Ela se foi. Não sei se para sempre, mas já sinto a sua ausência.
Desde ontem a casa se ressente disso. Sem mais nem menos, não temos mais ela por aqui. Desapareceu, sumiu, se foi, escafedeu-se. Sem deixar bilhete, sem avisar, sem mostrar qualquer sinal de descontentamento. E o que me fica é uma mistura de sentimentos: um embrião de saudade, a perplexidade pelo ocorrido, a surpresa da herança que ela deixou. Afinal, se algo lhe faltasse, se tivéssemos brigado, enfim, se tivesse acontecido um rompimento, até seria possível se preparar para essa ausência, mas fui pego de surpresa. Não só eu, todos por aqui.
Mila era dessas presenças constantes. É curioso dizer mas, mesmo com pouco tempo por aqui, já era a dona da casa, a rainha que ocupava pouco espaço, mas que se espalhava por todos os cantos. Seu silêncio era a sua presença, a certeza de que estava por perto. Seu vai-e-vem pelos cômodos era notado, e quando descia as escadas de sua maneira toda especial, acompanhávamos seu andar lânguido, como se não existisse pressa no mundo, e a vida girasse à base de manivela.
Vez ou outra, chegava em casa e trombava com seu olhar, ora cúmplice, ora reprovador. Eu parava diante da porta e ela simplesmente me escaneava com seus olhos azuis. Quando havia bom humor, me cumprimentava e vinha ter comigo. Mas era raro, é verdade. Talvez porque eu lhe desse menos atenção do que merecesse ou pedisse. Talvez porque eu não derramava tanto sentimento ao seu redor. Talvez, talvez… é tarde agora.
Desde ontem não sabemos nada dela. Vasculhei pela vizinhança, mas fiquei envergonhado de perguntar por ela aos vizinhos. O que iriam pensar? Certamente, me reprovariam: esse não cuidava dela direito e agora está esbaforido atrás. Eles teriam razão, mas não me diriam isso de chofre.
A falta de que ela me faz é uma espécie de vergonha que alimento aqui dentro. Pois é um sintoma de que eu não soube amá-la pra valer. Não que não amasse, mas porque não me dedicasse a isso. Não me desse a ela, como ela se entregava a mim e a outros, que amava. Meu filho, por exemplo, mantém a esperança de que Mila volte, que ela saiu em busca de alguma aventura, mesmo que não fosse do feitio dela. Mas ele tem cinco anos e a inocência ainda brilha nos seus olhos. Minha esposa rumina em silêncio. Talvez seja quem mais sinta a falta de Mila, pois era quem mais convivia com ela, a quem hipotecava o mais desabrigado amor. Elas conversavam entre si: a onça e a gata. Vi isso acontecer mais de uma vez.
Também sinto falta de Mila, a quem trocava o nome até pouco tempo atrás. Olhava para ela e chamava por Nina, referência a outros dois amores do passado. Me reprovavam por isso, mas depois virou piada interna. Mas Mila também me cativou, me fez deitar os olhos sobre seu corpo, seu sorriso de esfinge, seu olhar penetrante e seus ruídos discretos. A falta que ela me faz cresce. Talvez porque eu quisesse hoje afagar-lhe mais do que sempre quis. Talvez porque o seu sumiço me faça aprender mais da vida e de mim mesmo. Mas é só uma gata, o leitor pode murmurar. É. Mas gatos têm uma teimosia própria que insiste em nos ensinar que não somos seus donos. Eles é que se apossam de nós, da casa, da rotina. Quando cansam, empoleiram-se sobre o muro e seguem adiante, sem olhar pra trás.