Privacidade de estudantes: brevíssima reflexão

Ouvi outro dia de um estudante de ensino fundamental, quase ensino médio, uma queixa: ele e seus coleguinhas não tinham gostado nada do comportamento de um professor que anunciou em alto e bom som quem havia ficado de recuperação na matéria. Isso não se faz!, comentou o estudante.

Perguntei se ele tinha acesso às notas dos colegas. Não, só à minha. Mas a gente compartilha a senha dos amigos mais próximos. Então, todos sabem das notas de todos? Não, só dos mais próximos.

O episódio corriqueiro me fez pensar em expectativas de privacidade. Mesmo os mais jovens alimentam algumas condições de autopreservação. Abominam quando se sentem perigosamente expostos (pelo professor tagarela, por exemplo), mas até franqueiam e comutam dados que consideram estratégicos ou sensíveis com quem confiam (senhas e notas passam de mão em mão entre os da panelinha). A isso se chama de expectativas de privacidade, isto é, projeções de quão seguras ou ocultas, incógnitas ou resguardadas se sentem as pessoas. Condições que ajudam a conformar algum perímetro de confiabilidade e mobilidade nos relacionamentos humanos.

Evidentemente, penso que essas expectativas de privacidade não são inatas. Mas noto que elas já estão em pleno funcionamento em adolescentes, por exemplo. Teriam sido acionadas pelos pais ou alguém mais velho? Ou foram simplesmente acionadas por motivações e contextos sociais maleáveis que ajudam a definir noções de público e privado?

O episódio me fez também lembrar de um ótimo texto de dannah boyd em que ela, sagazmente, distingue as relações que jovens e adultos têm com a privacidade. Enquanto os mais velhos se apegam à privacidade (de um modo geral) pois temem perder algo – a intimidade, por exemplo -, os mais jovens se relacionam com a privacidade não a partir do que perdem, mas do que ganham. Essa diferença de comportamento poderia ajudar a explicar porque adolescentes se expõem mais nas redes sociais em textos, fotos e vídeos… Com esta aparente vulnerabilidade podem aumentar sua popularidade na escola, seu capital social junto ao grupo de amigos, enfim…

Novamente, me chama a atenção o fato de que essas expectativas de privacidade são importantes também para adolescentes e mais jovens. E afasta mais uma vez a sentença simplista de que a privacidade já morreu…

Olha, quanto mais eu estudo esse tema da privacidade, mais ele se me descortina maravilhoso!

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