outros; toma-se decisões a todo o momento, das mais simples – o uso de uma palavra, por exemplo – às mais complexas – a definição do que sai numa edição e o que fica de fora. Selecionar é, então, da essência do jornalismo, até porque é uma função dos meios de informação oferecer explicações de fatos, o que em última análise significa dar sentido às coisas, contornos para a realidade.

Embora tenha se tornado um mantra na área, a famosa epígrafe do New York Times – “All the News That’s Fit to Print” – mostra-se impraticável. Quem faz jornalismo sabe que nem todas as notícias cabem, que nem tudo o que acontece é publicável ou interessa ao público. De modo concreto, a frase do jornal mais influente do mundo é slogan. Logo, pertence muito mais ao mundo do marketing do que do jornalismo. Repetimos: jornalismo se faz a partir de escolhas. E essas decisões não são tomadas apenas com base nas vontades dos editores, nos seus desejos secretos, nas suas manias. Há critérios por trás dessas escolhas. Critérios que se consagraram ao longo de décadas e que permitiram que o jornalismo se tornasse o que é hoje: novidade, atualidade, singularidade, interesse público, relevância social, proximidade, impacto…

Fazemos esta digressão para entrar num debate enviesado, e que, por isso, precisa contar com um lado que foi até então ignorado.

Em agosto passado, assumimos o jornal laboratório do curso de Jornalismo da UFSC, o Zero. A publicação está às vésperas de completar 30 anos, e decidimos fazer algumas reformas gráficas, editoriais e operacionais, entre elas a definição mais nítida do público a que serviríamos e a abertura para um diálogo mais horizontalizado com esses leitores por meio da crítica. Trocando em miúdos, o Zero se voltaria descaradamente para o público universitário – extrapolando o umbigo do próprio curso de Jornalismo e as fronteiras da UFSC – e teria um ombudsman, que passaria a apontar erros, falhas e acertos do jornal. Redistribuímos os conteúdos em novas editorias, afinamos o olhar para pautas que estivessem em maior sintonia com o nosso público e abrimos espaço na página 2 para um crítico especializado. Para a função, convidamos o professor Ricardo Barreto, que por quase 15 anos foi editor do Zero, conhecido também por sua verve, experiência e rigor.

Na edição de dezembro, o ombudsman critica o fato do Zero não publicar uma entrevista concedida pelo jornalista norte-americano Gay Talese a uma estudante da UFSC. O jornal teria “esnobado” o renomado escritor. Argumenta o ombudsman que sua função é “defender os interesses e direitos do leitor” para “receber informação atual, crível, ética e de qualidade”, e o jornal teria sonegado, escondido “material de vivo interesse para o nosso inegável público-alvo prioritário: estudantes e professores de Jornalismo assim como profissionais”. O ombudsman erra grosseiramente, já que esse não é o primeiro público do Zero. Com uma tiragem de 5 mil exemplares, pouco mais de 10% deles circulam entre os aspirantes à carreira, profissionais do mercado e cursos do tipo no país. A maioria, portanto, chega a universitários das mais diferentes carreiras, para quem pouco ou nada devem interessar os liames da profissão jornalística.

Na verdade, no episódio, é o ombudsman quem sonega a informação de que a entrevista em questão foi feita para uma disciplina dele e com a finalidade de ilustrar a leitura de um dos livros de Talese. A estudante-entrevistadora, de forma muito ousada e sagaz, ligou para a casa do jornalista e com ele conversou por alguns minutos, colhendo respostas para figurar num jornal-mural. Ao contrário do que diz o ombudsman, a entrevista não é “um diamante” e não traz “um inequívoco furo jornalístico”. Na verdade, a entrevista tem graves problemas de qualidade jornalística – que iremos apontar adiante, conforme se pode conferir na sua íntegra ou na versão publicada de forma reduzida no Cotidiano. Não há nenhuma revelação lá, embora seja louvável a audácia da estudante. Deveríamos publicar a entrevista apenas pelo fato de Gay Talese ser famoso ou célebre? Deveríamos publicar um material que interessaria apenas um décimo de nossos leitores?

De forma convicta, descartamos. Fomos racionais e sensatos, coerentes com a abrangência de nosso público e com um patamar de qualidade que estabelecemos para nossas edições. Não foi uma decisão “míope” ou “non sense”, assim como não guiamos nossas escolhas pela grife ou tietagem. A importância do entrevistado não garante a relevância ou qualidade da entrevista! E, nesse caso, a escolha das perguntas, focadas em única obra de Talese, sem sequer mencionar o new journalism, por exemplo, revela a precariedade do resultado final.

O ombudsman erra ainda quando afirma que “nosso primeiro objeto é o Jornalismo” e que “jornalistas, seguem sendo indispensáveis, especialmente na condição de entrevistados”. Não acreditamos que o jornalismo seja algo mais importante que outras tantas coisas; ele é uma forma de revelar, de registrar, de informar e de orientar o público. É um meio, uma oportunidade. E acreditamos que jornalistas são mais imprescindíveis na condição de perguntadores.

Mas o leitor pode se perguntar: se discordam do ombudsman, por que os editores do Zero publicaram a crítica que contestam? Porque acreditamos na função do crítico e num jornalismo mais democrático e horizontalizado. Por que os editores não responderam ao professor Barreto nas próprias páginas do jornal? Porque nos dispusemos a abrir um espaço para a crítica e não para a resposta às críticas. Se o fizéssemos agora, abriríamos um precedente indesejável. Mas o que motivou os editores a se contraporem agora? A reprodução da coluna do ombudsman em outros canais públicos, e a necessidade de desfazer mal entendidos.

Do ponto de vista da qualidade jornalística o material tem alguns problemas seriíssimos, de difícil solução, a saber:

1) A entrevista se resume a seis perguntas tão somente sobre o livro “O Reino e Poder” (escrito originalmente em 1969). Sabemos que a obra do autor e sua importância histórica e jornalística vão muito além, especialmente por sua participação no chamado novo jornalismo;

2) O pouco cuidado na elaboração de perguntas acabou contemplando clichês do tipo “quais suas preferências de leitura?” ou ainda “o que o senhor recomendaria a um estudante de jornalismo?”. Altamente relevante, não?

3) O mais grave ainda, do ponto de vista da edição (e condução da entrevista) é publicar uma resposta com 5.823 caracteres (de um total de 9.194). Ou seja, quase 60% do material se esgota aí;

Em suma, o texto final revela uma entrevista mal preparada e igualmente mal conduzida. Ela pode servir a um trabalho escolar, mas não para ser publicado num jornal como o Zero. Estamos, de fato, diante de um caso no qual o entrevistado se impõe como conteúdo e notícia. Jornalismo não combina com tietagem, na nossa modesta opinião.

O leitor pode ainda questionar: o Zero vai manter um ombudsman? Barreto continuará no posto? Sim, o jornal laboratório da UFSC quer continuar a experiência de abertura ao diálogo e ao exercício crítico, pois os olhares externos nos impulsionam a buscar o aperfeiçoamento. O professor Barreto só não segue na função se não quiser, se decidir nos esnobar…

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  1. Gian Kojikovski

    Assino embaixo. Vale lembrar que a decisão também foi coletiva. Não há comparações com o Zero de antigamente, que tem seus méritos, mas tinha outro foco, e o ombudsman, quando faz sua crítica, deveria estar atento a isso.

      • Gian Kojikovski

        Filipi, e não sei quem é você, mas eu estava em sala quando decidimos não publicar isso. Se você tiver alguma coisa a mais pra falar além de um ataque pessoal, adoraria discutir contigo sobre o assunto. Se é só pra falar isso, melhor não falar nada.

  2. Marília

    Christofoletti, algumas considerações:

    1 – Fiquei chateada que colocaste os méritos e deméritos da minha entrevista em uma discussão restrita ao ombudsman e os editores. Isso está se tornando uma lavação de roupa em público, na qual eu não gostaria de me envolver diretamente.

    2 – Acho estranho que, em caráter privado, você elogiou a entrevista e recomendou que eu publicasse na revista Imprensa e até mesmo no Diário Catarinense, ou no Notícias do Dia.

    3 – Em nenhum momento eu lhe dei a permissão para publicar a entrevista na íntegra.

    4 – Problemas com perguntas ingênuas ou respostas longas são resolvidos pela edição.

    Marília.

    • Rogério Christofoletti

      Marília, quem trouxe este assunto para além do âmbito acadêmico foi o ombudsman. Ele tratou disso em sua coluna. Ele encaminhou a coluna dele para o blog do Canga. Ele expôs o seu trabalho.
      Em caráter privado e público, elogiei a sua iniciativa, a sua ousadia. Sugeri que oferecesse a outros veículos, pois não publicaríamos no Zero. A edição pode sim resolver alguns problemas, alguns.

  3. paulo henrique

    minha opinião de jornalista: não há dúvida de que a entrevista deveria ser publicada. Nenhuma das perguntas me pareceu fora de propósito para um jornal laboratório de… jornalismo. Parabéns, Marília, pela iniciativa. Se o projeto editorial do Zero foi mudado para dar foco à universidade, foi um pecado mortal. Um jornal-laboratório não deve ficar restrito ao mundinho da universidade. Nos meus tempos, fizemos um Zero semanal – algo impensado nos dias de hoje, em que seria até mais fácil, já que a tecnologia disponível hoje facilita a produção de um jornal. O Zero era aberto à participação de todos. Os próprios estudantes, com a supervisão do professor, decidiam o que entraria, como seria a capa, etc. Tínhamos matérias sobre tudo – algumas boas, outras nem tanto. Afinal, era um laboratório. O que dava pra corrigir, corrigíamos. Sobre o caso específico, rejeitar uma entrevista – exclusiva – com Gay Talese porque as perguntas não eram as ideais me é incompreensível, do ponto de vista jornalístico. Só posso imaginar que outros critérios devam ter influenciado a decisão de não publicá-la.

    abraço

  4. Guilherme Ebert

    A simples história de uma estudante que conseguiu entrevistar Gay Talese por telefone já merecia uma matéria. Os editores que não souberam usar.

  5. Upiara Boschi

    Mas que belo exemplo para os alunos de jornalismo. É assim que um mau editor faz sempre que é criticado: coloca a culpa na apuração do repórter…

  6. Joice Sabatkr

    Li a entrevista num link da internet e adorei, pela leitura de mundo que Gay Talese nos proporciona. O elitismo que brota das univeridades e contamina o meio profissional (inclusive o jornalistico) é algo que merece análise e crítica. É fantástico que em seis perguntas a futura jornalista tenha captado isso. Isso renova minha esperança por uma geraçāo de profissionais que consiga enxergar além do próprio umbigo.
    Atenciosamente,
    Joice Sabatke (editora do Zero dos anos 90)

  7. Samuel Lima

    Caro Upiara,

    A aluna não é repórter do ZERO; logo não se trata de uma relação repórter-editor como supões. As razões que nos levaram a não publicar o material, resultado de um trabalho específico (disciplina de “Edição”) sobre o livro “O reino e o poder”, de Gay Talese também estão expostos ao debate. Discordar da decisão é democrático, mas ficar apenas no xingamento maniqueísta (o selo de “mau editor”) é muito pouco para um jornalista da tua competência. É possível observar, na simples comparação dos dois textos (o original e aquele publicado no Cotidiano.Ufsc) as limitações, do ponto de vista da qualidade jornalística. Ainda assim, e sem entrar nos méritos aqui expostos, submetemos a decisão ao crivo democrático dos 29 repórteres do jornal laboratório, e acatamos a posição final.

    Saudações,

    Samuca

  8. Tomás

    Pode ter sido limitado, assim como aquela entrevista com o técnico Jorginho, na qual ele foge das questões polêmicas, o que acaba tornando a matéria morna demais. Ou então meia edição sobre as eleições à reitoria da UFSC – o que limita muito essa expansão de público-alvo. Entre outros. Curioso que nesse sentido não vem ao caso avaliar as limitações do material dos próprios alunos. Nunca deveria vir , já que se trata de um jornal-laboratório.

    Acho que a desculpa de que foi uma decisão editorial e de protecionismo dos alunos da disciplina bastaria, em vez de argumentar que a entrevista com Gay Talese (apresentada anteriormente na versão da transcrição, não editada) não estava boa o suficiente para o jornal. Quer dizer, a entrevista não é boa o suficiente para o Zero, mas é para a revista Imprensa ou Diário Catarinense e Notícias do Dia?

    • Upiara

      Fiz parte do Zero por dois anos, embora a matrícula valesse por seis meses. Uma disciplina dá suporte ao jornal, mas o Zero é de todos. Sempre foi. Não consigo entender essa lógica “ela não era da turma” pra pessoa quem chega com material relevante. Mesmo que o material não tivesse qualidade, o trabalho de edição, feito por professores e alunos da disciplina, poderia lapilá-lo. Preferiram o caminho fácil e agora se justificam culpando o trabalho da repórter – e só por isso comento aqui, por ver nisso covardia. Mas, tudo bem, vocês garantiram vaga na história do Curso…

    • Julie

      Concordo contigo, Tomás. Argumentar que a matéria não era boa o suficiente para o Zero (público universitário) mas que poderia ser publicada no Diário Catarinense (todos os catarinenses) é questionável sob vários aspectos.

  9. Lucas SampaioLucas Sampaio

    Antes de mais nada, parabéns à Marília pela entrevista. Ter o telefone do Gay Talese na mão e pensar “e seu eu ligar pra ele?” é o que distingue verdadeiros jornalistas de quem é apenas um(a) estudante universitário(a).

    Triste é ver tanto amadorismo por parte de quem deveria ensinar aos alunos. Não leva a nada justificar a decisão –não vem ao caso avaliar se ela foi acertada ou não– criticando o material da aluna. O material não é ruim. Se o argumento para desqualificar é esse, meus pêsames.

    Parece que o Zero, pasmem, não entende qual a função de um ombudsman. Gostem ou não da crítica, o Barreto estava ali para criticar. E fez uma crítica pertinente. Concordem ou não, ele escreveu a opinião dele e aquele espaço é para isso.

    Ombudsman serve para avaliar o produto. E se a repercussão da coluna do professor foi grande, talvez seja porque outras pessoas concordam com a opinião dele.

    Essa “versão dos editores” é uma grande bobagem. A versão dos editores é o Zero que foi impresso. E ponto.

    Só que, no futuro, ninguém vai lembrar de nenhuma matéria que saiu nesta edição de dezembro do Zero. Ali não tem nada que salte aos olhos, sem desmerecer o bom trabalho feito por alunos e professores da disciplina. É arroz com feijão bem feito. E só.

    Mas todos vão se lembrar que uma aluna do jornalismo da UFSC entrevistou o Gay Talese.

    • Gian Kojikovski

      “Mas o que motivou os editores a se contraporem agora? A reprodução da coluna do ombudsman em outros canais públicos, e a necessidade de desfazer mal entendidos.”

      • Julie

        Será que a opinião do ombudsman deve ficar restrita às páginas do Zero, Gian? Há alguma regra entre Barreto e equipe do Zero que exija que o texto seja publicado apenas no jornal? Creio que ele tem todo o direito de divulgar sua opinião.

        Se foi antes ou depois da publicação no jornal, são outros 500. Não sei qual foi o acordo entre os editores e o Barreto. Se ele amplificou sua opinião enviando-a para blogs e amigos, que a redação aceite e sustente sua posição sem atacar a qualidade do trabalho da Marília.

        “Desfazer o mal-entendido” desmerecendo a entrevista da aluna não esclarece coisa alguma.

        • Tomás

          Deveriam ter explicado melhor qual é a linha editorial e o público-alvo desse novo Zero – foi isso que baseou a decisão dos editores.

          Os defeitos da transcrição da entrevista poderiam ter sido melhorados com a edição, em caso de publicação. Assim como as matérias dos próprios repórteres matriculados na disciplina, que não são perfeitas. Nenhuma matéria bruta sai pronta para a publicação.

  10. Jurandir Camargo

    Rogério: seus argumentos são os de um editor que comeu mosca. O material da Marília – poderia até precisar de uma boa edição – é muito interessante. Melhor que essa capa-repeteco “Floripa vista dos morros”. Isso é pauta mais do que manjada, embora seja sempre uma pauta válida. A Marília merce um beijo de incentivo, e não essa sacanagem de dizer que o material dela era uma merda, que nem com copy e edição resolveria.
    Zero a esquerda pro Zero.

  11. Samuel Lima

    OK, Upiara.

    Na falta de argumentos, você prefere o “caminho fácil” de nos rotular de “covardes” pelo desatino de não publicar uma entrevista com Gay Talese. Além de mais “fácil” seu argumento é um primor de leviandade por julgar, sem conhecer e apurar, um trabalho de todo o semestre.
    Aos demais, o ombusdman tem todo o direito de publicar a opinião dele onde bem entender. Da mesma forma, os atuais professores responsáveis pelo ZERO (e os repórteres) podem também defender suas opiniões e percepções. Espero que vocês permitam, é claro…
    Nas páginas do ZERO não haverá nenhum contraponto nosso. Vale o rito democrático do ombusdman e seu mandato irrevogável, a menos que resolva nos esnobar. A pressão em defesa da publicação da entrevista extrapola seu papel, até porque há um fato embaraçoso: a entrevista em questão foi produzida sob sua orientação, focada em obra única de um autor que teria muito, mas muito a dizer numa pauta que se destinasse a outro veículo e formato, e não a um jornal-mural da disciplina de Edição.

    Saludos democráticos.

    • Lucas SampaioSampaio

      Todos têm direito a dar sua opinião. Por isso mesmo, antes de escrever a de vocês, talvez fosse de bom tom aceitar a dos outros.

      Não acho que deixar a entrevista de fora tenha sido algo “errado”. Foi uma opção, um consenso de todos sem sequer ler a entrevista. Isso foi o de menos.

      Minha crítica é em relação à postura extremamente infeliz dos professores. Assino embaixo de tudo o que o Pedro Santos disse em um comentário abaixo.

      Essa “versão dos editores” é baixa, leviana e mesquinha ao atacar a aluna. Totalmente covarde.

      A Marília, quem diria, foi a mais adulta de toda a confusão. Desde a entrevista até a briga de egos.

  12. Dauro Veras

    Caro Rogério, meus dois vinténs sobre o “caso Talese” – como leitor e ex-aluno que tem confesso vínculo afetivo com o Zero. Antes, sempre vale lembrar que a não-publicação de matérias é fato corriqueiro no jornalismo. Há mais no mundo do que cabe nas páginas dos jornais.

    Achei equivocada a decisão de não publicar a entrevista, mas respeito os editores por assumi-la e a postura democrática dos professores por acatá-la. A independência editorial do Zero, com seus erros e acertos, é um patrimônio valioso a preservar.

    Li o copião e discordo da avaliação de que o material “tem problemas seriíssimos, de difícil solução”. Tem problemas, sim, mas é publicável com soluções bem à mão, a começar pela tesoura dos editores e por uma breve pesquisa de apoio. Seria possível valorizar a iniciativa da repórter como ponto de partida para uma edição enxuta e diversificada, com intertítulos, retrancas sobre o “new journalism”, trechos de reportagens clássicas, links etc. Tudo isso puxado por um título como, por exemplo, “Três perguntas para Gay Talese” (não se trata de tietagem, mas o que ele diz se confunde com a importância do que ele é).

    A suposição de que o material interessaria apenas a um décimo dos leitores – os jornalistas ou estudantes de jornalismo – é questionável, pois Talese aborda temas que vão além do nosso universo profissional. O enfoque “sociológico” de suas reportagens apresenta muitos pontos de interesse. Aliás, suas obras são vendidas para diversos segmentos de público.

    Você classifica duas perguntas como “clichês”, mas eu as considero pertinentes, pois provocaram boas respostas. Os conselhos dele aos estudantes de jornalismo – ser cético e usar mais tempo para fazer bem feito – são preciosos no atual contexto de jornalismo apressado, declaratório e superficial que se faz hoje. Para mim isso está longe de ser banalidade e já sustentaria muitas reflexões.

    Enfim, acho que faltou ousadia ao grupo, por ter avaliado como produto final não publicável o que poderia ser um ponto de partida para, no mínimo, uma bela página. Ressalvo que minha análise é de observador externo. Eu não estava no calor do baixamento nem sei da pressão do tempo e de outros fatores que vocês tiveram que enfrentar.

    De qualquer forma, os fãs de Gay Talese não ficaram no prejuízo, pois podem encontrar o material na internet. Acho muito legal que o Zero continue provocando polêmicas, na boa e velha tradição que já tem três décadas. Sinal de que está cumprindo o seu papel pedagógico. Aproveito pra dar os parabéns a você e ao Samuca por estarem à frente do projeto. É um privilégio pros alunos.

    Abraços, Dauro

  13. Pingback: De Olho na Capital | Much ado about nothing!
  14. Pedro Santos

    Como leitor há tempos do blog, não posso me furtar em fazer um comentário sobre um texto que julgo infeliz. Primeiro que não existe “a versão dos editores”, ou não deveria existir. O comentário em questão foi feito pelo ombudsman do jornal, que é contratado justamente para ser uma voz crítica ao veículo de comunicação. Agora, imaginem se todos os editores de jornais começassem a dar “a sua versão” sobre o trabalho do ombudsman. O Zero abre um precedente perigoso nesse setor que, espero, não seja seguido por outros jornais.

    Sem entrar no mérito de conteúdo sobre a entrevista, a discussão, como deixa entrever o texto do post, varia entre os egos dos professores do curso. É no mínimo leviano – para não dizer irresponsável e incoerente – o ataque gratuito e desnecessário à jornalista em questão. A estudante que, saindo do lugar comum, teve a idéia e ousadia de falar com uma personalidade como Gay Talese, deveria ver sua conduta valorizada. Partindo de professores, a acusação de “a entrevista tem graves problemas de qualidades jornalísticas”, me parece uma estupidez sem cabimento. A corda arrebenta para o lado mais fraco em uma crítica à estudante que, jornalista nata, viu o que outros não viram, e agora é injustamente envolvida em uma briga de egos de professores-editores que deveriam preservar seus repórteres e os estudantes do curso. Os eventuais “equívocos jornalísticos” da entrevista, se é que existem, deveriam ser tratados individualmente, em âmbito interno e profissional.

    Por se tratar de professores, a situação fica mais constrangedora. O ataque desmesurado em um blog de ampla divulgação, ligado a um portal do nível do Observatório da Imprensa, só demonstra uma coisa: covardia. O que os docentes têm a perder é muito menos do que a jornalista já perdeu, atacada por professores que, em outras circunstâncias nas cadeiras do curso de Jornalismo, ressaltam justamente a necessidade de ousar, sair do lugar comum e exercitar a criatividade jornalística sempre que possível.

    As reiteradas críticas ao texto da jornalista revelam, senão falta de ética dos professores, um profundo desrespeito à profissão. Como se não bastasse, o professor Samuel Lima segue no ataque covarde nos comentários subsequentes ao post em uma posição que, partindo de um membro de um dos maiores cursos de Jornalismo do país, é extremamente desanimadora.

    A sorte do jornalismo é que muitas coisas podem ser corrigidas em uma errata na edição seguinte. Desde que a arrogância não prevaleça, é claro. Em tempo, os conselhos de Talese aos estudantes deveriam ser aplicados também a todos os editores. De todas as partes, há muito o que aprender.

  15. jurandir amargo

    Pelo caminhar das discussões, parece que Zero está diante de uma bela pauta para a sua próxima edição.

  16. Carlito Costa

    Quem disse que Gay Talese – ou Tom Wolfe, por exemplo – interessa só a jornalistas? Discordo. Talese é um escritor, um dos grandes da segunda metade do século 20. E mesmo quando ele fala de jornalismo, quem disse que não há interesse público ali? Quantas pessoas consomem mídia e são afetadas pela prática jornalística? O próprio Talese dá exemplos. Se os jornalistas americanos preservassem o ceticismo de outrora, evitando ceder a patriotadas, a história da Guerra do Iraque poderia ter sido diferente?

    Parece-me claro que os editores erraram a mão – e feio. E o incrível é que, dado o rumo da discussão, esse erro talvez tenha sido o menor.

    Editor de jornal não responde a ombudsman. Editor de jornal não achincalha repórter em público – ainda mais quando traz algo novo. E dizer que ela não é do Zero, faça-me o favor. E jornal-laboratório que não quer discutir jornalismo? Sei lá, esquisito.

    Parabéns à Marília.

  17. Samuel Lima

    Originalmente, ombusdman é o de “advogado do leitor”. Conviver com a crítica pública exige serenidade e alto senso democrático. Talvez por isso só dois jornais comerciais, no país, tenham essa figura: O Povo (Fortaleza) e Folha de S. Paulo; no meio universitário, apenas o Campus (UnB), há tempos, e agora o ZERO – neste semestre. É comum a jornalista Susana Singer (Folha) criticar a cobertura daquele diário e dar espaço às considerações de editores e secretaria da Redação.
    O jornal laboratório do curso da UFSC circula, desde a última sexta (02/12) com a íntegra da coluna do nosso ombusdman, prof. Ricardo Barreto, criticando a não publicação da entrevista com Gay Talese. Os comentaristas que aqui participam do debate não encontrarão nenhuma letra em contraponto naquele espaço. Trata-se do respeito absoluto à autonomia que a função requer.
    Duas coisas me preocupam profundamente:
    1) Não é papel do ombusdman pressionar editores e redação do ZERO para que publiquem material oferecido por ele, resultado de um exercício específico de uma disciplina sua – por mais brilhante que fosse o trabalho (ponto que discordamos);
    2) Nenhuma experiência de jornal laboratório pode funcionar bem sem plena autonomia político-pedagógica. Isso é uma conquista de algumas gerações de alunos e professores do curso da qual não podemos abrir mão. Fomos, e ainda estamos, submetidos a um “exercício de autoridade” por um colega que tem inegáveis méritos e contribuição fundamental em 15 dos 30 anos de existência do ZERO, mas extrapolou em sua função de ombusdman. Já pensou situação similar com pressão política vinda da reitoria da UFSC?
    Por último, retiro-me desse debate porque o tom dos xingamentos chegou ao meu limite. Devolvo, com toda delicadeza, a quem de direito aqui assinado, cada um dos adjetivos com os quais fui brindado. Nossa escolha, como editores do ZERO, é passível de crítica, sem a menor dúvida. Já nossos atributos pessoais (virtudes e defeitos) não estão em julgamento. Saravá!

  18. Pingback: Editores da Médium recusam entrevista com Hunter S. Thompson | Laranjas
  19. Fê Friedrich

    Uma das lições mais importantes que aprendi como aluna que fez o Zero foi que às vezes precisamos enxergar além do óbvio. E o óbvio, no caso em questão, é tratar a entrevista da aluna Marília como algo limitado.

    Quantas declarações pequenas foram feitas que mudaram a história? São necessárias vinte boas perguntas para uma matéria ser publicada? Me desculpem, mas conto nas mãos as entrevistas do Zero que realmente tiveram toda essa qualidade pregada. E nunca vi as entrevistas (mesmo que falhas) tendo essa exposição pública, com uma carta dos editores condenando a apuração de uma repórter que nem do Zero é.

    Já que a entrevista não satisfez os editores, por que um repórter do Zero não foi escalado para ligar para o mesmo número, conversar com ele e refazer as perguntas? Já que a janela estava aberta e a entrevista incompleta, não é mais válido correr atrás do que simplesmente esquecer o caso? Uma matéria mais profunda sobre outros tópicos não poderia conter no final – apenas como um extra – alguma das declarações que a Marília conseguiu? Claramente faltou a visão geral de um editor, que percebesse tudo que poderia ser feito a partir do primeiro passo que a repórter tomou.

    E mais: Se fossemos partir do princípio que a entrevista atinge apenas 10% do publico, quantas pautas seriam derrubadas no Zero? Não leva uma pessoa conhecer muito a fundo o jornal para saber que durante todos os seus anos de história ele se posicionou também na hora de escolher a pauta. O Zero vai vender uma imparcialidade inexistente se começar a defender que não há a cara que quem faz o jornal no Zero.

    Fazer com que os tais leigos entrem no mundo de um grande escritor é incluir, não excluir. Ou então é mais indicado que o Zero trabalhe com pautas sobre eventos e agenda de festas na UFSC que vai satisfazer a muito mais pessoas. Aproveitem para publicar o calendário de almoços no RU. Afinal, não era o que mais a comunidade acessava no extinto Unaberta? Se for para pensar na maioria, pensem de verdade.

    O Zero me trouxe além de um prêmio nacional de jornalismo, uma experiência que eu não consigo avaliar. Espero que os editores tenham noção desse poder que vocês têm. Os meus tiveram. Antes de negar uma pauta, eles tentavam ao menos aproveitar o que eu tinha levado.

  20. Amanda Miranda

    Acho a discussão muito oportuna do ponto de vista da aprendizagem. Aí se percebe que, para além da análise do produto jornalístico, a disciplina está, sim, cumprindo sua função didática de laboratório. A partir de uma única situação, foi possível discutir o papel do ombudsman, os critérios de noticiabilidade, a relação editor/repórter e até mesmo a linha editorial de um determinado veículo.
    Devo dizer que, ao ler a coluna do Barreto, concordei com boa parte dos argumentos dele. Talese é um canône. Um grande escritor e jornalista de qualidades inquestionáveis. Exageros a parte, seria como um seminarista entrevistar o Papa.
    Talvez a história dela merecesse ser contada como “o dia em que Marília entrevistou Talese”. E, além do material com o escritor, poderiam fazer até um perfil curioso da entrevistadora, que ficou famosa nas redes sociais por conta da audácia e da conquista. Como editora, provavelmente eu escolheria tratar o assunto dessa forma: do mesmo jeito que trataria se, ao invés dela, fosse um estudante de Física entrevistando um Nobel.
    Quando eu fazia Radio 1, minha colega, Yula, entrevistou o Chico Buarque para um programa temático. Toda a turma foi ao delírio. O conteúdo foi publicado na Rádio Cultura, como todos os outros produzidos para a disciplina. Sem destaque ou mérito a mais, foi considerado uma conquista pessoal da impetuosa estudante.
    Lembrando desse episódio, consegui concordar, também, com os argumentos dos professores Rogério Christofoletti e Samuel Lima. E ouso dizer que uma entrevista com Talese talvez também não tivesse espaço em nossa última edição do Primeira Pauta, um caderno temático voltado a discutir os contrastes de Joinville. Mas com certeza teria espaço na Revi e em outros canais acadêmicos, como teve a entrevista em questão. Por que o Zero deveria publicá-lo, sem exclusividade, se o conteúdo já circulava nas redes sociais, no Cotidiano, na Agecom? Com certeza, não faltariam canais para divulgar os méritos da aluna e as palavras (sempre válidas) de Talese.
    Concordo que um produto jornalístico é feito de escolhas. E. no momento da escolha, assim como no mercado, pesa o que editor julga como correto. Se suas decisões são equivocadas ou não, sempre vai ser uma questão de opinião: há aqueles que vão condenar e os que vão aplaudir.
    Nesse ponto, vou me posicionar como professora, que foi como iniciei meu comentário: que bom que o Zero foi capaz de proporcionar uma discussão desse porte, que extrapolou os muros acadêmicos e está mobilizando defesas apaixonadas e racionais.
    Eu, sinceramente, ainda não formei minha opinião sobre o assunto. E espero que tenhamos a oportunidade de voltar a discuti-lo no Encontro dos Jornais Laboratórios. É um prato cheio que só uma disciplina tão complexa pode proporcionar.

  21. paulo henrique

    acho que estamos perdendo um ponto ainda anterior ao aspecto jornalístico: o pedagógico. Considerando que o material, como bem apontou o Dauro, era completamente aproveitável, não havia razão para não publicá-lo. A publicação seria o coroamento pelo esforço e ousadia da aluna, duas coisas que hoje faltam nas redações, sempre cheias de lugar comum e obviedades. Professores não podem, em hipótese alguma, espinafrar uma aluna em público para salvar a própria pele e justificar o injustificável. Outra coisa: o Zero é um jornal-laboratório, não é um jornal comercial. Portanto, o negócio é experimentar. (Não tenho absolutamente nada contra jornais comerciais). Outra coisa: parece-me que os alunos mandam muito pouco – ou quase nada – no Zero. Na minha época, a gente decidia, e o supervisor estava lá pra evitar um ou outro absurdo. Os “editores” do Zero eram os alunos que seguravam aquele rojão. E a gente publicava mesmo sem ganhar créditos para aquilo. Não existia essa história de Zero-disciplina. Participava quem realmente queria ser jornalista – sempre uma minoria. Sim, sim, eram outros tempos… Mas a questão é que o jornal parece estar sob comando de dois “editores”.

    • Tomás

      Mas o que houve nesse episódio foi muito mais “protecionismo” dos alunos matriculados na disciplina do que uma visão pelo bem da edição.

  22. Sandra

    Parabéns, Marília!
    Este assunto tá rendendo e tão cedo não vamos esquecer desta polêmica. O importante é que você está se destacando e mostrando a que veio.

  23. Thiago Neri

    Sobre os “problemas seríssimos” do ponto de vista da qualidade jornalística, os editores acabam omitindo que:

    1) A entrevista NÃO se resume a seis perguntas tão somente sobre o livro, o que eles apontam no próprio item 2, mas qualificando como clichês.

    2) O “pouco cuidado” na elaboração de perguntas permitiu saber o que um cara como o Talese lê para se manter no nível em que está, além de conselhos para futuros jornalistas, que pela experiência e inteligência do entrevistado viraram respostas profundas e abrangentes, que interessam a outros públicos.

    3) “O mais grave ainda, do ponto de vista da edição”, é que houve preguiça (não vejo outro termo) em editar. Resposta longa? Com um pouco de criatividade e pedagogia isso se resolve.

    “Em suma, o texto final revela uma entrevista mal preparada e igualmente mal conduzida. Ela pode servir a um trabalho escolar, mas não para ser publicado num jornal como o Zero.” Se o Zero ainda fosse um jornal-laboratório, orientado por professores e não ditado por editores, talvez pudesse. Parabéns à Marília pela ousadia.

  24. Talita

    O mais deprimente nem foi a escolha de não publicar a entrevista. A decisão foi da turma matriculada na disciplina que, assim como a Marília, está aprendendo. Inaceitável é o tratamento deselegante dispensando à estudante em público pelos professores. Desnecessário.

    O Barreto a expôs primeiro, sim, mas de maneira respeitosa, com educação. Justificativas para a exclusão do trabalho houve várias, mas não há aqui nenhum comentário dos editores/professores do ZERO sobre da mancada de se referirem ao trabalho da Marília o tempo todo como lixo, descartável. Desrespeito demais. Lamentável.

    À Marília, meus parabéns pela iniciativa.

  25. Talita Garcia (@talita_garcia)

    No mais, não li aqui nenhuma ofensa pessoal aos professores Rogério e Samuel além do fato de alguém tê-los chamado de covardes. Todos os outros comentários se limitaram a criticar seu trabalho como editores do ZERO, e, antes disso, como professores.

    O Samuel reclama do “tom dos xingamentos” (a meu ver não são xingamentos, são críticas ao trabalho de edição), mas não percebe a incoerência de ridicularizar o trabalho da Marília em público: “O pouco cuidado na elaboração de perguntas acabou contemplando clichês do tipo ‘quais suas preferências de leitura?’ ou ainda ‘o que o senhor recomendaria a um estudante de jornalismo?’. Altamente relevante, não?”. Só esse trecho já diz tudo.

    A exposição irresponsável da estudante nesse post por parte dos professores não é justificável nem pela “precariedade do resultado final” e muito menos pela entrevista não estar à altura do tal “patamar de qualidade” estabelecido por eles para o jornal.

    Altamente anti-ética a postura dos professores de colocar em questão, em público, a capacidade da estudante de conduzir uma entrevista. Altamente anti-ético esse tipo de comportamento para alguém que se digna a ser professor.

  26. Ex aluno

    Orgulho de ter me formado num curso com alunos competentes como a entrevistadora e vergonha de ter me formado num curso com pseudo-professores incompetentes como esses aí.

  27. William Robson

    Enfrentamos um problema nas escolas de comunicação de todo o país. Não envolve apenas os docentes envolvidos nesta história toda. Os professores, em sua maior parte bacharéis, não mantém contato com disciplinas ou cursos de iniciação à docência, que oferece noções sobre como desenvolver uma aula, expor teorias em níveis aceitáveis pelos alunos ou fazer uma avaliação (mais ou menos justa) do desenvolvimento dos estudantes. No caso, a aluna da UFSC que conseguiu uma entrevista com Gay Talese merecia não apenas a publicação do material (que poderia ser melhorado, adaptado de pingue-pongue para texto corrido, ou até mesmo reescrito – há inúmeros recursos de edição a serem aplicados), como também um destaque na capa, porque não é o caso apenas de Gay Talese ser famoso (isso já se encaixaria num critério de noticiabilidade), mas pela visível qualidade de uma futura jornalista perspicaz, com capacidade de buscar o diferente e de ter iniciativa (as redações são recheadas de jornalistas que apenas esperam as pautas cairem do céu). As decisões deste editores/professores são apenas subjetivas, como em qualquer outra decisão editorial, nao cabendo a desqualificação da estudante, nem do material apresentado (afinal, como eu disse, este material poderia ser maturado).
    Sou editor de um jornal em Mossoró (RN) há nove anos, pode não ser uma cidade muito conhecida, mas é a segunda do Estado (e editei outro por seis). Passei e passo por situações como estas diariamente de ter de fazer escolhas (na maioria de linha editorial) E me ofereço o veículo para a estudante de Jornalismo, caso queira publicar a entrevista de Gay Talese aqui (temos uma revista semanal DOMINGO, encartada em nosso jornal que seria ótimo para isso). Meu email é o williamrobson@folha.com.br

    Diante das explicações dos professores, gostaria de fazer algumas observações, com base no escrito dos professores:

    1) A entrevista se resume a seis perguntas tão somente sobre o livro “O Reino e Poder” (escrito originalmente em 1969). Sabemos que a obra do autor e sua importância histórica e jornalística vão muito além, especialmente por sua participação no chamado novo jornalismo;

    *É verdade que Gay Talese tem uma importância história e jornalística, mas dar ênfase a um aspecto desta história não torna o material da estudante menor. Sabemos que todo material de jornalismo nasce a partir de um ponto de vista e esse ponto sobre “O Reino e o Poder” é naturalmente interessante, porque trata de uma sobre um dos jornais mais influentes do mundo e que serve de referencia para outros (inclusive no Brasil, cujo jornalismo tem influência estadunidense). Qual o problema da entrevista se resumir a seis perguntas? Não há um padrão de tamanho de entrevista (pelo menos, eu não conheço). Essa tarefa cabe ao diagramador, que busque a melhor forma para esta entrevista se tornar “apresentável”.

    2) O pouco cuidado na elaboração de perguntas acabou contemplando clichês do tipo “quais suas preferências de leitura?” ou ainda “o que o senhor recomendaria a um estudante de jornalismo?”. Altamente relevante, não?

    Ideia de relevância é apenas uma questão de ponto de vista. O livro “Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr, não foi considerado relevante pela grande mídia, mas a denúncia de um policial cuja fundamentação nunca foi apresentada, sim… Quer dizer: a formação da ideia de “relevância” depende dos conceitos que você adquire ao longo da vida. Não existe um conceito de relevância em si mesmo.

    3) O mais grave ainda, do ponto de vista da edição (e condução da entrevista) é publicar uma resposta com 5.823 caracteres (de um total de 9.194). Ou seja, quase 60% do material se esgota aí;

    É para isso que servem os editores, professores. É adaptar a melhor forma de como esta entrevista deve ser publicada. Se vocês percebessem que a entrevista em pingue-pongue não ficaria apropriada, buscasse outro meio em negociação e reuniões com a autora da entrevista (afinal, ela é uma estudante).

    Em suma, o texto final revela uma entrevista mal preparada e igualmente mal conduzida. Ela pode servir a um trabalho escolar, mas não para ser publicado num jornal como o Zero. Estamos, de fato, diante de um caso no qual o entrevistado se impõe como conteúdo e notícia. Jornalismo não combina com tietagem, na nossa modesta opinião.

    Uma sentença estritamente pessoal, sem embasamento. Na maioria esmagadora dos casos, o entrevistado é o fator principal da entrevista Ou como os editores escolhem seus entrevistados. Quanto esta parte de tietagem: vocês têm alguma coisa contra Gay Talese ou contra a estudante?

    Esta é a minha contribuição com o tema…

  28. William Robson

    Enfrentamos um problema nas escolas de comunicação de todo o país. Não envolve apenas os docentes envolvidos nesta história toda. Os professores, em sua maior parte bacharéis, não mantêm contato com disciplinas ou cursos de iniciação à docência, que oferecem noções sobre como desenvolver uma aula, expor teorias em níveis aceitáveis pelos alunos ou fazer uma avaliação (mais ou menos justa) do desenvolvimento dos estudantes. No caso, a aluna da UFSC que conseguiu uma entrevista com Gay Talese merecia não apenas a publicação do material (que poderia ser melhorado, adaptado de pingue-pongue para texto corrido, ou até mesmo reescrito – há inúmeros recursos de edição a serem aplicados), como também um destaque na capa, porque não é o caso apenas de Gay Talese ser famoso (isso já se encaixaria num critério de noticiabilidade), mas pela visível qualidade de uma futura jornalista perspicaz, com capacidade de buscar o diferente e de ter iniciativa (as redações são recheadas de jornalistas que apenas esperam as pautas cairem do céu). As decisões deste editores/professores são apenas subjetivas, como em qualquer outra decisão editorial, nao cabendo a desqualificação da estudante, nem do material apresentado (afinal, como eu disse, este material poderia ser maturado).
    Sou editor de um jornal em Mossoró (RN) há nove anos, pode não ser uma cidade muito conhecida, mas é a segunda do Estado (e editei outro por seis). Passei e passo por situações como estas diariamente de ter de fazer escolhas (na maioria de linha editorial) Mas, ofereço o veículo para a estudante de Jornalismo, caso queira publicar a entrevista de Gay Talese aqui (temos uma revista semanal DOMINGO, encartada em nosso jornal que seria ótimo para isso). Meu email é o williamrobson@folha.com.br

    Diante das explicações dos professores, gostaria de fazer algumas observações:

    1) A entrevista se resume a seis perguntas tão somente sobre o livro “O Reino e Poder” (escrito originalmente em 1969). Sabemos que a obra do autor e sua importância histórica e jornalística vão muito além, especialmente por sua participação no chamado novo jornalismo;

    *É verdade que Gay Talese tem uma importância história e jornalística, mas dar ênfase a um aspecto desta história não torna o material da estudante menor. Sabemos que todo material de jornalismo nasce a partir de um ponto de vista e esse ponto sobre “O Reino e o Poder” é naturalmente interessante, porque trata de um dos jornais mais influentes do mundo e que serve de referencia para outros (inclusive no Brasil, cujo jornalismo tem influência estadunidense). Qual o problema da entrevista se resumir a seis perguntas? Não há um padrão de tamanho de entrevista (pelo menos, eu não conheço). Essa tarefa cabe ao diagramador, cuja tarefa é encontrar a melhor forma para esta entrevista se tornar “apresentável”.

    2) O pouco cuidado na elaboração de perguntas acabou contemplando clichês do tipo “quais suas preferências de leitura?” ou ainda “o que o senhor recomendaria a um estudante de jornalismo?”. Altamente relevante, não?

    Ideia de relevância é apenas uma questão de ponto de vista. O livro “Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr, não foi considerado relevante pela grande mídia, mas a denúncia de um policial cuja fundamentação nunca foi apresentada, sim… Quer dizer: a formação da ideia de “relevância” depende dos conceitos que você adquire ao longo da vida. Não existe um conceito de relevância em si mesmo.

    3) O mais grave ainda, do ponto de vista da edição (e condução da entrevista) é publicar uma resposta com 5.823 caracteres (de um total de 9.194). Ou seja, quase 60% do material se esgota aí;

    É para isso que servem os editores, professores! Para adaptar a melhor forma de como esta entrevista deve ser publicada. Se vocês percebessem que a entrevista em pingue-pongue não ficaria apropriada, buscasse outro meio em negociação e reuniões com a autora da entrevista (afinal, ela é uma estudante).

    Em suma, o texto final revela uma entrevista mal preparada e igualmente mal conduzida. Ela pode servir a um trabalho escolar, mas não para ser publicado num jornal como o Zero. Estamos, de fato, diante de um caso no qual o entrevistado se impõe como conteúdo e notícia. Jornalismo não combina com tietagem, na nossa modesta opinião.

    Uma sentença estritamente pessoal, sem embasamento. Na maioria esmagadora dos casos, o entrevistado é o fator principal da entrevista. Ou como os editores escolhem seus entrevistados? Quanto esta parte de tietagem: vocês têm alguma coisa contra Gay Talese ou contra a estudante?

    Esta é a minha contribuição com o tema…

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