Ladrões de tempo (01/05/2005)
Como é que Shakespeare conseguiu construir sua obra mesmo tendo filhos? Como Marx fez o que fez, apesar das boquinhas miúdas que o perseguiam clamando por comida e atenção? E Einstein, como chegou aonde queria? Como driblaram suas crias e dedicaram-se tão intensamente às suas obras, obtendo tanto êxito?
Vejam: não me refiro a talento, mas a coisas mais prosaicas, como o tempo. Insisto: como é que esses caras conseguiram produzir mesmo tendo nas barras de suas calças aquelas criaturinhas fofinhas, graciosas, barulhentas e de energia inesgotável?
Eu respondo. Eles não tinham aquelas criaturinhas nas barras de suas calças. E assim puderam mergulhar no trabalho, oferecendo à humanidade contribuições de inegável importância.
Embora tivesse filhos pequenos, Shakespeare não hesitou em deixar a família na sua cidade natal para trabalhar com teatro em Londres. Longe de casa, viajava, escrevia, dirigia montagens. E pelo menos uma vez por ano (uau!) voltava a Stratford von Avon para rever os pimpolhos. Nessa distância, escreveu dezenas de poemas (ma-ra-vi-lho-sos!) e 34 peças que mudariam a história da literatura universal e o converteriam na segunda pessoa mais comentada em livros do planeta. (Só perdendo para Jesus Cristo, que, inclusive, nem filhos teve. Pelo menos é o que contam os biógrafos bíblicos).
Karl Marx também não parava em casa. A penca de filhos chorava e a mente do homem fervilhava de idéias, de palavras de força. Eram tempos difíceis e o ainda jovem Marx vendia o almoço para comprar a janta. Com a prole agarrada às suas extremidades, Marx construiu uma filosofia, um modo de compreender o homem no seu tempo. É verdade que os filhos vinham em segundo lugar (as idéias primeiro), mas a humanidade se beneficiou muito com esse pai desnaturado.
Einstein não era muito diferente. Tanto é que nunca chegou a conhecer a primeira filha, Lieserl. A noiva teve a criança na Hungria, enquanto Albert (com apenas 22 aninhos) trabalhava na Suíça. Dizem as más línguas que a menina teria sido criada por outra família, já que o funcionário do escritório de patentes de Berna não tinha onde cair morto.
***
Pois é. Filhos tomam o nosso tempo. Seres adoráveis, são meigos, alegres e fofinhos. Coiotes em pelegos. Sanguessugas disfarçadas em bonecos gordinhos; parasitinhas cruéis que roubam a nossa energia, o pouco tempo que temos e toda a intimidade que mantínhamos com a esposa.
O segredo de Marx, Shakespeare e Einsten está aí. Não só no talento, mas no quanto puderam se dedicar às suas idéias, livres de bebês, fedelhos e adolescentes. Kafka e Nietzsche sequer tiveram filhos. Sartre tampouco. Bob Marley e Pelé, pelo contrário, fizeram muitos, mas tiveram o cuidado de espalhá-los por aí. Com isso, puderam provocar pequenas (e indeléveis) revoluções na música e no futebol.
***
Conhecido meu me escreve com visível desespero. “Sou um desmazelado. Perdi o que me mandou. Minha filha me consome”. Escritor, intelectual e artista, ele não consegue mais trabalhar como antes. Todo o tempo que tinha foi sugado por aquele pacotinho de gente que todos insistem classificar de “gracinha”.
Respondo solidário ao conhecido. Afinal, tenho um bebê de dez meses. E como o meu amigo, também venho sentindo as imensas dificuldades para tomar as rédeas da própria vida. Já não leio o que quero, já não consigo um minuto de paz, de solidão. Escrever, então… vixi! Este texto já deveria ter sido mandado há pelo menos dois meses. Já o escrevi mentalmente há um tempão, mas e a chance de sentar e martelá-lo no teclado? Não tinha jeito…
Meu colega retornou momentaneamente aliviado. Não, aliviado não. Conformado… resignado seria a palavra mais acertada. Me chamou inclusive de “meu irmão na paternidade”. Pois é, o cara – que nem me conhece direito – me chamou de mano. Fiquei feliz, lisonjeado, até porque admiro o trabalho dele. Mas dois minutos depois, percebi que era uma ilusão: ele havia me relevado que fazemos parte de uma mesma fraternidade, uma irmandade macabra: a dos pais recentes. E pior: a dos pais que se preocupam com seus filhos e viram reféns dos pequenos tiranos…
***
No final de março, comprei um livro sobre a ditadura militar e os seus efeitos sobre os jornalistas. Livro delicioso, feito com critério e com uma pesquisa muito rigorosa. Sabe quantas páginas pude ler até agora? 39. É. Justo eu que comia livros, consumia sem pudor, atropelando tudo… Não tem dado… fazer o quê? Para tentar continuar a leitura, venho carregando o grosso volume em minha valise para todo lugar que eu vá. A esperança é contar com uma fila de banco, com o trânsito engarrafado, com qualquer oportunidade que me obrigue a ficar longe do meu pequeno capataz e assim possa me deliciar com algumas páginas…
Outro dia me peguei como um marginal. Fi-lo dormir e, na ponta dos pés, coloquei a criaturinha em sua jaula, quer dizer, bercinho. Acompanhei seu sono por alguns segundos, certificando-me de que ele estava apagado mesmo, fora de combate. Ótimo, sorri. Dei três passos em ré, sentei-me numa cadeira de praia e apanhei o livro. Abri na página e mergulhei entre duas frases. Dei uma, duas, três braçadas vigorosas e alcancei um novo parágrafo. Fui adiante, mas – de repente – ouvi algo estranho, um suspiro, um resmungo, sei lá. Voei como um raio para fora do livro e olhei o bercinho: meu senhor estava em pé, sustentando-se nas grades e me lançando um olhar reprovador. Numa fração de segundos, não tive dúvidas. Fechei o livro e o escondi atrás de mim. Me senti um criminoso…
***
Mas não é só isso. Descobri outros sintomas que vejo hoje como graves. Venho comendo em pé. Acordo à noite com qualquer barulhinho e saio às cegas pelo corredor em busca de um resmungo ou princípio de choro. Quando em pé, parado e sem nada nos braços, ainda oscilo de um lado a outro feito um pêndulo. Baixei naturalmente o volume da minha voz. Nunca grito. E o pior, o mais grave: tenho feito a barba duas vezes por semana…
A situação não é fácil, mas meus amigos (?) que já têm filhos tentam me acalmar, dizendo que é irreversível.
Sem tempo pra nada; com as idéias e os projetos escorrendo pela cabeça sem as suas devidas realizações; eu continuo levando a vida. A dele e a minha. As queixas são verdadeiras, mas elas mais confundem o meu juízo do que servem de válvula de escape. Se reclamo, ao mesmo tempo me penitencio por isso. Afinal, aquela criança é a melhor coisa que já fiz; o projeto mais acertado de que participei; a coisa mais preciosa que tenho ao meu redor.
O problema não é o tempo, nem a tirania daquele déspota mirim. O problema não está em mim ou no meu egoísmo inalienável. O problema é que os pais de hoje são diferentes dos de antigamente. Nos tempos de Marx, de Shakespeare e de Einstein, era possível deixar as crianças com as mães, sem qualquer remorso ou cobrança emocional. Hoje, um novo lugar foi desenhado para o pai. Uma nova fronteira que nos coloca uma série adicional de compromissos, de contrapartidas familiares, de posicionamentos diante da criação e da educação desses filhotes.
Descobri, então, que a proteção que eu teria que dar ao meu filho não era a mesma que o avô dele imaginou para mim. E que se os pais hoje tivessem seios, guardariam seus filhos bem próximo ao peito. Se fosse assim, essas criaturinhas cândidas não seriam apenas ladrões de tempo: nos tomariam o leite também.