dia dos pais: crônica 7

Vai saber o que ele quis dizer (05/03/2005)

Tem coisa mais patética que o auto-engano? Pois é, pior não é se iludir, mas perceber que você mesmo trabalhou para ocultar aquilo de si. E quando a gente vê isso, dá uma raiva, misturada com arrependimento e a sensação: Putz! Como fui trouxa!

Bem, tudo isso pra dizer que passei por essa situação agora há pouco. Há algumas semanas, o sabidão aqui chegou ao trabalho todo feliz, quase saltitante. Meu filhote de oito meses já fala, já balbucia alguns verbetes. Não os mais complexos, é verdade, mas os mais necessários: Mã-mã e Bã-bá. É claro que até as frestas das paredes souberam da novidade por lá. Orgulhoso, fagueiro, eu desfilava pelos corredores acenando majestático a todos. Até mesmo aos desconhecidos, que se entreolhavam, perguntando: Quem é esse cara?

Um ou outro colega sacana me dizia: Mas você tem certeza que seu garoto está falando essas coisas? Na altura de meus oito meses de experiência, eu fulminava meu interlocutor com um olhar de desprezo, respirava dois segundos (coitado!), e tascava: Mas é claro! Eu conheço o meu filho! Você precisa ver!

Outro dia, quando me deixava inundar por um mar de baba de meu filho, passei a observar os seus hábitos. Eu o levantava para o alto em movimentos rápidos, coisa que – pelo jeito – ele adorou. Eu erguia os braços (ele junto) e baixava. O moleque se matava de rir: não sei se é um sádico ou masoquista. Meus braços quase despregando do corpo de cansaço e ele rindo. Ele quase se estatelando no chão da sala, e ainda rindo. E claro: vocalizava a todo o momento, entre uma risada e outra, um “Bã-bá”. Eu sorria, orgulhoso. Afinal, o cara – com aquele pedacinho de vida que tinha – já me reconhecia, me chamava de pai em seu dialeto particular.

De repente, sua mãe chega, e ele escancara novo sorriso, estende os braços em sua direção: Mã-mã! Evidentemente, solicitava seu afeto e colo. Passei a olhá-los de longe, sem ser visto. A TV ligada e eles conversando, digamos. O molequinho balbuciando coisinhas e a mãe, sorrindo e respondendo palavras que, essas, eu entendia. De repente, aparece na TV o Ratinho, e o garoto vira seu rosto para o apresentador, arregala os olhos e diz: Bã-bá! Me indigno. Em segundos, a imagem é substituída por outra: um pássaro pousa num galho de árvore, e meu filho: Bã-bá! Me confundo. Dois minutos depois, a mãe oferece uma banana ao pequenino, e ele, Bã-bá! Já não entendo mais nada. Disposto a tirar isso a limpo, sigo – passos firmes – até eles e me coloco à frente daqueles olhinhos faiscantes. Ele me vê, sorri no canto da boca, e diz: uama-mame-babobo, seguido de mmmmiammumu. Já sem poder me conter, explodo: Quer dizer que eu não sou mais o Bã-bá? Ele franze o cenho, passa a mão sobre o meu braço e explica: ê-amu-ma-ma-ba.

Daquele dia em diante, eu presto atenção no que ele diz, mas ele não diz nada com nada. “Bã-bá” pode ser um monte de coisas, inclusive eu. “Bã-bá” é vocalizado de forma prazerosa. Eu vejo isso, porque vem acompanhado de sorrisos e risinhos baixos. Mas “Bã-bá” não é apenas uma maneira de se referir a mim. E justo eu que convenci meio mundo disso…

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