dia dos pais: crônica 5

Das fragilidades (05/10/2004)

No começo de tudo, ele não era nada. Ou quase nada. Um pontinho preto num mar de sei lá o quê. Era frágil, sem forma, sem nada definido. Não era sequer um acidente ou uma imprudência nossa. Mas já fazia diferença. Depois de algum tempo, voltas no relógio, ela passou a ser um amontoado de células loucas por mitoses e meioses, um corpo empelotado, amorfo, disforme. Era frágil, não por ser quebradiço, mas por ser delicadamente pequeno: leve a ponto de flutuar no útero, ínfimo a ponto de perdermos sua nitidez na tela do ultra-som.

Hélices do tempo, os ponteiros do relógio giraram fazendo aquela coisinha crescer, tomar forma. De ser empelotado passou a girino. De girino tornou-se um sapinho não-verde. O batráquio deu lugar a um lêmure sem pelos, com olhos nos cantos da cabeça. Bicho estranho, mas fascinante, curioso. Feio, é preciso dizer, sem meias-palavras. Mas que arrancava sorrisos toda vez que se avistava naquele país imaginário que é um útero fértil.

Volto a dizer. Se o tirássemos naquele segundo, não duraria mais nenhum segundo. Frágil demais, dependente total de líquidos protéicos, de calor, de sangue e proteção. Tal como hoje, passados alguns meses – as hélices não param nunca? -, em que continua fraquinho, inofensivo, diminuto.

Afinal, ele não é nada: tem um nome que escolheram para ele, não se alimenta sozinho, nem se limpa com as próprias mãos. Não duraria nesta selva de pedra aí fora. Ele nem pesa mais que um saco de arroz, não fica totalmente em pé, nem articula “obrigado” e “até logo”. Não se penteia porque o cabelo é ralo demais. Não amarra os sapatos, pois a articulação das mãos ainda não lhe permite. Mas sapatos para que, se ele nem caminha por aí?

É frágil, inofensivo, incapaz, delicado. Com um sorriso, me derrete. Com um olhar maroto, me faz encolher os ombros e estremecer. Com a pressão daqueles dedinhos gordinhos, esmaga a ponta do mau humor que trago comigo e dilui o meu veneno. Com um balbuciar de palavras em línguas incompreensíveis, ele me mostra as verdades e as essências do que é viver. Mas ele é pequeno, fraquinho, mole demais. Eu, não. Sou rijo, enfrento problemas, sou auto-suficiente. Dirijo situações, influencio pessoas, aconselho amigos. Conduzo, batalho, venço. Quando ele ameaça chorar, entorta minhas sobrancelhas para cima, destrava meu queixo que cai. Aí, dobro os joelhos. Olho em minha volta e vejo: sou pequeno, tão pequeno que caibo num cantinho do seu coração. Aquela ameixinha que pulsa leve, frágil.

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