Há 30 anos, Borges…

… enganava todo o mundo, fingindo morrer na Suíça, quando na verdade, se esgueirava entre prateleiras de uma gigantesca biblioteca e nela se perdia para todo o sempre…

borges e o tigre

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“Stoner” me fez chorar de novo

12985588_1665400570387011_2803034507267203373_nPense por alguns segundos e responda: quantos livros já te emocionaram de uma forma tão arrebatadora a ponto de perder o chão? Pense com calma, tenho certeza de que não foram muitos. Comigo também, e os livros que me fizeram chorar cabem nos dedos das mãos, de uma talvez…

Há muito anos, chorei amargamente quando Gregor Samsa percebeu que sua família não lhe devotava nenhum valor, nada de respeito. E não era porque havia se tornado um inseto monstruoso…

Há alguns anos, chorei fundo quando Baleia veio consolar um dos meninos-sem-nome de Vidas Secas, encostando a cabeça magra em uma mãozinha suja…

Há poucos anos, chorei copiosamente quando os remorsos da infância tomaram a vida do narrador em O caçador de pipas…

Hoje, voltei a manchar as páginas de um livro: Stoner, de John Williams.

Desta vez, conhecemos um professor de literatura, com um casamento falido, sem vaidades ou ambições, e que conduz sua vida como se fosse levado por um caudaloso rio. Williams oferece a vida ordinária de um homem sem qualquer brilhantismo, contada de uma forma linear e cotidiana que nos mostra o quanto se pode descobrir de dignidade e honestidade em alguém. Suas escolhas erradas, a impassividade e a resiliência, os fracassos pessoais, as fragilidades emocionais, tudo o que nos faz sermos o que somos. Pungente, bem escrito, profundamente humano.

Foi um prazer conhecê-lo, professor Stoner…

 

Um abril como nenhum

Tudo indica que esse mês vai escorrer pelos nossos dedos como nenhum outro. Basta ver o que a política nos reserva nesta semana… Nada comparável ao pungente romance de Ismail Kadaré, tão soberbamente batizado de “Abril Despedaçado”.
Nele, nos Montes Malditos da Albânia, na década de 1930, famílias tentam recuperar a honra por meio de pequenas vinganças. Se alguém mata o filho de um clã, pode esperar que terá o troco na mesma moeda. A camisa manchada de sangue ficará pendurada ao sol até que amarele. A partir daí, a trégua terá terminado e a resposta virá.
Em tempos como os nossos, quando as vinganças são mesquinhas, e as traições, rasteiras, a honra e o respeito parecem nada valer. Nosso mês pode se fragmentar como a delicada asa da borboleta em mãos grosseiras.

A escrita e a potência de ser outro

22165971É uma ideia recorrente aquela que vê no ator um afortunado por sua capacidade de viver mais vidas que a própria. É comum também esquecermos que outros podem ir além dos contornos de suas existências. De um modo geral, a arte permite isso; de uma forma específica, a literatura também. Não consegui desgrudar dessa sensação após ler “Cavala”, de Sérgio Tavares.

Despretensioso, o livro venceu o Prêmio Sesc de Literatura em 2009 na categoria contos e nos oferece alguns motivos para reafirmar essa potência do ato de escrever. Consciente disso ou não, Sérgio não perdeu a chance e se desdobrou numa modelo bulímica com TOC, numa descuidada ninfomaníaca, num frágil limpador de banheiros e num adolescente que acredita trazer seu cão no bolso de trás. Gente tão distante do pai de família que se divide entre o trabalho, a vida doméstica e a lida literária nas madrugadas insones. Gente esquisitamente diferente de nós, e tão próxima nas suas ansiedades… Como Sérgio pode saber tanto da vida dessas pessoas? Alguém pode responder: Ora, foi ele quem as criou. Mas não basta porque reconhecemos ali personagens de NOSSAS vidas! Mesmo que você evite concordar, mesmo que deseje não se perceber ali…

O fato é que Sérgio afunda tanto nos labirintos mentais, nas fragilidades daqueles corpos que promove um apagamento de si absolutamente necessário para o efeito que quer causar: nos fazer acreditar nas personagens, nos dramas e nas ilusões que as sustentam.

Somos tão convencidos daquilo que vasculhamos o bolso da calça, contamos os passos do cômodo que ocupamos, passamos a mão pela virilha (para acalmar ou despertar algo)… Sérgio engana, transforma, metamorfoseia. Modula sua voz conforme a conveniência, traveste-se, monta-se. Sem medo aparente. Mas não é assim que tem que ser a literatura: convincente, verdadeira, bem feita? Sim, esperamos algo desse jeito. Mas você há de convir comigo que não é toda hora que esbarramos com uma literatura que nos tira do centro e do sério. “Cavala” faz isso. Dá um coice no leitor, desestabiliza, causa vertigem.

Temos ali 92 páginas de energia bruta, vazada por pensamentos fugidios e desejos pulsantes (ora contidos, ora não). Os protagonistas são solitários e quebradiços, errantes em suas miseráveis rotinas. São como nós, tentam sobreviver, lutam contra si mesmos e contra as adversidades. São humanos demasiadamente humanos e, talvez por isso, sequestram nossa simpatia até mesmo quando cometem ações reprováveis… Te desafio: tente condená-los após fechar o livro!

A potência literária de Sérgio está nesse descortinar de personas que o homem Sérgio pode ser só diante do teclado. Mas sua força vai além. Lá de Niterói – seja pela ponte ou pelas barcas -, Sérgio Tavares emite uma voz própria que ecoa na produção literária brasileira contemporânea. Não é barítono nem tenor. Mas tem timbre único, registro próprio. Não é pouco, pois isso não é para muitos.

Um Biajoni, curioso, explora outros caminhos

A-viagem-de-James-AmaroLi com muita curiosidade “A viagem de James Amaro” (Língua Geral, 2015). Luiz Biajoni mandou um exemplar pra casa, com uma dedicatória simpática, e me adiantou que havia muito jazz naquelas páginas. Corri pra ler, mas atrasei um pouco o ritmo de viradas de página para “ouvir melhor”. Sim, o pequeno volume tem grandes sets e jams!

E se você já conhece o Biajoni, espera personagens alucinados por sexo, que fazem muito sexo e que se fazem pelo sexo. Em livros anteriores – e ele não precisou de muitos -, o autor de Americana (SP) martelou um conjunto de características literárias e narrativas que acabou por moldar um certo estilo. “A Comédia Mundana” reúne três novelas sacanas que calcificam essa ideia, e a tentação é pensar: Biajoni segue a linha do Bukowski, Henry Miller, no mesmo naipe. O James Amaro destoa e nos mostra um Biajoni diferentão, sensivelmente mais maduro e disposto a arriscar em outros quintais.

Então não tem sexo? Claro que tem. Não tem putaria? Alguma, é verdade. Mas cadê o diferentão? Está na condução dos destinos dos personagens, na linha que o autor traça para depositarmos sobre ela nosso olhar e por ali vagar. Na capacidade de ir além dos gritos e sussurros, do suor e dos movimentos pélvicos.

James Amaro é um advogado bem-sucedido, rico, predador sexual, e que – a partir de um susto na vida – decide fazer uma viagem de carro do interior paulista a Parati, no Rio. Abastece seu grande carro branco com CDs de clássicos do jazz e leva consigo um antigo amigo dos tempos de escola, um cara que não via há décadas, mas que se convence de acompanhá-lo por absoluta falta de saída. Sentamos, então, no banco de trás do grande carro branco, ouvimos as confissões de lado a lado e numerosos comentários sobre música, formação de bandas, virtuosismos e tragédias do mundo do jazz. Para quem conhece e gosta do gênero, um deleite. Para quem não está nem aí pra coisa, uma oportunidade de acompanhar um didático desfile, gloriosa galeria de artistas.

Se fosse um filme, teríamos um sonoro road movie. Mas é literatura e temos à mão uma convidativa road novel, sem maiores pretensões ou ambições de transformar o mundo das letras. Como a trilha sonora é daquelas, periga de a gente se distrair e não perceber um Luiz Biajoni mais arrojado. Se há dez anos, era ousadia escrever tão escancaradamente sobre sexos e fluídos corporais, agora, enfrentar emoções em outros pavimentos se traduz em mais coragem. O que é que sobra depois que alguém se levanta para ir se lavar no banheiro? O que nos resta depois que o parceiro pegou no sono?

Nem falei para o Biajoni, mas confesso aqui: temi que ele ficasse refém de certos cacoetes, esparramado sobre aqueles corpos nus e mergulhado na molhada fugacidade dos gozos apressados. Em “A viagem de James Amaro”, Biajoni não deixa de tratar daquilo, mas é possível dizer que ele deixou a zona. A do conforto. E isso me alegra.

Precisamos falar de crise no jornalismo

Em dezembro, vamos lançar em Florianópolis Questões para um Jornalismo em Crise (Ed.Insular), livro em que reúno treze perguntas incômodas para o presente e o futuro do jornalismo.

É irônico, mas as notícias não têm sido nada boas para o jornalismo. Queda nas tiragens dos meios impressos, redução de verbas publicitárias, demissões nas redações e até fechamento de jornais e revistas. Para piorar, os públicos têm dado sinais claros de desinteresse frente ao que a mídia tradicional oferece.

questoes para um jornalismo em crise

O diagnóstico é de crise e ela não se limita à indústria jornalística brasileira. Está em todas as partes. Diante desse quadro, empresas, gestores e jornalistas se dividem entre lamentos, desespero e busca de soluções. Nos meios acadêmicos, também existe muita apreensão. Nas próximas páginas, pesquisadores e profissionais arriscam perguntas que podem ajudar a encontrar respostas para um cenário tão complexo.

Se o jornalismo ainda tem um lugar importante em nossas vidas, o que poderá ser feito para que voltemos a ler boas manchetes sobre ele?

Mais sobre o livro aqui.

Paulino Júnior, confesso operário da palavra

Mercadoria
Ilustração de Ubirajara Gonçalves Filho

Às vezes, encaramos certas tarefas como dívidas morais, que contraímos por aí. E eu tenho muitas, é verdade.

Uma delas é com Paulino Júnior, desde que me presenteou com o seu Todo Maldito Santo Dia há alguns meses. As muitas demandas profissionais e uma pilha interminável de livros foram afastando a coletânea de contos, e isso me agoniava demais, toda vez que o encontrava. Claro que Paulino nunca cobrava: Leu? O que achou? Mas claro que eu respondia mudo (pra mim mesmo): Tem que terminar e dar um retorno pro cara…

Outro dia, durante o lançamento de livro de outro amigo, deixei escapar algumas impressões, daquilo que eu tinha percorrido. Era pouco, e o autor agradeceu os comentários. Elegante.

Ocorre que hoje encontrei o ponto final de Todo Maldito Santo Dia, e me sinto mais preparado para recomendar a leitura. Ler  os amigos é um tanto delicado. Elogio em demasia compromete a credibilidade. Franqueza em demasia costuma trincar a amizade. Mas Paulino é amigo novo e o livro é muito bom. Respiro duas vezes.

Repito o que disse a ele recentemente. Paulino Júnior ronda um tema premente para nossos dias: o mundo do trabalho. Não sei dizer se se trata de uma escrita programática ou de uma fase, mas pouco importa. Paulino se dedica à galáxia do trabalho, o que torna a sua voz muito distinta na produção literária catarinense atual. É concreto e é áspero, constrói cenas desconcertantes que mobilizam nossas memórias envergonhadas. O homem que fede ao trabalho, a mulher que é mais mecânica que a esteira do seu balcão, o sujeito que vai da prateleira à vitrine… Sim, já assistimos àquilo e nada fizemos. Daí que Paulino mobiliza personagens que estavam lá, atolados na lama do cotidiano. São os nossos íntimos invisíveis. Por isso, o próprio autor avisa que Todo Maldito Santo Dia “não deve ser lido depois de um dia de labuta”.

Precariedades, insalubridades e desnecessidades funcionais desfilam por suas páginas. O homem e a mulher são quase sempre associados às suas condições de trabalhadores, de peças de engrenagens complexas e torturantes. Os contos de Paulino nos lembram que a maioria de nós passa mais tempo no local de trabalho do que em casa ou em qualquer outro lugar. Nos fazem recordar de nossa subalternidade eterna, da maquinização que sofremos, do embrutecimento afetivo que verte das muitas repetições laborais. Se somos sujeitos, somos por conta do trabalho, e neste sentido: sujeitos assujeitados, encalacrados em nossas rotinas e agendas.

Não são histórias felizes, é verdade. Mas não se trata de pessimismo. É a espessura crua da realidade que caleja as mãos, que desgasta a vista, que provoca tendinites em nossas relações sociais. Lesões por absoluto esforço repetitivo! Isto é: os contos de Paulino Júnior não nos põem pra dormir. Nos põem a pensar. É o dia-a-dia de quem “vive colocando a vida em sacolas”, de quem carrega os odores do seu santo trabalho, de quem elabora uma “equação do merecimento” para amortecer a consciência e as dores nas juntas.

Como disse antes, Paulino Júnior tem voz própria. Alheio aos modismos literários, abraça a causa do mundo do trabalho pra falar da condição humana. Bem fora de moda. Algum leitor aí deve ter balbuciado alguma coisa com Karl Marx. Quem se importa? Não foi o velho Marx quem inventou a luta de classes, ele apenas a atirou em nossas caras. Nem sei se Paulino é marxista ou masoquista. Sei que ele mastiga as palavras e as sopra com rudeza, como quem martela o cravo na ferradura. Se fossem os anos 60 e 70, Paulino Júnior teria lugar garantido em qualquer grande antologia, e bateria ponto com Plínio Marcos e João Antonio, por exemplo.

Nos dias de hoje, há quem escamoteie os sentidos, fazendo do eufemismo a sua ferramenta principal. Empregados não são mais funcionários, mas “colaboradores”. O cidadão não é mais despedido, é “desligado”. Ele não encontra emprego, mas “se recoloca no mercado”. Paulino Júnior não faz gênero. Castiga as teclas do computador na mesma tradição de quem usa picareta e britadeira, caneta e enxada, músculos e suor.

Depois de Todo Maldito Santo Dia, não me sinto aliviado da dívida que mencionei no primeiro parágrafo. Meus comentários aqui e as palavras que dirijo ao autor não cobrem o que ele me ofereceu. Ainda estou no vermelho.

Mankell na 1ª página

Quando José Saramago morreu em junho de 2010, os principais jornais do mundo lhe renderam homenagens em suas capas. Hoje, na Suécia, acontece o mesmo com Henning Mankell. A história se repete quando morre um grande.

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Expressen: “A última vontade de Mankell: não mais livros com Wallander”
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Dagens Nyheter: “Ele se tornou um ícone tanto na Suécia quanto em outras partes”
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Kvälls Posten: “O último desejo de Mankell para Wallander”
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Aftonbladet: “O mestre colocou o ponto final”.

A chuva contada por Schroeder

544931_historia-da-chuva-702678_Z1Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”.

Quando Carlos Henrique Schroeder deixou escapar o título do livro que preparava, me deslumbrei com o achado. Por que não pensei nisso antes? Algo tão ancestral, quase mítico. Tipo “A história do fogo”, como no filme. Um rótulo amplo, capaz de reunir todos os fluxos do tempo e ainda conservar lirismo. Era maio e estávamos em pleno Festival Nacional do Conto. O autor confidenciou ainda que se tratava de um romance sobre a enchente de 2008 no Vale do Itajaí, e vibrei secretamente com aquilo. Também sobrevivi a ela e foi uma das minhas experiências mais aterradoras. Alguém precisava contar aquilo. Aquele mar de tristezas e horror não poderia escorrer pelos ralos da memória…

Então, eu esperava outra coisa de “História da Chuva”, e por isso, saí no meio da tempestade com uma sede infinita, engolindo sofregamente as páginas. Fui tragado por outros redemoinhos, como aqueles que a gente vê num rio caudaloso e que dá dentadas nos barrancos e nas pontes, como já escreveu Schroeder. Os redemoinhos sinalizam os sumidouros, onde pessoas, animais e coisas são tragadas, desaparecendo na água turva.

Fui arrastado então para outros lugares. A partir de um corpo que boia na água marrom, mergulhamos na busca de um narrador por sua própria história e natureza. O cadáver é de um artista de teatro de animação e o narrador estranhamente se chama Carlos Henrique Schroeder, mora em Jaraguá do Sul, é escritor e modesto editor. Tal qual o homem que assina o livro e que iluminou a noite com um título como aquele. O narrador tenta reconstituir o passado do morto, enquanto tenta manter longe a ex-namorada perigosamente ciumenta às vésperas de seu casamento. Como é de se esperar, sua jornada é também a busca de si mesmo, a tentativa de preencher as lacunas que justificariam sua existência.

Menos poético que “As fantasias eletivas”, este “História da Chuva” é um romance muito mais complexo e ambicioso. Schroeder, o autor, espalha mais personagens na mesa e constroi sua trama a partir de várias camadas, alternadas com muita destreza. Me fez lembrar daqueles artistas de circo que equilibram pratos giratórios nas mãos, pés, nariz e queixo. O malabarismo não está apenas em manter os pratos em movimento, mas em mover as varas que os sustentam numa dancinha caótica. Schroeder faz autoficção e ensaísmo sobre o teatro de animação, e reflete sobre o que é sobreviver em meio às agruras de ser artista periférico. Não satisfeito, oferece mais: prende a respiração e afunda no turbilhão da alma de quem se dedica a escrever e a criar. Como foi tudo rápido e sem aviso, há pouco oxigênio para aquilo e o leitor pode acabar como o corpo que boia: com os pulmões cheios de água.

Eu esperava outra coisa de “História da Chuva”. Talvez a redenção a partir da enchente, talvez um punhado de explicações para o mistério que faz da água tanto trazer quanto tirar vidas. Talvez, talvez, talvez. Faz poucos minutos que fechei o livro, depois de reler seis ou sete vezes o final. O impacto permanece. Não pelas surpresas que me trouxe, mas pelo inevitável desconforto de quem passa o dia com as meias e os pés encharcados.