Acabo de receber do amigo Wellington Pereira, professor da UFPB, um exemplar do Dicionário de Investigação do Cotidiano, que ele organizou e está lançando. A obra traz textos de graduandos, mestres e mestrandos e marca os dez anos de trabalho do Grupejc – o Grupo de Pesquisa sobre Jornalismo e Cotidiano.
Generoso, Wellington me deu o prazer de escrever o prefácio da obra, que reproduzo abaixo. E, claro, o livro eu recomendo!
Nos botequins das esquinas, nos pontos de ônibus, nas filas, um dicionário é o “pai dos burros”, uma bússola segura no emaranhado de sentidos do mundo. Dicionários servem então para fixar significados, orientar os usos das palavras. Salvam-nos das incertezas, pacificam as dúvidas.
Mas há dicionários e dicionários, e o que o leitor tem em mãos é diferente. Primeiro porque não restringe os sentidos, mas permite pensar a partir deles. Este Dicionário de Investigação do Cotidiano funciona mais como trampolim e menos como rede de salvamento. Produzido pelo Grupo de Pesquisa sobre o Cotidiano e o Jornalismo (Grupecj), o dicionário é do tipo enciclopédico, desses em que cada verbete não fica restrito a uma definição referencial, mas leva a textos curtos que sobrevoam os temas elencados. Por isso que este dicionário possibilita mais saltos, arejando a nossa visão. Aqui, os verbetes adquirem uma consistência e perenidade mais próxima do ensaio, cuja incompletude não é uma falta, mas uma qualidade, fator que incita a pensar. Assim, o verbete é um ponto de partida e não de fechamento dos sentidos. É um gatilho, um disparo…
Outro fator que distingue este dicionário é que ele surge dos jornais; seus verbetes emergem das páginas tão perecíveis dos diários paraibanos, o que requer não só rigor, mas também muita sensibilidade. Um paradoxo é que, embora o cotidiano seja a matéria-prima do jornalismo, ele fica quase sempre negligenciado nas pesquisas científicas desse campo, como se não fosse suficientemente digno de se tornar objeto de análise. Há quase dez anos o Grupecj contraria esse raciocínio e sublinha seu caráter paradoxal. Notícias, fait-divers, legendas, manchetes, tudo isso permite que temas venham à tona com força nas editorias de Política, Cidades, Economia e Cultura. Juntas, essas seções ajudam a esquadrinhar o cotidiano de homens e mulheres, pessoas e organizações no tecido social. Compõem um mosaico dos saberes, fazeres e seres.
Dividido conforme as editorias, o dicionário inicia cada seção com textos de apresentação e explicações de base, não perdendo de vista os leitores de primeira viagem, os não-iniciados nos mistérios e nas correrias das redações jornalísticas.
Para os pesquisadores do Grupecj, o cotidiano – banal, recorrente, fugidio, simples – não é descartável nem ignorável; é imprescindível, rico e revelador das condições de produção que ajudam a conformar o homem no momento contemporâneo. Antropologia, sociologia, psicologia, filosofia, história, geografia e comunicação cruzam-se e entrecruzam-se nas encruzilhadas cotidianas. O Dicionário de Investigação do Cotidiano surge fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília, oxigenando a paisagem e sinalizando mais uma vez a valentia dos autores nordestinos. Ousadia que remonta a Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, José Lins do Rego, mas que não fica apenas no campo das belas letras. Aliás, a Paraíba ostenta cotidianamente uma geografia da bravura. Nessas terras, os cabra-machos se espalham como relva, e a sua macheza não se restringe ao gênero masculino: está no DNA de homens e mulheres que fazem das adversidades escadas para transpor seus obstáculos.
Este dicionário é sinal de muita macheza. Assinados, os verbetes não subjazem autorias, e pontuam a pluralidade de uma obra coletiva, tecida por mais de vinte autores, entre graduandos, mestres e mestrandos. O professor Wellington Pereira teve a tarefa de coordenar equipes, estruturar a obra e organizar suas linhas mestras. Daqui do chamado “Sul Maravilha”, parece uma tarefa menos dificultosa, o que é decerto uma ilusão de ótica. Dicionarizar requer muito método e planejamento, mas também doses generosas de ousadia e confiança, e uma indisfarçável alegria no trato da coisa.
Sim, os paraibanos são valentes, mas também alegres. Rivalizam com pernambucanos, por exemplo, para ver quem oferece a maior festa de São João do mundo! Aliás, é justamente numa tarde de 24 de junho que escrevo esta apresentação, com a televisão ligada nos festejos, numa autêntica celebração entre cultura e mídia, comunicação e folclore, cotidiano e espetáculo.
Ao contrário da Enciclopédia de D’Alambert e Diderot, este Dicionário de Wellington Pereira e seus pesquisadores não é pretensiosa porque sabedora dos limites que qualquer trabalho do gênero traz: não se pode esgotar nenhum assunto em nenhum volume. Este Dicionário de Investigação do Cotidiano só é pretensioso num aspecto: a vontade de trazer o cotidiano a uma esfera de discussão e reflexão mais dignas e evidentes. Nada mais justo.
Florianópolis, Dia de São João de 2011






Isto é, embora gostemos da piadinha que elogia as novas gerações por estas “virem software embarcado atualizado”, as formas de apropriação dos meios seguem regras que transcendem as biológicas: são culturais, sociais, contextuais, históricas. Quem dá bons argumentos nessa direção é o sagaz 


