hackerismo e jornalismo

A revista Comunicação & Sociedade acaba de lançar nova edição, onde publica uma resenha minha sobre “Hackear el periodismo”, livro do jornalista argentino Pablo Mancini.

A obra é instigante, cheia de insights e marcadamente preocupada com a busca de novos papeis para o jornalismo. Vale a leitura.

Reproduzo a resenha, mas a edição completa da revista pode ser acessada aqui.

Hackerismo e Jornalismo

Os meios de comunicação ajudam a cristalizar um equívoco quando usam o termo “hacker” para designar vândalos cibernéticos e criminosos digitais que violam sistemas, roubam dados, picham sites. Até veículos especializados cometem esse deslize, e isso ficou evidente mais uma vez com a onda de ataques a páginas eletrônicas do governo brasileiro em junho passado: as invasões foram atribuídas a “hackers”.

Teria sido uma derrapada não fosse o fato de que há quase três décadas um livro reposicionava os hackers como protagonistas na história da informática. Em 1984, Steven Levy já os chamava de “herois da revolução na computação”. Compreender esses personagens significa não apenas evitar jogá-los na vala comum dos marginais, mas entender aspectos importantes da lógica que orientou a busca pela excelência tecnológica e a emergência de uma cultura de colaboração no trabalho e de compartilhamento de arquivos e conhecimentos.

Em “Hackear el periodismo: manual de laboratório”, o jornalista argentino Pablo Mancini se vale do conceito por trás desses personagens para discutir os limites atuais para o jornalismo numa nova ecologia comunicacional. Gerente de Serviços Digitais do Clarín Global, Mancini está atento aos movimentos do setor para buscar a sustentabilidade de projetos midiáticos e o redesenho das práticas informativas. As ilustrações a que recorre são exemplares, e o livro é recentíssimo – chegou ao público em abril de 2011.

Evocando Levy (1984) e Himanen (2002), Mancini se apressa a aliviar a carga semântica negativa sobre o termo. Com os autores que sistematizaram uma ética hacker, lembra que existem hackers em todas as profissões e não apenas na computação, e o que os define é uma predisposição de buscar a excelência com métodos pouco ortodoxos, inexplorados e inovadores. São personagens que se apoiam em valores como paixão, liberdade, consciência social, verdade e integridade; e se orientam para o livre acesso à informação e ao conhecimento. Portanto, compartilham o que sabem, buscam soluções para sua comunidade, facilitam o acesso e contornam dificuldades. Hackers são naturalmente curiosos e criativos, e perseguem o aperfeiçoamento de práticas, procedimentos e sistemas. É neste aspecto que Pablo Mancini aproxima hackerismo de jornalismo. Essa indústria está atravessando um período intenso de transformações que ensejam soluções, reconfigurações e reprogramações. Daí que necessita de “profissionais com uma visão estratégica que estejam à altura do mercado: hackers que se apropriem dos desafios e possam desenhar as soluções que os meios e a profissão precisam para se reinventar” (2011: p.16).

Para Mancini, hackear o jornalismo é trabalhar para aperfeiçoá-lo tecnicamente, é conjugar esforços para apontar saídas para sua manutenção como negócio viável, é operar para melhorá-lo como prática socialmente útil.

O autor propõe quatro portas para se entrar no núcleo funcional e hackear o jornalismo: tempo, audiência, valor e organização. Mancini despe-se de pretensões totalizantes, advertindo que não se trata de lei ou teoria, mas de uma proposta de análise e ação. Para ele, esses quatro aspectos são chaves das mudanças nas fábricas de notícias. Podem ser analisados separadamente, mas articulá-los em pares ou em quadratura auxilia uma visão mais ampla das transformações sem precedentes sofridas por essa indústria.

O diagnóstico não parece exagerado, afinal, como descreve o autor o tempo de consumo das informações já não é mais o mesmo; a audiência tem novas práticas junto aos meios; o valor das informações é também agregado de fora das redações; e os fluxos corporativos estão sendo reformulados. Com isso, se todas as coordenadas foram alteradas, o jornalismo também precisa de um novo endereço.

Com uma superoferta de informações, os meios de comunicação acabaram dilatando o período de consumo de seus produtos. Se antes a audiência se encaixava em janelas de tempo – o horário nobre da televisão, as horas da manhã para a leitura dos jornais… -, agora, o público não fica mais confinado nesses intervalos. A audiência não está mais em nenhum lugar porque ela flui, atravessa os meios, é turista dos suportes. Aliás, Mancini critica a obsessão das empresas pelos suportes, o que as estaria arruinando. “Se o conteúdo é transmídia, os meios serão pós-suporte” (op.cit.: p.34). Por isso que “o tempo da audiência está hackeando a incapacidade e a resistência à mudança que reina e governa a maioria das organizações jornalísticas” (op.cit.: p.24). A saída, segundo Mancini, é produzir brevidades, informações em pílulas, sob o mantra do “menos é mais”, de forma a capturar as fluídas audiências.

Aliás, os públicos vêm dotados de outras potencialidades. Em tempos como os nossos, as audiências são agentes também da distribuição dos conteúdos dos meios, algo que antes era prerrogativa exclusiva dos jornalistas e veículos. Os amadores2 tomam a Bastilha, geram material, intrometem-se no processo produtivo dos meios de comunicação, clamam por mais espaço de participação/interação. Para Mancini, não se trata de falar de prosumers, de jornalismo cidadão ou seus arredores. Está nascendo um novo animal midiático, capaz de “mudar a cadeia alimentar de uma ecologia até então endogâmica e autorreferencial” (op.cit.: p.41). A audiência tem o controle do tempo agora, é “a medula e o motor da distribuição de conteúdos”, o que causa tremores nas redações. Sistemas de reputação e recomendação online e audiências desdobradas em algoritmos assumem papeis cada vez mais determinantes na equação comunicativa.

Se a audiência não é mais um rebanho, compara Mancini, os meios também não podem se comportar como cardumes. Buscar se destacar das muitas opções é essencial para sobreviver. A homogeneidade gera a invisibilidade. A superabundância das informações acaba esvaziando parte do valor das próprias informações, seguindo uma lei econômica. O valor não vem mais apenas dela mesma, mas de outras fontes. Está em outra parte. Outro fator problematizador é que os produtos e serviços jornalísticos não são mais apenas lidos, vistos ou ouvidos. São também utilizados, pontua Mancini, trazendo à tona uma dimensão ainda pouco avaliada no setor: o valor de uso da informação.

Se o tempo, a audiência e o valor já não são mais os mesmos, a empresa jornalística também não pode se manter como está, sentencia o autor. É preciso reorganizar-se, o que não se traduz em reposicionar o mobiliário nas redações. Estão em jogo a eficiência das equipes e o valor do que elas produzem. No debate sobre integração de redações, planejamento versus experimentação, ganham mais força os movimentos para a inovação e o redesenho do jornalismo. “Nunca esteve tão claro que o capital dos meios são sua marca e seus recursos humanos (…) O desafio é extremo: depois de décadas otimizando modelos de negócios, agora temos que pensar os modelos produtivos” (op.cit.: p. 109). Mancini se pergunta se é possível produzir novos produtos em velhas fábricas. A saída não é única, e os caminhos apontados pelo autor vão desde a curadoria de conteúdos ao modus operandi da indústria dos games, da prática do remix – ao estilo dos Djs – à combinação bem equilibrada de habilidades e atitudes individuais e coletivas. Interessa é rearranjar a maneira de trabalhar o jornalismo, atuar para romper com modelos engessantes.

À guisa de conclusão, Mancini cita três iniciativas que estão hackeando o jornalismo: o WikiLeaks – site de vazamentos informacionais de governos e corporações -, o Huffington Post – portal onde a audiência é crucial para a criação do valor da informação – e o Newser – que oferece um redesenho da notícia, tendo a brevidade como valor agregado sobre o conteúdo. O que têm em comum esses exemplos? Têm funcionalidades disruptivas, rompem padrões e ajudam a reprogramar o jornalismo. Seu DNA está contaminado por fluidez, flexibilidade e originalidade, elementos raros na espécie.

Então, Pablo Mancini tem todas as respostas? Claro que não. Aliás, seu “Hackear el periodismo” pode frustrar o leitor ao final, já que deixa uma grande quantidade de perguntas sem respostas. As lacunas podem ser atribuídas à despretensão, à impotência ou à impossibilidade de resolvê-las agora. Mancini não oferece um necrológio da crise do jornalismo, mas um manual de laboratório. Parece pouco, mas propor que se mexa os braços é um bom começo para não afundar.

Referências bibliográficas

HIMANEN, Pekka. La ética del hacker y el espíritu de la era da la información. Barcelona: Destino, 2002

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008

KEEN, Andrew. O culto ao amador. Rio de Janeiro: Zahar, 2009

LEVY, Steven. Hackers, heroes of the computer revolution. New York: Delta, 1984

MANCINI, Pablo. Hackear el periodismo. Buenos Aires: La Crujía/Futuribles, 2011

nova edição da revista estudos em jornalismo e mídia

Acaba de chegar à rede mais um número da revista Estudos em Jornalismo e Mídia, do Posjor/UFSC.
A edição tem um especial sobre narrativas no jornalismo.

Confira o sumário e acesse a publicação:

Editorial – Permanência e atualidade da contação de histórias

Núcleo Temático

Bom jornalismo, histórias bem contadas
Daisi Irmgard Vogel

Mídias precursoras: transição e transgressão: atualidade da leitura de dois depoimentos do jornalista Marcus Faerman
Terezinha Fátima Tagé Dias Fernandes

Narrativas convergentes: ficção e realidade na prosa de Nelson Rodrigues
Esdra Marchezan Sales

O discurso jornalístico autorreferencial como estratégia de construção da ‘imagem de si’
Daiane Bertasso Ribeiro, Maria Ivete Trevisan Fossá

Mídia, identidade e território: as cidades projetadas pelos formatos noticiosos no telejornalismo local
Jhonatan Alves Pereira Mata, Iluska Maria da Silva Coutinho

Narrando Escândalos: Eleições, Campo Jornalístico e Drama Político
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho

“Livros de repórter”, saberes de entremeio: relatos jornalísticos sobre a cobertura de conflitos
Angela Zamin

Sob a superfície dos fatos, a complexidade de seu significado: o desafio da narrativa no Jornalismo Cultural
José Salvador Faro

Conviver, sentir, narrar: personagens documentais e jornalísticos
Alexandre Zarate Maciel

Temas Livres

Inovação, renovação e ambidestria: chaves para a aprendizagem do jornalismo no século XXI
Carlos Eduardo Cortés

Sobre o fluxo informacional em tempos de Internet: estudo dos contextos comunicacionais
Guilherme Haas

Transparência na apuração em blogues jornalísticos
Leonardo Feltrin Foletto

Jornalismo e direitos infantis no Brasil e em Portugal: privacidade, estigmatização, e participação de crianças e adolescentes nos jornais O Globo e Público
Lidia Soraya Barreto Marôpo

Jornalismo Popular no Brasil e na Alemanha: as capas do BILD Hamburg e do Diário Gaúcho
Ana Cecília Bisso Nunes

Nas fronteiras do olhar
Aglair Bernardo, Gustavo Bonfiglioli

John Stuart Mill e as sociedades da informação: Liberdade de imprensa, Estado e opinião pública
Alexandre Antônio Nervo

Resenhas

A narrativa jornalística: elementos para uma teoria do acontecimento
Cristiano Anunciação

5º encontro de jornais laboratórios é amanhã

 O curso de Jornalismo da UFSC promove amanhã, 9 de dezembro, a quinta edição do encontro de jornais laboratórios catarinenses. O evento, que já passou por outras escolas do estado, é retomado em Florianópolis com seu propósito original: reunir professores, estudantes, profissionais e técnicos para discutir a realidade pedagógica local para o ensino de jornalismo laboratorial.

O encontro acontece na Sala Aroeira, do Centro de Cultura e Eventos da UFSC, a partir das 9 horas. Pela manhã, uma mesa reúne representantes dos jornais laboratórios para trocar experiências de ensino e extensão, dificuldades e dilemas. À tarde, outra mesa dá prosseguimento aos debates.

Já confirmaram presença os cursos da Unisul (Palhoça), Unisul (Tubarão), Ibes/Sociesc (Blumenau), Univali (Itajaí), Faculdade SATC (Criciúma), Unochapecó (Chapecó), UFSC (Florianópolis), Faculdade Estácio de Sá (São José) e Ielusc (Joinville).

A organização está a cargo dos professor Samuel Lima e Rogério Christofoletti, com apoio dos alunos do curso de Jornalismo da UFSC.

Veja a programação:

9h: Abertura
Memória do evento
Profª Raquel Wandelli (Unisul – Palhoça)

9h30: Mesa Nº 1 – Compartilhando Experiências I
. Zero (UFSC, Florianópolis) – Prof. Rogério Christofoletti (mediador)
. Contato (Fac. Estácio de Sá, São José) – Prof. Billy Culleton
. Ênfase (Fac. SATC, Criciúma) – Profª. Marli Vitali
. Extra (Unisul, Tubarão) – Profª Cilene Macedo

12h às 14h: Almoço

14h: Mesa Nº 2 – Compartilhando Experiências II
. Fato & Versão (Unisul, Palhoça) – Profª Raquel Wandelli (mediadora)
. Primeira Pauta (Ielusc, Joinville) – Profª Amanda Miranda
. Cobaia (Univali, Itajaí) – Prof. Sandro Galarça
. Passe a Folha (Unochapecó, Chapecó) – Prof. Francesco Silva
. O Quinto (Ibes/Sociesc, Blumenau) – Prof. Fabrício Wolff

17h: Encerramento
Definição da sede do 6º Encontro e encaminhamentos gerais
Prof. Samuel Lima (coordenação)

O evento terá cobertura pelo Twitter: @zeroufsc

jornalismo cidadão, em defesa

O jornalista Marcelo Barcelos defende hoje no Mestrado em Jornalismo da UFSC a dissertação “Jornalismo cidadão: profissionalidade e amadorismo nos jornais do Grupo RBS em Santa Catarina”. A banca é pública e acontece a partir das 14 horas na sala de videoconferência do CCE. A comissão examinadora do trabalho é formada pelas professoras Gislene Silva e Maria José Baldessar, além de mim, que atuei como orientador.

A transmissão online da defesa você pode conferir aqui.

Um resumo do trabalho:

O jornalista não está mais sozinho para apurar os acontecimentos, escrever as notícias e distribuí-las. Com a revolução tecnológica que reconfigura não só suas práticas, mas também a própria função social, ao lado do profissional, está o amador, o cidadão comum, aquele a quem se deu, por muito tempo, o nome de público/receptor. Hoje, o leitor pode ser um produtor de conteúdo noticioso e, para isso, apropria-se de competências antes exclusivas dos repórteres, como apurar, narrar fatos inéditos e produzir o noticiário, em um fenômeno conceituado “jornalismo cidadão”. É tentando entender os impactos provocados pela chegada desse personagem no jornal impresso e no âmago da cultura jornalística que este trabalho mergulha. Parte-se do princípio que legitimou a produção de conteúdo amador independente até o instante em que as mídias tradicionais passaram a adotá-la, elevando o cidadão à condição de leitor-repórter. Para compreender esse recente paradigma, analisamos um corpus de 27 edições – durante uma semana completa dos quatro jornais do Grupo RBS em Santa Catarina: Hora de Santa Catarina, Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina e A Notícia. A investigação, utilizando o método exploratório na análise de textos e fotografias, caracterizou a produção amadora publicada conforme os seguintes critérios jornalísticos: a) autoria; b) foco narrativo; c) atualidade; d) interesse público e) gênero f) hard news e g) soft news. A análise ainda inclui entrevistas presenciais com jornalistas das quatro redações, à procura de traços dessa nova forma de relacionamento com o público e das tensões provocadas em sua profissionalidade. Rodeado de enunciados intencionais que o convocam à colaboração, o público atende a um chamado e produz conteúdo de natureza informativa; muito desse conteúdo, no entanto, é carregado de um caráter pessoal. As produções aparecem em quase todas as editorias, ora na voz do cidadão, ora diluída na edição do jornalista, que a complementa. É possível identificar um elevado grau de dependência no qual o jornalista demonstra a necessidade do leitor para “fechar o jornal”. No outro lado do balcão, os jornalistas ainda se moldam à partilha, enquanto defendem seu conhecimento específico, conquistado entre a prática e a formação acadêmica, para tratar – com ética, veracidade e equilíbrio – o que vem de fora da redação, sob o risco da abertura de espaço à imprecisão e à narrativa falseada. Os jornalistas reconhecem, no entanto, a necessidade cada vez maior chamar o leitor à produção em uma “Coautoria Vigiada” e admitem terem aberto mão de algumas tarefas até então exclusivas.

a crítica da crítica de mídia no brasil

O Mídia & Política acaba de publicar um número especial em que junta artigos sobre a crítica de mídia no país e o futuro do jornalismo. O número tem ótimos artigos e merece ser conferido.
Veja o sumário e vá direto à fonte:

A CRÍTICA DA CRÍTICA DA MÍDIA NO BRASIL

Depoimento – Luiz Martins
“É difícil apresentar boas práticas de acerto no panorama da mídia atual”
Paulo Figueiredo, Fábio Pereira e Camilla Braga
A mesma mídia que veicula uma campanha educativa, mostra, na novela, condutas vis; faz campanha de educação no trânsito para, em seguida, exibir comerciais de automóvel mostrando a velocidade como diferencial.

Jornalismo e crítica: informar ou opinar?
Thaïs de Mendonça Jorge
Se atualmente proliferam torres de vigilância – tanto quanto câmeras de segurança na via pública –, observatórios existem porque a sociedade mesma indicou a necessidade de um pan-óptico para ver o que acontece na mídia.

Periscópio dá oportunidade a estudantes
Anderson David Gomes dos Santos
O espaço destinado à crítica da mídia é disponibilizado por uma rádio educativa, a Rádio Unisinos 103.3 FM, emissora da Fundação Urbano Thiesen, ligada à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Observatório da imprensa, um velho-jovem
Adriana Domingues Garcia
OI estimula a sociedade midiatizada a refletir em relação aos modos de observação sobre o que a mídia produz e faz circular, podendo fazer com que os sujeitos mudem de postura durante a assimilação dos produtos noticiosos.

As novas mídias e sua influência na crítica
Rogério Christofoletti
A crítica não significa a prática da demolição e da ofensa, nem do descrédito e do cinismo, muito menos o desprezo do trabalho alheio e a soberba ilimitada. Deve ser vista como forma de ação, reflexão direcionada à melhoria de qualidade dos produtos.

O FUTURO DO JORNALISMO

Periodismo en peligro de extinción
Carlos Soria
Hay más de un motivo para sospechar que el periodismo es una profesión en peligro de extinción, como el oso panda, el lince o el gorila; o al menos, para pensar que el periodismo sufre una verdadera crisis de identidad.

Ainda guardando o portão?
Célia Maria Ladeira Mota              
O gatekeeper é tarefa em extinção no mundo inteiro. O processo se inverteu e o leitor, telespectador ou ouvinte se transformou em gatewatcher da informação.

Olhar o que não está diante dos olhos
Antonio S. Silva
Mais comunicação exige mais mediadores, profissionais que ofereçam esclarecimento e competência para olhar aquilo que não está diante dos olhos, mas que se esconde estrategicamente, atendendo a interesses políticos, econômicos e culturais.

RESENHA
 11 de Setembro
Chomsky e a imprensa: verdades inconvenientes

zero: a versão dos editores

Rogério Christofoletti e Samuel Lima

Jornalismo se faz a partir de escolhas, como em qualquer atividade humana. Nas redações, escolhe-se uma foto para ilustrar uma reportagem, descartando-se as demais; decide-se por um enfoque numa matéria e não por outros; toma-se decisões a todo o momento, das mais simples – o uso de uma palavra, por exemplo – às mais complexas – a definição do que sai numa edição e o que fica de fora. Selecionar é, então, da essência do jornalismo, até porque é uma função dos meios de informação oferecer explicações de fatos, o que em última análise significa dar sentido às coisas, contornos para a realidade.

Embora tenha se tornado um mantra na área, a famosa epígrafe do New York Times – “All the News That’s Fit to Print” – mostra-se impraticável. Quem faz jornalismo sabe que nem todas as notícias cabem, que nem tudo o que acontece é publicável ou interessa ao público. De modo concreto, a frase do jornal mais influente do mundo é slogan. Logo, pertence muito mais ao mundo do marketing do que do jornalismo. Repetimos: jornalismo se faz a partir de escolhas. E essas decisões não são tomadas apenas com base nas vontades dos editores, nos seus desejos secretos, nas suas manias. Há critérios por trás dessas escolhas. Critérios que se consagraram ao longo de décadas e que permitiram que o jornalismo se tornasse o que é hoje: novidade, atualidade, singularidade, interesse público, relevância social, proximidade, impacto…

Fazemos esta digressão para entrar num debate enviesado, e que, por isso, precisa contar com um lado que foi até então ignorado.

Em agosto passado, assumimos o jornal laboratório do curso de Jornalismo da UFSC, o Zero. A publicação está às vésperas de completar 30 anos, e decidimos fazer algumas reformas gráficas, editoriais e operacionais, entre elas a definição mais nítida do público a que serviríamos e a abertura para um diálogo mais horizontalizado com esses leitores por meio da crítica. Trocando em miúdos, o Zero se voltaria descaradamente para o público universitário – extrapolando o umbigo do próprio curso de Jornalismo e as fronteiras da UFSC – e teria um ombudsman, que passaria a apontar erros, falhas e acertos do jornal. Redistribuímos os conteúdos em novas editorias, afinamos o olhar para pautas que estivessem em maior sintonia com o nosso público e abrimos espaço na página 2 para um crítico especializado. Para a função, convidamos o professor Ricardo Barreto, que por quase 15 anos foi editor do Zero, conhecido também por sua verve, experiência e rigor.

Na edição de dezembro, o ombudsman critica o fato do Zero não publicar uma entrevista concedida pelo jornalista norte-americano Gay Talese a uma estudante da UFSC. O jornal teria “esnobado” o renomado escritor. Argumenta o ombudsman que sua função é “defender os interesses e direitos do leitor” para “receber informação atual, crível, ética e de qualidade”, e o jornal teria sonegado, escondido “material de vivo interesse para o nosso inegável público-alvo prioritário: estudantes e professores de Jornalismo assim como profissionais”. O ombudsman erra grosseiramente, já que esse não é o primeiro público do Zero. Com uma tiragem de 5 mil exemplares, pouco mais de 10% deles circulam entre os aspirantes à carreira, profissionais do mercado e cursos do tipo no país. A maioria, portanto, chega a universitários das mais diferentes carreiras, para quem pouco ou nada devem interessar os liames da profissão jornalística.

Na verdade, no episódio, é o ombudsman quem sonega a informação de que a entrevista em questão foi feita para uma disciplina dele e com a finalidade de ilustrar a leitura de um dos livros de Talese. A estudante-entrevistadora, de forma muito ousada e sagaz, ligou para a casa do jornalista e com ele conversou por alguns minutos, colhendo respostas para figurar num jornal-mural. Ao contrário do que diz o ombudsman, a entrevista não é “um diamante” e não traz “um inequívoco furo jornalístico”. Na verdade, a entrevista tem graves problemas de qualidade jornalística – que iremos apontar adiante, conforme se pode conferir na sua íntegra ou na versão publicada de forma reduzida no Cotidiano. Não há nenhuma revelação lá, embora seja louvável a audácia da estudante. Deveríamos publicar a entrevista apenas pelo fato de Gay Talese ser famoso ou célebre? Deveríamos publicar um material que interessaria apenas um décimo de nossos leitores?

De forma convicta, descartamos. Fomos racionais e sensatos, coerentes com a abrangência de nosso público e com um patamar de qualidade que estabelecemos para nossas edições. Não foi uma decisão “míope” ou “non sense”, assim como não guiamos nossas escolhas pela grife ou tietagem. A importância do entrevistado não garante a relevância ou qualidade da entrevista! E, nesse caso, a escolha das perguntas, focadas em única obra de Talese, sem sequer mencionar o new journalism, por exemplo, revela a precariedade do resultado final.

O ombudsman erra ainda quando afirma que “nosso primeiro objeto é o Jornalismo” e que “jornalistas, seguem sendo indispensáveis, especialmente na condição de entrevistados”. Não acreditamos que o jornalismo seja algo mais importante que outras tantas coisas; ele é uma forma de revelar, de registrar, de informar e de orientar o público. É um meio, uma oportunidade. E acreditamos que jornalistas são mais imprescindíveis na condição de perguntadores.

Mas o leitor pode se perguntar: se discordam do ombudsman, por que os editores do Zero publicaram a crítica que contestam? Porque acreditamos na função do crítico e num jornalismo mais democrático e horizontalizado. Por que os editores não responderam ao professor Barreto nas próprias páginas do jornal? Porque nos dispusemos a abrir um espaço para a crítica e não para a resposta às críticas. Se o fizéssemos agora, abriríamos um precedente indesejável. Mas o que motivou os editores a se contraporem agora? A reprodução da coluna do ombudsman em outros canais públicos, e a necessidade de desfazer mal entendidos.

Do ponto de vista da qualidade jornalística o material tem alguns problemas seriíssimos, de difícil solução, a saber:

1) A entrevista se resume a seis perguntas tão somente sobre o livro “O Reino e Poder” (escrito originalmente em 1969). Sabemos que a obra do autor e sua importância histórica e jornalística vão muito além, especialmente por sua participação no chamado novo jornalismo;

2) O pouco cuidado na elaboração de perguntas acabou contemplando clichês do tipo “quais suas preferências de leitura?” ou ainda “o que o senhor recomendaria a um estudante de jornalismo?”. Altamente relevante, não?

3) O mais grave ainda, do ponto de vista da edição (e condução da entrevista) é publicar uma resposta com 5.823 caracteres (de um total de 9.194). Ou seja, quase 60% do material se esgota aí;

Em suma, o texto final revela uma entrevista mal preparada e igualmente mal conduzida. Ela pode servir a um trabalho escolar, mas não para ser publicado num jornal como o Zero. Estamos, de fato, diante de um caso no qual o entrevistado se impõe como conteúdo e notícia. Jornalismo não combina com tietagem, na nossa modesta opinião.

O leitor pode ainda questionar: o Zero vai manter um ombudsman? Barreto continuará no posto? Sim, o jornal laboratório da UFSC quer continuar a experiência de abertura ao diálogo e ao exercício crítico, pois os olhares externos nos impulsionam a buscar o aperfeiçoamento. O professor Barreto só não segue na função se não quiser, se decidir nos esnobar…

5º encontro de jornais laboratórios de sc

O curso de Jornalismo da UFSC promove na próxima sexta, 9 de dezembro, a quinta edição do encontro de jornais laboratórios catarinenses. O evento, que já passou por outras escolas do estado, é retomado em Florianópolis com seu propósito original: reunir professores, estudantes, profissionais e técnicos para discutir a realidade pedagógica local para o ensino de jornalismo laboratorial.

O encontro acontece na Sala Aroeira, do Centro de Cultura e Eventos da UFSC, a partir das 9 horas. Pela manhã, uma mesa reúne representantes dos jornais laboratórios para trocar experiências de ensino e extensão, dificuldades e dilemas. À tarde, outra mesa dá prosseguimento aos debates.

Já confirmaram presença os cursos da Unisul (Palhoça), Unisul (Tubarão), Ibes/Sociesc (Blumenau), Univali (Itajaí), Faculdade SATC (Criciúma), Unochapecó (Chapecó), UFSC (Florianópolis) e Ielusc (Joinville).

A organização está a cargo dos professor Samuel Lima e Rogério Christofoletti, com apoio dos alunos do curso de Jornalismo da UFSC.

Inscrições e mais informações pelo e-mail: rogerio.christofoletti@uol.com.br

estudos em liberdade de informação

A ONG Artigo 19 lançou recentemente o primeiro de uma série de informes sobre o tema da liberdade de informação e de acesso a ela. Baixe aqui. (em português, em PDF, 40 páginas e arquivo com 560 Kb)

posjor promove jornada discente

O Mestrado em Jornalismo da UFSC (Posjor) realiza hoje e amanhã a sua 1ª Jornada Discente. O evento tem como objetivo debater os projetos de pesquisa dos mestrandos e promover a troca de experiências da prática da pesquisa. Para abrir a Jornada, o professor José Luiz Braga (Unisinos) fará a palestra “Do projeto de pesquisa à dissertação: ‘planejar é replanejar’”. Transmissão on-line pelo link www.videoconferencia.cce.ufsc.br.

Estão inscritos 29 trabalhos. A abertura  do evento e a primeira mesa temática serão no Auditório Henrique Fontes, Bloco B do Centro de Comunicação e Expressão (CCE). As apresentações seguintes ocorrem na sala 145, Bloco A do CCE. Ouvintes podem se inscrever no local do evento antes de cada mesa. A programação final está disponível aqui e o caderno de resumos aqui.

Mais informações serão publicadas também no twitter oficial:@JDPosjor.

googlejornalismo: um guia

Já pensou usar o Google para organizar suas fontes de informação, encontrar dados e fazer pesquisas pelo buscador e usar outros serviços e ferramentas para apurar, editar e publicar reportagens? Enfim, fazer jornalismo pelo Google?
Veja este guia produzido pela Medios Milenium, de Bogotá.
(documento em espanhol, em PDF, com 80 páginas e arquivo de 8,6 mega)

limites difusos para o telejornalismo

(publicado originalmente no objETHOS)

O jornalismo parece ser daquelas práticas humanas que necessitam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições, admitir seus contornos. Com outras profissões, isso não é necessário. Os médicos sabem exatamente quando estão e quando não estão fazendo medicina. Os engenheiros também não padecem das dúvidas sobre a matéria e a natureza de suas atuações. Jornalistas não têm a mesma sorte e, volta e meia, discutem o que é fazer jornalismo e até onde isso vai. Talvez porque essa prática atravesse diversos outros campos, se mescle tanto socialmente que fique difícil discernir seus limites. Buscar se reconhecer é, então, um gesto permanente no jornalismo, o que, por um lado, auxilia o fortalecimento de uma convicção e, por outro, desestabiliza continuamente as certezas.

Críticos de mídia se ocupam de fazer esse debate, bem como pesquisadores da academia e observadores diversos. Mas quando os questionamentos partem das próprias redações, a dúvida emerge preenchida da legitimidade do empirismo, lembrando-nos a todo o momento do exercício prático da função. Foi assim esta semana quando se noticiou que alguns jornalistas da Rede Record estariam insatisfeitos com suas atuações na emissora. A informação foi dada por Mauricio Stycer em seu blog, inclusive com o anúncio de que o repórter Carlos Dorneles teria pedido demissão da Record por discordar de novas orientações do jornalismo. Dorneles negou sua saída em e-mail a Stycer, mas o foco do problema estaria numa suposta “crise” do jornalismo na Record por conta de interferências editoriais da Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária da rede. Outro jornalista, não identificado por Stycer, teria dito “Não estou fazendo jornalismo, estou fazendo entretenimento”, e é esta fala em particular que me chama a atenção.

No âmago do jornalismo, esta distinção é histórica e tenta demarcar limites de atuação, bem como contornos do que significa reportar fatos. Uma tradição cultural se construiu ao longo das décadas de que jornalistas se ocupam da narração dos acontecimentos que interessem diretamente ao seu público, muitas vezes desagradando partes envolvidas e citadas, noutras contrariando até mesmo camadas da sua audiência. Quando opera dessa forma, o jornalismo se distancia do entretenimento na medida em que não conforma, não acomoda, não distrai. Corre o risco, portanto, de desagregar, de fomentar o dissenso, a crítica. Agindo assim, jornalistas – de forma incontornável – colecionam desafetos já que produzem dissabores. Parece simples e fácil, mas, na prática, manter essa direção requer pleno entendimento do exercício jornalístico, coragem, disciplina, atenção permanente e compromisso ético com um conjunto de valores que transcende a esfera do individual.

Sim, o jornalismo é dessas práticas que precisam frequentemente se olhar no espelho para reconhecer suas feições. Isso é saudável e necessário pois sua imagem é fugidia. Ainda mais num meio como a televisão, onde as fronteiras entre jornalismo e diversão ficam perigosamente embaçadas. A preocupação do jornalista anônimo chama a atenção, mais uma vez, da urgência de discutir, estabelecer e frisar os limites entre uma coisa e outra.

Esses limites não apenas determinam orientações para a conduta de profissionais e veículos, mas também auxiliam a enaltecer o que é prioritário, importante, essencial para a relação do jornalismo com a sociedade. Estou me referindo claramente a interesse público, aos critérios e processos de tomada de decisão que vão eleger o que deve ser narrado primeiro e melhor e o que deve ser simplesmente mencionado ou descartado. O anúncio das manchetes do Jornal Hoje, no último sábado (19), na Rede Globo, ajudam a ilustrar como é fácil perder o foco. A notícia que abriu a edição foi a execução do filho do coreógrafo Carlinhos de Jesus, Dudu, no Rio de Janeiro. O crime é bárbaro – oito tiros em alguém desarmado no meio da madrugada -, a perda de um filho é sempre um enredo dramático, mas o que parece ter influenciado definitivamente na decisão de escolher este acontecimento como o primeiro do telejornal foi a celebridade do pai-vítima. Tanto é que o nome de Carlinhos de Jesus é o anunciado na chamada e não de seu filho, menos conhecido.

Uma matéria como esta tem interesse público? Pode ter na medida em que se relaciona a um cenário mais amplo, de denúncia da violência urbana que ainda assusta aos moradores do Rio de Janeiro. Mas no frigir dos ovos, o fato é uma tragédia familiar, particular e não coletiva. Diferente de uma matéria que teve muito menos destaque na mesma edição do Jornal Hoje, de sábado: o desaparecimento de um cacique no Mato Grosso do Sul, que teria sido executado por fazendeiros da região. O filho adolescente da vítima exibe no próprio corpo marcas de balas de borracha e denuncia que o pai levou tiros na cabeça e pescoço, tendo sido levado por um bando de quarenta pistoleiros. Também neste caso, a ação é violenta e desproporcional, e o enredo é dramático. Três elementos diferenciam esta notícia da primeira: a inversão dos papeis das vítimas – agora, é o filho que sente a perda do pai -, a falta de notoriedade dos índios em comparação com o artista e a extensão do drama: a execução de um cacique atinge toda a sua comunidade e não apenas o seu núcleo familiar. Resumo da ópera: há mais interesse público e relevância jornalística no desaparecimento de um cacique numa área de litígio de terras do que a execução de um músico, filho de um conhecido coreógrafo.

A televisão dilui sutilmente os limites entre jornalismo e diversão, mesmo em casos graves como os citados. Foi mais determinante o star system que o caráter político de matérias sobre disputas agrárias. O jornalismo é feito de escolhas. Estas sinalizam limites. Em algumas situações, no espelho, o jornalismo entrevê sua imagem embaçada, tremida, desconfigurada. Precisamos de mais nitidez.

“desovando” orientandos…

A expressão é grosseira, mas bastante usada quando estamos orgulhosamente encaminhando nossos orientandos para os exames de qualificação e defesas de dissertação. Por isso, em novembro e dezembro – além da longa lista de afazeres do final de semestre -, estarei “desovando” algumas crias…

No dia 22 de novembro, terça, tem qualificação do trabalho “Jornalismo, credibilidade e legitimação: imagem de si e construção do ethos no discurso jornalístico”, de Cândida de Oliveira

Resumo: Esta pesquisa investiga os processos de credibilidade e legitimação do jornalismo, em sua dimensão institucional e discursiva. Compreende-se que o jornalismo encontra credibilidade e legitimidade pública ao exercer um poder organizador que, derivado da palavra consignada, lhe confere o status de instituição social. No contexto atual, a substituição da referência à realidade – ancorado no critério de verdade, o que contribui para sustentar a credibilidade – pela autorreferência no discurso jornalístico denota transformações no modo como o jornalismo se apresenta para a sociedade, ou seja, como constrói a imagem de si, parte integrante do ethos discursivo. Diante disso, a pesquisa investiga a representação que o jornalismo faz de si na construção do ethos e as implicações dessa representação nos conceitos de credibilidade e legitimidade jornalística. A discussão será sustentada ainda por uma análise empírica focada no discurso institucional e opinativo de quatro grandes jornais brasileiros: Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e Zero Hora. De modo geral, a pesquisa busca compreender e explicar como o jornalismo constrói a imagem de si e o ethos, e de que forma essa imagem interfere na credibilidade e legitimação do jornalismo. A pesquisa filia-se em referenciais teórico-metodológicos que se inscrevem na teoria do jornalismo, da nova retórica e da análise do discurso, o que permite levar em conta não apenas a organização desse discurso, mas também seu funcionamento e produção de sentidos.

No  dia 1 de dezembro, tem qualificação do trabalho “Liberdade de expressão e tensões público x privado: jornalistas nas redes sociais”, de Janara Nicoletti

Resumo: Com as mídias sociais na internet, a forma de comunicar foi reconfigurada. Diante deste novo cenário, organizações jornalísticas buscam um reposicionamento que garanta fidelizar seus públicos e manter seu poder midiático. Para direcionar e efetivar as estratégias empresariais de presença nos novos meios, são instituídas diretrizes de uso de redes sociais. Como inexiste um balizador comum, cada empresa determina suas próprias normas e regimentos, com base em valores e metas próprios – o que pode interferir na qualidade profissional e no cumprimento dos preceitos éticos e deontológicos do Jornalismo. Acima disso, pode comprometer a liberdade individual dos profissionais. Este trabalho irá investigar como as organizações jornalísticas orientam a conduta de seus colaboradores nas novas mídias, a partir da formulação de normas técnicas e deontológicas de uso das redes sociais, e até que ponto esta padronização de postura interfere no trabalho diário e na liberdade de expressão dos colaboradores.

Em 7 de dezembro, tem defesa da dissertação “Jornalismo cidadão: profissionalidade e amadorismo nos jornais do Grupo RBS em Santa Catarina”, de Marcelo Barcelos

Barcelos entrega a dissertação à coordenadora Gislene Silva
Barcelos entrega volume à coordenadora Gislene Silva

Resumo: O jornalista não está mais sozinho para apurar os acontecimentos, escrever as notícias e distribuí-las. Com a revolução tecnológica que reconfigura não só suas práticas, mas também a própria função social, ao lado do profissional, está o amador, o cidadão comum, aquele a quem se deu, por muito tempo, o nome de público/receptor. Hoje, o leitor pode ser um produtor de conteúdo noticioso e, para isso, apropria-se de competências antes exclusivas dos repórteres, como apurar, narrar fatos inéditos e produzir o noticiário, em um fenômeno conceituado “jornalismo cidadão”. É tentando entender os impactos provocados pela chegada desse personagem no jornal impresso e no âmago da cultura jornalística que este trabalho mergulha. Parte-se do princípio que legitimou a produção de conteúdo amador independente até o instante em que as mídias tradicionais passaram a adotá-la, elevando o cidadão à condição de leitor-repórter. Para compreender esse recente paradigma, analisamos um corpus de 27 edições – durante uma semana completa dos quatro jornais do Grupo RBS em Santa Catarina: Hora de Santa Catarina, Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina e A Notícia. A investigação, utilizando o método exploratório na análise de textos e fotografias, caracterizou a produção amadora publicada conforme os seguintes critérios jornalísticos: a) autoria; b) foco narrativo; c) atualidade; d) interesse público e) gênero f) hard news e g) soft news. A análise ainda inclui entrevistas presenciais com jornalistas das quatro redações, à procura de traços dessa nova forma de relacionamento com o público e das tensões provocadas em sua profissionalidade. Rodeado de enunciados intencionais que o convocam à colaboração, o público atende a um chamado e produz conteúdo de natureza informativa; muito desse conteúdo, no entanto, é carregado de um caráter pessoal. As produções aparecem em quase todas as editorias, ora na voz do cidadão, ora diluída na edição do jornalista, que a complementa. É possível identificar um elevado grau de dependência no qual o jornalista demonstra a necessidade do leitor para “fechar o jornal”. No outro lado do balcão, os jornalistas ainda se moldam à partilha, enquanto defendem seu conhecimento específico, conquistado entre a prática e a formação acadêmica, para tratar – com ética, veracidade e equilíbrio – o que vem de fora da redação, sob o risco da abertura de espaço à imprecisão e à narrativa falseada. Os jornalistas reconhecem, no entanto, a necessidade cada vez maior chamar o leitor à produção em uma “Coautoria Vigiada” e admitem terem aberto mão de algumas tarefas até então exclusivas.

saiu o dicionário de investigação do cotidiano

Acabo de receber do amigo Wellington Pereira, professor da UFPB, um exemplar do Dicionário de Investigação do Cotidiano, que ele organizou e está lançando. A obra traz textos de graduandos, mestres e mestrandos e marca os dez anos de trabalho do Grupejc – o Grupo de Pesquisa sobre Jornalismo e Cotidiano.

Generoso, Wellington me deu o prazer de escrever o prefácio da obra, que reproduzo abaixo. E, claro, o livro eu recomendo!

Nos botequins das esquinas, nos pontos de ônibus, nas filas, um dicionário é o “pai dos burros”, uma bússola segura no emaranhado de sentidos do mundo. Dicionários servem então para fixar significados, orientar os usos das palavras. Salvam-nos das incertezas, pacificam as dúvidas.

Mas há dicionários e dicionários, e o que o leitor tem em mãos é diferente. Primeiro porque não restringe os sentidos, mas permite pensar a partir deles. Este Dicionário de Investigação do Cotidiano funciona mais como trampolim e menos como rede de salvamento. Produzido pelo Grupo de Pesquisa sobre o Cotidiano e o Jornalismo (Grupecj), o dicionário é do tipo enciclopédico, desses em que cada verbete não fica restrito a uma definição referencial, mas leva a textos curtos que sobrevoam os temas elencados. Por isso que este dicionário possibilita mais saltos, arejando a nossa visão. Aqui, os verbetes adquirem uma consistência e perenidade mais próxima do ensaio, cuja incompletude não é uma falta, mas uma qualidade, fator que incita a pensar. Assim, o verbete é um ponto de partida e não de fechamento dos sentidos. É um gatilho, um disparo…

Outro fator que distingue este dicionário é que ele surge dos jornais; seus verbetes emergem das páginas tão perecíveis dos diários paraibanos, o que requer não só rigor, mas também muita sensibilidade. Um paradoxo é que, embora o cotidiano seja a matéria-prima do jornalismo, ele fica quase sempre negligenciado nas pesquisas científicas desse campo, como se não fosse suficientemente digno de se tornar objeto de análise. Há quase dez anos o Grupecj contraria esse raciocínio e sublinha seu caráter paradoxal. Notícias, fait-divers, legendas, manchetes, tudo isso permite que temas venham à tona com força nas editorias de Política, Cidades, Economia e Cultura. Juntas, essas seções ajudam a esquadrinhar o cotidiano de homens e mulheres, pessoas e organizações no tecido social. Compõem um mosaico dos saberes, fazeres e seres.

Dividido conforme as editorias, o dicionário inicia cada seção com textos de apresentação e explicações de base, não perdendo de vista os leitores de primeira viagem, os não-iniciados nos mistérios e nas correrias das redações jornalísticas.

Para os pesquisadores do Grupecj, o cotidiano – banal, recorrente, fugidio, simples – não é descartável nem ignorável; é imprescindível, rico e revelador das condições de produção que ajudam a conformar o homem no momento contemporâneo. Antropologia, sociologia, psicologia, filosofia, história, geografia e comunicação cruzam-se e entrecruzam-se nas encruzilhadas cotidianas. O Dicionário de Investigação do Cotidiano surge fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília, oxigenando a paisagem e sinalizando mais uma vez a valentia dos autores nordestinos. Ousadia que remonta a Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, José Lins do Rego, mas que não fica apenas no campo das belas letras. Aliás, a Paraíba ostenta cotidianamente uma geografia da bravura. Nessas terras, os cabra-machos se espalham como relva, e a sua macheza não se restringe ao gênero masculino: está no DNA de homens e mulheres que fazem das adversidades escadas para transpor seus obstáculos.

Este dicionário é sinal de muita macheza. Assinados, os verbetes não subjazem autorias, e pontuam a pluralidade de uma obra coletiva, tecida por mais de vinte autores, entre graduandos, mestres e mestrandos. O professor Wellington Pereira teve a tarefa de coordenar equipes, estruturar a obra e organizar suas linhas mestras. Daqui do chamado “Sul Maravilha”, parece uma tarefa menos dificultosa, o que é decerto uma ilusão de ótica. Dicionarizar requer muito método e planejamento, mas também doses generosas de ousadia e confiança, e uma indisfarçável alegria no trato da coisa.

Sim, os paraibanos são valentes, mas também alegres. Rivalizam com pernambucanos, por exemplo, para ver quem oferece a maior festa de São João do mundo! Aliás, é justamente numa tarde de 24 de junho que escrevo esta apresentação, com a televisão ligada nos festejos, numa autêntica celebração entre cultura e mídia, comunicação e folclore, cotidiano e espetáculo.

Ao contrário da Enciclopédia de D’Alambert e Diderot, este Dicionário de Wellington Pereira e seus pesquisadores não é pretensiosa porque sabedora dos limites que qualquer trabalho do gênero traz: não se pode esgotar nenhum assunto em nenhum volume. Este Dicionário de Investigação do Cotidiano só é pretensioso num aspecto: a vontade de trazer o cotidiano a uma esfera de discussão e reflexão mais dignas e evidentes. Nada mais justo.

Florianópolis, Dia de São João de 2011

abciber 2011 começa hoje

A 5ª edição do encontro nacional dos pesquisadores em cibercultura – promovido pela ABCiber – começa hoje em Florianópolis com atividades na UFSC e Udesc. A programação e demais informações podem ser acessadas no site do evento, e – segundo a organização – as principais conferências poderão ser acompanhadas pela transmissão ao vivo por este canal na internet.

Este encontro é decisivo para os pesquisadores da área e para o avanço da ABCiber no setor, já que a edição anterior sofreu com os muitos problemas de organização, o que chacoalhou algumas certezas dos associados. O assunto é tratado com delicadeza e à boca pequena: se o evento não for bem neste ano, corre o risco de não mais acontecer. Ninguém confirma a informação, mas também não se nega.

jornalismo em desenho animado

Se você admira o jornalismo feito em quadrinhos por Joe Sacco, vai gostar muito do que os salvadorenhos do El Faro fazem. É outra amostra de como o jornalismo pode se reinventar. Historias Urbanas é uma série de seis histórias colhidas nas ruas, reescritas e vertidas para animação. O trabalho é executado por sete jornalistas, um diretor de teatro, 25 músicos, um editor, dois animadores e sete ilustradores.

A ideia é simples e complexa ao mesmo tempo: narrar a cidade de San Salvador, a capital do país. Com isso em vista, durante um ano, jornalistas apuraram, artistas gráficos deram formas e cores a personagens e cenários, e músicos compuseram temas exclusivos para as histórias.

Resultado? Um jornalismo multimídia diferente, único, completo e bem arquitetado.

Confira!

 

mba em jornalismo: gestão editorial

O Iscom – Instituto Superior de Comunicação – está com inscrições abertas para o MBA em Jornalismo: gestão editorial, com aulas de fevereiro de 2012 a dezembro de 2013. As aulas são aos sábados (das 8h às 17h) em semanas alternadas, a cada 15 dias. As aulas acontecerão no prédio da Fepese (campus da UFSC) em Florianópolis. Os alunos saem com título de Especialista em Jornalismo, com certificados emitidos pela Universidade Tuiuti do Paraná (UTP).

Veja as disciplinas:

Módulo 1 – Gestão e fundamentos
Gestão editorial
Ética, legislação e liberdade de imprensa
Metodologia de projeto específico

Módulo 2: Gestão estratégica
Gestão de empresa de mídia
Gestão de pessoas e liderança
Gestão de marketing e comercial
Qualidade no jornalismo
Seminário avançado

Módulo 3: Gestão por tipo de mídia
Mídia impressa
Informação e comunicação digital
Rádio e televisão
Seminário avançado

Módulo 4: Relações com os públicos
Comportamento do público
Parceiros e fornecedores (networking)
Ações e estratégias das fontes de notícias
Relações com anunciantes e agências de propaganda
Seminário avançado
Seminário científico (apresentação monografia)

Mais informações AQUI.

o encontro da sbpjor em 2011; e o de 2012

A Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) realizou na semana passada seu nono encontro, reunindo mais de 350 participantes do país. O evento foi o maior da história da entidade e aconteceu na UFRJ, no Rio de Janeiro. Consolidada como um fórum privilegiado para a discussão do jornalismo – em bases conceituais e práticas -, a SBPJor está amadurecida e arejada. Elegeu uma nova diretoria e, mal terminou de promover um evento, já pensa em outro: a 10ª edição do seu encontro nacional já tem local escolhido, Curitiba.

9º encontro da sbpjor começa hoje

A nona edição do Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo da SBPJor começa hoje nas dependências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para saber mais, acesse o site do evento.

veja só quem acabou de chegar…

Mais informações aqui

câncer, mal-estar e sintomas na mídia

(publicado originalmente no objETHOS)

O anúncio da descoberta de um câncer na laringe do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou, ao longo do sábado, 29, uma correria nas redações brasileiras. Se geralmente o final de semana reserva a produção de matérias mais mornas no âmbito da política, desta vez, foi diferente. Não bastasse o plantão hospitalar por conta da internação do cantor Luciano, em Curitiba, após uma intercorrência por abuso de medicamentos, lá se foram mais repórteres para a frente do Sírio-Libanês, em São Paulo, para uma notícia também inesperada.

De forma geral, os telejornais brasileiros foram ágeis o suficiente para dar conta do primeiro boletim médico, para ouvir especialistas e repercutir o diagnóstico com personagens políticos. Também foram produzidas artes que pudessem ilustrar a doença para o público mais geral, e especulou-se um pouco em torno de possíveis causas do câncer de Lula. Consumo de álcool, tabagismo e poluição foram apontados como “fatores de risco”.

Os jornais também tiveram tempo e espaço para dedicar generosas páginas ao drama do ex-presidente. O assunto teve chamada de capa e disputou a manchete do domingo, conforme se pôde ver nas bancas pelo país:

  • Agora: “Lula está com câncer na garganta”

  • Folha de S.Paulo: “Lula tem câncer na laringe e vai passar por quimioterapia”

  • Notícia Agora: “Lula está com câncer”

  • O Dia: “Com câncer, Lula agora luta pela vida”

  • O Estado de S.Paulo: “Lula está com câncer na laringe e fará quimioterapia”

  • O Globo: “Com câncer, Lula inicia tratamento amanhã”

  • O Povo: “Uma nova batalha para Lula”

  • Zero Hora: “Exames detectam câncer em Lula”

  • Correio: “Ex-presidente Lula tem câncer na laringe”

  • Diário da Manhã: “Lula com câncer”

No exterior, os diários mais importantes da América do Sul também deram a notícia. Na Argentina, Clarín (“Conmoción em Brasil: Lula padece cáncer de laringe”) e La Nacion (“Lula, enfermo de cáncer”) fizeram o registro em suas primeiras páginas. O mesmo aconteceu com o chileno El Mercurio (“Cáncer de Lula remece a Brasil e impacta em el mundo político”), com o colombiano El Tiempo (“Lula tiene cáncer en la laringe”) e o venezuelano El Nacional (“Ex-presidente Lula da Silva tiene cáncer”).

As revistas semanais de informação não tiveram tempo para dar a notícia, já que chegam às bancas e aos assinantes justamente no final de semana. Os portais noticiosos alardearam como puderam o diagnóstico de Lula, mas nada que se descolasse do já esperado.

Reações extremas

A novidade mesmo pode ter vindo do lado de lá do balcão desse negócio chamado jornalismo. As redes sociais convulsionaram com o anúncio da doença do ex-presidente. O assunto dominou o Twitter, gerando diversas hashtags e provocando até mesmo uma “campanha” para que Lula fizesse seu tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Opositores do político fizeram piadas de gosto duvidoso, atacaram seus familiares e destilaram alguns litros de fel nas redes sociais. Partidários do líder petista reagiram, recomendando que se deixasse de seguir os “oportunistas” e “desumanos” que fizeram troça da doença de Lula.

Entre os jornalistas mais influentes, houve manifestações escassas. Talvez a mais contundente tenha sido a de Gilberto Dimenstein (Folha.com, no domingo, 30), que disse ter sentido “um misto de vergonha e enjoo” ao receber “uma enxurrada de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano”. Para Dimenstein, a interatividade democrática da internet é, um avanço do jornalismo e “uma porta direta com o esgoto de ressentimento e da ignorância”. Razão pela qual o colunista reforça que um dos papéis dos jornalistas na atualidade “é educar os e-leitores a se comportar com um mínimo de decência”. Dimenstein tem motivos realmente fortes para ter ojeriza do comportamento demonstrado por alguns internautas, que, protegidos atrás de seus teclados, revelam-se violentos e perversos. Difícil justificar tanta carga negativa e prazer pelo sofrimento alheio.

Recentemente, diversos casos de doentes célebres têm mostrado não apenas reações distintas dos públicos quanto dos próprios veículos de informação. A longa luta do ex-vice-presidente José Alencar contra um câncer foi acompanhada com apreensão e respeito pela serenidade do político diante da virtual morte. Alencar foi uma exceção, pois no terreno da política, a artilharia é mais pesada. Que o digam os presidentes Hugo Chávez (Venezuela) e Fernando Lugo (Paraguai), que batalham pelas próprias vidas e desviam de ataques e pragas. E mesmo a então candidata à presidência Dilma Rousseff, teve uma acompanhamento da imprensa ostensivo, apreensivo e ligeiramente especulativo.

Já com o empresário da tecnologia Steve Jobs, o desfecho fatal ganhou tons de idolatria na mídia e entre o público. Atualmente, o enfrentamento da doença pelo ator Reynaldo Gianecchini tem uma cobertura jornalística que não esconde a torcida nacional pelo restabelecimento do jovem astro.

Os ataques a Lula mostram mais uma vez que a internet permite uma polifonia pouco controlável, independentemente do bom senso, dos bons modos, das virtudes mais esperadas. Há quem se sinta seguro e confiante atrás de uma tela para julgar, ofender e caluniar. Há quem reaja também na mesma intensidade. Jornalistas ficam aturdidos no meio do tiroteio verbal. Compreensível.

Diagnóstico apressado

Como já disse, Dimenstein tem razões para sentir nojo do que viu. Mas particularmente penso que não se pode mais esperar que os jornalistas eduquem “os e-leitores a se comportar com um mínimo de decência”. Na atualidade, as redações têm se preocupado muito mais em aprender com seus públicos, não a ensiná-los, já que tutelas deste tipo estão esfarelando bem na frente de nossos olhos. Novos pactos entre audiências e veículos estão surgindo, bem como relações mais horizontalizadas, o que simplesmente dispensa o paternalismo e o didatismo sobre os quais o jornais do século XX se consolidaram.

O câncer de Lula gerou um mal-estar não apenas restrito ao seu círculo familiar. Outros brasileiros também se comovem com o estado de saúde do líder metalúrgico, dada a sua história pessoal, carisma incontestável e trajetória política. Lula é mesmo um fenômeno. Mas a enfermidade que o acomete revela sintomas que extrapolam seu organismo. O primeiro deles, me parece ser, é que a sociedade brasileira atual é mais complexa do que jamais foi e tem ânsias para se manifestar, qualquer que seja o assunto e a sua conveniência. Outro sintoma é que as novidades nem sempre vêm das redações, e tem se tornado comum que venham do lado de lá do balcão. Um terceiro sinal, neste diagnóstico, é que os jornalistas talvez não precisem mais educar seus públicos ou simplesmente não possam mais fazê-lo. Mais recomendável nesse caso é que o jornalismo revise seus hábitos, reencontrando os tons para fazer coberturas que fiquem na fronteira do público- privado, como as que relacionam saúde e poder. Prescreve-se, portanto, mudança de hábitos, mas nada de repouso.

vem aí: jornalismo investigativo e pesquisa científica

A Editora Insular está lançando “Jornalismo Investigativo e Pesquisa Científica: Fronteiras”, primeiro livro do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) com o Mestrado em Jornalismo da UFSC (Posjor). A obra é organizada por Rogério Christofoletti e Francisco José Karam, e traz textos especialmente elaborados após o Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor), que aconteceu em junho passado em Florianópolis.

O livro aproxima academia e mercado, jornalismo investigativo e pesquisa em comunicação, e as realidades brasileira e argentina. O objetivo é contribuir para os estudos na área e provocar debates nas redações, na busca por novos métodos de apuração, e no enfrentamento de desafios técnicos, políticos e éticos.

“Jornalismo Investigativo e Pesquisa Científica: Fronteiras” tem 184 páginas, e pode ser encontrado nas melhores livrarias do país. Pela internet, basta encomendar pelo site da editora.

Confira o sumário:

Apresentação: Fernando Rodrigues, Folha de S.Paulo e Abraji

Prefácio: Francisco José Karam

Parte 1 – Estratégias, métodos e fontes

Reportagem Assistida por Computador (RAC) e jornalismo investigativo – José Roberto de Toledo

Jornalismo, o prazer do ofício – Angelina Nunes

Cómo navegar extensos mares de un centímetro de profundidad – Rodolfo Barros

Uma aliança vital – Mauro César Silveira

Rosental e o novo modelo midiático – Claudio Julio Tognolli

Investigación? Revelación? Que pensam los periodistas? – Sebastián Lacunza

Límites y empobrecimiento de la investigación periodística en Argentina: indígnate (fácilmente) – Eduardo Blaustein

Parte 2 – Práticas, papeis e compromissos

Practica periodística y práctica científica – Martín Becerra

Diferenciações, aproximações e complicações entre a prática jornalística e a prática científica- Gislene Silva

Los compromisos del periodista y del investigador académico – Adriana Amado

Investigación, poder y política: una mirada desde el periodismo – Washington Uranga

Rascunhos de uma agenda positiva para redações e laboratórios – Rogério Christofoletti

Posfácio: Insuficiências teóricas e desafios – Samuel Lima

acesso a informações públicas, um guia

O Senado Federal aprovou na terça-feira (25/10) o projeto de lei de acesso à informação, oito anos após a primeira proposta ter sido apresentada ao Congresso Nacional.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), uma das organizações que mais articularam para a aprovação da nova regra, produziu um guia que ajuda a traduzi-la. Veja aqui.

mestrado em jornalismo tem jornada discente

O POSJOR realiza, nos dias 24 e 25 de novembro, sua 1ª Jornada Discente. O evento tem como objetivo debater os projetos de pesquisa dos mestrandos e promover a troca de experiências da prática da pesquisa. Para abrir a Jornada, o professor José Luiz Braga (Unisinos) fará a palestra “Do projeto de pesquisa à dissertação: ‘planejar é replanejar’”. Os alunos das turmas 2010 e 2011 apresentarão seus trabalhos em mesas temáticas mediadas por professores do POSJOR (veja a programação). Cada mestrando deve se inscrever enviando formulário preenchido para o e-mail jornadadiscente.posjor@gmail.com. As inscrições vão de 26/10 a 16/11. Interessados em participar como ouvintes podem se inscrever na hora no local do evento: sala 145 do Bloco A do CCE. Mais informações no edital.

(reproduzido do site do Posjor)

chamada de textos na e-compós

Adriana Braga e Felipe Trotta, da Comissão Editorial da revista E-Compós, informam que a publicação já está com chamadas para seus três números de 2012. A revista da Compós aceitar artigos, resenhas e entrevistas em português, inglês, francês e espanhol.

Veja os temas e os prazos de submissão:

1ª Edição: Temas livres
Espaço aberto para contemplar toda a diversidade de abordagens teóricas, metodológicas e empíricas do campo da Comunicação.
Data limite para envio de originais: até 15 de janeiro de 2012.

2ª Edição: Dossiê temático “Música e Som”
Nos últimos anos, observamos um crescente interesse de pesquisadores da área de Comunicação em temáticas relativas à música e ao som. Até há pouco tempo negligenciado por diversas tendências de pesquisa de nossa área, o sentido da audição parece ter ocupado espaço significativo em abordagens sobre artefatos midiáticos, em reflexões sobre regimes de escuta, paisagens sonoras, identidades musicais, classificações mercantis e disputas políticas e ideológicas. Para este dossiê, convidamos pesquisadores de Comunicação e áreas correlatas a submeterem propostas sobre temas como:
– usos e apropriações da música e do som nos produtos midiatizados (fonogramas, espetáculos, videoclipes, filmes, games, programas de televisão, etc.);
– análises socioculturais da circulação de mídias sonoras;
– estética e ética;
– sonoridades e identidades;
– dimensões políticas, empresariais e sócio-culturais da música e do som;
– outras abordagens convergentes.
Data limite para envio de originais: até 30 de março de 2012

3ª Edição: Dossiê temático “Teorias e Metodologias da Comunicação”
Questões de teoria e método permanecem sendo uma dimensão crucial para o campo da comunicação. A constituição relativamente recente de nosso campo acadêmico, bem como sua característica de zona de interface e cruzamento com outros campos disciplinares – como a sociologia, psicologia, economia, informática, educação, antropologia e artes, entre outros – tornam necessário o debate sobre a comunicação em termos teóricos e metodológicos. Para este dossiê, a terceira edição de 2012 da E-Compós convida a proposição de submissões sobre aspectos como:
– teoria e epistemologia da comunicação;
– o objeto da comunicação;
– teorização metodológica em comunicação;
– a comunicação e suas muitas interfaces acadêmicas;
– outras abordagens convergentes.
Data limite para envio de originais: até 30 de maio de 2012

Submissões e mais informações em:
http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/index

kadafi morto: um corpo na primeira página

A notícia simplesmente eclipsou o anúncio do ETA de que abandonaria os métodos terroristas.
Dois finais melancólicos: um na Líbia; outro na Espanha.

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sobre transparência e a agenda das empresas de mídia

(publiquei primeiro no objETHOS, repito por aqui)

Duas rápidas notícias no ramo jornalístico sinalizam alguns dos movimentos no mercado internacional, em alto contraste com o comportamento brasileiro. No Reino Unido, The Guardian inovou com a criação de uma lista pública em que expõe quais reportagens o jornal vem desenvolvendo. O rol pode ser acessado pelos leitores e até pelos concorrentes. Nos Estados Unidos, The New York Times está sendo levado a aperfeiçoar suas políticas de tranasparência, principalmente no que concerne as coberturas de caráter econômico e financeiro. A ideia é que o jornal lidere um esforço no mercado para tornar mais evidentes possíveis conflitos de interesse dos jornalistas que cobrem certos assuntos. Os episódios nos Estados Unidos e no Reino Unido têm ao menos um ponto em comum: fortalecem o valor da transparência, um dos maiores tabus da mídia brasileira.

Enquanto a open newslist do Guardian desafia a lógica do furo de reportagem de um lado e estende a mão para o jornalismo de fonte aberta e com a colaboração dos leitores, os grupos de comunicação no país pressionam políticos no Legislativo e no Executivo para deixar a legislação e as práticas de mercado mais obscuras. Enquanto o jornal mais influente do mundo se preocupa com a credibilidade de sua equipe, as empresas locais rasgam as próprias diretrizes editoriais, atuando de forma juvenil e corporativa em detrimento do interesse do público. Não é o caso de dizer que os grupos internacionais sejam isentos de qualquer intencionalidade e que mereçam lugar cativo no paraíso por sua beatitude. Mas é histórico o descaso dos conglomerados diante de regras mais claras para o setor, de regulamentação ampla e de transparência. As brechas na legislação permitem propriedade cruzada e oligopólio; o marco legal desconsidera a internet e as novas formas de difusão de informação e entretenimento; e nem mesmo o Ministério das Comunicações sabe a composição acionária de muitas empresas do ramo. Resultado: o Estado não acompanha o setor, dispõe de instrumentos frágeis e não coíbe práticas que são lesivas não apenas para os concorrentes, mas para o consumidor final, o tal do cidadão, o tal do contribuinte. Se o Estado, que deveria atuar como xerife, desconhece a situação, imagine o público, alijado das decisões mais importantes…

De forma paulatina, a transparência vem se tornando um ativo intangível de destaque para empresas de vários setores. No caso da informação e do entretenimento, ser transparente é buscar uma aproximação com seu público e com demais partes interessadas; é mostrar-se também mais socialmente preocupado e mais aberto ao diálogo; é prestar contas e horizontalizar certos processos. Isto é, depende de maturidade, compreensão global do seu papel na sociedade e de convicção. Se o grupo não quer efetivamente ser mais transparente não vai conseguir simular isso, pois suas práticas demonstrarão o contrário.

A mudança do setor produtivo para uma atuação mais transparente pode se dar no interior das próprias empresas ou motivada por uma transformação cultural: líderes do mercado podem “arrastar” os demais players para esta atitude, ou o próprio público pode reivindicar isso. O que acontecerá primeiro no cenário midiático brasileiro? Alguém arrisca responder?

jornalismo digital: livro novo na praça

Demétrio Soster e Walter Teixeira Lima Jr. anunciam o lançamento do livro “Jornalismo Digital – Audiovisual, Convergência e Colaboração” (Ed.Unisc). Haverá sessões de autógrafo na Feira de Porto Alegre e no Encontro da SBPJor, que acontece no Rio de Janeiro.

Vejam o sumário:

PRIMEIRA PARTE – AUDIOVISUAL E REDES SOCIAIS

OS WEBJORNAIS QUEREM SER REDE SOCIAL? – Raquel Ritter Longhi, Ana Marta Moreira Flores e Carolina Teixeira Weber

TV + TWITTER: REFLEXÕES SOBRE UMA CONVERGÊNCIA EMERGENTE – Carlos d’Andréa

AVANÇOS E TENDÊNCIAS NO CONSUMODE AUDIOVISUAL: IP(+)TV – Diólia de Carvalho Grazino

ENTRE A TV E A INTERNET: MEDIAÇÕES SOBREPOSTAS EM iREPORT FOR CNN – Geane Alzamora

O ENSINO DE CIBERJORNALISMO: ESTUDO COMPARATIVO NOS CURSOS DE JORNALISMO DO RIO GRANDE DO NORTE E MATO GROSSO DO SUL – Gerson Luiz Martins

NEOFLUXO: JORNALISMO, BASE DE DADOS E A CONSTRUÇÃO DA ESFERA PÚBLICA INTERCONECTADA – Walter Teixeira Lima Junior

SEGUNDA PARTE – MESA COORDENADA SBJor

O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CIBERJORNALISMO E AS TEORIAS JORNALÍSTICAS – Carla Schwingel

JORNAIS DE WEB NAS FACULDADES BRASILEIRAS DE JORNALISMO – Carlos Alberto Zanotti

ENSINO DE JORNALISMO-LABORATÓRIO EMUMA PERSPECTIVA CONVERGENTE – Demétrio de Azeredo Soster e Fabiana Piccinin
FORMATOS DE LINGUAGEM WEBJORNALÍSTICA: A FOTORREPORTAGEM REVISITADA – Raquel Ritter Longhi

RELEVÂNCIA JORNALÍSTICA NOS SISTEMAS CONECTADOS EM REDE – Walter Teixeira Lima Júnior

10 dilemas do jornalismo político

Emmanuelle Anizon, da revista francesa Télérama, lista o que chama de dilemas para jornalistas que cobrem o poder, precisam estar muito próximos dele, mas não podem se misturar aos poderosos. Entre as questões, destaco:

  • jornalista deve ser engajado ou não?
  • jornalista deve se ater a fatos da vida privada dos políticos ou não?
  • jornalista deve almoçar/jantar com a fonte que está cobrindo?
  • jornalista pode pegar carona com a fonte?

Veja a lista completa aqui (en français).

informação de papel x informação online

A Associación para la Investigación de Medios de Comunicación (AIMC), entidade espanhola, acaba de publicar resultados de uma pesquisa que pode interessar a muita gente: “La Prensa: digital vs papel” é o primeiro de uma série de estudos semelhantes, centrados nas particularidades de cada meio e nas formas de como se relacionam com seus públicos.

Conforme esclarece a associação, a pesquisa “está focalizado en prensa diaria e indaga en los comportamientos, actitudes y preferencias ante los dos sistemas de distribución de los contenidos, tanto “tradicional” (papel) como en online”. A coleta de dados se deu entre 20 de maio e 16 de junho de 2011.

Acesse a pesquisa aqui.