Por que a EBC não deve ser privatizada

Em carta à população, a “Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública”, que reúne dezenas de entidades da sociedade brasileira, em conjunto com as trabalhadoras e trabalhadores da EBC, manifestou-se sobre o tema.

Carta à sociedade: por que a EBC não deve ser privatizada

O Ministério das Comunicações anunciou recentemente o envio da Empresa Brasil de Comunicação ao Programa Nacional de Desestatização (PND). A decisão parece ser uma resposta a setores da imprensa ligados ao sistema financeiro, reproduzindo a lógica de dependência dos “mercados” da própria comunicação privada. Embora o movimento ainda envolva estudos sobre possíveis formas de privatização da empresa, foi um passo perigoso rumo à destruição da estatal. Neste sentido, trabalhadores que atuam nos setores da companhia vêm dialogar com a sociedade sobre sua natureza e importância.

Desde o seu nascimento, em 2007, a TV Brasil e a EBC são alvos de intensas campanhas negativas e, mais recentemente, pela sua privatização. Os argumentos vão desde um suposto déficit que a empresa daria ao governo até o valor gasto com salários e baixa audiência de seus veículos. Os trabalhadores vêm aqui trazer alguns esclarecimentos que esperamos sejam incluídos nas matérias, em geral com somente um lado.

A EBC foi criada a partir do que manda a Constituição Federal. O Artigo 223 da Carta Magna prevê a complementaridade dos sistemas público, privado e estatal. A Lei que criou a estatal (11.652, de 2008) regulamenta esta diretriz, criando a empresa. Assim, a EBC não foi um feito de um governo, mas a materialização tardia do que a Constituição já determinava desde sua promulgação, no fim dos anos 1980.

A comunicação pública não é uma invenção brasileira, mas, ao contrário, é realidade na grande maioria dos países do mundo. Enquanto alguns segmentos buscam atacar a existência deste serviço, outros países com democracias consolidadas (até mesmo de caráter bastante liberal) entendem e estimulam o papel da comunicação pública para atender ao direito à informação dos cidadãos, investir em conteúdos sem apelo comercial e pautar temas de interesse público. É o caso da BBC no Reino Unido, da RTP em Portugal, da NHK no Japão ou da PBS nos Estados Unidos.

A EBC não dá “prejuízo” ou “déficit”. Ela é uma empresa pública dependente, e não autossuficiente como Correios ou Banco do Brasil. Embora ela consiga arrecadar recursos com patrocínios e prestação de serviços, suas fontes de financiamento não servem e nunca servirão para torná-la autônoma, já que ela não deve se tornar refém do próprio mercado para garantir ainda mais sua autonomia. Assim como ministérios e universidades não dão “prejuízo”, a EBC (assim como outras estatais dependentes, como Embrapa) também não dá.

Este modelo de negócio não é inovação da EBC, ele ocorre no mundo inteiro. Só conseguem autonomia financeira empresas custeadas a partir de impostos, como a BBC do Reino Unido ou a RAI na Itália. Não é o caso do Brasil. Ao contrário, a EBC tem uma fonte de receita própria complementar (a Contribuição para o Fomento à Radiodifusão Pública), que, do total arrecadado, só foi reservado R$ 2,8 bilhões em todos os anos de contribuição à EBC, mesmo que quase nada tenha sido repassado à empresa (tanto por uma contenda judicial quanto por falta de vontade política dos governos).

Matérias na imprensa reproduzem o argumento do governo, afirmando que o orçamento de R$ 550 milhões por ano é “muito”. E ressaltam sempre valores gastos com salários. Não se mantém uma empresa que tem duas TVs, oito rádios, duas agências nacionais, produz conteúdo e presta serviços ao governo federal sem recursos. Tampouco se faz comunicação sem pessoas – que devem ser contratadas conforme prevê a legislação, e não fraudando a lei com contratações por pessoa jurídica (PJ). É o que a maioria das empresas de radiodifusão o fazem, como Band, Globo e SBT, o que levou a multas milionárias da Receita Federal e problemas graves na Justiça trabalhista. É de se esperar, naturalmente, que as empresas públicas cumpram, minimamente, a lei.

Colunistas e o próprio governo reclamam do “desempenho” da EBC e falam em melhoria e “otimização” por conta da audiência. Os veículos da EBC não foram criados para disputar audiência, embora devam buscar sempre esse alcance. A TV Brasil já chegou a ser a 7ª emissora nacional e é a única aberta com programação infantil de fato. Poderia ter avançado em marcas mais efetivas, mas a falta de investimento e prioridade política dificultaram o ganho de visibilidade da empresa.

Mesmo com a falta de apoio e desmonte recente, a Agência Brasil produz conteúdos gratuitos que abastecem milhares de grandes e pequenos veículos de comunicação. A Radioagência Nacional faz o mesmo com estações de rádio. A Rádio Nacional da Amazônia serve centenas de milhares de ouvintes nos rincões do país. Além disso, a empresa tem caráter educativo, com difusão de programas e reportagens para contribuir com a formação dos cidadãos.

O questionamento da privatização da EBC vai muito além de seus empregos – embora essa preocupação seja legítima, uma vez que estamos falando de famílias que são sustentadas por esses empregos em um país com mais de 14 milhões de desempregados. Mesmo assim, é necessário restabelecer informações diante de uma campanha de ataque e que esconde a relevância social da empresa. Se é fato que o governo atual vem aparelhando editorialmente e desmontando muitos programas e serviços, a saída não pode ser extinguir ou privatizar, mas sim corrigir os erros e dar a devida estrutura para que a empresa possa, de fato, cumprir sua missão constitucional de fazer comunicação pública.

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Crises do jornalismo? Um podcast

Em fevereiro, conversei com o jornalista Vitor Struck, da Folha de Londrina, sobre as crises que afetam o jornalismo. Foi para o podcast da casa, disponível aqui. Tem 26 minutos.

Jornalismo, pandemia e liberdade de imprensa: uma palestra

Participo daqui a pouco  – às 17 horas – da abertura do ano letivo 2021 no curso de Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) com a palestra Jornalismo, pandemia e liberdade de imprensa. Estarão comigo nesta atividade as professoras do curso Flora Daemon, Rejane Moreira e Ivana Barreto.

Vai ser por sistema de videoconferência com transmissão pelo canal do curso de Jornalismo no YouTube: aqui.

Maradona nas capas dos jornais

O gênio da bola se despediu ontem, aos 60 anos, depois de uma parada cardiorrespiratória. Hoje, os principais jornais da América do Sul homenagearam o craque em suas primeiras páginas.

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Google despeja migalhas ao jornalismo

Nesta semana, o Google News Iniciativa Startup Lab anunciou os dez empreendimentos jornalísticos que irá apoiar. Nas redes sociais, os contemplados vibraram com a escolha. Acontece que o gigante tecnológico vai destinar “até 20 mil dólares” a cada um dos escolhidos. Isso mesmo. Até 20 mil dólares. É uma miséria, convenhamos!

Nos Estados Unidos, um repórter ganha em média 45 mil dólares por ano. Quer dizer, o Google quer acelerar startups de jornalismo aportando o equivalente a cinco meses de salário de um profissional. E ainda alardeia aos quatro ventos que estão apoiando o jornalismo…

Numa crise financeira como a atual, quando outros potenciais apoiadores escafederam-se, as big techs despejam migalhas a coletivos ou jovens empresas que querem inovar. É desrespeitoso com os contemplados, com o  jornalismo e com a nossa inteligência.

Outubro cheio!

Este post deveria ser escrito em setembro, e vê-lo agora, na segunda metade do mês seguinte, já mostra como estão as coisas por aqui. Sim, aceleradas. Mas nem vou me queixar, eu quero é mesmo celebrar porque o mês está recheado de coisas boas. Pelo menos pra mim.

No dia 13, participei junto com Letícia Cesarino, Ronaldo Teodoro, Rafael Azize e Mariana Possas de um debate do ciclo Jornalismo e Direitos Humanos em Debate, na UFBA. O projeto é uma websérie de 10 episódios semanais tratando de problemas, derivações e consequências da loucura que é se comunicar hoje no mundo, e falar de direitos humanos. Nosso debate tratou bastante de crise de autoridade nas mediações do jornalismo e erosão de autoridade. Aliás, dá pra conferir aqui: https://youtu.be/tk9tXVn8ZIo

No dia 21, participo de uma aula dos professores Rafael Bellan e Rafael Paes Henriques no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades, da UFES. A disciplina se chama Questões em Jornalismo e pretendo tratar de um par de ideias que estão no meu livrinho A crise do jornalismo tem solução? (ATUALIZAÇÃO: um vídeo com esta participação está aqui)

No dia 23, estarei no seminário Desinformação e Pandemia, que Ronaldo Henn e os colegas da Unisinos estão promovendo. Participo de um eixo que vai discutir Dimensões éticas implicadas nas fake news e interfaces com sistema jornalístico com Felipe Moura de Oliveira.

No dia 27, converso com os alunos do curso de jornalismo da UFMT-Araguaia, liderados pelo professor Edson Spenthoff. O tema é as fake news, nas novas e as velhas formas de desinformação.

No dia 28, a convite de Vitor Blotta e Ben-Hur Demeneck, dialogo com os pesquisadores do grupo Jornalismo, Direito e Liberdade da ECA/USP sobre jornalismo e poderes das liberdades de comunicação.

Se não houvesse essa maldita pandemia, eu teria passado por cinco estados diferentes (BA, ES, RS, MT, SP), encontrado gente querida e dialogado de perto com elas. Com o vírus, tudo será mediado por telas… Estou muito grato por esses convites e pela oportunidade de trocar ideias e aprender com todos esses amigos queridos. Isso a pandemia não me tira!

Leituras sobre jornalismo para jornalistas

O Reuters Institute for the Study of Journalism, ligado à Universidade de Oxford, reuniu um conjunto de textos que considera referenciais sobre jornalismo. O guia é para jornalistas e está organizado em temas como comportamento da audiência, credibilidade, desigualdade e polarização, entre outros.

Como qualquer lista, esta é incompleta, embora seja bem ampla e interessante. É útil, mas totalmente focada em textos escritos em inglês, o que permite que eu volte a me queixar de uma coisa: os anglo-saxões parecem simplesmente ignorar ou desprezar tudo o que se produz e publica para além do umbigo anglófono. Se você acha que estou exagerando, apanhe um livro ou artigo influente da lista e vá até a bibliografia citada. Encontrou alguma referência em francês? Em espanhol? Em russo? Em chinês? Em árabe?

Se a sua resposta é “não, não encontrei”, não caia na armadilha de considerar que o resto do mundo que fala outras línguas não produza contribuições científicas. Há cientistas sérios, competentes e capazes em todas as partes. A questão é mais ampla e ela tem a ver com imperialismo linguístico, disputas geopolíticas e definições de validade acadêmica. É complexo e não vou resolver isso neste post. Apenas lanço uma pedra na água: se você fosse adicionar textos à lista da Reuters, textos escritos em outras línguas que não o inglês, que textos sugeriria?

Uma pesquisa sobre jornalismo e transparência

Estou desenvolvendo uma pesquisa sobre transparência no jornalismo. Se você é jornalista, que tal responder algumas perguntas sobre este tema? É rápido e, no final, te presenteio com uma surpresinha.

A pesquisa tem patrocínio do CNPq e ela foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da minha instituição, a UFSC. Todos os detalhes técnicos e burocráticos estão aqui.

Para participar, precisa ser jornalista em atividade no mercado. O questionário está aqui

Obrigado por participar e por compartilhar com seus colegas.

Em nome da “liberdade”, meios desinformam em Santa Catarina

(Publicado originalmente no S.O.S. Imprensa)

A pandemia da covid-19 tem produzido estatísticas aterradoras, cenários dramáticos e grandes acrobacias discursivas. Governos se esforçam para nublar sua incapacidade de evitar mortes, e autoridades justificam porque não precisam usar máscaras em lugares públicos, como mandam os decretos. Não bastassem mais de 105 mil mortes no país e uma quantidade incontável de sofrimento, estamos também sob forte bombardeio de informações falsas, duvidosas ou simplesmente falaciosas. Em Santa Catarina, por exemplo, há veículos de imprensa que, sob o pretexto de defender liberdades, estão contribuindo com a epidemia de desinformação. É o caso do Grupo ND, que levantou a bandeira da “liberdade de tratamento”.

Em um polêmico editorial em seu jornal impresso, reproduzido também no portal de notícias e na emissora de TV (retransmissora da Rede Record), o Grupo ND vociferou que não era mais possível “aceitar a tutela do Estado” no combate à doença, e que cabia a doentes e médicos decidirem a melhor cura. O desprezo às recomendações de autoridades sanitárias internacionais veio no meio de julho, justamente o momento em que Santa Catarina começou a flexibilizar suas medidas de biossegurança. Foi quando o governador lavou as mãos, repassando a responsabilidade aos prefeitos. O relaxamento fez os números de casos e mortos triplicarem em semanas, ao mesmo tempo em que um prefeito de formação médica propalava o uso de cloroquina, ivermectina e até aplicações retais de ozônio.

Sob o pretexto de defender uma liberdade, a de se tratar, o conglomerado simplesmente renunciou à responsabilidade dos meios que abriga: informar com precisão e atrelado aos fatos. Sem estudos clínicos que comprovem sua eficácia, os tratamentos experimentais acabaram ganhando o mesmo status de importância e espaço no noticiário, o que contribui para a confusão popular. Com sua bandeira libertária, o ND vem alimentando um ecossistema de desinformação que pode matar. Assim, ganha força o discurso anti-científico, o negacionismo e o curandeirismo.

O que é preciso dizer é que a postura do Grupo ND é tão verdadeira quanto o efeito salvador desses medicamentos. Sua argumentação é sofismática porque ninguém acredita que o conglomerado esteja mesmo preocupado com a liberdade de tratamento das pessoas. Se assim estivesse, teria incluído em seu editorial o uso medicinal de canabidiol, por exemplo. No fundo, o que o grupo empresarial defende é a redução de supostas interferências estatais na vida social. Em recente entrevista, o empresário Marcello Petrelli fez saber sua visão de Estado mínimo, e de como não enxerga seu conglomerado de mídia entre as elites que comandam Santa Catarina. Em um discurso ambíguo, reconhece os governos, mas tenta se desvencilhar deles, históricos aliados.

Igualmente contraditória é a postura que desdenha de cientistas e autoridades sanitárias, mas relega a médicos a prerrogativa de decidir a melhor prescrição à covid-19. Isto é, o Grupo ND só reconhece a autoridade que lhe convém, seja um Estado que não melindra seus negócios ou uma política pública de saúde errática e frágil.

Mas uma empresa de comunicação não pode marcar posição sobre esses temas? Claro que pode, é um direito opinar e debater temas importantes. Mas os interesses de grupos privados não podem prevalecer sobre os interesses coletivos e a lei. A saúde e a vida são de interesse de todos, e grupos de comunicação precisam dar especial atenção a assuntos delicados que podem causar mortes. Não é ético nem moralmente defensável que um conglomerado jornalístico desinforme, confunda e desoriente seu público, a pretexto de defender liberdade de escolha. A mídia precisa ter responsabilidade sobre o que divulga, pois isso pode afetar decisivamente a vida individual e em sociedade. Sem essa preocupação, o jornalismo abandona sua finalidade pública: servir a população, provendo a coletividade de informação confiável, verdadeira e de qualidade.

Se a opinião do Grupo ND ficasse restrita a um editorial, poderíamos conter melhor os estragos. Mas não foi um gesto isolado. Faz parte de uma questionável convicção e de um perigoso projeto editorial. Em 14 de agosto, o ND celebrou um remodelado projeto gráfico de seu jornal e as novas estratégias de “sinergia” entre suas redações. Relembrou as bandeiras que defendeu em catorze anos de atuação em Santa Catarina, e mais uma vez soltou o grito de independência de tratamento. No alto da página e ao longo do texto, reproduziu fotos de divulgação do sulfato de hidroxicloroquina…

Democracia está em risco e depende muito do jornalismo

Nesses dias conturbados, de perseguições, censura e ataques a diversas camadas da sociedade, a democracia brasileira corre perigo e o jornalismo profissional pode ajudar muito a protegê-la. Falo sobre isso nesta entrevista que dei à colega Vera Sommer para a revista Vozes & Diálogo, da Univali.

Live do sindicato discute pós-graduação em jornalismo

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina promove amanhã, quinta-feira (06/08), às 20h, o debate “Mestrado e doutorado em jornalismo: ajuda ou atrapalha?”. O evento é a quarta live da série “Sindicato Ao Vivo”. Participo do debate junto com os jornalistas Amanda de Souza Miranda, Maurício Frighetto e Magali Moser.

O debate tem mediação da jornalista Cristina De Marco.

Para acompanhar a live, basta acessar Facebook do SJSC.

Mais uma live: Ética no jornalismo, pandemia e fake news

Participo hoje de uma live promovida pelo NUJOC Checagem, da Universidade Federal do Piauí, sobre ética no jornalismo, pandemia e fake news. A atividade tem moderação do professor Marcio Granez e acontece a partir das 19 horas. Se quiser acompanhar, vá por aqui: https://is.gd/DialogosdeChecagem

 

Bolsonaro contra o jornalismo, uma entrevista

Nesta semana conversei com a Vivian Menezes, do programa Mundo Político, sobre a guerra que Jair Bolsonaro declarou contra o jornalismo desde que assumiu a presidência da República. O programa é uma das atrações da grade da TV Assembleia de Minas.

Ética jornalística e desinformação: o vídeo do debate

SBPJor promove debate sobre ética e desinformação

Acontece hoje (8) à tarde, a partir das 16 horas, um debate promovido pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) sobre ética jornalística e desinformação. O evento faz parte do ciclo “A pesquisa em Jornalismo em tempos de Covid-19”, e é o segundo debate da série.

Estarei com a Silvia Moretzsohn falando sobre o assunto, com mediação do Rafael Bellan.

Para acompanhar e fazer perguntas, basta “sintonizar” nos perfis oficiais da SBPJor no Youtube e no Facebook.

Poder, emoção e desinformação: um evento

O Labcom da Universidade da Beira Interior, Portugal, vai realizar sua terceira edição das Jornadas Internacionais “Patologias e Disfunções da Democracia em Contexto Mediático”, que tem como tema “Poder, Emoção e Desinformação”. O evento acontece em 7 e 8 de maio, na UBI.

Os organizadores recebem até dia 30 de março resumos de artigos para apresentação e posterior publicação. Se interessou?

Mais detalhes…

 

O tema

“Poder, Emoção e Desinformação” é o tema selecionado para esta edição, que pretende reunir os investigadores de Ciências da Comunicação, Ciências Sociais e Humanidades (Ciência Política, Teoria Política, Filosofia Política, Sociologia Política, Psicologia, Economia) e Artes (Design, Media Artes e Cinema), sem minimizar e, antes, estimular a abertura a áreas como Engenharia Informática e as Ciências da Computação.

Chamada de resumos

As 3ªs Jornadas Internacionais “Patologias e Disfunções da Democracia em Contexto Mediático” centram-se em três temas, que serão abordados em três painéis plenários e em três conjuntos de sessões paralelas:

  1. Desinformação e “fake news”. Por um lado, pretende-se avaliar fenómenos de visibilidade / invisibilidade, silenciamento e ocultação nos processos de informação jornalística.  Por outro lado, pretende-se identificar a intervenção de agentes de comunicação política especializados (assessores, spin doctors, influenciadores, agências de comunicação estratégica e outras formas de intervenção ligadas aos poderes fácticos).
  2. Datificação do espaço publico. Neste item pretende-se refletir sobre a dimensão tecnológica da manipulação. Entre as múltiplas possibilidades que os  interessados e participantes podem percorrer, contam-se  a identificação de perfis e preferências de utilizadores; a utilização maciça de dados e a sua transferência para contextos manipulativos de diversos níveis; as possibilidades abertas de concretização de simulacros e de simulações tornados possíveis pela realidade virtual; a realidade aumentada  e outras tecnologias digitais; a manipulação de emoções e de desejos através do conhecimento das características da audiência, o uso de algoritmos e as suas consequências.
  3. Pós-verdade. Em torno desta palavra-chave, pretende-se descrever, analisar e proceder à indagação dos motivos que possibilitam teses negacionistas, de revisionismo histórico, e particularmente, de descrença na ciência e nas conquistas da mesma, manifestos em fenómenos como o regresso do criacionismo, a discussão em torno das vacinas, a negação da esfericidade da terra ou, pior, a negação obsessiva das alterações climatéricas.

 

Cada um destes três temas dará origem a uma conferência ou mesa redonda, seguida de três sessões paralelas, de quatro pessoas cada (total de 36 intervenções).

Modalidades de participação

Privilegiam-se trabalhos empíricos e teóricos que envolvam debates em contexto mediático e comunicacional relativamente recentes em qualquer uma destas vertentes.

Serão bem-vindas abordagem empíricas e de estudos e de caso, bem como as abordagens teóricas complementadas com exemplos. As análises e as reflexões podem incidir em processos comunicacionais online ou offline, ou complementares.

Resumos

Os resumos devem ter um máximo de 400 palavras (excluindo tabelas, figuras e referências), incluir 3 a 5 palavras palavras-chave, devendo ser escritos em português, espanhol e Inglês – as línguas consideradas nas 3ªs Jornadas Internacionais “Patologias e Disfunções da Democracia em Contexto Mediático”. A submissão deve ocorrer até 30 de março.

Devem descrever o tópico da pesquisa e a abordagem teórica e metodológica. Imagens / tabelas / gráficos são permitidos no resumo, mas não são contabilizados na contagem de palavras. Todos os resumos serão submetidos a uma revisão por pares.

Os resumos devem ser anexados ao email, sem referências ao(s) autor(es). Os detalhes do autor (nome, afiliação e detalhes de contato) devem ser incluídos no corpo do email, a submeter para os endereços jcorreia@ubi.pt, agradim@ubi.pt, ricardo.morais@labcom.ubi.pt e pj@ubi.pt.

A apresentação final pode ser feita numa das línguas consideradas, isto é, português, inglês ou espanhol, mas acompanhadas de dispositivos (ppt) e com resumos e tópicos essenciais escritos em inglês.

Mais informações serão publicadas brevemente na página do evento ou podem ser obtidas através dos endereços de email indicados.

Inscrição

1ª fase – até 15 de abril (registro antecipado)

1 – Professores de instituições de ensino superior: 100 euros

2 – Estudantes e bolseiros de investigação das instituições de ensino superior: 60 euros

2ª fase – entre 15 de abril e 2 de maio

1 – Professores de instituições de ensino superior: 150 euros

2 – Estudantes e bolseiros de investigação das instituições de ensino superior: 110 euros

ISENÇÕES DA TAXA DE INSCRIÇÃO

Professores, pesquisadores e estudantes da Universidade da Beira Interior, bem como qualquer membro do Comitê Científico com uma proposta aceita, estão isentos de pagamento, mas ainda devem formalizar sua inscrição, enviando as informações solicitadas.

PROCEDIMENTOS DE PAGAMENTO

Transferência bancária para a Universidade da Beira Interior

BANCO: Santander

NIB: 0018 0003 2322 0304 0208 9

IBAN: PT50 0018 0003 2322 0304 0208 9

CÓDIGO SWIFT: TOTAPTPL

No caso de despesas significativas devido a transferência bancária internacional, o pagamento será possível no momento da chegada, se essa modalidade for solicitada pelo participante por email endereçado à organização. No entanto, o participante deve enviar, em qualquer caso, o email de inscrição para os endereços referidos com a identificação do autor e com a indicação expressa de que o pagamento será processado na receção da conferência.

Crise do jornalismo: caminhos

Se você se afoga em números que mostram que o jornalismo sofre de uma crise terrível e cujo horizonte de sobrevivência está mais longe do que nunca, calma. Você não está sozinho. Eu também me nutro desse necessário veneno. Mas nem tudo são gráficos em vermelho, e há quem formule e pense soluções (sim, eu também).

O Laboratorio de Periodismo da Fundación Luca de Tena, da Espanha, listou esta semana três mudanças básicas que podem ajudar a recuperar a confiança nos meios de comunicação:

  1. Transparência radical: Ok, concordo. Todos concordam, mas quem se dispõe? A questão da transparência esbarra em muitas travas de caráter financeiro (ela gera despesas extras e pode comprometer fontes de ganhos), político (pois estremece focos de poder dentro das instituições) e culturais (jornalistas são tradicionalmente impermeáveis a mostrar e reconhecer erros e falhas). É um tema do momento e não pode ser considerado uma preocupação vã ou passageira…
  2. Ser confiável e ser coerente: Ok, ótimo. Mas há uma questão a ser resolvida: se se espera que um veículo seja plural e diverso, quanto de coerência se pode esperar dele? Superar esse impasse ajuda a definir uma espécie de lugar de fala do veículo, o que tem a ver com a próxima mudança…
  3. Ser “um dos nossos”: Ok, excelente! E esta dimensão tem a ver com prioridades editoriais e a necessidade de refazer pactos com os públicos, tendo diálogos mais abertos, constantes e horizontalizados. Requer disposição de quem dirige os meios e de quem os opera. Alguns jornalistas mais jovens demonstram menos resistência a essas trocas, mas sabem que – no dia a dia – elas implicam em mais trabalho e eventualmente mais desgaste público. É uma questão complexa, mas igualmente inadiável…

 

Da Inglaterra, David Caswell lista para o BBC Labs outras cinco ideias para ajudar a inovar no jornalismo em 2020:

  1. Proporcionar aos públicos produtos jornalísticos com valor único diante do que é oferecido. Só assim, os meios podem conseguir alguma vantagem competitiva no mercado da atenção…
  2. Romper com a dependência das plataformas digitais para construir relações diretas com seus públicos. Acho sensacional e urgente isso. Escapar das garras das Big Techs é um fator de sobrevivência imediata do jornalismo.
  3. Entregar notícias que correspondam às necessidades reais dos públicos. É óbvio, mas ironicamente tem sido cada vez mais difícil e raro…
  4. Restabelecer a confiança com os leitores entediados e que, aparentemente, abriram mão do jornalismo. Sim, é uma espécie de resgate, pois esse público é crescente.
  5. Preservar os valores do jornalismo e manter a perspectiva editorial humana. Também parece óbvio, mas não custa repetir.

Como jornalistas podem reagir aos ataques de Bolsonaro?

(publicado originalmente no objETHOS)

Ele já te constrangeu publicamente, disse que você só espalha mentiras. Já te ofendeu, falou da sua mãe e “deu uma banana” para o seu trabalho. Constantemente, não respeita o que você faz, e te xinga porque você é mulher ou porque trabalha para esse jornal ou aquele. Seus subordinados já te impediram de participar de entrevistas coletivas, e tentaram convencer empresas a não anunciar mais nos veículos em que você trabalha. Milícias virtuais te perseguem nas redes sociais, muitas vezes instigadas pelo desprezo que ele tem por você. Não é novidade nenhuma que Jair Bolsonaro – o presidente da república – odeia o jornalismo e os jornalistas, e faz de tudo para atacá-los. A questão é: como reagir a isso?

Vamos admitir, ele não está sozinho nessa. Ministros, deputados e governadores também apontam o dedo acusador para a imprensa, diante de perguntas incômodas (mas necessárias) e questionamentos firmes (e legítimos). Empresários, pseudo-celebridades, bots e valentões de redes sociais também babam de raiva contra repórteres. Bolsonaro não está sozinho e sua postura encoraja outros a atacarem o jornalismo. Se o presidente faz, é porque está liberado fazer! Mas a verdade é que ele não pode alimentar e espalhar esse ódio contra os jornalistas. E não pode usar a posição que ocupa para atacar pessoas ou organizações, apenas porque elas o desagradam. É covarde, antidemocrático e, em algumas situações, ilegal.

Nesta semana, tivemos mais um caso de ataque coordenado para descredibilizar a imprensa: um depoente na CPI das Fake News mentiu ao dizer que uma repórter se insinuou sexualmente para obter informações. O ataque não partiu do terceiro andar do Palácio do Planalto, mas foi endossado por um dos filhos do presidente e ganhou corpo nos esgotos das redes sociais. Como reagir a isso?

Um grupo corajoso e expressivo de mulheres jornalistas mostrou como: coletivamente. Produziu um manifesto contra a agressão misógina, levando organizações e pessoas a se posicionarem publicamente sobre isso. Os céticos poderão dizer que abaixo-assinados não resolvem os problemas do mundo, e eles estão certos. Mas a resposta aos ataques de Bolsonaro e companhia passa necessariamente pela ação coletiva e pela organização dos jornalistas.

Se os super-ricos se reúnem em Davos, se os grandes industriais almoçam juntos na Fiesp, se os patrões incham os cofres das suas associações classistas, por que o jornalista – que é bem mais fraco – deve enfrentar esses ataques sozinho? Repórteres, redatores, editores, produtores de conteúdo precisam buscar seus sindicatos e associações jornalísticas, pois são ambientes que podem protegê-los e que podem organizar reações.

Organização e ação

É suicídio tentar reagir sozinho às provocações dos poderosos de plantão, já que, muitas vezes, o jornalista não encontra amparo ou apoio na empresa que em trabalha. O departamento jurídico não dá respaldo, os superiores não fornecem orientações ou equipamentos de segurança. O profissional se vê solitário, cercado por quem o odeia, sem muita chance para responder.

É preciso reagir coletivamente à agenda anti-jornalística que querem impor ao país. Jornalistas não podem ser ofendidos quando estão fazendo o seu trabalho. Não podem ser perseguidos por autoridades, constrangidos publicamente, e linchados nas redes sociais apenas porque investigam, apuram informações ou fazem as perguntas certas nos momentos incertos.

Os sindicatos, os coletivos profissionais e as associações são os lugares certos para reorganizar a categoria porque são ambientes legítimos, representativos e construídos coletivamente. Você pode até não concordar com os rumos que o seu sindicato está tomando, mas como associado pode criticar, cobrar e disputar posição. Você pode até não acreditar no sindicato como instituição de luta, mas vai se organizar onde e de que forma? Você pode achar que não vale a pena agir coletivamente porque abomina toda forma de corporativismo, mas vai apanhar sozinho enquanto seus algozes agem em bandos? Não precisamos inventar a roda de novo! Se essas entidades já existem, por que não encontrar nelas os meios de reagir às agressões que sofremos? Por que não discutir dentro delas as maneiras de garantir dignidade e respeito profissional?

Nos sindicatos, na Fenaj e na Abraji, podem ser implementados programas de proteção a jornalistas, e podem ser oferecidos cursos de capacitação e segurança. Nesses locais, podem ser debatidos meios jurídicos para se contrapor a ataques, e podem ser formulados projetos de lei que assegurem condições profissionais seguras. Campanhas de valorização da categoria podem ser gestadas, e formas de diálogo com outras entidades e a sociedade podem ser criados.

Enfim, há muitos caminhos a serem trilhados, mas a jornada é coletiva. Em grupo, fazemos mais barulho e somos mais numerosos. Em grupo, somos mais inteligentes, mais fortes e chegamos mais longe. A unidade, o senso coletivo e alguma disposição para cooperar podem nos tirar da imobilidade em que estamos, sendo ofendidos, oprimidos e perseguidos. Isso tem acontecido porque estamos fazendo jornalismo, e tentando garantir o direito à informação de cidadãos e cidadãs. Algumas forças se opõem a essa condição. Oferecer resistência é uma obrigação moral de cada jornalista. Precisamos de imaginação e organização para reagir, porque fortalecer o exercício profissional é fortalecer o jornalismo e a democracia.

3 links sobre jornalismo para 2020

2020 já é!

Que tal três linquezinhos espertos sobre jornalismo no Brasil?

  • Nativojor: o site é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso da jornalista Fernanda Giacomassi, e o objetivo é oferecer um panorama dos veículos nativos digitais brasileiros. Vale navegar com calma, ler as entrevistas e conhecer as iniciativas. É inspirador, ideal para o início de um ano…
  • Por falar em gente inspiradora (e corajosa!), Sérgio Spagnuolo e Alexandre Orrico juntaram alguns cacos e vários talentos para criar o Núcleo, empreendimento de jornalismo de dados, cujo foco é transparência.
  • E para falar de jornalismo por aqui é essencial ler as projeções de especialistas deste especial do Farol Jornalismo e da Abraji.

 

Comunicação e gênero, um congresso internacional

É em Sevilha (Espanha), em 19 e 20 de março, e você já pode enviar sua proposta de comunicação.

Mais informações aqui: https://gendercom.com/

Um livro sobre privacidade e transparência

Amanheci ontem com uma ótima notícia: a Egregius Ediciones, de Sevilha, publicou o livro “Privacidad, Transparencia y Éticas Renovadas”, que organizei a partir de um simpósio que coordenei no 4º Congreso Internacional Comunicación y Pensamiento.

O livro traz sete capítulos assinados por pesquisadores espanhóis, portugueses e brasileiros tratando de temas emergentes como a proteção de dados, a necessidade de transparência na mídia, e as tensões que a privacidade cria no fazer jornalístico.

Para baixar o livro gratuitamente, basta ir por aqui

Guerra entre Bolsonaro e jornalistas deve continuar em 2020

O ano de 2019 foi um ano pra lá de tenso nas redações, não só por causa de demissões e fechamento de títulos, mas também porque cobrir os atos do governo de Jair Bolsonaro foi, digamos, mais insalubre do que imaginávamos.

Houve violência verbal, truculência, ameaças e medidas arbitrárias vindas do principal ocupante do Palácio do Planalto…

Você acha que a guerra entre o presidente e o jornalismo profissional vai amainar em 2020? Eu acho que não, e explico tim-tim por tim-tim neste artigo especial para o objETHOS.

ATUALIZAÇÃO de 13/12/2019: Falei um pouco mais sobre isso com a jornalista Kassia Nobre do Portal Imprensa. Veja aqui a entrevista.

Bolsonaro dá uma canetada e acaba com registro de jornalista

(publicado originalmente no objETHOS)

Os ataques do governo Bolsonaro ao jornalismo são tantos e tão frequentes que já deveríamos estar acostumados. Surpresos, já não ficamos mais, é verdade, mas não dá pra se acostumar com homens públicos que desprezam o debate público, que perseguem jornalistas e fazem de tudo para impedir que a sociedade seja bem informada. O presidente já hostilizou repórteres, mandou cancelar assinaturas de jornais, editou atos que interferiram nos negócios de empresas de mídia, distribuiu politicamente verbas publicitárias e vem sufocando o sistema público de comunicação. O que mais pode ser feito para acabar com o jornalismo?, deve ter se perguntado o presidente da república em seu gabinete no terceiro andar do Palácio do Planalto.

A resposta veio na semana passada, na forma de mais uma canetada para atingir em cheio os jornalistas: ao criar modalidades mais flexíveis de contratação – o chamado Programa Verde e Amarelo -, Bolsonaro não perdeu a chance de alterar a legislação trabalhista e de extinguir direitos. Por meio da Medida Provisória 905, o presidente da República simplesmente revogou artigos do Decreto-Lei nº 972/69, que regulamenta a profissão de jornalista. O mais grave ataque foi ao registro profissional, que deixou de ser obrigatório para o exercício da função. Com isso, qualquer pessoa pode atuar no país como jornalista, sem qualquer exigência formativa ou legal.

A medida revoltou setores organizados no jornalismo. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) emitiu nota apontando inconstitucionalidade na decisão presidencial, e entidades acadêmicas como a Intercom, a associação de ensino do jornalismo (Abej) e a de pesquisadores da área (SBPJor) também criticaram publicamente a ação. Escamoteada em meio ao Programa Verde e Amarelo, a extinção da obrigatoriedade dos registros de jornalistas é um golpe direto no exercício desses profissionais, pois desregulamenta o setor, fragiliza a categoria e escancara as portas do mercado a aventureiros, sem qualquer formação específica, responsabilidade social ou preocupação ética.

A edição da MP precipitou reuniões de emergência em sindicatos de todo o país, e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) – que não tem função classista, mas de interface com a sociedade – reproduziu as preocupações da Fenaj e está em articulação com a entidade ações para “enfrentar essa onda de ataques à profissão”. Um das ofensivas é convencer os parlamentares a não aprovar a medida provisória na íntegra, vetando os trechos que colocam em risco as regras de entrada profissional. Pressionado, o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM-RJ), prometeu atuar para deter o ataque.

Em termos práticos, acabar com a obrigatoriedade do registro de jornalista não ajuda o jornalismo, nem a sociedade. Só contribui para quem quer aumentar a disseminação de fake news, de boatos, mentiras e informações mal apuradas. Só auxilia quem quer corroer ainda mais a credibilidade do jornalismo profissional e quem quer controlar por completo o fluxo de informações. A medida é um gesto de truculência à organização de uma categoria profissional que, legitimamente, lutou para ser reconhecida pelas leis e pelo Estado, e que tem finalidade pública. A medida visa a desestabilizar ainda mais repórteres e editores nas redações, precarizando o seu cotidiano e voltando parcelas raivosas da sociedade contra o seu trabalho. A decisão de Bolsonaro não ajuda sequer as empresas de mídia, pois dispensar o registro não significa economia nas contratações. Desde a decisão do Supremo Tribunal Federal de junho de 2009, que tirou a obrigatoriedade do diploma para exercer o jornalismo, as empresas do setor perceberam que empregar bons profissionais é investir em jornalistas bem formados. Empregar pessoas que nem tenham registros de jornalistas é apostar na incerteza, na sorte de contar com alguém que possa cumprir uma função tão complexa e delicada.

Imagine, por exemplo, se o governo federal emitisse um decreto dispensando os médicos de obterem seus registros profissionais. Possivelmente, muita gente tentaria se colocar no mercado de trabalho, oferecendo-se para clinicar, mas teríamos uma medicina melhor? A resposta é uma só: não. Assistiríamos a um festival de barbaridades nos consultórios e hospitais. O mesmo vai se dar com o jornalismo. Não é precarizando a profissão, desorganizando a categoria e desregulamentando o setor que melhoramos o jornalismo. Para aumentar a qualidade de nossos produtos e serviços e para reforçar os nossos padrões éticos, precisamos intensificar a qualidade das empresas de mídia e a qualificação dos jornalistas. Com a MP nº 905, podemos esperar um sinistro festival de fake news, de propaganda travestida de informação, e de mentiras.

Acabar com a obrigatoriedade do registro profissional é só mais uma etapa na agenda anti-jornalística de Jair Bolsonaro e de políticos que detestam o debate público, que impedem os cidadãos de ter acesso às notícias críticas ao governo, e que não querem se submeter ao julgamento da sociedade. É um ataque ao jornalismo, mas é uma afronta à democracia e ao direito à informação ética e de qualidade das pessoas.

Lula Livre como manchete? Não rolou

No Twitter, perguntei quantos jornais dariam a manchete mais manjada dos últimos anos. A resposta veio hoje. Nenhum grande jornal brasileiro manchetou “Lula Livre”.

O que isso quer dizer? Arrisque responder.

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SBPJor em Goiânia

Começa amanhã, 6, a 17ª edição do Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, promovido pela SBPJor. O evento é o maior do país na área e este ano acontece na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia.

A programação pode ser conferida aqui, e os anais já estão disponíveis, de graça, aqui.

Estou a caminho e participo de várias atividades: estarei na mesa “Ética Jornalística e Qualidade da Informação”, com Ana Carolina Rocha Temer (UFG), Josenildo Guerra (UFS) e Danilo Rothberg (UNESP); na mesa coordenada “Trabalho e Identidade dos Jornalistas: em busca de modelos de governança social para superar a crise na profissão”, com meus colegas pesquisadores do projeto GPSJor; e também lançarei meu recente livro “A crise do jornalismo tem solução?”.

Passarei ainda pelo seminário de pós-graduação em jornalismo e pela reunião das redes de pesquisa, com meus amigos da Rede Nacional de Observatórios da Imprensa (Renoi).

O encontro termina na noite do dia 8.

UFSC explica o que é liberdade de imprensa

Jornalismo, democracia e dados abertos, um evento

Daqui a dois dias, na sexta, 27, o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) vai realizar o evento Jornalismo, Democracia e Direito à Informação, uma jornada para debater dados abertos, cidadania informada e limites do jornalismo e do estado democrático de direito no Brasil. Nossos convidados são Sylvia Moretzsohn, Samuel Lima, Breno Costa e Maria Vitória Ramos, e a programação pode ser conferida aqui.

O evento é gratuito, aberto a todos, e teremos transmissão em tempo real pelo TwitterRádio Ponto UFSC e TJ UFSC.
A jornada marca os 10 anos do objETHOS, os 20 anos da Rádio Ponto e os 40 do Departamento de Jornalismo da UFSC.

Ética, mercado de trabalho e crise do jornalismo

Os cursos de Comunicação da Faculdade Ielusc, de Joinville, estão realizando desde ontem, 10 de setembro, a 9ª Semana Integrada de Comunicação. O evento vai até amanhã, 12, e pra fechar, vou falar um pouco de ética jornalística, mercado de trabalho e a crise que se abate sobre o jornalismo. Vou aproveitar também para lançar naquela cidade o livro “A crise do jornalismo tem solução?”

Para saber mais da semana, veja aqui.

Para saber mais do livro, aqui.

Comentarista faz vista grossa para aparelhamento de Bolsonaro na UFFS

O presidente da República decidiu ignorar a decisão da comunidade acadêmica na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e nomeou o terceiro colocado na consulta. Na imprensa catarinense, ao menos um comentarista celebrou a medida e não perdeu a chance para atacar o PT. Comentei em detalhes no site do objETHOS.

Patrões da mídia do sul querem um jornalismo vassalo

Líderes da mídia regional do sul do país foram tomar café com o presidente da República e demonstraram seu ímpeto bajulador. Contei em detalhes no Observatório da Ética Jornalística (objETHOS).