37 – 5

No mês passado, completei 37 anos. Junho foi um tempo intenso, recheado de excelentes e péssimas notícias, do aconchego de amigos, de trabalho doentio, dos dias que escaparam pelos dedos. Trinta e sete é uma idade esquisitona. Não é bíblica como o 33, capciosa como o 24, nem emblemática como o 40. Não sou mais adolescente faz tempo, mas também não entrei na meia idade. Na verdade, é bem gostoso estar na faixa dos 30 e poucos. Você já não é aquele vulcão sem controle, não carrega tantos pesos desnecessários, tem mais jogo de cintura para os problemas, menos paciência para alguns assuntos e mais tolerância para outros.

No meu caso, a lataria está um pouco mais arranhada do que eu gostaria. A tapeçaria já não é aquela Brastemp, e tem os pneus também… Mas a parte elétrica – a da faísca – e o motor estão bonzinhos. Um vendedor de concessionária diria que é um semi-novo meio maltratatado. Eu concordaria, e pediria desconto pra levar a carcaça pra minha garagem.

Mas se o chassis se sustenta e se o automóvel tem história, conhece as estradas, vale a viagem.

A minha vem valendo muito. Meus 37 anos me deixam muito confortável, sabe? Minha mente é bastante jovial, e cuidar do corpo é por minha conta e risco. A preguiça ou a desculpa da falta de tempo me acomodam na fila daqueles que saqueiam a geladeira nas madrugadas, daqueles que praticam halterocopismo e arremesso de camarão à boca, daqueles que gostariam de puxar o freio de mão da vida, pra que ela seguisse numa marcha bem mais maneira…

Aos 37, me sinto verdadeiramente afortunado pelos meus amigos, pelos parentes que me amam – não são todos, é verdade, e é compreensível -, pela profissão que escolhi, pelo lar que venho construindo, pela vida que venho desenhando no espaço desta existência. Tem sido muito bom, embora eu já imagine que esteja chegando à metade da jornada. Bem, que venha a melhor parte agora…

***

Junho também celebrou os cinco anos de meu filho. Para o leitor que não tem filhos, isso parece apenas uma efeméride vazia, sem graça. Para os que ajudam a povoar o mundo, ah!, esses sabem o que são cinco anos de filiação. Ser pai, ser mãe – ao menos para mim – é exercer o papel de repetir os clichês, os lugares comuns que condenávamos em nossos pais. Dois carimbos fáceis:

“Nossa! Parece que foi ontem!”

“É uma bênção ter filhos, um presente!”

Eu diria mais: ele é a minha evolução, a versão beta mais bem acabada, um reloaded que funciona muito mais rápido e melhor. Seus chips são melhores; suas habilidades mais acionáveis; sua graça e inteligência, mais tangíveis. É muito bom ficar assistindo ao espetáculo da continuação, da geração, da vida em gerúndio. É muito bom perceber o desenvolvimento daquelas cabecinhas, o refinamento gradativo dos modos e comportamentos, o aflorar da consciência dos atos, a manifestação da sinceridade e da personalidade. Viver é maravilhoso; assistir à vida também é muito bom.

Dá um certo desalento cair na real. Ele tem apenas cinco anos. E muito do que você fez com ele, muito do que fez para ele sequer será lembrado. É duro, eu sei. Mas pense: o que você se lembra dos três anos? E dos quatro? Nossas lembranças mais longínquas parecem gravitar em torno dos cinco ou seis anos. E aí, você que é pai, você que é mãe fica pensando: “Putz! Tudo o que fiz se perdeu, se esvaiu?” Sim, talvez sim. Mas eu gosto de ver por outro lado: Foi um prazer participar disso tudo, sabia?

***

Estou aos 37. Ele está aos 5. Ainda vai descobrir esquinas mal iluminadas da vida. Ainda vai se deparar com as dificuldades de se colocar no mundo. Ainda vai conhecer as pessoas de que não quererá esquecer, que vai ansiar em carregar consigo. Foi assim comigo. Tem sido assim desde que o mundo é mundo. Será com ele. E que bom, não é verdade? O disco da vida gira igualzinho sempre, mas cada faixa toca de uma forma…

11 comentários em “37 – 5

  1. Aí, Rogério, você é precoce mesmo. A crise dos 40 chegou para você uns seis anos antes. Calma, velho. Não se esqueça de viver cada dia intensamente e ser um protagonista da vida tua e dos teus.
    Quanto à memória dos filhos em idade tenra, não deve ser considerada objetiva e racionalmente. Mais importante do que isso são as dimensões emocional e afetiva, que deixam marcas para o resto da vida dos rebentos.
    Parabéns e felicidades.

  2. Ei, Rogério, não tenho filhos, mas compartilho totalmente da seguinte percepção quanto a essa idade: “Você já não é aquele vulcão sem controle, não carrega tantos pesos desnecessários, tem mais jogo de cintura para os problemas, menos paciência para alguns assuntos e mais tolerância para outros.”

  3. Eu não tenho filhos, porém acompanhei o crescimento do meu sobrinho, que esse ano completa 5 anos também. Compreendo muito bem essa magia de vê-los crescer.
    Lindo seu texto de hoje. Legal conhecer o Rogério 37! rs
    bjos

  4. Olá Rogério, eu sou seguidora assídua do teu blog embora nunca tenho comentado antes.
    Sou aluna d Jornalismo aqui de Chapecó e por isso (ou não) me interesso muito por grande parte das coisas que tu trata aqui.
    Parabéns pelo blog. Parabéns pela idade. Parabéns pela linha de raciocínio.
    Parabéns pelo texto.. me emocionei pela maneira cativante que vc escreveu e retratou todos os “dilemas” da sua idade.

    Abraço.

  5. Rogério,
    delicioso seu texto e eu, que já cheguei aos 40, sei bem do que está falando. Tenho dois filhos, cada um tocando um ritmo, e é incrível como a maturidade nos apura o gosto por músicas diferentes, especialmente aquelas vinculadas, de uma forma ou de outra, ao nosso repertório.
    Abs.

  6. Caríssimo Rogério!
    Parabéns.
    Sei o que é ter um filho, amá-lo, criá-lo.
    Mesmo após a sua partida, a carrego no meu coração.
    Filhos são os frutos do hoje e sempre.
    E você é maravilhoso: seu filho tem um grande herói.
    Abraços
    Eliana.

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