Os botões dos bebês (01/09/2004)
Eu acho que bebês deveriam vir ao mundo com alguns opcionais. É, como esses modelos de carro que a gente vê por aí: ar condicionado, vidros elétricos, teto solar, airbag para o carona… Pois, para mim, os bebês poderiam vir equipados com três botões: um que ligasse e desligasse, outro com função Mudo e um terceiro que acionasse o mecanismo autolimpante.
Garanto que se eles viessem com esses opcionais de fábrica, muita gente iria se entusiasmar e produzir mais e mais bebês. Claro que isso acarreta num problema de superpopulação, mas não quero entrar em questões ambientais tão profundas… Na verdade, como qualquer cidadão na média, fico pensando nas facilidades que esses novos bebês trariam à rotina doméstica. Já pensou como seria? Então, imagine: você chega em casa exausto do trabalho, mas louco de saudade de seu filhote. Você beija a esposa, burocraticamente conta como foi o seu dia, assiste o telejornal, dribla a novela e vai brincar com o bebezinho. Brinca, brinca, brinca e cai morto de cansaço. Ele, não. Agora, está mais aceso do que nunca. Quer atenção, quer carinho, quer que você continue com os movimentos ritmados e frenéticos que você mesmo inventou. Seus músculos não suportam mais, mas o bebê quer, faz beicinho, treme o queixo, agita os bracinhos, pende a cabeça. E chora, berrando a plenos pulmões, abalando as estruturas do edifício onde você mora. Se o seu bebê for equipamento com a tecla LIGA, basta que você aperte a bendita e o pequeno tirano se desligará em meio segundo, dobrando-se sobre si mesmo como um boneco. Aí, é só guardar no berço e religar na manhã seguinte.
Mas vamos adiante nesse exercício de imaginação… Você acalentou seu rebento por horas e ele agora dorme um soninho tranqüilo. Você o deposita com o maior dos cuidados no berço, para que ele durma mais confortável e para que você possa assistir à final do campeonato sem estresse. Você o coloca como se fosse uma pluma, vai nas pontas dos pés até a sala e liga a tv com o volume no primeiro tracinho. Meio segundo depois, ele acorda aos berros, chorando a plenos pulmões, desestabilizando qualquer monge budista e aniquilando qualquer pretensão de ver pelo menos o segundo tempo da partida. Se você for um cara sortudo, e seu bebê tiver uma tecla MUDO, basta acioná-la. Para desencargos de consciência, você até pode trazê-lo para a sala e sentá-lo ao seu lado no sofá, diante das cervejas e da telinha. Ele se esgoelará, mas tudo em silêncio. Mexerá os bracinhos, puxará os próprios cabelinhos, ficará roxo, mas tudo no mais perfeito mutismo.
Terceira situação hipotética: você já acordou mais cedo, tomou seu banho, colocou a melhor roupa, já que é dia de reunião. Preparou o café para a patroa, está feliz. Só falta mesmo trocar o bebê, que está um pouco agitadinho e parece estar recheado com algo. Você conversa com a criança, mas ela não te dá ouvidos e solta um jato quente, amarelo e que mancha na sua camisa. Você pensa em soltar um palavrão, mas não é o momento de introduzir seu bebê no reino da má-educação. Você se contente com um gemido, um muxoxo apenas. Bem, você terá que se trocar novamente, irá se atrasar e seu humor já não é mais o mesmo. Tudo poderia ser evitado se o seu bebê fosse equipado com um botão autolimpante. Isso jamais estragaria uma manhã sua ou do alegre casal que há pouco ganhou um bebezinho…
Mas, convenhamos, a realidade é outra e os bebês não vêm com botões. Seria divertido se isso acontecesse, mas os modelos chegam às maternidades na modalidade básica, sem acessórios. Eu até convivo muito bem sem essa parafernália toda. Mas bem que trocaria os três botões por uma única tecla: a SAP. Com ela, eu não precisaria das demais. Afinal, meu filho balbuciaria que está com fome, que precisa ser trocado, que está com dorzinha de barriga ou mesmo que quer mais atenção. Com a tecla SAP, ele olharia para mim e, entre os esgarçar de um sorriso e outro, deixaria escapar qualquer eu-te-amo-papai…