sobre transparência e a agenda das empresas de mídia

(publiquei primeiro no objETHOS, repito por aqui)

Duas rápidas notícias no ramo jornalístico sinalizam alguns dos movimentos no mercado internacional, em alto contraste com o comportamento brasileiro. No Reino Unido, The Guardian inovou com a criação de uma lista pública em que expõe quais reportagens o jornal vem desenvolvendo. O rol pode ser acessado pelos leitores e até pelos concorrentes. Nos Estados Unidos, The New York Times está sendo levado a aperfeiçoar suas políticas de tranasparência, principalmente no que concerne as coberturas de caráter econômico e financeiro. A ideia é que o jornal lidere um esforço no mercado para tornar mais evidentes possíveis conflitos de interesse dos jornalistas que cobrem certos assuntos. Os episódios nos Estados Unidos e no Reino Unido têm ao menos um ponto em comum: fortalecem o valor da transparência, um dos maiores tabus da mídia brasileira.

Enquanto a open newslist do Guardian desafia a lógica do furo de reportagem de um lado e estende a mão para o jornalismo de fonte aberta e com a colaboração dos leitores, os grupos de comunicação no país pressionam políticos no Legislativo e no Executivo para deixar a legislação e as práticas de mercado mais obscuras. Enquanto o jornal mais influente do mundo se preocupa com a credibilidade de sua equipe, as empresas locais rasgam as próprias diretrizes editoriais, atuando de forma juvenil e corporativa em detrimento do interesse do público. Não é o caso de dizer que os grupos internacionais sejam isentos de qualquer intencionalidade e que mereçam lugar cativo no paraíso por sua beatitude. Mas é histórico o descaso dos conglomerados diante de regras mais claras para o setor, de regulamentação ampla e de transparência. As brechas na legislação permitem propriedade cruzada e oligopólio; o marco legal desconsidera a internet e as novas formas de difusão de informação e entretenimento; e nem mesmo o Ministério das Comunicações sabe a composição acionária de muitas empresas do ramo. Resultado: o Estado não acompanha o setor, dispõe de instrumentos frágeis e não coíbe práticas que são lesivas não apenas para os concorrentes, mas para o consumidor final, o tal do cidadão, o tal do contribuinte. Se o Estado, que deveria atuar como xerife, desconhece a situação, imagine o público, alijado das decisões mais importantes…

De forma paulatina, a transparência vem se tornando um ativo intangível de destaque para empresas de vários setores. No caso da informação e do entretenimento, ser transparente é buscar uma aproximação com seu público e com demais partes interessadas; é mostrar-se também mais socialmente preocupado e mais aberto ao diálogo; é prestar contas e horizontalizar certos processos. Isto é, depende de maturidade, compreensão global do seu papel na sociedade e de convicção. Se o grupo não quer efetivamente ser mais transparente não vai conseguir simular isso, pois suas práticas demonstrarão o contrário.

A mudança do setor produtivo para uma atuação mais transparente pode se dar no interior das próprias empresas ou motivada por uma transformação cultural: líderes do mercado podem “arrastar” os demais players para esta atitude, ou o próprio público pode reivindicar isso. O que acontecerá primeiro no cenário midiático brasileiro? Alguém arrisca responder?

o pan olimpicamente ignorado

A menos de uma semana do início dos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, o assunto é olimpicamente ignorado pelos veículos das Organizações Globo. O fato de a emissora de TV do Jardim Botânico não ter os direitos de transmissão da competição tem feito com que o evento seja simplesmente tratado como dispensável na pauta do seu noticiário.

Pior que não ter comprado os direitos de transmissão é ter perdido a exclusividade para o grupo de comunicação que mais vem “incomodando” com índices crescentes de audiência. Por isso, pelos lados da Record, o Pan 2011 é só festa e exaltação. São reportagens nos telejornais, chamadas a todo o momento, um batalhão de profissionais mobilizados e espaços generosos na programação da emissora. No R7, o site do grupo, há uma seção dedicada à cobertura da competição, fartamente ilustrada e constantemente abastecida. No G1 e no seu braço mais esportivo – SportTV – é gelo puro; idem no eBand, da concorrente que tem no esporte um dos carros-chefes de sua programação.

Alguém aí pode achar natural que não se coloque azeitona na empada alheia, já que estamos tratando de competidores em audiência e de rivalidade de mercado. Mas informação é um bem diferente de azeitonas em conserva ou empadas. Informação é uma mercadoria de alto valor agregado, que não se degrada com a sua difusão ou compartilhamento e que, muitas vezes, auxilia o seu portador a tomar decisões, escolher caminhos, reorientar-se no mundo. Isto é, informação é um bem de finalidade pública, embora seja cada vez mais frequente que empresas controladas por grupos privados a produzam e a façam circular. Independente disso, o produto carece de cuidados e atenções distintas.

Então, cobrir o Pan de Guadalajara é mais do que rechear a empada alheia. É garantir que o público tenha acesso a informações que julga relevantes e interessantes. Afinal, convenhamos, não se pode ignorar os Jogos Pan-Americanos. É uma competição tradicional – existe desde 1951 -, é importante – pois funciona como uma prévia regionalizada dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012 -, e é abrangente por ser continental e reunir 29 modalidades esportivas. Esses argumentos bastariam para colocar o evento na pauta de qualquer veículo de comunicação que se preze.

No caso das Organizações Globo, ignorar a efeméride é simplesmente deixar de lado seus recém-anunciados Princípios Editoriais. No documento, os veículos do grupo se comprometem a produzir um jornalismo calcado no que consideram ser os atributos da informação de qualidade: isenção, correção e agilidade. No item que trata de isenção, os princípios são bastante claros, e cito alguns trechos que colidem com o atual comportamento do grupo:

… “(d) Não pode haver assuntos tabus. Tudo aquilo que for de interesse público, tudo aquilo que for notícia, deve ser publicado, analisado, discutido”…

“(n) As Organizações Globo são entusiastas do Brasil, de sua diversidade, de sua cultura e de seu povo, tema principal de seus veículos”…

“p) É inadmissível que jornalistas das Organizações Globo façam reportagens em benefício próprio ou que deixem de fazer aquelas que prejudiquem seus interesses”

Este é um caso típico de descolamento entre o dito e o feito. Claro que as Organizações Globo podem estar preparando coberturas especiais sobre o evento ou correndo para apresentar um material diferenciado às suas audiências. Tomara. Mas se for assim, os veículos do conglomerado estarão atrasados, contrariando outra lei de ouro de seus Princípios Editoriais, a agilidade.

no observatório da imprensa da tv…

Participo hoje à noite do programa televisivo do Observatório da Imprensa para discutir os princípios editoriais das Organizações Globo. O documento anunciado recentemente já rende repercussão no meio jornalístico, já que esse é o maior conglomerado de mídia do Brasil, e sem dúvida um dos mais influentes.

A apresentação do programa é do jornalista Alberto Dines, e ainda foram convidados Leonel Aguiar, professor da PUC-Rio, e Eugênio Bucci, professor da USP

O Observatório da Imprensa na TV é transmitido para todo o país pela TVBrasil e suas afiliadas (consulte os horários da sua região). O público pode participar por telefone (0800-021-6688), pelo twitter (http://twitter.com/obstv) ou pelo chat (http://www.tvbrasil.org.br/interatividade).

Na semana passada, comentei o documento da Globo lá no objETHOS. Dê uma olhadinha aqui.

 

jornal nacional escorregou duas vezes no frio

A edição de ontem do Jornal Nacional cometeu dois deslizes ontem na reportagem sobre o frio no sul do país. Um deles foi logístico: escalou repórter do Rio Grande do Sul pra fazer a matéria. Com isso, apareceram imagens de Gramado, como se apenas lá tivéssemos temperaturas glaciais. Na narração da repórter, o público é informado que a temperatura mais baixa nem foi lá – foi em Santa Catarina – e no estado vizinho – Santa Catarina, again – seis cidades tiveram neve. O erro foi logístico pois havia matérias da RBS – filiada à Globo – sobre a geladeira aberta por aqui.

O segundo erro foi um lapso. A repórter acima citada, confundiu a cidade e rebatizou Urubici, a cidade mais fria do país. William Bonner apressou-se a corrigir…

 

“observações” em vitória

Edgard Rebouças, professor da UFES e líder do Observatório da Mídia Regional, convida:

Seminário “Observações”
Conselhos de Comunicação como espaço de participação social

Auditório do Centro de Artes – UFES
29 de junho (Quarta-feira) 19 horas
Participação: Edgard Rebouças, Maurício Abdalla e Rosely Arantes

O Observatório da Mídia Regional: direitos humanos, políticas e sistemas realiza no próximo dia 29 de junho, quarta-feira, às 19h no auditório do Centro de Artes da UFES, mais uma edição do seminário “Observações”. Nesse encontro serão abordadas as possibilidades, necessidades e os limites acerca da implantação de Conselhos de Comunicação no país e, em especial, no Espírito Santo.

Diante da crescente importância da comunicação na atualidade, faz-se necessário discutir a responsabilidade midiática desempenhada por órgãos públicos e privados, bem como a participação dos cidadãos no processo de acompanhamento da mídia.

No seminário será apresentado o processo de instalação do Conselho Estadual de Comunicação, recentemente aprovado pelo governo da Bahia, por meio da presença da jornalista Rosely Arantes, coordenadora de Relações Sociais da Secretaria de Comunicação da Secom baiana; ela foi uma das principais articuladoras da Conferência Nacional de Comunicação (etapa Bahia) e da criação do Conselho em seu estado. Também estará presente o Prof. Dr. Maurício Abdalla, professor do Departamento de Filosofia da Ufes e autor do livro “O princípio da cooperação: em busca de nova racionalidade”, que irá falar do conceito da democracia participativa.

O seminário será conduzido pelo Prof. Dr. Edgard Rebouças, autor da dissertação de mestrado “Modelo de representatividade social na regulação da televisão” e da tese “Grupos de pressão e de interesse nas políticas e estratégias de comunicações”, além de ter sido o articulador e redator da proposta aprovada na Confecom acerca da criação dos Conselhos Nacional, Estaduais e Municiais de Comunicação.

No Espírito Santo, desde os anos 1990 já vem sendo discutida a criação de um Conselho de Comunicação com participação da sociedade, a exemplo do que já ocorre nas áreas de saúde, educação, segurança, meio ambiente, infância e juventude, e outras. A última iniciativa mais direta ocorreu no final de 2010, quando o deputado estadual Cláudio Vereza encaminhou uma indicação ao Governo do Estado para que desse início ao processo de criação do Conselho, já que tal iniciativa compete ao Executivo. O deputado se baseou nas propostas aprovadas no final de 2009 na Confecom-ES, que contou com a participação de representantes dos governos federal, estadual e municipais; empresários do setor e membros da sociedade como um todo.

A série de seminários “Observações” é uma atividade mensal do Observatório da Mídia Regional: direitos humanos, políticas e sistemas que trata de temas relevantes em comunicação. Eles são abertos à comunidade e não há necessidade de inscrição. O acompanhamento periódico dos seminários dá direito a um certificado com carga horária referente à participação.

Serviço:
Seminário “Observações”: Conselhos de Comunicação como espaço de participação social
Palestrantes:
Prof. Dr. Edgard Rebouças – Observatório da Mídia Regional
Prof. Dr. Maurício Abdalla – Departamento de Filosofia da Ufes
Rosely Arantes – Secretaria de Comunicação do Gov. da Bahia
Local e data: 29 de junho (quarta-feira) às 19h, no auditório do CEMUNI IV (Centro de Artes da UFES)

autorregulação de jornais é positiva, mas insuficiente

A Associação Nacional dos Jornais (ANJ) alterou seu estatuto e lançou o seu programa permanente de autorregulamentação, com a indicação de boas práticas para as empresas do setor.

A ideia foi bem recebida por setores acadêmicos, mas é pouco, conforme se pode ler na reportagem que Gilberto Costa fez para a Agência Brasil.

polêmica do livro do mec é tempestade em copo d’água

Tenho acompanhado de perto o debate em torno do livro adotado pelo MEC e que estaria “ensinando errado” a língua portuguesa, ao reproduzir erros de concordância. E o que se vê nos meios de comunicação é bastante discutível não apenas do ponto de vista linguístico, mas também jornalístico.

De maneira ampla, os meios de comunicação têm engrossado as críticas ao Ministério e ao livro, formando uma verdadeira tropa de choque a favor da língua pátria. Jornalistas gesticulam, esbravejam, tecem discursos moralizantes em torno do idioma, como se viu, por exemplo, na edição de hoje cedo no Bom Dia Brasil, da Rede Globo. O jornalista Alexandre Garcia disparou contra o livro e o MEC, criticando uma certa cultura que fraqueja diante dos insucessos escolares, que flexibiliza demais o ensino e permite o caos que hoje colhemos na educação. Ele lembrou os exemplos da Coreia do Sul e da China, que há décadas investem pesado em seus sistemas educacionais e hoje prosperam, assumem a dianteira de alguns setores. Só se esqueceu de dizer que esses países investem nas ciências exatas e duras e não nas humanísticas, no ensino de língua materna, etc…

Não satisfeito, o Bom Dia convocou o professor Sérgio Nogueira, guardião da língua nacional e jurado do quadro Soletrando, do Caldeirão do Huck, este bastião da cultura brasileira. Nogueira também bateu forte, e quase pediu a cabeça do ministro Fernando Haddad, citando casos recentes (e graves) que chacoalharam o MEC. Só não “demitiu” Haddad por falta de tempo em sua intervenção…

Mas o caso do Bom Dia Brasil não é único. Alguém aí viu ou ouviu a autora do livro em alguma entrevista? Ela pôde dar sua versão? Alguém aí viu ou ouviu linguistas como Marcos Bagno e Ataliba T. Castilho, que pesquisam e trabalham há décadas em torno da discussão de uma gramática para o português falado e da singularidade idiomática do português brasileiro? Alguém aí viu alguma matéria sobre preconceito linguístico? Pois é, pois é…

Marcos Bagno tem um livro simples sobre o tema do preconceito linguístico, derivado de sua tese de doutorado e de anos de pesquisa. O professor Ataliba escreveu três volumes de uma gramática voltado ao português falado. Isso não é suficiente para se perceber que existem abismos entre o que se escreve e o que se fala? Que a língua falada é mais dinâmica, mais porosa que o padrão culto da língua, a ser aplicado na sua dimensão escrita? Alguém aí já ouviu falar de um genebrino chamado Ferdinand de Saussure, por acaso pai da Linguística, cujo livro póstumo de 1916 já tratava de separar língua (langue) e fala (parole)?

O fato é que sobra opinião apressada e ignorância na cobertura da imprensa sobre o caso. Sobra também prescritivismo, conservadorismo e elitismo no ensino de línguas. E justo nos meios de comunicação, ao mesmo tempo ator e ambiente fundamentais para difundir, disseminar e consolidar gestos de linguagem, fatos da língua…

observando o observador…

Qual é o assunto mais comentado da semana?

Isso mesmo! O massacre na escola de Realengo, no Rio. Foi na quinta, mas de lá pra cá, ele quase absorveu todo o tempo e o espaço de cobertura dos meios de comunicação.

Na Folha de S.Paulo de hoje, qual é o assunto tratado pela ombudsman do maior jornal do país?

Não, não é o massacre de Realengo. Em vez disso, Suzana Singer aborda o noticiário sobre a troca de comando na Vale do Rio Doce e a distância desinteressada que deveriam ter os colunistas da Folha, que na última semana foram cobrados por leitores por olhar para os próprios umbigos…

Uma pena. Eu gostaria de saber como a ombudsman está observando a cobertura do tema mais comentado da semana…

resenha de “vitrine e vidraça”

Carlos Tourinho, jornalista e professor brasileiro que faz doutorado em Portugal, assina resenha sobre o livro “Vitrine e Vidraça: Crítica de Mídia e Qualidade no Jornalismo”, que reúne artigos de pesquisadores da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi).

A resenha saiu hoje no Observatório de Imprensa, leia aqui.
O livro pode ser baixado aqui.

folha 90 continua narcisista

A Folha de S.Paulo fez 90 anos e é ainda o jornal mais influente do país.

Para marcar a data, abriu seu acervo para consultas gratuitas na internet. Pelo menos, por enquanto. Também colocou seus colunistas para falarem do jornal e relatou as mudanças pelas quais o periódico passou nos últimos tempos. Narcisista e ensimesmada, a Folha transforma tudo em marketing em massagem ao seu enorme ego. Isso fica evidente em algumas mancadas, como esta: uma ótima ideia do jornal foi reunir seus ombudsman – nove dos dez já existentes – e permitir uma análise do jornal. Ideia boa, né? Um pouco disso está aqui. Mas a Folha também produziu um videozinho sobre a ocasião. Se você pensa que verá os ombudsman descendo o pau no jornal ou arriscando uma crítica mais ácida, esqueça. O vídeo é uma peça de propaganda, altamente promocional… Uma pena!