Rosalía nos ensina a rezar diferente

“Lux”, o álbum mais recente de Rosalía, é um escândalo de coisas fortes e belas!

Tem patada irônica com La Perla, tem dramalhão com Sexo, Violencia y Llantas, e tem delicadeza com Sauvignon Blanc. Mas o melhor mesmo é quando ela mistura dores de amor terreno com amor profundo e religioso. Reliquia é minha faixa preferida, mas em La Yugular ela faz algo maravilhosamente novo: nos mostra como um amor transcendental desafia e comporta todas as outras formas de amar. Para mim, Rosalía nos ensina a rezar diferente neste trecho:

Yo quepo en el mundo (Eu caibo no mundo)Y el mundo cabe en mí (E o mundo cabe em mim)Yo ocupo el mundo (Eu ocupo o mundo)Y el mundo me ocupa a mí (E o mundo me ocupa)Yo quepo en un haiku (Eu caibo num haicai)Y un haiku ocupa un país (E um haicai ocupa um país)Un país cabe en una astilla (Um país cabe numa lasquinha)Una astilla ocupa la galaxia entera (Uma lasquinha ocupa a galáxia inteira)La galaxia entera cabe en una gota de saliva (A galáxia inteira cabe dentro de uma gota de saliva)Una gota de saliva ocupa la 5a avenida (Uma gota de saliva ocupa a Quinta Avenida)La 5a avenida cabe en un piercing (A Quinta Avenida cabe num piercing)Un piercing ocupa una pirámide (Um piercing ocupa uma pirâmide)Y una pirámide cabe en un vaso de leche (E uma pirâmide cabe num copo de leite)Y un vaso de leche ocupa un ejército (E um copo de leite ocupa um exército)Y un ejército cabe metido en una pelota de golf (E um exército cabe numa bola de golfe)Y una pelota de golf ocupa el Titanic (E uma bola de golfe ocupa o Titanic)El Titanic cabe en un pintalabios (O Titanic cabe num batom)Un pintalabios ocupa el cielo (Um batom ocupa o céu)El cielo es la espina (O céu é um espinho)Una espina ocupa un continente (O espinho ocupa um continente)Y un continente no cabe en Él (E um continente não cabe nEle)Pero Él cabe en mi pecho (Mas Ele cabe no meu peito)Y mi pecho ocupa su amor (E meu peito ocupa o Seu amor)Y en su amor me quiero perder (E no Seu amor eu quero me perder)
Que bárbaro!

Comissões de ética e o aperfeiçoamento do jornalismo

Nesta semana, publiquei um artigo no Observatório da Imprensa sobre como as comissões regionais de ética, ligadas aos sindicatos, podem contribuir para o aperfeiçoamento contínuo da profissão jornalística.

O texto traz algumas ideias sobre a necessidade de criarmos no país as condições para uma formação permanente para jornalistas, e que também leve em consideração as preocupações com a ética na prática.

Os desafios são muitos, e é claro que eu não tenho respostas e soluções para muitos deles. De qualquer forma, dei meus dois centavos sobre a questão.

Leia o texto na íntegra em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/etica-no-jornalismo/293152/

Musk matador de passarinho

O Twitter sempre foi minha rede social favorita. Sempre.

Ágil, rápido e com API aberta, tinha cara de breaking news e de rádio-corredor. Era único nisso, embora nunca tenha se tornado uma rede com mais de um bilhão de usuários. Nunca chegou perto disso. Mas era a rede dos jornalistas, dos políticos, das pessoas que pareciam ter o que dizer (mais que mostrar) e das pessoas que tinham um humor ligeiro e inteligente. O Twitter foi isso. Era isso.

O tom do parágrafo anterior (e os verbos no passado) têm um jeitão de obituário, e é de propósito. Faz tempo que o Twitter deixou de ser o que era, sendo ultrapassado por concorrentes e encolhendo na sua importância e influência.

Fui um usuário frequente por vários anos numa primeira vez e excluí minha conta quando fiz um detox de redes. Voltei em julho de 2018 e desde janeiro de 2025, não posto mais nada por lá. Fui para o Bluesky – que não é a mesma coisa -, mas me mantém entretido em alguma rede. Funciona como aqueles adesivos de nicotina para quem quer parar, sabe? Minha decisão de largar o Twitter aconteceu porque não tive mais estômago com a guinada do site à ultradireita, os acenos de Elon Musk ao nazismo, e o chorume que vertia de forma espessa na minha timeline. Mudaram o nome, e eu nunca deixei de chamá-lo de Twitter. Mudaram os algoritmos de distribuição de conteúdos e escancaram as portas para o esgoto, e tudo isso me fez bem mal. Mental e emocionalmente. Apesar disso, respirei e pude me dar ao luxo e dei um tchau. Mas nunca perdi ele de vista.

Recentemente, li “Limite de Caracteres”, livro de Kate Conger e Ryan Mac, sobre como o Twitter foi vendido e como seu comprador acabou com o site. Os autores cobriram tudo isso para The New York Times, entrevistaram uma centena de fontes, mergulharam em um oceano de documentos e oferecem um relato rigoroso, detalhado e muito perturbador. Já sabíamos que o comprador era infantilóide, egóico, mimado, temperamental e vaidoso. Mas ele também se mostra autoritário, mimado, instável, paranoico, imperial; autocentrado, incapaz de lidar com críticas e avesso a ouvir pessoas. Nas quase 500 páginas do livro, ele não é só o homem mais rico do mundo, mas também um personagem vingativo, mesquinho, e arrogante. Do tipo que faz demissões em massa às vésperas do pagamento de bônus para os empregados, justamente para não ter que honrar com esse compromisso. Do tipo que dispensa sem qualquer crise de consciência mulheres grávidas, em licença maternidade e pessoas que dependem do trabalho para manter seus vistos.

As decisões apressadas, mal pensadas e inesperadas de Musk foram minando o Twitter dia-a-dia. Seus frequentes recuos e mudanças repentinas também. O desrespeito aos usuários, anunciantes e empregados era a tônica da relação do dono com seu brinquedo. Nem os investidores que o ajudaram a arrematar a fatura foram poupados.

O Twitter foi sangrando nas finanças e se deteriorando rapidamente como a sonhada praça pública. Liberdade de expressão se confundiu com capricho. Debate público tornou-se ambiente de assédio, bullying e violência. Musk foi o menino malvado que não soube apanhar o passarinho que caiu do ninho. Na sua ânsia de tê-lo só para si, esmagou o bicho. Para sempre.

PS – Sim, excluí minha conta do Twitter mais uma vez. Pelo jeito, foi a última.

Bolsonaro e sua accountability autoritária

A democracia não se resume à eleição de representantes e à repartição de poder. Há mais coisas sobre a mesa, e uma delas é a prestação pública de contas por autoridades. A coisa tem nome de difícil tradução – accountability -, mas de fácil entendimento: quem exerce uma função ou cargo público precisa dar satisfações a quem tem o poder mais supremo: a população, o eleitorado, o povo.

Enquanto era presidente da República, Jair Bolsonaro não convocava entrevistas coletivas, não tolerava coberturas críticas nem questionamentos. Seu governo não foi conhecido por sua simpatia por transparência e abertura. Nas quintas-feiras à noite, ele até fazia suas lives no YouTube, simulando se dirigir à população sem intermediários, mas falando apenas o que queria sem nenhum contraponto ou perguntas mais delicadas.

Danilo Rothberg, professor da Unesp, eu, e Fernando de Oliveira Paulino, professor da UnB, chamamos a estratégia de Bolsonaro de Accountability Autoritária, e escrevemos um capítulo sobre o tema. Saiu agorinha no livro Understanding Accountability: New Perspectives on a Fractured World, organizado por Mathew Flinders, Gergana Dimova e Chris Monaghan (Ed. Routledge). Saiba mais aqui.

Erro jornalístico ou fake news?

Acaba de sair mais uma edição da Rumores, revista da USP especializada em crítica de mídia.

Assino com a professora Lívia de Souza Vieira (UFBA) o artigo “Erro jornalístico ou fake news? Tensões técnico-conceituais no ecossistema digital”, que aborda um tema que nos preocupa há anos!

Acesse grátis: https://revistas.usp.br/Rumores/article/view/236338

 

Alfabetização midiática: um dossiê

A revista Eco-Pós acaba de publicar um dossiê completíssimo sobre alfabetização midiática. São mais de 400 páginas com artigos, entrevistas e resenhas, e mais 200 com conteúdos sobre outros assuntos. Você pode acessar a edição completa aqui.

Eu colaboro com o dossiê com um artigo em que proponho um programa de news literacy fundamentado em crítica de mídia e em ética jornalística. O artigo acaba juntando um punhado de ideias minhas acumuladas nos últimos 25 anos, a partir das minhas experiências com observação e crítica do jornalismo e com pesquisas sobre ética jornalística. Se interessar, vá direto ao artigo.

O dossiê tem uma capa caprichada, edição cuidadosa e é um excelente material para docentes, comunicadores e todas as pessoas que se interessam por este importante tema.

10 coisas que aprendi numa viagem a Angola

Passei uma semana em Luanda e região, e como informação nunca é demais quando se vai para um destino desconhecido, lá vão alguns conselhos que ninguém pediu, mas que podem ser úteis…

  1. Abandone a ideia de encontrar algum guia de viagem: varri livrarias, bibliotecas públicas e lojas online e não encontrei um título sequer sobre Angola. Fiquei meses procurando e nada. Um absurdo já que existem editoras internacionais especializadas nesse tipo de livro e que Angola é um importante país no sul da África. É sempre muito bom levar um guia numa viagem porque facilita a vida, mas desta vez, fiquei sem. Esse vácuo pode desencorajar o viajante, mas insisto: vá a Angola! Conheça o país e faça também o seu manual de sobrevivência a partir disso…
  2. Não se assuste com as filas da imigração: elas são longas e você vai conhecê-las logo que sair do avião, pois o serviço de imigração está ao lado da pista do aeroporto. Mas calma. Os agentes costumam ser rápidos, e se você tem passaporte brasileiro, nem precisa de visto.
  3. Não esqueça da vacina e dos remedinhos anti-malária: brasileiro não precisa de visto para entrar em Angola, mas tem que apresentar comprovação de que tomou vacina de febre amarela, e é muito recomendável que – antes de viajar – comece a tomar remédio para evitar malária. Ninguém quer ficar doente fora do país, certo? Então, também não facilite. Procure o serviço médico ou posto de saúde para cuidar dessas providências antes de fazer as malas.
  4. Resolva câmbio e internet já na chegada: há várias operadoras de telecomunicações no país e a oferta de internet tem sinal estável e funcional. Você pode comprar um chip no aeroporto e pode fazer recarga de créditos, conforme o uso e o período em que ficará por lá. Aproveite e faça troca de moeda, pois é importante ter dinheiro em espécie pois nem sempre se aceita cartão de crédito. Quando estive em Luanda – em meados de maio de 2025 -, 1 dólar equivalia a mil kwanzas. Prepare-se para carregar maços de dinheiro, a depender do seu padrão de gastos.
  5. Esqueça o busão: na região metropolitana da capital angolana, não se pode dizer que haja um sistema convencional de ônibus, como se encontra em outras cidades pelo mundo. Também não tem metrô. Então, você tem algumas opções: a) aventurar-se nas milhares e nem sempre seguras vans brancas e azuis (os candongueiros); b) apelar para o transporte local por aplicativo (que nem sempre aceita sua corrida); c) contratar um taxista para te atender por alguns dias. Optei por este último e foi ótimo: o motorista conhece todos os caminhos e atalhos, dirige com segurança no trânsito peculiar, te dá dicas locais e pode ser uma boa companhia para quem viaja sozinho.
  6. Abuse do filtro solar: Pedro Bial nunca esteve tão certo. Use filtro solar sem economia, mesmo nos dias nublados, e opte por fator 50 ou mais alto. Se encontrar opções com repelente de insetos, melhor ainda.
  7. Preste atenção no trânsito: esta dica vale para todos os lugares do planeta, mas Luanda tem suas particularidades. Quando estive por lá, não vi semáforos funcionando, e nem guardas orientando o fluxo. É bom guardar fôlego para atravessar as ruas e olhar muitas vezes antes disso. Filas duplas e triplas são comuns nas avenidas mais largas, e a sensação de que se está num caos é permanente. Se você for dirigir, deus te ajude. Se não for, aproveite para observar dois fatores muito interessantes: a cidade é a mais democrática do mundo quando o assunto é preferencial. Todas as pessoas e veículos parecem ter direito a preferencial e eles fazem uso desse direito. É um milagre que o tráfego funcione. Mas ele funciona. Segunda coisa interessante: em uma semana de observação, não vi nenhum acidente de trânsito e nenhuma briga. Os angolanos usam pouco a buzina – se comparados aos brasileiros – e nunca parecem se estressar com a demora, com os fura-filas e com gente que esquece de dar a seta. É uma experiência antropológica de civilidade em meio a um aparente inferno…
  8. Esteja preparado para o número 2: Por mais que a gente evite comer coisas suspeitas de fornecedores desconhecidos, é possível que seu organismo estranhe algum alimento ou bebida. O calor é implacável e ele atua sobre nós… Cuidar de higiene e limpeza é necessário até mesmo nos mais sofisticados destinos turísticos. Mas não se admire se o chamado da natureza se impuser e ameaçar a tranquilidade da sua viagem. Carregue consigo água mineral e álcool em gel, e sempre leve um pouco de papel higiênico ou toalhinhas umedecidas. Não encontrei banheiros públicos em Luanda, mas mesmo banheiros em restaurantes e bares podem não estar preparados para te receber, se é que você me entende…
  9. Guarde dinheiro para os achaques no aeroporto: não é incomum que pessoas te abordem oferecendo para carregar malas, facilitar entradas em locais ou atendimentos personalizados. Essas pessoas geralmente parecem funcionárias do aeroporto ou de serviços turísticos. Às vezes, até são, e vão te pedir para “deixar um cafezinho” ou “um agrado”, depois de tanta cortesia. Vi, pelo menos, quatro abordagens do tipo em poucas horas antes de retornar.  Esteja preparado para deixar alguns kwanzas pelo caminho.
  10. Prepare-se para um banho de simpatia: de maneira geral, os angolanos são simpáticos e bem humorados, afáveis e corteses, prestativos e muito respeitosos. São também acolhedores. Brasileiros costumam se sentir em casa no país por se identificarem com personalidades tão humanas e cordiais. Conversar com os locais e escutá-los com genuína curiosidade são as melhores experiências que se pode trazer de uma viagem por lá. Há muito o que aprender com eles…

Um congresso sobre ética e IA

Começa hoje em Sevilla e na internet o IA Ethics, primeira edição do congresso internacional sobre ética e regulação da inteligência artificial. O evento vai até sexta, 30, e reúne pesquisadores de diversas partes do mundo preocupados com regramento de sistemas, legislação, códigos de boas práticas, desenvolvimento tecnológico humanizado e toda a galáxia que ronda esse advento tão disruptivo.

Participo do evento apresentando a comunicação “IA e responsabilidade jornalística: apontamentos para a regulação no Brasil”.

Informações gerais sobre o evento podem ser encontradas aqui.

Este blog faz 20 anos hoje

Vinte anos é muito ou pouco?

A resposta a esta pergunta não importa muito quando se trata da idade de um blog. Isso mesmo. Este espaço aqui completa vinte anos hoje e foi uma vida e um piscar de olhos. No dia em que surgiu, blogs eram a grande novidade na internet a tal ponto de alimentar a ideia de que blogueiros substituiriam jornalistas. Isso não aconteceu por completo, e os blogs foram paulatinamente dando lugar às redes sociais, que se mostraram mais aconchegantes, interessantes e viciantes.

Hoje em dia é fora de moda manter um blog, mas eu não ligo. De diversas maneiras, isso me manteve por aqui. Às vezes, o post era um desabafo, noutras uma forma de guardar impressões, e em outras ainda uma forma de registrar coisas que eu fazia ou faria. O fato é que o blog está aí, menos ativo que antes – é verdade! -, mas não totalmente abandonado.

Sem querer, este blog acabou se tornando um misto de site profissional e diário pessoal, funcionando como a página em branco de um pouco do que vivi. Eu posso dizer sem exagerar que os últimos vinte anos foram os mais felizes da minha vida: formei uma família, me realizei profissionalmente, ganhei o mundo, conheci muita gente boa e passei por momentos que são inesquecíveis também porque deixei escrito em alguma parte por aqui.

Se isso servir para mais alguém além de mim, já será algo…

O que os jornalistas brasileiros pensam sobre credibilidade?

A Brazilian Journalism Research (BJR), revista da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR), acaba de publicar o artigo “Credibilidade no cotidiano profissional: percepções de jornalistas brasileiros”, que assino com Denise Becker. O texto está disponível em português e inglês e é um dos resultados do projeto “Índice de Credibilidade Jornalística: formulação de indicadores de fortalecimento do jornalismo para o combate aos ecossistemas de desinformação (ICJOR)”. O artigo deu um trabalhão pois colhemos 446 respostas de jornalistas das cinco regiões brasileiras tentando mapear o que eles pensam e sentem sobre credibilidade e confiança na mídia.

Quando descobrem seu diário pessoal

Sem mais nem menos, meu filho descobriu este blog. E também sem qualquer motivo decidiu mergulhar nas postagens dos últimos vinte anos. Sim, esse espaço vai completar vinte anos em maio, e isso é uma vida. Quase a vida toda do meu filho que está fuçando por aqui em busca de coisas novas e velhas.

Deve ser muito intrigante para pessoas da geração dele saber que alguém mantém um museu pessoal por tanto tempo. Pra falar a verdade, eu nunca pensei também que isso fosse tão longe. Quando ele foi criado, ter um blog era a grande novidade da internet. Aliás, naquela época se perguntava se blogueiro era jornalista e quais eram seus limites e dilemas éticos.

Houve até uma era de ouro dos blogs, e ela se tornou tão distante quanto a mesozoica. As redes sociais ajudaram a sepultar muitos blogs e alguns ainda podem ser encontrados por aí como túmulos esquecidos com flores apodrecidas. Tento manter isso para armazenar registros, guardar memórias e ser gozado pelo meu filho quando ele encontra algo que envelheceu rápido, um erro de avaliação ou uma besteira qualquer. Ainda estou aqui. Não sei até quando. Mas quem é que sabe?

Covid-19, 5 anos depois

No final da tarde, fechei a porta da sala com a esperança de que voltaria ao trabalho na semana seguinte. Tanto é que deixei um vaso de flores que havia ganhado de presente. Eu nunca mais resgataria o vaso porque as plantas morreram em poucas semanas e eu só voltaria à sala muitos meses depois.

Hoje faz exatamente cinco anos que isso aconteceu, e a pandemia atravessou as nossas vidas de uma maneira única. Como muita gente, perdi pessoas queridas, adoeci, vivi confinado e me emocionei quando tomei a primeira dose de vacina. Como pouca gente, mantive o emprego, nunca deixei de receber salário, pude conviver com minha mulher e filho numa casa segura e ampla, e nada me faltou. Esses privilégios me ajudaram a seguir adiante, e eu me afundei no trabalho. Todas as manhãs, de segunda a sexta, despachava com o secretário e a subcoordenadora da pós-graduação que eu dirigia. Fazia turnos de 12 horas para dar conta das aulas a distância, da gestão, de orientações de teses, de pesquisas que me recusei a paralisar. Também me preocupava com colegas de trabalho e com alunos, e ligava para um ou outro para tentar amenizar algo que eu não tinha a menor ideia de como lidar.

E me afundei no trabalho não porque era contra um lockdown ou porque era um louco produtivista. Me refugiei no trabalho como se pudesse cancelar a pandemia, anular as inaceitáveis mortes e soterrar todo desespero. Baixei a cabeça e segui olhando os próprios passos como se pudesse ignorar a tempestade. Não deu, sabemos todos, mas foi minha maneira de viver. Isso não evitou que eu fizesse como você que me lê agora: chorei escondido, temi pelo pior e fiquei com a boca seca, sem palavras de alento.

Armazenei minhas emoções em potes e guardei num porão qualquer. Confesso que deixei poucas memórias desse tempo à mostra . E por anos resolvi não mais pensar na pandemia e no que ela fez de nós. Penso mais agora. Desço de vez em quando no porão para abrir um pote ou outro. De alguma forma, sobrevivi e sou muito afortunado por isso. Vivi ligeiramente diferente nos últimos cinco anos, e talvez libertar as memórias e emoções me possa mudar mais ainda. Foi autodefesa e algum egoísmo, mas eu não tinha um plano quando o vírus se espalhou. Quem tinha?

Não tenho medo de uma nova pandemia, e é estatisticamente muito provável que novas aconteçam nas próximas décadas. Tenho medo é que eu não tenha aprendido pouco com a Covid-19, e que o tempo faça dissolver tudo o que passamos. Essas linhas são para me lembrar e não me deixar esquecer. Que possamos ser dignos de viver esse tempo extra.

Deixei o Twitter mais uma vez

A política está em toda a parte. Mesmo quando ela aparentemente não está.

O anúncio da Meta de abandonar seu esquema de checagem de fatos é política.

O abandono de regras de moderação em qualquer rede social é política.

A alteração de algoritmos para impulsionar conteúdos virais (mas discriminatórios, inflamantes, racistas e misóginos) é política.

A decisão dos maiores magnatas do Vale do Silício de ir à posse de Trump para bajulá-lo é política.

Mas todo poder tem um contrapoder. Quer dizer, também tenho a minha política.

Porque o Twitter se tornou um pântano de ódio e porque seu dono não escondeu suas preferências nazistas, não quero estar mais lá. Quero estar mais neste blog – que em maio faz 20 anos – e no Bluesky. E pretendo buscar alternativas fora das big techs dos Estados Unidos porque está mais do que na hora de mudar os pesos na balança.

2025 terá 13 meses

O ano novo já começou pra mim e, diferente de todos os outros anos, ele será um pouco mais longo, com 13 meses. Será um período sabático para um segundo pós-doutorado, desta vez na Universidad de Valencia.

Desembarquei ontem na Espanha com muitas agendas e planos. Estou muito animado com as perspectivas. Devo dar sequência a um projeto internacional sobre sistemas de ética jornalística envolvendo seis países em três continentes e ainda preciso arrancar com dois novos projetos de cooperação, um reunindo cientistas brasileiros que atuam no exterior, e outro com colegas brasileiros e alemães. Isso sem contar na conclusão de meus dois projetos envolvendo credibilidade jornalística, que envolvem equipes brasileiras incríveis.

Como dá pra ver, serão treze meses alucinantes. CNPq e Capes financiam essas iniciativas e sem eles, nada seria possível.

Como dizem por aqui: Ya está!

Ética e integridade na pesquisa para além da regulamentação

É hoje, mas se você não puder ver ao vivo, assista aqui depois!

Estou no Bluesky agora!

Meu trabalho prejudica muito minha performance nas redes sociais.

Nos últimos tempos, eu mantinha perfil apenas no Twitter. Com a suspensão (temporária?!) dele, arrumei as malas e me instalei no BlueSky.

Me encontre lá como christofoletti

Mas não se engane: continuo aqui também. Aliás, tô desde 2005.

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Baixe o livro Jornalismo: reflexão e inflexão

Acaba de sair “Jornalismo: reflexão e inflexão”, segundo volume da Coleção Horizontes do Jornalismo, da EdUFSC.

Com 13 capítulos, o livro aborda temas que atravessam a prática, as técnicas, a estética e a ética jornalísticas, atualizando discussões e oferecendo novas abordagens. São 31 autoras e autores, como Fabiana Moraes, Sylvia Debossan Moretzsohn, Carlos Camponez, Fábio Pereira, Florence Le Cam, entre outros.

Para baixar de graça, clique aqui ou aponte a câmera para o QR-Code abaixo.

Plataformas digitais e jornalismo ético: um evento

A Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro e o Fórum Permanente Diálogo do Judiciário com a Imprensa promovem hoje, 10, um seminário sobre regulação das plataformas digitais e a necessidade de um jornalismo ético. A iniciativa pretende debater formas de enfrentar os desafios da definição de limites legais para as big techs e os papeis que jornalistas e meios de comunicação têm na atualidade no Brasil.

Sou um dos conferencistas ao lado do desembargador Cláudio Luís Braga dell’Orto e do presidente da Escola de Magistratura, o desembargador Fernando Foch.

O evento pode ser acompanhado pelo YouTube: www.youtube.com/user/EMERJeventos/live

Começa hoje o Media Ethics 2024

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A oitava edição do Media Ethics Conference começa hoje, 9, e vai até o dia 12, em formato híbrido. Os dois primeiros dias têm conferências e apresentação de trabalhos online, e os dois seguintes terão atividades presenciais nas dependências da Universidade de Coimbra, em Portugal.

Confira a programação aqui, e conheça os palestrantes, aqui.

O tema deste ano é “A ética da comunicação na viragem da inteligência artificial”, e o congresso teve o maior número de inscritos de sua história.

Além de moderar uma sessão temática e apresentar os livros em lançamento, também estarei numa mesa redonda que vai tratar da formação ética em comunicação no Brasil, Espanha e Portugal.

O 8º Media Ethics Conference é uma realização da Universidade de Coimbra com apoio das universidades de Sevilla e da Federal de Santa Catarina.

Ética na pesquisa em humanidades: um debate na UFSC

O Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) da UFSC promove hoje, 24, às 10 horas, um debate sobre a ética na pesquisa em humanidades.

Congresso sobre mídia e governança na iberoamérica

A partir de amanhã, 15, participo do Congreso Internacional Medios y Gobernanza en América Latina, España y Portugal, evento que vai discutir qualidade do jornalismo em tempos de precarização da profissão e desordem informativa. O congresso vai até a sexta, 17, e é uma promoção do MediaFlows, grupo de pesquisa da Universidad de Valencia, na Espanha. Silvio Waisbord (George Washington University) e Mireya Márquez-Ramírez (Universidad Iberoamericana do México) serão alguns dos conferencistas. Vou moderar uma mesa online e apresentar uma análise da estrutura da mídia brasileira e fatores que dificultam o aprimoramento da qualidade do jornalismo local. O trabalho é uma revisão de um texto que escrevi há 20 anos, e meu objetivo é ver o que mudou desde então.

Para saber mais do evento: https://mediaflows.es/2023/12/23/medios-y-gobernanza-en-america-latina-espana-y-portugal/

Um debate sobre ética numa rádio argentina

Participei de um debate sobre ética e deontologia jornalística no programa de rádio “Conversaciones Integradas”, da Universidad Nacional de La Matanza, da Argentina. A atração é um projeto do Departamento de Humanidades e Ciência Sociais, e foi transmitido hoje, 12, com a participação de outras cinco especialistas: Silvia Martínez Martínez (Espanha), María del Carmen Llontop Castillo (Peru), Diana Lucía Álvarez Macías (México), Eugenia Herrero e Norma Unzain (ambas da Argentina). Com apresentação de Florencia Romano e 55 minutos de duração, o programa abordou desafios do ensino de jornalismo, impactos da inteligência artificial e a necessidade de uma discussão integrada sobre ética jornalística na América Latina.

Assista à versão do YouTube:

Guia literário para entender as redes sociais (e avaliar a permanência nelas)

Um dos assuntos mais efervescentes sobre tecnologia no momento é a regulação das plataformas digitais. Em linhas gerais, sociedades e governos têm sinalizado que as empresas que estão cada vez mais onipresentes em nossas vidas precisam de limites. Como elas devem ser responsabilizadas pelos efeitos que geram? Quem deve fiscalizar isso? Como podemos fazer isso sem prejudicar direitos, liberdades, criatividade e inovação?

O parlamento brasileiro está prestes a votar o projeto de Lei sobre Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet (PL 2630), também chamado de PL das Fake News. Se sua cabeça está confusa com o tema, um bom atalho é este aqui e aqui tem outro. E se você quiser saber mais sobre a coisa, eu preparei um pequeno manual de sobrevivência no assunto com 30 sugestões de livros. Vou chamar de Guia Literário para Entender as Redes Sociais (e Avaliar a Permanência Nelas). É uma lista pessoal, composta apenas por livros que li e recomendo. A maior parte deles está disponível em português (links de compra nos títulos), e a lista não segue uma ordem de importância de leitura. Aliás, a lista pode ser atualizada frequentemente e sem qualquer aviso. Fique à vontade para sugerir outros títulos…

A máquina do caos – Max Fischer
Excelente esforço de reportagem que mostra como as grandes empresas do Vale do Silício se tornaram as gigantes atuais e como pequenas e grandes decisões comerciais, políticas e de engenharia transformaram as redes sociais numa indústria que alimenta o ódio e o extremismo, destroçando reputações pessoais e esgarçando o tecido social. Texto ágil, bem escrito e com muita documentação de casos. A leitura do capítulo 11 – A ditadura da curtida – dá muitos calafrios porque coloca uma lupa sobre a ascensão da extrema-direita no Brasil e todo o chorume que nos cerca. Compre aqui

Big Tech: ascensão dos dados e a morte da política – Evgeny Morozov
Se você tem um problema, deve haver um app que solucione isso. Mais do que um chamamento deslumbrado do capitalismo, essa frase ajuda a fortalecer a ideia de que a tecnologia pode resolver tudo. Este livro mostra que não e coloca as coisas nos devidos lugares: certas questões precisam ser enfrentadas de outra maneira e fora das grandes corporações de tecnologia.

O filtro invisível – Eli Pariser
O livro foi publicado por aqui há mais de dez anos, e tem uma permanência absurda porque apresenta uma ideia bastante central no tema das redes sociais: os filtro-bolha. Aquela coisa de que as redes sociais acabam nos colocando em bolhas de interesses comuns, nos isolando de pontos de vista diferentes, por exemplo. Isso é feito porque essas redes são projetadas para serem ambientes acolhedores, agradáveis e que nos motivem a ficar cada vez mais imersos neles. Ler este livro hoje e perceber como as coisas se mantêm cada vez piores é assustador.

Colonialismo de dados – João Francisco Cassino e outros
Acabou o tempo em que países eram invadidos, anexados e dominados por outros. Agora, estão todos livres. Peralá! O neoliberalismo é astuto e se transmuta rapidamente. Por que não exercer poder avassalador numa época em que é possível extrair dinheiro e poder dos dados que as pessoas oferecem espontaneamente? Esta coletânea ajuda a pensar assuntos como soberania digital, opacidade de algoritmos, exploração e resistência.

O círculo – Dave Eggers
As maiores empresas do mundo não se contentam mais em dizer o que devemos consumir, em como nos comportar e o que é mais relevante na vida social. Agora, elas querem também substituir outras instituições humanas, como o poder político. Diferente dos outros, este livro é uma obra de ficção. Será?!

A máquina do ódio – Patricia Campos Melo
A premiada jornalista brasileira mescla experiência pessoal e reportagem para mostrar como as redes sociais funcionam como ambiente tóxico de perseguição, agressão e misoginia. Sobram por aqui discursos de ódio, ultra-polarização política e ausência de controle sobre empresas transnacionais que manipulam consciências, instigam sentimentos e manejam comportamentos.

Os engenheiros do caos – Giuliano Da Empoli
Sabe aquele youtuber idiota que se torna o deputado federal mais votado? Sabe a influenciadora digital que, do dia pra noite, se transforma na líder de um movimento social barulhento e influente? Pois é, esta obra ajuda a compreender como funciona o fenômeno de políticos criados e hipertrofiados na internet. Se você pensa que o populismo digital é um problema só nosso e dos EUA, precisa ver o que já aconteceu na Europa…

Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais – Jaron Lanier
Este é um livro escrito por quem tem nojo e pavor da tecnologia, certo? Errado. O autor é uma das maiores referências da realidade virtual e sabe muito bem como funciona a mentalidade de empreendedores, engenheiros, hackers e outros elementos da fauna do Vale do Silício. Ele está lá, no intestino do monstro. De forma clara e com exemplos muito intuitivos, Lanier nos mostra por A + B que precisamos escapar dessas armadilhas. Aproveite e escolha o animal que você prefere ser na internet….

A era do capitalismo de vigilância – Shoshana Zuboff
Livro acadêmico, com farta documentação científica, e que se dedica a elaborar o conceito que dá nome à obra. Para além de explorar dividendos a partir de formas variadas de consumo, os grandes players do mercado exercem uma função de controle social e vigilância constante. Não é uma leitura para iniciantes, mas que pode ser enfrentada por qualquer pessoa que esteja genuinamente interessada em como tecnologia, economia e política caminham juntas e se cruzam.

Eterna vigilância – Edward Snowden
Se o seu barato não é livro acadêmico, vá por essa eletrizante narrativa pessoal do sujeito que contou ao mundo parte do poder monstruoso exercido pelas big techs em conluio com governos politicamente interessados no caos geopolítico. Tá tudo lá: vigilância tecnológica, sistemas e doutrinas de choque…

Tudo sobre tod@s – Sergio Amadeu da Silveira
Há mais de cinco anos, este autor já explicava tim-tim por tim-tim como as redes digitais extraem e processam nossos dados pessoais e como geram perfis de consumo, hábitos culturais, predisposições ideológicas. Se já era assim antes, imagine agora. Leitura fácil e didática.

Manipulados – Brittany Kaiser
Um dos escândalos mais lembrados do abuso de poder das grandes plataformas é o caso da Cambridge Analytica no Facebook. O episódio é contado – não totalmente, sejamos honestos – por uma das pessoas que mais têm autoridade para fazer, afinal, ela estava lá…

A morte da verdade – Michiko Kakutani
O foco da autora é a emergência dessa maluquice que tem muitos nomes: pós-verdade, negacionismo, império dos fatos alternativos e o escambau. Ela se debruça sobre o começo do governo Trump, e todos sabemos que esse sujeito laranja só se tornou presidente por impulso das redes sociais. Ao ler o livro, faça um experimento: substitua a palavra “Trump” por “Bolsonaro” e veja o que acontece.

Algoritmos para viver – Brian Christian e Tom Griffiths
Numa prosa atraente, esses dois cientistas mostram como podemos aprender bastante do comportamento humano a partir da matemática e da programação de computadores. Problemas banais como quando escolher o melhor lugar para estacionar ajudam a pensar em previsibilidade, agendamento e construção coletiva.

Ética para máquinas – José Ignacio Latorre
O livro ainda não foi traduzido do espanhol, e quando for, merecerá diversas notas e apêndices para atualizar a discussão, que não para de crescer nos últimos meses. O que tem a ver com regulação das plataformas? Ora, grande parte do funcionamento dos sistemas delas está apoiada em aprendizagem de máquina, algoritmos preditivos, inteligência artificial e outras temas que este livro trata. Achei que ele demora um pouco para fazer a tal discussão ética que está no título, mas vale conhecer.

Quando o Google encontrou o WikiLeaks  – Julian Assange
O livro tem quase dez anos e quanto mais o tempo passa, mais ficam claras as distâncias entre uma internet que poderia mais aberta, universal e emancipatória e outra, com jardins murados, ideologia californiana, apetite insaciável por startups, extração de dados e abusos econômicos. Assange segue preso e Eric Schmidt, Peter Thiel, Zuckerberg, Musk e outros continuam soltos…

Cypherpunks: liberdade e futuro da internet – Julian Assange e outros
Aliás, já que olhamos um pouco para o retrovisor, vamos voltar algumas casas. Este livro da década passada traz diálogos ainda muito inspiradores sobre como podemos moldar a internet nos terrenos do conhecimento, da informação, da participação política, da vivência das liberdades, da economia e dos direitos…

Algoritmos de destruição em massa – Cathy O’Neil
Se você pensa que os algoritmos são apenas aquelas linhas de comando no computador que te convencem a comprar um produto ou outro, abra sua cabeça. A autora – que é matemática e especialista em métricas – mostra casos reais em que sistemas – alimentados por algoritmos – fazem de tudo para excluir pessoas, segregar camadas da sociedade e aumentar ainda mais a desigualdade. Quando li, era coordenador de um programa de pós-graduação e fiquei semanas noiado pensando em como contribuímos para modelos de produção científica que funcionam como moedores de carne…

Sociedade vigiada – Ladislau Dowbor (org.)
Coletânea de textos que discute como as grandes corporações tecnológicos se aproveitam de engenharia social, brechas tecnológicas, atalhos psicológicos e ausência de leis para invadir a nossa privacidade, atropelar direitos digitais e corroer a democracia. Easter egg: o nome do organizador está errado na capa da edição que tenho aqui. Apesar disso, dois ou três capítulos valem muito.

Datanomics – Paloma Llaneza
Uma visão europeia, e principalmente espanhola, sobre o tema do recolhimento e tratamento de dados pessoais pelas plataformas. Uma visão sobre como o direito de lá olha para a privacidade em toda a parte. O livro também não foi traduzido para o português ainda.

A superindústria do imaginário – Eugenio Bucci
Uma discussão sobre o poder das big techs não apenas pelo viés da comunicação, da política, da hegemonia e da tecnologia, mas também com pinceladas fortes de psicanálise. Sedução, desejo, narcisismo e outras parafernálias libinais nos atravessam quando nos conectamos às redes, ensina o Bucci.

Fake news: como as plataformas enfrentam a desinformação  – Intervozes
Que tal um olhar brasileiro e rigoroso sobre como as gigantes da tecnologia estão combatendo as mentiras, os boatos e as teorias de conspiração? Facebook, Instagram, YouTube, Twitter e WhatsApp são estudados em detalhes e a notícia final não é nada boa. Aliás, você pode baixar o livro de graça aqui.

O mundo do avesso: verdade e política na era digital – Letícia Cesarino
Com todos os olhos da antropologia e todos os pés na cibernética, a autora mergulha nos devaneios que só foram possíveis nos devastadores anos daquele governo, talquei? Obra acadêmica, com camadas profundas de discussão sobre aspectos cognitivos e impactos da política algorítmica no Brasil. O festival de bizarrices que colhemos deveria ser suficiente para frear tudo e regular as plataformas já!

A liberdade de expressão e as novas mídias – José Eduardo Faria (organizador)
Coletânea acadêmica com forte ênfase no direito e que nos permite ter um debate sério sobre fake news, discurso de ódio, direito ao esquecimento e a utopia que as plataformas tentam nos convencer de que existe. Alguns textos envelheceram rapidamente, mas ainda iluminam áreas nubladas da discussão no Brasil.

Algoritmos da opressão – Safiya Umoja Noble
Dizer que o Google ganha dinheiro com racismo pode parecer forte, né? Te desafio a ler o livro e continuar a pensar que se trata de radicalismo.

Racismo algorítmico – Tarcísio Silva
Se a leitura anterior ainda não te convenceu da necessidade de regular as plataformas e exigir delas transparência sobre seus algoritmos e controle rígido sobre os vieses discriminatórios, este livro com olhar genuinamente brasileiro vai cuidar disso.

Liberdade e resistência na economia da atenção – James Williams
Avalie seu comportamento quando estiver conectado em suas redes sociais. Perceba seus hábitos e as oscilações do seu humor. E perceba como o foco, a concentração e atenção são drenadas. Mais um efeito perverso das big techs que não pode ser ignorado.

Para além das máquinas de adorável graça – Rafael Evangelista
Houve um tempo em que o Vale do Silício se guiava também por uma cultura e uma ética hacker. Ler este livro nos leva a pensar como a internet estaria hoje se a ganância, a arrogância e o tecno-solucionismo não tivessem contaminado o DNA do ecossistema de tecnologia mais poderoso da história.

Privacidade é poder – Carissa Véliz
Uma indisfarçável visão otimista sobre como podemos lançar mão da própria privacidade para retomar nossos direitos em tempos de redes sociais. Um desses livros que chegam a ser inspiradores e motivacionais em meio aos escombros em que vivemos.

A ideologia californiana – Richard Barbrook e Andy Cameron
Gente esperta, descolada, poderosa e muito endinheirada. Gente que decide os rumos da humanidade na política, entretenimento e economia. Gente com menos de 30 anos e que desafia a etiqueta usando moletons surrados e cabelos desgrenhados. Não se deixe enganar pelas aparências, é tudo ilusão e faz parte de uma ideologia que vem redefinindo o que chamamos de sucesso, necessidade e relevância no mundo atual. Para fechar esta lista, um texto que é uma patada no livre mercado que alicerça o Vale do Silício. Para desgosto das big techs, baixe de graça aqui.

A saga de um leitor por um livro

O leitor acorda com uma obsessão: ler aquele livro antes daquela viagem.

Ele sabe que não tem o volume em sua coleção. Do autor, o leitor só tem um título, que descobre que deu de presente para a esposa há 15 anos. É a dedicatória quem lembra, e mais: com espírito romântico, chega a prometer a tal viagem, menos por convicção e mais para embelezar o recadinho de dedicação.

Satisfazer a obsessão será fácil, pensa o leitor. Basta acessar a Amazon e comprar uma cópia eletrônica do livro, mas a ilusão termina em menos de um minuto. Por razões misteriosas, o único título do autor indisponível em ebook é justamente o que ele procura. Pensa em encomendar um exemplar físico, mas a entrega pode demorar mais do que ele poderia suportar.

O leitor, então, aciona o modo furtivo e recorre a sites de download clandestino de livros. Nada. Realmente, o objeto da sua obsessão não está acessível em bits. Vai até a Estante Virtual e até encontra a preços módicos, mas a entrega prevista é daqui a um século!

Cabe então uma busca peripatética por livrarias e sebos da cidade. O obcecado arruma uma desculpa qualquer para ir ao centro, convence o filho a escoltá-lo, e eles varrem os sebos campeões em ácaros e rinite, e… nada! Encontram outros títulos do autor, mas nada próximo daquela santa perseguição.

Num dos capítulos finais, ele acelera o carro para chegar a tempo de encontrar um sebo de bairro aberto. Não! Inexplicavelmente fechado antes das seis da tarde… com a tromba arrastando, o leitor volta para casa, quase derrotado. À noite, emaranhado em pensamentos, tem uma ideia que vai salvá-lo de todo o mal: a biblioteca da universidade!

O sistema eletrônico de busca arranca um sorriso do rosto do leitor. Ele só precisa atravessar uma noite de sono até resgatar o volume naquele deserto das férias escolares. Os corredores estão mal iluminados e o obcecado teme pelo fracasso quando se depara com um setor de estantes isoladas por fita e lonas. As chuvas do mês passado interditaram uma parte do acervo, muito próximo da numeração que ele buscava. Muitos livros foram atingidos pelas malditas goteiras e estão indisponíveis. Precisam se recuperar. Com passos miúdos e o coração apertado, o leitor contorna o espaço proibido e chega à estante; percorre com os dedos as prateleiras e alcança a lombada mais procurada do mundo.

De várias maneiras, aquele fanático tentou comprar o livro, e não conseguiu. Foi uma biblioteca pública que pacificou seu coração. Foi essa invenção perigosa – juntar milhares de livros e permitir que as pessoas os leiam gratuitamente! – que salvou seu dia. Foi essa criação antiga – bibliotecas públicas -, a encarnação do espírito do bem comum, que permitiu ao leitor segurar aquele surrado volume.

Transparência no jornalismo: um mapeamento

Acaba de ser publicada a mais recente edição de Ámbitos, periódico científico da Universidad de Sevilla e um dos mais instigantes da área da Comunicação na Espanha.

O número tem um “monográfico” sobre pesquisa e transferência de conhecimento em comunicação, organizado por Sara Loiti-Rodríguez e meu querido amigo Juan Carlos Suárez-Villegas. Além do dossiê, há artigos sortidos e um deles é assinado por mim e minha ex-bolsista de iniciação científica, Juliana Naime Ferrari, onde apresentamos um rápido mapeamento de instrumentos e práticas de transparência no jornalismo.

Para ler o artigo, clique aqui. Para baixar a Âmbitos 57 inteira, clique aqui.

Perdi meu ex-futuro marido

Conheci Frank Maia num casamento.

As véias nunca mais serão as mesmas…

Era o casamento dos jornalistas Cris Fontinhas e Maurício Oliveira na Ingrejinha da Lagoa. E eu estava de penetra porque não conhecia os noivos e fui de  contrabando da minha esposa à época. No final da cerimônia, o Frank veio falar com a gente e foi amor à primeira vista. Uma amizade de milênios reconhecida num segundo. Quem podia resistir àquele sorrisão e um alto astral simplesmente contagioso…

Não deu muito tempo e trabalhamos juntos num jornal, e eu via dia-a-dia como o Frank evoluía no traço, nas gags, na sua arte. Foi pouco tempo, talvez dois anos, sei lá…

Mas a gente se encontrou muitas outras vezes, quase sempre com nossas mãos agarradas a copos, e era sempre como se tivéssemos conversado há dois minutos. Amantes de quadrinhos, trocávamos impressões de um artista ou de outro, e sempre nos prometemos fazer alguma coisa juntos. E rolou uma vez. Escrevi um historinha de duas ou três páginas que ele desenhou. Faz mais de vinte anos e eu nem encontro mais vestígios daquilo. Mas eu não esqueço o que aconteceu depois. Laerte veio a Florianópolis para uma palestra, e estávamos os dois lado-a-lado e perguntamos sobre duplas de criação. Laerte coçou a barba – sim, faz muito tempo – e disse: “Se você tem quem desenhe pra você, se você tem quem escreva pra você, case com essa pessoa!”.

No lançamento do livro que celebrou parte da obra do Frank

Frank gargalhou, e olhou pra mim com aquela cara de louco dele. Gargalhei também, e prometemos repetir a parceria, mas não aconteceu mais. Em compensação, eu pude acompanhar de perto (às vezes de longe) o meu ex-futuro-marido se tornar o melhor chargista que Santa Catarina já teve. Maior ainda que o ídolo dele, o Bonson, que também já partiu.

Frank viveu e sobreviveu  por conta da sua inteligência, do seu traço rápido e de uma alegria que eu nunca entendi de onde vinha. Não havia tempo ruim com ele. Era generoso, estava sempre muito bem informado e não se desgrudava das filhas mais novas. Nos últimos meses, nos encontramos sem querer sempre no centro da cidade, onde frequentamos bar e banca de jornais, desconfio que os lugares que ele mais gostava. Ainda não acredito que ele foi embora. Ele sempre ficava até o final da festa…

Frank casou algumas vezes, teve vários filhos e fez infinitos amigos. Sou um deles. Mas e se a gente tivesse ouvido a Laerte, hein, Frank?!

E a ética jornalística na pandemia?

Participo amanhã, dia 28, de um debate com a Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, e com o Mauri König, da Uninter, sobre reflexos da pandemia na ética jornalística. É às 19 horas, ao vivo pela página do Facebook do Sindijor-PR, com acesso público para perguntas e comentários.

A jornalista e professora Lenise Klenk, presidenta da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Paraná, será a mediadora. Aliás, o evento é uma realização da Comissão Estadual de Ética.

Minha prima astronauta e as coisas importantes da vida

Em janeiro de 2017, estávamos num café em Roma quando uma notícia no Corriere Della Sera me chamou a atenção. Era sobre os astronautas norte-americanos Mark e Scott Kelly, irmãos gêmeos, os únicos da história. Mas não foi esta curiosidade que gritou das páginas do jornal. Foi a abertura da matéria que era mais ou menos assim: Dizem que viajar muda as pessoas e, no caso de Scott Kelly, isso não é um exagero. Aí, a matéria dizia que Scott ficou quase um ano no espaço e seu irmão ficou na Terra, e estavam comparando os DNAs dos dois para ver mudanças cósmicas em suas constituições físicas. E perceberam várias…

Achei saborosa a história e isso ficou arquivado na minha mente em algum cubículo.

Quatro anos depois, por alguma razão insondável, li Endurance: Um Ano no Espaço, livro em que Scott Kelly narra sua aventura de 340 dias na Estação Espacial Internacional. É um relato delicioso, cheio de informações interessantes e de grande interesse humano e científico. Entre as muitas coisas que Scott conta está o fato de ter convivido uns três meses com a primeira astronauta italiana, Samatha Cristoforetti.

Isso mesmo! Samantha não sabe, mas é minha prima, embora nossos sobrenomes não sejam exatamente os mesmos. Nossos descendentes vêm da mesma região da Itália e ela sequer imagina que seja minha parente, mas isso pouco importa.

O que importa mesmo é que Samantha foi a primeira italiana a ir para o espaço, é uma recordista de tempo nas estrelas, e é muitíssimo respeitada na sua profissão e em outras áreas. Para se ter uma ideia, ela lançou um livro de memórias  recentemente – Diary of an Apprentice Astronaut – e todo o dinheiro das vendas vai para a Unicef, onde ela é um tipo de embaixadora. (Aliás, Scott Kelly tuitou outro dia que estava lendo o livro)

Não bastasse todas essas credenciais, Samantha foi o primeiro ser humano a fazer o primeiro café espresso no espaço, o que já reserva a ela um lugar destacado em nossos corações. É, sem dúvida, a pessoa na família que foi mais longe, não é mesmo?

Eu quis ler as memórias do astronauta Scott Kelly justamente no momento em que notícias davam conta de uma segunda onda de mortes por Covid-19 na Itália e novas altas aqui no Brasil e nos Estados Unidos. Quem sabe um sujeito que ficou confinado um ano no espaço não tem algo a me ensinar?, pensei.

Tem. Muita coisa. Diferente do esperado herói americano, ele se mostra um narrador gentil, humilde e empático. Um sujeito que valoriza as pequenas coisas que importam, como a amizade, a chuva, um bom livro, e tomar um café numa xícara. Com a gravidade da Terra, claro.

Os Beatles e os Reis Magos

No tempo em que morei na Espanha, nunca me perguntaram quem era o meu Beatle preferido. Mas Sevilha é uma cidade muito católica e uma colega quis saber quem era o meu Rei Mago favorito!

Vocês sabem, alguns países comemoram mesmo o Natal no dia 6 de janeiro, data em que teriam chegado Baltasar, Melquior e Gaspar ao estábulo do deus-menino. Os reis magos trouxeram presentes para Jesus e isso inaugurou a tradição que temos até hoje. Em Sevilha, as pessoas fazem jantares no dia 24 de dezembro, mas o melhor está reservado para o Dia de Reis, quando se abrem os pacotes coloridos.

Na véspera, costuma acontecer uma coisa sensacional, a Cavalgada dos Reis, que é um desfile de carros alegóricos e montarias, lotados de crianças e adultos, distribuindo balas nas ruas. É um carnaval. Todos ficam nas calçadas e quem desfila, vestido como reis magos, atira punhados de balas como se fossem confetes ou serpentinas. Todos retornam as suas casas com sacolas lotadas de doçuras e as ruas ficam pegajosas com as toneladas de caramelos que são repartidos…

A coisa é tão séria que celebridades vestem-se como os monarcas viajantes e chegam à cidade, representando um novo ano, novas esperanças e renovando a fé das pessoas. Te lembrou as representações teatrais da Paixão de Cristo no interior do Brasil? Pois é igual na comoção…

Neste ano, a pandemia adiou a Cabalgata de Los Reyes. Para evitar aglomerações. Mas os sevilhanos não ficarão sem ver os Reis Magos chegarem. A prefeitura vai colocá-los em balões que atravessarão a cidade a 300 metros de altura, e bastará que as pessoas fiquem nos seus quintais, terraços ou sacadas de prédio e olhem para o céu. Não é lá um Submarino Amarelo, mas não deixa de ser um belo transporte “para la ilusión”…

Melhores leituras de 2020

O tempo de confinamento deste ano me levou a mergulhar em leituras. Nunca li tanto e eu me deparei com tanta coisa boa!

Para além de teses, dissertações, livros e artigos – que são material de trabalho, e às vezes até prazeroso -, passei por ficção científica, terror, suspense, quadrinhos, política, direito e um ou outro clássico. Viver numa casa grande, lotada de livros, foi um privilégio infinito, e muitas vezes, imaginei estar dentro de um bunker. Com centenas de CDs e HQs e dezenas de DVDs, eu teria diversão e conhecimento para umas duas vidas…

Para este leitor, 2020 foi um ano bom, e os meus cinco melhores momentos neste tempo foram:

O escultor – Scott McCloud
Sabe quando você compra um livro e esquece ele na estante? Aí, redescobre anos depois, lê e inebria? Foi assim com essa graphic novel de Scott McCloud, que não só explora a linguagem dos quadrinhos como poucos como também aquece seu coração com uma sensível discussão sobre vida, morte e arte. É profundo e impecável esteticamente, e acredite: o artista faz isso com uma econômica paleta de azuis…

A resistência – Julian Fuks
Estava muito curioso para conhecer a literatura dele, mas confesso que uma suposta autoficção de um autor branco, classe média, hétero, na casa dos 30/40, me fazia torcer o nariz. Não vá por aí. Fuks tem um timbre de voz envolvente neste drama familiar que trata de exílios geográficos e afetivos. É um olhar distinto sobre a fraternidade, sobre o amor que se herda dos pais aos irmãos, e dos silêncios que preenchem as distâncias que nos separamos deles. Gostei tanto que engatei a leitura de A Ocupação, que também é muito bom, mas levemente disperso nas três histórias que ele entrelaça…

Falso Espelho – Jia Tolentino
De vez em quando me assombro com alguns autores, e foi assim com ela, uma colunista norte-americana jovem e com um olhar potente e distinto. Mesclando experiências pessoais de quem viveu os hypes internéticos e de celebridades, Jia faz uma crítica social moderna, pulsante, certeira, sem as longas e sonolentas citações que muitos usam como muletas. O leitor atravessa os ensaios do livro e fica, ao final, com uma grande vontade de encontrar com a autora num café descompromissado de esquina. Apenas para ouvir suas impressões sobre as manchetes dos portais, as cenas da cidade e a fauna que nos cerca.

A hora da estrela – Clarice Lispector
Esta moça que fez 100 anos este ano não me é uma completa estranha, mas não é que toda vez ela me dá uma rasteira? Com elegância dissimulada, Clarice provoca em mim um efeito muito necessário sempre: ela congela o tempo e o ansioso aqui passa a olhar as coisas com mais cuidado e atenção. Como ela retira tanto literatura de um nada? Como ela torna alguém tão insípida uma personagem tão interessante e hipnotizante? Eu já conheci algumas Macabéas nesta vida, mas nenhuma Clarice…

O fim da infância – Arthur C. Clarke
No meio da pandemia, eu quis morar nesta história em que fazemos contatos com seres alienígenas. Era uma história do passado – anos 50? -, mas era uma história de futuro também, dessas que a gente quer e não quer realizar. Depois de Asimov e de Bradbury, reservo pouco espaço no meu lobo cerebral dedicado aos futuros, pois desconheço quem tão bem os esculpa. Mas O fim da infância cavou uma cratera aqui, minha gente…