Google despeja migalhas ao jornalismo

Nesta semana, o Google News Iniciativa Startup Lab anunciou os dez empreendimentos jornalísticos que irá apoiar. Nas redes sociais, os contemplados vibraram com a escolha. Acontece que o gigante tecnológico vai destinar “até 20 mil dólares” a cada um dos escolhidos. Isso mesmo. Até 20 mil dólares. É uma miséria, convenhamos!

Nos Estados Unidos, um repórter ganha em média 45 mil dólares por ano. Quer dizer, o Google quer acelerar startups de jornalismo aportando o equivalente a cinco meses de salário de um profissional. E ainda alardeia aos quatro ventos que estão apoiando o jornalismo…

Numa crise financeira como a atual, quando outros potenciais apoiadores escafederam-se, as big techs despejam migalhas a coletivos ou jovens empresas que querem inovar. É desrespeitoso com os contemplados, com o  jornalismo e com a nossa inteligência.

Outubro cheio!

Este post deveria ser escrito em setembro, e vê-lo agora, na segunda metade do mês seguinte, já mostra como estão as coisas por aqui. Sim, aceleradas. Mas nem vou me queixar, eu quero é mesmo celebrar porque o mês está recheado de coisas boas. Pelo menos pra mim.

No dia 13, participei junto com Letícia Cesarino, Ronaldo Teodoro, Rafael Azize e Mariana Possas de um debate do ciclo Jornalismo e Direitos Humanos em Debate, na UFBA. O projeto é uma websérie de 10 episódios semanais tratando de problemas, derivações e consequências da loucura que é se comunicar hoje no mundo, e falar de direitos humanos. Nosso debate tratou bastante de crise de autoridade nas mediações do jornalismo e erosão de autoridade. Aliás, dá pra conferir aqui: https://youtu.be/tk9tXVn8ZIo

No dia 21, participo de uma aula dos professores Rafael Bellan e Rafael Paes Henriques no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades, da UFES. A disciplina se chama Questões em Jornalismo e pretendo tratar de um par de ideias que estão no meu livrinho A crise do jornalismo tem solução? (ATUALIZAÇÃO: um vídeo com esta participação está aqui)

No dia 23, estarei no seminário Desinformação e Pandemia, que Ronaldo Henn e os colegas da Unisinos estão promovendo. Participo de um eixo que vai discutir Dimensões éticas implicadas nas fake news e interfaces com sistema jornalístico com Felipe Moura de Oliveira.

No dia 27, converso com os alunos do curso de jornalismo da UFMT-Araguaia, liderados pelo professor Edson Spenthoff. O tema é as fake news, nas novas e as velhas formas de desinformação.

No dia 28, a convite de Vitor Blotta e Ben-Hur Demeneck, dialogo com os pesquisadores do grupo Jornalismo, Direito e Liberdade da ECA/USP sobre jornalismo e poderes das liberdades de comunicação.

Se não houvesse essa maldita pandemia, eu teria passado por cinco estados diferentes (BA, ES, RS, MT, SP), encontrado gente querida e dialogado de perto com elas. Com o vírus, tudo será mediado por telas… Estou muito grato por esses convites e pela oportunidade de trocar ideias e aprender com todos esses amigos queridos. Isso a pandemia não me tira!

Crise do jornalismo: caminhos

Se você se afoga em números que mostram que o jornalismo sofre de uma crise terrível e cujo horizonte de sobrevivência está mais longe do que nunca, calma. Você não está sozinho. Eu também me nutro desse necessário veneno. Mas nem tudo são gráficos em vermelho, e há quem formule e pense soluções (sim, eu também).

O Laboratorio de Periodismo da Fundación Luca de Tena, da Espanha, listou esta semana três mudanças básicas que podem ajudar a recuperar a confiança nos meios de comunicação:

  1. Transparência radical: Ok, concordo. Todos concordam, mas quem se dispõe? A questão da transparência esbarra em muitas travas de caráter financeiro (ela gera despesas extras e pode comprometer fontes de ganhos), político (pois estremece focos de poder dentro das instituições) e culturais (jornalistas são tradicionalmente impermeáveis a mostrar e reconhecer erros e falhas). É um tema do momento e não pode ser considerado uma preocupação vã ou passageira…
  2. Ser confiável e ser coerente: Ok, ótimo. Mas há uma questão a ser resolvida: se se espera que um veículo seja plural e diverso, quanto de coerência se pode esperar dele? Superar esse impasse ajuda a definir uma espécie de lugar de fala do veículo, o que tem a ver com a próxima mudança…
  3. Ser “um dos nossos”: Ok, excelente! E esta dimensão tem a ver com prioridades editoriais e a necessidade de refazer pactos com os públicos, tendo diálogos mais abertos, constantes e horizontalizados. Requer disposição de quem dirige os meios e de quem os opera. Alguns jornalistas mais jovens demonstram menos resistência a essas trocas, mas sabem que – no dia a dia – elas implicam em mais trabalho e eventualmente mais desgaste público. É uma questão complexa, mas igualmente inadiável…

 

Da Inglaterra, David Caswell lista para o BBC Labs outras cinco ideias para ajudar a inovar no jornalismo em 2020:

  1. Proporcionar aos públicos produtos jornalísticos com valor único diante do que é oferecido. Só assim, os meios podem conseguir alguma vantagem competitiva no mercado da atenção…
  2. Romper com a dependência das plataformas digitais para construir relações diretas com seus públicos. Acho sensacional e urgente isso. Escapar das garras das Big Techs é um fator de sobrevivência imediata do jornalismo.
  3. Entregar notícias que correspondam às necessidades reais dos públicos. É óbvio, mas ironicamente tem sido cada vez mais difícil e raro…
  4. Restabelecer a confiança com os leitores entediados e que, aparentemente, abriram mão do jornalismo. Sim, é uma espécie de resgate, pois esse público é crescente.
  5. Preservar os valores do jornalismo e manter a perspectiva editorial humana. Também parece óbvio, mas não custa repetir.

3 links sobre jornalismo para 2020

2020 já é!

Que tal três linquezinhos espertos sobre jornalismo no Brasil?

  • Nativojor: o site é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso da jornalista Fernanda Giacomassi, e o objetivo é oferecer um panorama dos veículos nativos digitais brasileiros. Vale navegar com calma, ler as entrevistas e conhecer as iniciativas. É inspirador, ideal para o início de um ano…
  • Por falar em gente inspiradora (e corajosa!), Sérgio Spagnuolo e Alexandre Orrico juntaram alguns cacos e vários talentos para criar o Núcleo, empreendimento de jornalismo de dados, cujo foco é transparência.
  • E para falar de jornalismo por aqui é essencial ler as projeções de especialistas deste especial do Farol Jornalismo e da Abraji.

 

Guerra entre Bolsonaro e jornalistas deve continuar em 2020

O ano de 2019 foi um ano pra lá de tenso nas redações, não só por causa de demissões e fechamento de títulos, mas também porque cobrir os atos do governo de Jair Bolsonaro foi, digamos, mais insalubre do que imaginávamos.

Houve violência verbal, truculência, ameaças e medidas arbitrárias vindas do principal ocupante do Palácio do Planalto…

Você acha que a guerra entre o presidente e o jornalismo profissional vai amainar em 2020? Eu acho que não, e explico tim-tim por tim-tim neste artigo especial para o objETHOS.

ATUALIZAÇÃO de 13/12/2019: Falei um pouco mais sobre isso com a jornalista Kassia Nobre do Portal Imprensa. Veja aqui a entrevista.

Ética, mercado de trabalho e crise do jornalismo

Os cursos de Comunicação da Faculdade Ielusc, de Joinville, estão realizando desde ontem, 10 de setembro, a 9ª Semana Integrada de Comunicação. O evento vai até amanhã, 12, e pra fechar, vou falar um pouco de ética jornalística, mercado de trabalho e a crise que se abate sobre o jornalismo. Vou aproveitar também para lançar naquela cidade o livro “A crise do jornalismo tem solução?”

Para saber mais da semana, veja aqui.

Para saber mais do livro, aqui.

Três armadilhas a evitar quando pensamos sobre a crise do jornalismo

É tentador projetar cenários e apontar para soluções quando estamos estudando ambientes de crise. Tendo como objetivo fazer sínteses para explorar flancos e arrancar saídas, volta e meia cometemos erros de leitura e de julgamento. Por isso, é preciso evitar certas armadilhas.

No caso da crise do jornalismo, vejo como é fácil cair em três delas, pelo menos.

A primeira é fazer diagnósticos sem se apoiar em dados da situação. A indústria jornalística no Brasil é muito reticente em fazer pesquisas e disponibilizar essas informações. O resultado é um setor que funciona de forma errática, aos trancos e barrancos, à base da tentativa e erro. É um setor também que inova menos do que poderia, justamente porque teme o fracasso e não considera o risco como uma constante na equação daquela exploração econômica. Assim, como temos poucos números e nem sempre é possível gerar séries históricas que permitam comparações, recorremos a projeções nem sempre realistas.

Por isso, com alguma frequência, precisamos produzir relatórios, estudos e até mesmo dados. Fiz isso muito rapidamente no segundo capítulo de A Crise do Jornalismo Tem Solução?, que lancei este ano. Me debrucei sobre um material da Associação Nacional dos Editores de Revista (ANER) de anos passados e comparei com a realidade que encontramos nas bancas atualmente. Cheguei a uma taxa alarmante: 35 das 100 revistas mais lidas em 2014 já não circulavam mais quatro anos depois. Perceba: estou falando de publicações bem sucedidas de diversos nichos e públicos, e que simplesmente deixaram de existir em pouquíssimo tempo. Isso é uma medida, não a única, mas ela ilustra parte de como a crise se manifesta no mercado brasileiro…

A segunda armadilha fácil de se cair quando se pensa em crise no jornalismo é ignorar a escala dos acontecimentos e dos atores implicados. Quer dizer: a crise afeta cada um de um jeito, com uma duração e conforme uma proporção. A queda vertiginosa de vendas em banca pode acionar o alerta amarelo num jornal grande (e que tem boa base de assinantes no modo digital), mas pode ser fatal para uma empresa média, muito dependente desse modelo. Da mesma forma, o muro de pagamento pode funcionar em alguns casos e em outros, não, conforme comento também no livro. É preciso considerar o contexto e ponderar como cada fator pode se comportar num contexto de crise. E ficar com olhos atentos porque o peso e a influência desses fatores pode se modificar em meio à observação.

A terceira armadilha é permitir que nossos desejos contaminem nossas leituras da crise. Porque amamos o jornalismo e porque não queremos que ele desapareça, nos apressamos a dizer que ele nunca morrerá, que as mutações pelas quais passa são superficiais, e que não estamos vivendo um furacão, mas só uma ventania. Cuidado! Desejar que algo não aconteça não necessariamente impede que aquilo realmente ocorra. É preciso mais para evitar a realidade: interferir nela. Seja propondo soluções, apontando para erros evitáveis ou implantando saídas na prática, por exemplo.

Não nos enganemos: a crise que afeta o jornalismo é inédita na sua complexidade, duração e alcance. É também nova porque afeta aspectos que são estruturais e não só conjunturais.

Não é fácil nem cômodo estudar o terremoto com ele acontecendo. Você tenta anotar na prancheta, mas ela cai e a caneta também. Logo, é a gente quem está no chão vendo tudo ser remexido e nossa visão se nublando…

O livro “A crise do jornalismo tem solução?” na mídia

Na metade de maio, começou a chegar nas melhores livrarias do país e nas plataformas de ebooks do mundo inteiro o meu livro “A crise do jornalismo tem solução?” (Ed. Estação das Letras e Cores).

Se você não sabe do que estou dizendo, eu explico aqui. E se ficou interessado em ter o seu, vá por aqui. Veja o que andam dizendo sobre ele: