Você sabe quando… (30/01/2005)
Há coisas que a gente pega no ar. Não precisa dizer muito. É uma expressão no rosto, uma sombra de atitude, meia palavra… e pronto! A gente saca, e aí não dá para disfarçar, desmentir, falsear. Nessas ocasiões – e elas não são poucas -, o ser humano é previsível, transparente. E mesmo aqueles que se acham acima do bem e do mal, acabam repetindo o comportamento padrão.
Por exemplo: a gente sabe quando o cara é um “pai fresco”…
… quando ele chega no trabalho com a parte do ombro da camisa encharcada da babá do bebê;
… quando carrega na agenda umas 600 fotos da sua cria e insiste em te mostrar todas elas, comentando em detalhes (agora, a baba que escorre é a dele…);
… quando, mesmo sem nada nos braços, ele fica em pé oscilando de um lado para o outro, como um imenso pêndulo. Suave, pra lá e pra cá;
… quando ele só tem um assunto: a diarréia do filho ou o balbucio incompreensível que ele traduz como palavra;
… quando estoura o cartão de crédito para montar o enxoval e o quartinho do bebê.
Mais adiante, a gente sabe logo de cara quando o sujeito tem filhos pequenos. A gente percebe…
… quando o cidadão carrega aqueles desenhos dos filhos na mesma valise com os contratos e os documentos da firma;
… quando ele chega atrasado a uma importante reunião com a desculpa de que levou o garoto na escola;
… quando o cara falta ao serviço para ir à reunião de pais e mestres. E pior: interrompe a discussão para mostrar o boletim colorido do filhote;
… quando ele entra no cheque especial para comprar toda a lista de material escolar da pestinha.
Tem mais. A gente também saca quando o cara é pai de adolescente. É…
… quando corta o cabelo de forma engraçada, ignorando a própria idade e se achando garotão. Isso quando não põe piercing e faz tatuagem;
… quando o som de seu carro só tem CD estranho. Seja as bandas malucas da filha ou mesmo as que ele cultuava quando era jovem, e resolveu ouvir de novo;
… quando hipoteca a casa e vende o carro para mandar os jovenzinhos para estudar inglês nos Estados Unidos ou na Austrália, destino da moda.
Ainda não acabou. A gente vê de longe quando o cara tem filho estudando na universidade, em outra cidade, e dependendo de mesada. É um tempo em que…
… a conta do telefone alcança um quilômetro de extensão;
… e o indivíduo vende as jóias de estimação da família e apressa o advogado no inventário de bens da família.
Alguns anos depois, quando os filhos se formam – sem cartão e cheque, pagando aluguel e a pé -, a gente vê o que sobrou do cara…
… dobrou as horas extras na firma para pagar as dívidas;
… quer matar o advogado que ainda o enrola;
… continua trocando os nomes dos filhos mais velhos pelos mais novos;
… e morre de saudades deles, que nunca telefonam.
(Quando eles ligam pra pedir uma grana emprestada, ligam a cobrar)