agendas, relógios e a nossa tentativa de reter o tempo

Eu avisei que ia deixar o blog de lado por uns dias.

Desta vez, não foi a falta de tempo não.  Aliás, como a gente reclama disso, né? A falta de tempo é desculpa para não fazer coisas, de fazer pela metade, e ainda de fazer muitas outras. A experiência mostra que se você quer que algo seja executado numa equipe deve encarregar alguém muito ocupado, pois quem tem muitas tarefas se organiza melhor para dar contas delas…

Sou um cara muito ocupado. Aliás, estou cercado de gente que também tem muito a fazer e faz muito. Também uso a falta de tempo para me justificar de algumas faltas e para me vitimizar também, coisa de humanos…

Tentando driblar o tempo, adotei duas práticas cotidianas na vã esperança de fazer as pazes com o tempo:

1. Em dezembro de 2000, fazendo planos para o ano que iria começar, decretei não mais usar relógio de pulso. O raciocínio era cristalino: sem relógio, não fico estressado, não fico apressado e ligo melhor com a rotina. Resultado: passei a bronzear o braço esquerdo por inteiro.

2. Em janeiro de 2005, passei a usar uma agenda de compromissos muito pequena, do tamanho de um maço de cigarros. O raciocínio era cristalino: com uma agendinha daquele tamaninho, poucos compromissos anotados já tomariam o meu dia, estratégia que me impediria de assumir mais coisas do que poderia. Resultado: passei a carregar menos peso na mochila.

É claro que hoje eu rio dessas estratégias inovadoras e inteligentes. Na época, levei bem a sério. Mas está aí outra coisa que eu me programei para fazer neste novo ano: me levar menos a sério. A propósito: hoje, comprei um relógio de pulso lindão.

meme dos livros

Adriamaral me mandou esse meme. Peguei, fiz e repasso pro Dauro, pro Mauricio, pro Frank … e já tá bão…

1. Livro/autor(a) que marcou sua infância:

  • Todos os da Coleção Vagalume
  • Os doze trabalhos de Hércules – na visão de Monteiro Lobato e com o pessoal do Sítio do Pica-Pau Amarelo
  • O menino do dedo verde – Maurice Druon
  • Histórias das mitologias grega e romana

2. Livro/autor(a) que marcou sua adolescência:

  • V for Vendetta – Alan Moore
  • Watchmen – Alan Moore
  • Batman Ano Um – David Mazzuchelli e Frank Miller
  • Asilo Arkham – Grant Morrison e Dave McKean
  • Cavaleiro das Trevas – Frank Miller
  • Claro Enigma e A Rosa do Povo – Carlos Drummond de Andrade
  • Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
  • Cem Anos de Solidão – Gabriel Garcia Marquez
  • Assim Falava Zaratustra – Friedrich Nietzsche

3. Autor(a) que mais admira:
Shakespeare, Nietzsche, Borges, Fernando Pessoa, Beckett, Foucault, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Vinicius de Morais, Cecília Meireles, João Guimarães Rosa, são tantos…

4. Autor(a) contemporâneo:
Contemporâneo é gente viva? Se é, lá vai:

  • Gabriel Garcia Márquez
  • António Lobo Antunes
  • José Saramago
  • Luiz Alfredo García-Roza
  • Bernardo Carvalho
  • Milton Hatoum
  • Carlos Heitor Cony
  • Rubem Fonseca
  • Raduan Nassar

Acho que estou esquecendo alguém…

5. Leu e não gostou

  • Iracena – José de Alencar
  • Feliz ano velho – Marcelo Rubens Paiva
  • Discurso Filosófico da Modernidade – Jurgen Habermas
  • Vida de Gato – Clarah Averbuck
  • Qualquer texto de Marta Medeiros

Tem mais, mas geralmente quando não gosto, abandono a leitura. Ela é prazer, não tormento…

6. Lê e relê:

Eu nunca releio. Há tanta coisa pra ser lida que sinto estar perdendo tempo…

7. Manias:

  • Ficar horas olhando as prateleiras de livrarias como se as estivesse escaneando
  • Sublinhar frases, anotar as que eu gostaria de ter escrito
  • Quando o livro é novinho em folha, cheirá-lo na capa e no miolo
  • Evitar emprestar livro. Na verdade, o empréstimo pode virar seqüestro, e sem a garantia de que o raptado volte…

2008: uma retrospectiva muito pessoal

Este foi um ano difícil, desses em que as conquistas adquirem um valor maior por conta das adversidades, do suor necessário. Este foi um ano penoso e de aprendizado. Este foi um ano de presentes e de perdas, de sorte e da lucidez de enxergar no azar a certeza de continuar.

Por isso e porque 2008 está no seu final, faço uma curtíssima retrospectiva do que vi e vivi. Aliás, este foi um ano em que no seu término a gente pode dizer que sobreviveu a ele…

mmj023470000001Janeiro: começamos bem, inaugurando uma nova casa, a primeira mesmo nossa. Aos poucos, naquelas semanas, o sobradinho verde claro foi tomando jeito e se transformando no melhor lugar do mundo. Os afazares domésticos tiveram um sabor doce…

Fevereiro: retomei o trabalho na universidade com duas disciplinas na graduação, os trabalhos no Monitor de Mídia e a produção de uma porção de projetos para financiamento de pesquisa. O Carnaval foi tão manso que eu nem me lembro dele…

Março: terminei de organizar um livro e passei alguns dias em Curitiba para fazer as entrevistas de uma pesquisa em que fui consultor. Acompanhei as defesas de minhas primeiras mestrandas, motivo de orgulho. O mês foi de muito trabalho e resultados quase imperceptíveis. Era mesmo um tempo de arar a terra e semear…

Abril: fui a Dourados para um reconhecimento de curso de graduação. Noutra semana, fui a São Miguel D’Oeste para a mesma função. Perdi horas nos deslocamentos: a família e a vida pessoal ficaram em terceiro plano. Amarguei com isso…

Maio: mais uma viagem para reconhecimento de curso. Desta vez, São Paulo. Tive uma excelente notícia: aprovaram a publicação de mais um livro meu, e agora numa editora nacional. Comecei a me empolgar com o trabalho, deixando para trás qualquer outro interesse de vida. Não vi o sinal ficando amarelo. Completei seis anos juntos com a minha Ana e vi meu irmão Rodrigo casar de papel passado…

Junho: fiz 36 enquanto meu filhote completou quatro anos. Sediamos no Mestrado em Educação da Univali a 7ª edição da Anpedsul, o maior evento da região na área, um feito inédito para o programa e para a instituição. Concluí duas pesquisas de iniciação científica. Já estava mortinho de cansaço, mas o ano só chegava à metade…

Julho: no chamado mês de recesso escolar, não parei. Preparei aulas para três disciplinas diferentes e um mini-curso, participei de bancas de trabalho de conclusão de curso e de reuniões de planejamento pedagógico. Procurei, mas não encontrei tempo para a vida pessoal, os afetos, etc…

Agosto: iniciei duas disciplinas na graduação e outra no mestrado. Ao todo, mais de cem alunos. Lancei mais um livro, outra coletânea – “Observatórios de Mídia: Olhares da Cidadania” (Ed. Paulus) – co-organizado com Luiz Gonzaga Motta. O semestre mal começava e meu corpo já se queixava: dores na coluna, inflamação no nervo ciático, encurtamento de tendão, e algumas crises de rinite…

Setembro: passei uma semana em Belém para um mini-curso sobre mídia e direitos humanos. Uma semana na capital das mangueiras significou atraso nas atividades corriqueiras e exaustão na tentativa de reter o avanço do tempo. Eu nem via meu filho crescer e minha mulher ficar mais e mais bonita…

Outubro: dezenas de reuniões com orientandas do mestrado e da graduação; fechamento de projeto de especialização em Mídias Digitais; três eventos científicos, dois presenciais; burocracias diversas no mestrado e apenas um lance na vida pessoal: troquei de carro. Aonde eu iria com ele mesmo?…

Novembro: lancei mais um livro nesses dias, “Ética no Jornalismo” (Ed. Contexto), e revi amigos no 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, em São Bernardo do Campo. Este também foi o mês em que vi as águas tomarem as ruas, as casas, as cidades. Os dias em que a enxurrada e as chuvas afogaram sonhos, levaram vidas e nos fizeram acreditar no impossível. Aprendi com a amizade, com a solidariedade, com o amor fraternal…

Dezembro: qualifiquei duas orientandas do mestrado, concluí as três disciplinas que lecionava e ainda uma pesquisa financiada pela Fapesc. Contabilizei os ganhos e as perdas e vi que era um tempo bom, apesar de tudo. O mês para terminar o ano foi o mês do recomeço, da reconstrução e das tentativas de reinvenção pessoal. Reiventar-se foi escolher para si um tempo novo, e outras prioridades pois as essências quase nunca são evidentes. Foram também dias de fechamento de ciclos, de projeção de novos dias e de se permitir um (merecido) descanso. Não terei muitas saudades de 2008, mas não poderei esquecê-lo, é verdade.

o filho eterno

Acabo de ler o romance brasileiro mais premiado do ano, “O filho eterno”, de Cristovão Tezza. Para se ter uma idéia, o livro levou o Jabuti, o Portugal Telecom, o APCA e mais outros prêmios neste ano. Para além dessas credenciais, o livro crava – se alguém tinha alguma dúvida, ela foi dissipada -, crava o nome do seu autor entre os mais importantes na literatura contemporânea.

Em seu lançamento anterior, “O fotógrafo”, Tezza já havia amealhado prêmios importantes, mas com “O filho eterno”, o catarinense radicado em Curitiba lavou a égua. Despontou já um pouco depois da metade do ano como o lançamento de 2008, causando impacto entre críticos e leitores.

Muitos motivos devem ter levado a isso. A qualidade da escrita de Tezza, a pungente história que conta naquelas páginas, a zona porosa que sedimenta entre literatura e realidade… Os críticos, os entendidos podem explicar melhor, eu nem ousaria. Mas eu queria só dividir algumas impressões e sensações que tive ao ler esse belíssimo livro.

o-filho-eternoUma resenhinha de duas linhas diria que “O filho eterno” conta como um escritor reage e reconstrói sua própria vida ao saber que seu tão esperado primeiro filho nasce com Síndrome de Down. Sem pieguice, sem superficialidade e contra qualquer hipocrisia, Tezza constrói um romance-espelho que incomoda pela sinceridade do mal-estar causado, pela vergonha honestamente exposta. Narrado em terceira pessoa, a história esmiuça os sentimentos do jovem escritor que se vê diante de uma espécie de trapaça do destino, um acidente genético que lhe impõe um filho diferente de suas projeções.

Deixa explicar um detalhe: o próprio Tezza tem um filho com trissomia no cromossomo 21, isto é, a anomalia genética dos antigamente chamados “mongolóides”. Esse detalhe do autor contagia inevitavelmente nossa leitura, provocando a pantanosa zona que mescla testemunho e literatura, memória e invenção, relato e construção. E é entre a nossa dúvida e a página seguinte que se avança conhecendo os sentimentos do pai diante do filho cujo mundo tem um diâmetro de dez metros, não mais que isso. O filho preso no próprio mundo, a corrida de cavalos a que o pai se induz para estimular o desenvolvimento do menino, a confusão de sentimentos que demole e reergue o pai todos os dias. “O filho eterno”, na minha leitura, me conta muito mais do pai do que do filho.

Um filho dependente de quase tudo, sem autonomia, ignorante das abstrações mais básicas como as noções de presente, passado e futuro. Um pai espremido entre o desejo de normalidade, a sobrevivência difícil de quem escolhe as letras para fazer os seus passos e a tentativa de compreender a vida e de como ela nos faz ser o que somos.

Por quase duzentas páginas, eu me perguntei se aquele pai amava seu filho. Ficava revirando as linhas na tentativa de algum sentimento que não fosse a compaixão, o remorso, a irritação… mas talvez o ato de escrever seja – mais do que o de ler – uma maneira de entender o que se passa em nossa cabeça, em nosso coração. E talvez, então, Tezza ou o escritor do livro – não importa! – se disponham a escrever para tentar exorcizar as sombras de algum ressentimento e vislumbrar os contornos mais nítidos do que ficou diante daquela experiência. Se foi assim, a viagem é melhor que a chegada ao destino, como sempre.

A afetividade como compreensão do mundo e das coisas, a literatura como a revelação das essências que ajudam a nos constituir, a literatura como resultado do borramento entre a ficção e a realidade… se assim é, assim me ficou. A autoria é uma paternidade. A escritura é uma forma de romper o ciclo de vida e morte. A literatura é uma maneira de eternizar as coisas e as gentes. Ao escrever sobre o filho daquele escritor, Tezza imortaliza aquela filiação, mas eterniza também o pai que é um substrato de sua relação com o menino. O pai aprende a ser pai com o filho. O menino é o pai do homem. Nessa deliberada confusão entre paternidade e literatura, entre o dever de ser pai e o ofício de ser escritor, Cristovão Tezza oferece uma nova dimensão dos retratos paternos que temos na literatura. Kafka pintou o velho Hermann como um déspota maldito em “Cartas ao Pai”; Paul Auster assumiu escrever para não esquecer em “A invenção da solidão”; Carlos Heitor Cony romantiza, idealiza e mitifica um pai a ser idolatrado em “Quase memória”… Cristovão Tezza exibe a fragilidade, a incerteza, a solidão e o aprendizado que é ser pai.

lições de neocolonialismo na compra de camisa

Duas coisas me irritam muito quando vou comprar roupas:

  • etiquetas que viram estampas
  • estampas escritas em inglês

Eu explico.

Você vai a uma loja, observa a vitrine, escaneia o mostruário todo, fuça, mexe, pergunta para os atendentes, e sai da loja aborrecido quando só tem camisas com a logomarca dos fabricantes. Não é uma estampa bonita, uma padronagem interessante, o bom gosto ou qualquer coisa do tipo.  É a marca mesmo, o carimbo da indústria têxtil. Outro dia, num shopping qualquer, fui atraído por uma faixa que anunciava 50% de desconto em toda a loja. Corri pra lá.

Olhei todas as camisas em exibição na vitrine e nas araras. Todas as peças, eu disse todas tinham o carimbo da Beagle na frente e algumas atrás também. Pela metade do preço, as camisas – que nem eram bonitas – custavam em média 35 reais. Isso. Você paga 35 reais para desfilar por aí, fazendo propaganda da camisaria.

Detesto isso.

É odioso também quando você só encontra camisas com dizeres em inglês. Tem de tudo. Tem frases idiotas, slogans sem nenhum sentido, até mesmo expressões escritas de forma errada. Claro! Estamos no Brasil, e aqui todos somos fluentes em inglês. Conjugamos o verbo To Be na concepção, quando o espermatozóide meets o óvulo. É o começo da vida, quer dizer, da life.

Um tremendo colonianismo, uma besteira de achar chique vestir roupas que dizem besteiras num idioma que não é o nosso! Por que não fazem também em grego, em mandarim, em farsi ou no alfabeto cirílico? Já que pouca gente entende mesmo, e a idéia não é comunicar, mas enfeitar…

Pior que isso é quando a gente encontra roupas com dizeres em português, mas com erros de ortografia e pontuação. Hoje, numa outra loja, encontrei a camisa abaixo, que fiz questão de fotografar…

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Só pra constar: faltam duas vírgulas.

Só pra constar: descida, o substantivo ligado ao verbo descer, é com sc. Decidir é optar. E, claro, eu decidi não levar a camisa…

carregando o mundo nas costas

sisifo

Atlas era o titã que carregava os céus nas costas. Os artistas da época se acostumaram a representar o fortão como um homem que sustentava o globo. Mais tarde, alguém resolveu colocar a figura na capa do livro de mapas, e a moda pegou tanto que todos passaram a chamar o tal livro de atlas.

Ok, e daí?

E daí que estou me sentindo como se carregasse o mundo nas costas nos últimos dias.

Não que eu seja uma espécie de titã ou que eu me ache capaz de fazer o que Atlas fazia. Não. O fato é que estou soterrado de trabalho por conta do final do ano, do acúmulo de tarefas e de uma semana perdida por conta da enchente. Tudo resolveu acontecer agora…

Por isso, peço a minha meia dúzia de leitores que tenha paciência, pois vou postar algo digno de nota aqui, entre uma coisa e outra.

Para se ter uma idéia, tenho quatro bancas de TCC esta semana e preciso ler uma dissertação de mestrado e mandar um parecer por escrito antes da sexta-feira. Tenho que terminar de escrever um artigo e revisar um livro até a outra semana. Sem contar que preciso ainda migrar 21 edições de revista impressa para uma versão eletrônica no novo portal de periódicos que a Univali vai lançar em breve.

E não é só… mas já chega…

Tô mais para Sísifo que para Atlas: quando penso que terminei de rolar a pedra morro acima, ela despenca morro abaixo…

monitor de mídia leva o 2º lugar no prêmio caixa-unochapecó

A reportagem “Qual o futuro da Praia Brava?”, publicada originalmente no Monitor de Mídia, ficou em 2º lugar na segunda edição do Prêmio Caixa – Unochapecó de Jornalismo Ambiental. A reportagem multimídia é assinada pelas acadêmicas Gabriela Azevedo Forlin, Marina Fiamoncini e Stephani Luana Loppnow, e tem infografias de Joel Minusculi. Venceu a reportagem “Consumo crescente de água mineral provoca contradições”, de Esther da Veiga e Marina Bento Veshagem, estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina, e em terceiro lugar ficou “O desafio de preservar sem sucumbir”, do jornalista Wagner Gris, diplomado pela Unochapecó.

Os vencedores disputaram com trabalhos vindos dos três estados da região Sul, e receberam prêmios de R$ 1,5 mil a R$ 4,5 mil.

As reportagens foram julgadas pelos critérios de relevância e adequação das informações; adequação do conteúdo ao formato de webjornalismo; utilização dos recursos da web; propriedade e adequação das fontes de informação; capacidades interpretativa e argumentativa; linguagem jornalística e coesão ecoerência textual.

A iniciativa do prêmio brinda os dez anos do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Unochapecó. A comissão que avaliou os trabalhos foi composta pelos jornalistas Sérgio Luiz Gadini (PR), Reges Shwaab (RS) e Elias Machado (SC). Todas as reportagens premiadas podem ser vistas aqui.

(Momento coruja: estou muito orgulhoso com a performance de meus meninos do Monitor!)

as coisas vão se normalizando

Este blog mudou bastante a sua rotina nas últimas três semanas.

Em 18 de novembro, eu deixava um post em que prometia “na medida do possível” contar aqui e no Twitter o que estava acontecendo de mais interessante no 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. Pois é, não deu. Em São Bernardo do Campo, tive diversos problemas de conexão, além da correria habitual desses eventos curtos em que a gente revê muitos amigos, quer acompanhar todos em suas programações e aí falta tempo até pro banho…

Voltei de São Paulo com a cabeça em Santa Catarina, afinal a chuvarada que iria se transformar num dilúvio já tinha começado. Relatos de casa davam conta de que as aulas haviam sido canceladas e que não havia previsão de tempo firme. Cheguei no sábado, 22, e no domingo aconteceu a enchente. Deixei minha casa por quatro dias e a vida online ficou mais à deriva ainda.

Só consegui consultar caixa postal, feeds e blog no dia 25, quando escrevi um longo post sobre as enchentes no estado. Primeiro de forma intuitiva, usei este espaço para organizar minhas idéias e meus sentimentos sobre aquilo que vivíamos. Depois, percebi que além disso, o blog serviria para avisar amigos da situação por aqui e para dar relatos deliberadamente impressionistas sobre o evento.

De forma surpreendente, as visitas a este espaço explodiram. Não que eu não saiba o quanto a tragédia tenha atraído a atenção e a curiosidade das pessoas. Mas não imaginava que um simples blog como este alcançasse a visibilidade que conseguiu nesses dias, chegando a um pico de 2146 visitas no dia 26 de novembro, um recorde para este espaço. Em média, temos 200 e poucas visitas diárias…

De lá pra cá, as coisas vêm se normalizando. A vida lá fora mostra isso, mas nossas estatísticas também, veja abaixo.

estatsss

A queda vertiginosa dos acessos aponta para o gradativo desinteresse das pessoas em ler sobre a tragédia catarinense, sobre o desastre que vitimou – pelo menos – 120 pessoas, desabrigando e desalojando outras 78 mil. Melhor assim. Que as pessoas retomem suas vidas, suas rotinas, seus cotidianos. Que Itajaí, Blumenau, Ilhota e outras atingidas passem a se reconstruir, a se reinventar, a se refazer.

Sim, é preciso ir adiante. Tenho dito com alguma insistência que é necessário continuar remando, pois ainda há rio. Que seja assim e que voltemos ao que sempre nos queixamos: a rotina.

virando a página

Ultrapassamos, hoje, as cem mil visitas a este blog.

Isso me surpreende e me alegra. Por isso, agradeço aos leitores que passam por aqui e aos que recomendam nossos links. Para brindar o momento, para afastar o baixo astral e para iniciar um outro ciclo, inauguramos um novo layout.

O tema usado a partir de agora é o Cutline, criado por Chris Pearson.

Como sempre, entre e fique à vontade.

enchentes em itajaí (5)

Retornei ontem à noite para casa. Foram mais de 80 horas de tensão permanente, apreensão, e sofrimento. Voltamos e enfrentamos a lama e a sujeira. Na segunda, barcos passavam na frente de casa, onde o nível da água chegou à minha cintura. Em casa, o lodo marcou 30 cm nas paredes. Foi pouco, muito pouco, perto do que vi pela cidade. Tenho amigos que perderam tudo, pois a água tomou as habitações por completo.

Foi tudo muito rápido. Muitos não acreditavam que seriam atingidos, já que suas casas tinham mais de um piso. Outros nem tiveram tempo para retirar seus carros ou móveis. Felizmente sobreviveram, mas outros não.

A enchente aconteceu no domingo, e conforme os dias iam passando, crescia a ansiedade para conferir o tamanho do estrago. Quem havia deixado sua casa queria logo voltar. No retorno, surpresa, perplexidade, tristeza, solidão. Desolação.

Sorte, azar, destino

Diante de tudo o que vi, diante de tudo o que vejo e leio, não consigo me desviar de um sentimento: fui poupado. Me sinto um afortunado por ter sobrevivido, por ter sido pouco atingido e por tantos amigos que me ligaram, me escreveram, enfim, ofertaram ajuda, conforto e solidariedade.

São quase cem mortos. Os números não estão consolidados. Teremos mais corpos, inevitavelmente. Nas ruas, já desde ontem, restos de móveis, entulho, e lixo se acumulam. Camas, portas, sofás, geladeiras, fogões, berços, guarda-roupas, pedaços de madeira, mesas, todos jogados. Não prestam mais. Em alguns pontos, muros inteiros caíram, trechos de rua cederam, placas e postes tombaram. As ruas estão marrons, com lama ressecada, sujeira e desordem.

Na segunda, o trânsito era caótico. Carros na contramão, semáforos sem funcionar, filas e impaciência. Enxurradas leitosas como café-com-leite. Na terça e na quarta, saques em vários pontos assustaram a todos. Parecia o caos, uma terra sem lei, uma falência completa da ordem. Hoje, decretaram toque de recolher, e após as 22 horas não se pode andar pela cidade sem justificativas. É uma tentativa de restabelecer a segurança, e resgatar a sorte.

Operação de guerra

Na segunda e terça, fiquei impressionado com o circo armado em Itajaí. Havia policiais civis, militares e federais atuando. Chegaram homens da Marinha e do Exército e alguns da Força de Segurança Nacional. Vi o Bope também nas ruas. Vi lanchas nas principais ruas, blindados e muitos caminhões camuflados, como as fardas dos militares. 23 helicópteros coalharam o céu.

No Centro de Eventos da Marejada, chegavam carretas e mais carretas com alimentos, roupas, colchões e cobertores. Cordões de voluntários desembarcavam as cargas fazendo as chegar nas pilhas no canto do imenso pavilhão. Havia um espírito impressionante de preocupação, de urgência, de querer ajudar. Mais impressionante é perceber como as pessoas estão se reerguendo. Nas ruas, ainda impera um silêncio tenso. As pessoas se olham nos olhos, se comunicam num instante, tornam-se cúmplices na desgraça.  Todos aqui têm uma história para contar sobre a tragédia. Todos. Isso é inesquecível, atordoantemente inesquecível.

Mas parece que a coragem dessa gente é maior que o pesadelo, que a devastação. Me arrepiei há pouco com isso, com a vontade sem fim de dar a volta por cima.

Tenho aprendido tanto nesses dias! Tenho visto tanta coisa, e pensado tanto na vida! Esta é uma experiência transformadora. O pesadelo ensina.

Esses são dias em que se envelhece anos.

enchentes em itajaí (3)

Uma boa notícia!

A sensação é de que, desde a manhã, os diversos atores envolvidos na operação de salvamento e atendimento aos flagelados pelas cheias estão falando a mesma língua. Defesa Civil, governos municipal, estadual e federal, e outras instituições – como a Univali – estão atuando de forma mais coordenada.

As doações estão sendo encaminhadas para o Centro de Eventos da Marejada. A Univali recebe e atende desabrigados, junto com outros 30 postos pela cidade. Na Univali, os voluntários chegam, fazem um cadastro e são encaminhados para as localidades mais necessitadas. Choveu muito rapidamente no meio da tarde, mas o sol retornou e o nível das águas nas ruas vai diminuindo, sempre dependendo da região. Ainda existem pontos onde há água e lama até o telhado das casas; noutras, nem parece que choveu.

Percebo uma esperança, mesmo que diminuta…

enchentes em itajaí (2)

Muito rapidamente:

(*) Já são 72 mortos, e os números ainda sobem. Ontem à noite, eram 53.

(*) São quase 54 mil desalojados e desabrigados, estatística que dobrou de ontem pra hoje.

(*) Parou de chover e as águas já estão num nível mais baixo.

(*) Um blog foi criado para reunir informações sobre os atingidos: http://www.desabrigadositajai.wordpress.com

A situação na cidade parece, aparentemente, melhorar. No centro, próximo à rotatória da rua Joca Machado Brandão, ontem tomada pelas águas e lama, já havia trânsito agora há pouco. Já se podia ver o asfalto. Saiu o sol pela manhã toda e parte da tarde. Isso fez com que o espírito da cidade ficasse mais aliviado, mais desperto, mais reativo.

enchente em itajaí

Sou um dos mais de 20 mil desalojados nas enchentes que assolam o Vale do Itajaí, em Santa Catarina, neste final de novembro. É um drama, mas não é um drama isolado. Estimativas dão conta de que 1,5 milhão de pessoas tenham sido afetadas pelas fortes e constantes chuvas. São mais de 44 mil pessoas – até o momento – que estão desabrigadas ou desalojadas. Existe uma diferença entre uma coisa e outra: desabrigado é quem não tem onde ficar e vai para abrigos improvisados ou organizados pela Defesa Civil e órgãos de atendimento. Desalojado é quem está em casa de amigos, vizinhos, parentes, como é o meu caso.

Cerca de 80% da cidade de Itajaí está sob as águas, e todas as classes sociais estão atingidas. Dos miseráveis aos ricaços, ninguém foi poupado. Mesmo quem não foi diretamente atingido está sofrendo as conseqüências: veja o caso dos meus amigos Isaías e Raquel, que acolheram a minha família e mais outras duas em seu apartamento. A cidade deve sofrer nas próximas horas com falta de água, alimentos, combustíveis… Boa parte da cidade, metade dela, está sem energia elétrica.

Os gestos

É um lugar comum, um clichê desgastado, mas tem uma verdade incontornável: em momentos trágicos como este, nos surpreendemos com os gestos de solidariedade, amizade, fraternidade das pessoas. Das pequenas às grandes demonstrações: é o empresário carioca que disponibiliza caminhões da sua empresa para distribuir água; é o caminhoneiro anônimo que oferece carona a desconhecidos para atravessar um trecho alagado; são os amigos que se ligam para ter informações; são as pessoas que – mesmo atingidas – se colocam como voluntários para atender os outros.

Deixei minha casa, e depois conferi que cerca de 30 ou 40 cm de água havia invadido o local. Não pude permanecer lá. Saí no domingo de manhã, antes mesmo da água chegar. Fui com mulher e filho para um local seguro, e em seguida, fomos auxiliar no Colégio Dom Bosco, onde centenas de pessoas chegavam molhadas, com frio, com fome, e sem nenhuma esperança. Perderam tudo. Distribuindo roupas para as pessoas, eu via nos olhos delas um misto de vergonha, de desalento, de perplexidade. Um sofrimento intenso, difícil de escrever aqui.

Ontem, à noite, quando fomos à Univali para ajudar mais sofrimento e dor. Desespero e medo.

Tensão

No domingo à noite, passamos pelo Supermercado Angeloni e havia um clima silencioso de grande tensão, de comunhão pelo medo. As águas não paravam de subir e a maré cheia se aproximava. Depois, soube que o Angeloni – ao menos o seu estacionamento – ficou todo tomado pela água barrenta.

É manhã de terça, e os mortos já são 65. Temo que os números disparem assim que o nível da lama baixe e que a Defesa Civil, Bombeiros e Polícia possam chegar aos locais onde houve deslizamentos e quedas de barreira.

Conversei com vários moradores mais antigos da cidade, e que já passaram pelas famigeradas enchentes de 1983 e 1984. Eles me disseram que os dias que vivemos aqui são piores, bem piores. A cidade cresceu muito desde então. A área impermeabilizada aumentou, assim como a quantidade de lixo produzido também. Tudo isso associado às condições atmosféricas fizeram com que um cenário de guerra se descortinasse por aqui.

O caos

Alguém aqui lembrou um livro. Outro alguém, um filme. Acho que os dois exemplos dão uma noção do que estamos passando por aqui. O livro: Ensaio sobre a cegueira. O filme: Guerra dos Mundos. Nos dois, o panorama é de abandono, destruição, hordas de famintos e flagelados; desespero e o inevitável sentimento de perda. Imagens podem ser vistas no blog do meu amigo Robson Souza (http://luzeestilo.wordpress.com), e informações bem atualizadas no blog do Juliano Flor, acadêmico de Jornalismo (http://visaoextra.blogspot.com).

Demorei a postar algo aqui por diversos motivos: viajei a São Bernardo do Campo para o 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo na quarta 19 e só voltei no sábado, 21. No domingo, tudo aconteceu, e fiquei fora de órbita. Na verdade, ainda estamos fora de ordem.

A dor e o sofrimento não vão parar

Assim que as águas baixarem, projeto eu, entraremos em outra fase desse calvário: o de contabilizar os danos, limpar a destruição e passar a reconstruir a vida. Nada será como antes, e isso não é um pessimismo à toa. Quem passa por isso aqui não esquece. Nunca. Então, a vida está andando de lado, está suspensa. Não há aulas. Não há compromissos. Não há agenda a ser cumprida. Não há vida normal. Só existe o essencial: sobreviver.

Por isso, as imagens evocadas pelos meus amigos do livro e do filme não largam a minha cabeça. Calculo que não chegaremos a um nível tal de degradação como o relatado por José Saramago, em seu lindíssimo livro. Também acho que a destruição não será como a protagonizada por Tom Cruise nos cinemas. Mas a mobilização das pessoas, a interrupção brusca do ritmo da existência e a perplexidade com a nossa fragilidade e vulnerabilidade são os mesmos.

Estou bem. Minha família também. Os amigos idem. Aliás, graças à amizade, à generosidade, à imensa capacidade de doação de alguns, muito estão sobrevivendo.

15 dias apavorantes

Eu sei, o leitor deste blog detesta queixas. Mas aqui não vai nenhuma reclamação, mas uma satisfação.

As duas últimas semanas foram absorvidas quase que totalmente pelos infindáveis compromissos que me soterraram. Vai aí um resumo dos últimos 15 dias. Do dia 20 de outubro pra cá…

… corrigi provas da seleção de novos alunos no Mestrado em Educação

… dei palestra de abertura na Semana de Comunicação no Ielusc, em Joinville

… preparei e apliquei prova na disciplina de Legislação e Ética em Jornalismo

… preparei e apliquei também a prova da disciplina de Introdução ao Jornalismo

… elaborei relatório de produtividade dos professores do mestrado para a coordenação do programa

… revisei os currículos Lattes do meu grupo de pesquisa na graduação

… corrigi as provas de Legislação e Ética em Jornalismo e de Introdução ao Jornalismo

… reinstalei a rede wi-fi em casa que estava em pandarecos

… troquei de carro, o que implica dizer: instalar alarme, transferir seguro, etc…

… dei aulas no mestrado em duas manhãs

… tive reuniões no Grupo de Pesquisa no Mestrado e no Colegiado do programa

… comecei a editar o livro sobre Cinema e Educação

… iniciei a divulgação de meu novo livro

… fiz revisão final de duas dissertações

… montei as bancas de qualificação de duas orientandas no mestrado

… levei meu filho ao pediatra

… dei aulas na graduação em duas noites

… resolvi burocracias em bancos

… recusei um trabalho legal

… acompanhei minha mulher em dois médicos

… escrevi um editorial para o Monitor de Mídia

… corrigi TCC de uma orientanda da graduação

… fiz loucuras com a patroa no sábado à noite

… revisei reportagem dos meninos do Monitor

… resolvi burocracias em cartório

… fiz entrevistas com candidatos ao mestrado

… terminei a prestação de contas de uma pesquisa para a Fapesc

Fala a verdade: eu mereço umas férias…

tudo ao mesmo tempo, agora, e mais e mais…

Chupar cana e assobiar. Bater escanteio, correr pra área, disputar a bola com os zagueiros, cabecear e correr pro abraço. Ter oito braços e fazer mil coisas ao mesmo tempo. Tudo junto. Tudo agora, Tudo pra ontem. Run Forest! Corra Lola corra! Vai, Alice! O tempo está correndo e escorrendo!

Não, não é a Lula Lelé aí de cima. Sou eu mesmo. E você? Contigo é diferente?

No Norte, e a trabalho

Pessoal, sei que já avisei, mas não custa repetir: este blog está meio devagar porque estou em viagem a trabalho, para um curso de pós-graduação na Universidade da Amazônia, aqui em Belém (PA).

Se vocês quiserem seguir o curso, passem no blog da disciplina “Mídia e Direitos Humanos”.

Voltaremos com nossa programação normal na próxima semana.

malas prontas

Embarco hoje para Belém (PA), para uma temporada de uma semana na Universidade da Amazônia (Unama). Lá, vou dar uma disciplina na especialização em Jornalismo, Cidadania e Políticas Públicas: “Mídia e Direitos Humanos”.

É longe: 3412 km me separam da capital do Pará. Vou a convite das amigas Ana Prado, Vânia Torres e Danila Cal, a quem já agradeço.

Se você quiser me seguir no curso, criei um blog: Mídia e DH.

É possível que este blog não tenha tantas atualizações nos próximos dias, devido à correria, por exemplo. Minha meia dúzia de leitores há de entender…

tristeza e solidão (baden e vinicius)

Sou da linha de umbanda
Vou no babalaô
Para pedir pra ela voltar pra mim
Porque assim eu sei que vou morrer de dor

Ela não sabe
Quanta tristeza cabe numa solidão
Eu sei que ela não pensa
Quanto a indiferença
Dói num coração
Se ela soubesse
O que acontece quando estou sozinho assim
Mas ela me condena
Ela não tem pena
Não tem dó de mim

não pense que estamos parados…

Só porque não atualizo esse blog desde agosto – e já estamos no dia 2 de setembro!!! -, não pense nossa meia dúzia de leitores que estamos parados. Na-na-ni-na-não!

Nossos técnicos estão enfurdados em seus laboratórios testando as potencialidades do Blip e do Google Chrome. Nossos especialistas estão discutindo com nossos orientandos o uso da participação do usuário nos portais noticiosos brasileiros, as apropriações dos microblogs pelo jornalismo nacional, o uso dos blogs por professores e o cinema na sua relação de dispositivo midiático pedagógico.

Estamos trabalhando duro para melhor servi-los. Obrigado pela preferência.

blogday, as minhas indicações

Não vou lá explicar porque o leitor já deve saber.
Vamos direto ao ponto.

Minhas indicações hoje são:

1. House, o médico – sobre o doutor que gostaríamos de ser

2. E Deus criou a mulher – uma prova definitiva sobre a existência de um ser superior

3. Dude! We are lost! – sobre o seriado que mais deixa a gente perdido

4. Faz caber – sobre projetos gráficos, infografias, deleites visuais

5. Samuel Casal – porque sou fã do trabalho desse cara!

corrupção: veja um infográfico feito de lama

Compra de votos. Desvio de verbas. Favorecimento de empresas. Compra de consciências. Compra de mandatos. Roubo de dinheiro público. CPIs fajutas. Negócios escusos. Relações promíscuas entre funcionários públicos e empresas. Conflito de interesses. Relacionamentos espúrios. Condutas condenáveis. Interesses abjetos.

O UOL preparou um esclarecedor (e triste) infográfico sobre os principais escândalos políticos do Brasil desde a redemocratização em meados dos anos 80. Veja aqui.

dia dos pais: uma crônica

Em julho de 2004, escrevi o texto abaixo, que foi publicado no site de um amigo meu.
É divertido ler agora… parece que um século me separa daquele tempo.

 

Faz duas semanas que me tornei pai. Claro, isso não é lá grande novidade já que quase toda a fauna de homens no mundo passa por isso em algum momento da sua vida. Mas é a minha primeira vez, e ainda não percebi a coisa toda… Vasculhando minha agenda essa tarde, em busca de qualquer outra coisa, esbarrei num bilhetinho que escrevi para mim mesmo na capa do caderno. Nem me lembrava mais que havia feito aquilo, mas agora me recordo nitidamente que rascunhei algumas frases no meio da madrugada: minha mulher descansava do parto, o bebê dormia sem culpa nem nada, e eu ainda me refazia de tudo aquilo. É claro que acompanhei a cirurgia, que tirei fotos, que anunciei o nascimento pelo celular, que monitorei cada respiração daquele menino naquela noite. Medo bobo. Medo de pai novo…

No silêncio do quarto, a clínica praticamente vazia, fiquei ali, só assistindo os dois dormirem. Quis gritar, quis dançar, mas me detive: seria ridículo; incompreensível para qualquer enfermeira que ali entrasse de repente. Cocei a mão e apanhei a agenda. Com uma letra miúda, fui deixando escoar uma ou outra palavra, como num conta-gotas. Não que eu pesasse as palavras, mas porque não queria acordá-los. Fui imprensando palavra com palavra, sem pressa, com cuidado na pontuação, fazendo a madrugada só minha.

Tornei-me pai há poucas horas e ainda estou tomado por uma imensa sensação de paz. Não chorei no parto; não fiquei nervoso; só fui sorriso. Não esperava reagir assim, mas acho mesmo que já estava esperando tudo isso. Ser pai me preencheu com tanta força, serenidade e delicadeza que quase nem me reconheço.

A força, eu roubo dos dedinhos dele, que apertam minha mão; a serenidade, eu vejo no soninho leve e contagiante dele; a delicadeza mora nos movimentos suaves dos lábios, quando balbucia historinhas incompreensíveis.

Como será daqui pra frente? Como o mundo vai tratar esse novo passageiro da vida? Eu não sei. Também não quero me preocupar agora com isso. Deixa o mundo girar que eu quero mesmo é velar por esse soninho gostoso.

Se fosse essa noite, escreveria outra mensagem. Talvez mais serena, mais amena. Já mudei bastante desde aquela madrugada. Não é responsabilidade ou o peso da idade. Não é medo, nem coragem. É uma sensação diferente, que me preenche, que me acalma, que me renova. É uma paz imensa, espalhada, inebriante. Só. Nessas duas semanas, a vida mudou bastante. Comi menos, sorri mais. Dormi menos do que o normal, é bem verdade. Mas não foi apenas para amainar algum chorinho sem-causa. Perdi o sono para sonhar com ele crescido, correndo pela praia, chutando a espuma da onda que lambe a areia. Não perdi o sono. Ganhei sonhando acordado.

 

seis filmes: comentários muito pessoais

Porque hoje é sábado e porque faz um friozinho preguiçoso, deixo aqui comentários muito pessoais sobre seis filmes que vi nos últimos dias:

O Fim dos Dias
Perdi a vez de assisti-lo no cinema, e até me arrependo agora. O filme de M.Night Shyamalan é envolvente, interessante, inteligente e despretensioso. Na verdade, estava meio arredio depois de ver Sinais e a A Vila, mas o cineasta voltou em grande estilo. É suspense e terror em doses fartas, sem efeitos especiais muito pirotécnicos. É desses filmes que – mesmo após assistir – a gente fica pensando, pensando, pensando… Para quem quer sobreviver.

Kung-Fu Panda
A animação é ótima, divertida e empolgante. A versão do cinema dublada é competente e engraçadíssima. As referências aos filmes de artes marciais estão lá, mas mesmo quem não as identifica assiste com prazer. Fui ver com amigas e meu filho. Saímos da sala dando caratê em todo o mundo. (O joguinho do Play Station também é bem divertido, focado na história, mas tem um porém: é curto). Para quem não tem preconceito com desenhos animados.

Wall-E
Outra animação pra ficar. Imagine 15 minutos de filme sem diálogos, sem gente, num cenário inóspito e você não desgrudando os olhos da tela. Isso acontece. A história de amor entre robozinhos e o futuro da Terra entretém, enternece e diverte. Referências explícitas a E.T. e a 2001 – Uma odisséia no espaço. Para quem não é robô.

Pecados e Tentações
Falou-se muito da estréia de Leila Lopes no cinema pornô. Depois de ver o trabalho, acho que falaram demais. Leila está bonita e charmosa. Mas seu desempenho, digamos assim, fica bem aquém do esperado. Não é uma estrela da arte, o enredo é bobo e só tem três transas, duas com a protagonista. Rita Cadilac e Gretchen vestiram (?) melhor a camisa… Para quem é curioso.

O Amor nos Tempos do Cólera
A adaptação do romance de Gabriel García Márquez para o cinema resultou num filme com duas horas e quarenta minutos. É um épico, mas a gente se envolve, se emociona e se diverte. Fernanda Montenegro faz a mãe do protagonista, vivido na maturidade por Javier Barden. Os dois estão estonteantes na interpretação. As locações são lindas e a trilha sonora mostra, entre outros bons momentos, uma Shakira altamente romântica. Para quem quer se apaixonar.

Antes de partir
Uma amiga minha deu a chave: é um filme que tem tudo para ser piegas e contorna isso muito bem. Pois é. A história de uma amizade entre pacientes terminais reúne Morgan Freeman e Jack Nicholson nos papéis principais. O enredo reserva pequenas e divertidas surpresas, mas o que fica é uma espécie de “lição final”. Aquilo de que a vida é muito mais. Para pessoas sensíveis e duronas.

aprendendo a cozinhar

Você gosta de cozinhar?
Não tem jeito pra coisa, embora tente?

Seus problemas acabaram!
Há ótimas professoras por aí…

Nigella Lawson é a moça que posou para J.P. Masclet…

A moça abaixo é Padma Lakshmi,

a mesma tecla: sempre!

Este blog não está de férias.
Seu titular está é sem tempo pra respirar.

8 coisas pra se fazer antes de bater com as 10

Sim, é mais um meme,
Quem me convidou foi a Adriamaral.

As regras:

1) Escrever uma lista com 8 coisas que sonhamos fazer antes de morrer;
2) Convidar 8 parceiros(as) de blogs amigos para responder também;
3) Comentar no blog de quem nos convidou;
4) Comentar no blog dos nossos(as) convidados(as), para que saibam da “intimação”;
5) Mencionar as regras.

Minhas 8 coisas:

1. Voltar a escrever pro prazer;
2. Conhecer os seis continentes;
3. Aprender a tocar trompete como Miles Davis;
4. Queimar umas notas de cem reais de verdade e sem me preocupar;
5. Ler um livro por semana: à minha escolha e todos os demais compromissos aguardando o ponto final;
6. Dirigir de olhos vendados e a 150 km por hora num retão deserto de estrada;
7. Assaltar um banco: não pra roubar, mas por uma questão de enfrentamento político;
8. Arrumar mais um milhão de motivos para não ir…
Passo adiante para:
Dauro Veras, Rogerio Kreidlow, Marcos Palacios, Rodrigo de Fáveri e Robson Souza.

daniel dantas e um roteiro cinematográfico para o país

Nos anos 90, tivemos oportunidades sensacionais para acompanhar em tempo real uma saga com tons semelhantes aos maiores filmes de gângster, com pitadas de suspense, lances inesperados, crime e mortes.

O presidente estava enredado numa teia de corrupção. Até o pescoço. Seu tesoureiro de campanha, uma eminência parda no governo, era o homem de frente nos negócios escusos. O presidente foi denunciado pelo irmão, enciumado. Sim, o presidente teria avançado sobre a cunhada. O presidente foi impedido de governar, renunciou, deixou o governo. Morreu a esposa do tesoureiro. A mãe do presidente entrou em coma. O irmão-delator morreu de um câncer devastador. O presidente saiu de cena. O tesoureiro foi encontrado morto com a namorada, na cama. Sangue, corrupção, ganância…

De lá pra cá, tivemos escândalos ruidosos também, e o Mensalão trouxe o enredo mais megalomaníaco. Tinha como protagonistas um ministro influente e um deputado-falastrão. Abalou o Planalto, derrubou bastante gente, mas a República se refez.

Agora, com os acontecimentos das últimas semanas, temos um filme que parece ser um verdadeiro arrasa-quarteirão. A prisão de um banqueiro com ligações estreitíssimas com o Parlamento, com camadas do Executivo e com todos os demais focos do poder trouxe à tona um enredo não totalmente desconhecido, mas não menos surpreendente pelo teor de enxofre e uréia que exala. Foi preso e foi solto pelo STF. Foi preso novamente, e mais uma vez solto pela corte maior do país. Um jornalista contou que – na segunda vez em que estava com os federais em interrogatório -, o banqueiro ameaçou contar tudo, entregar todos. Curiosamente, o STF deu novo habeas corpus, isto é, aceitou a chantagem. Com isso, deflagrou uma crise no próprio Judiciário. Ontem, 400 – eu disse, quatrocentos – procuradores e juízes manifestaram-se publicamente contra o presidente do Supremo, dando apoio ao magistrado que pediu a prisão por duas vezes do milionário. Agora, parcelas do Judiciário no sul e sudeste do país cogitam pedir o impedimento do presidente do STF.

Na mídia, foi dito mais de uma vez que estamos assistindo a colonoscopia do Brasil, que mergulhamos nos intestinos do país. Justamente lá, onde encontramos a alma e as fezes.

Já temos um novo filme para o país. Não tão novo, é verdade. Mas o fedor é fresco, e como embrulha o estômago!

desejo e reparação, eu vi

Noite passada, mesmo que entrecortado, assisti a Desejo e Reparação, adaptação do romance de Ian McEwan para o cinema pelo diretor Joe Wright. Vi e devorei os extras da versão do DVD. Vi e fiquei louco para ler o livro que originou o filme.

É uma história pungente, envolvente, dilacerante. Desses dramas românticos de guerra, a história traz à tona sentimentos que a gente luta a vida inteira pra esconder. Mas é o desejo de reparar um imenso erro que move os dedos da narradora.

As cenas rodadas em steadycam para relembrar a desocupação de Dunkirk são estupendas, colocam o telespectador no meio da praia coalhada de loucura, desolação, fumaça e soldados maltrapilhos.

Buscar o perdão, tentar a redenção. Que motes para uma história!!!

entrevista sobre blogs

Hoje, a partir das 13h30, estarei no programa Viva Voz, da Univali FM. O tema é a mania dos blogs. Tentei convencer a produção que eu não era a melhor pessoa para falar disso, mas acho que eles não entenderam bem o drama. De qualquer forma, fica o convite para ouvir.

O programa é comandado pelo jornalista e professor Carlos Roberto Praxedes e tem a participação de acadêmicos do curso de Jornalismo da Univali. Se você está em Itajaí, basta sintonizar em 94,9 na banda FM. Se estiver fora da cidade, acompanhe pela internet: http://www.univali.br

ATUALIZAÇÃO: Participou do programa o Joel Minusculi, e a Fernanda Prado auxiliou Praxedes nas perguntas. Foi bem legal ter participado e nem vimos o tempo passar. Aliás, acabei sabendo que o próprio Praxedes criou um blog.

ele andou pensando…

Com o olhar se arrastando pelo chão, ele suspirou uma ou duas vezes.
A agenda cheia, como sempre, mas desta vez os deadlines não tinham margem nenhuma de negociação. Tentou riscar um ou outro compromisso menos importante, mas chegou ao final da lista sem nenhum rabisco.
Pensou, é o fim do mundo?
Não, mas quase: o fim do semestre.

(Deixou de escrever este post e voltou à lida…)