dia dos pais: crônica 3

O olhar, o braço e as mãos do pai (23/03/2004)

Faz tempo, mas eu me lembro da sensação. Duas mãos silenciosas, enormes e fortes, me seguravam. Tinham o apoio dos braços, e os passos eram bem cuidadosos, quase flutuantes. Quem me levava quase nem respirava para que eu não acordasse. Muito devagar, me colocavam na cama. Eu deixava meu corpinho serenar, despejando-me no colchão. Mas sentia que alguém me observava por um segundo ou mais: era meu pai. Que desmanchava o sorriso de satisfação assim que percebia que eu acordara. Mas eu, de novo, fechava os olhinhos, e ouvia um suspiro de alívio dele.

Como eu disse, isso aconteceu há muito tempo, quando eu ainda era pequenino e dormia na sala, tendo que ser transportado para a cama. É curioso como a memória da gente funciona. Isso estava guardado lá nos cafundós das minhas lembranças, soterrado abaixo de muita tranqueira e de alguns outros sentimentos.

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Já tentou cortar um bife com uma mão só? E desrosquear a tampinha do refrigerante só podendo contar com cinco dedos? Não é fácil, mas é possível. Aprendi e executei essas proezas dia desses quando estava com meu filho recém-nascido nos braços. Na verdade, Vinicius estava depositado sobre o braço esquerdo e eu estava com uma sede africana. Caminhei lento e calmo até a cozinha e abri a geladeira. De costas. Não ia expor o filhote àquele ventinho gelado que escapa da porta entreaberta. Numa manobra rápida, escorreguei o braço pelas prateleiras, tateando grades e tomates e cheguei ao pescoço da garrafa de Coca. Puxei e, com um golpe de bunda, fechei a porta da geladeira. Protegidos de qualquer friagem, andamos até a bancada, onde coloquei a garrafa em pé. Foi aí que me dei conta de como abriria a bendita com apenas uma mão. Vinicius respirava quietinho. Estava no país dos sonhos. Não tinha como rearranjá-lo. Prendi a respiração e desci a palma da mão pela rosca da garrafa: apertei como uma morsa – com dois dedos – a parte inferior e dei um tranquinho no sentido antihorário na parte de cima. Tchiiiiiiiiii! Legal, abri! Mas meio segundo depois, pensei ter sido alto demais. Ele vai acordar com esse barulhão, seu burro! Que nada! Vinicius até levantou meia pálpebra para ver se estava tudo bem comigo. Em seguida, suspirou senhor-de-si e voltou ao sono.

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Resgatei a sensação do calor e da força das mãos do meu pai lá do fundão da memória. Para mim, eram mãos imensas, colossais, capazes de sustentar o mundo. Quando cresci, vi que o mundo encolhera um pouco. E meu pai deixou de me carregar do sofá para a cama. Bastava chacoalhar que eu despertava, ainda meio zonzo. Eu caminhava trôpego até o quarto, sob o olhar aliviado dele. Perdi meu pai há catorze anos, mas só hoje entendo e repito aquele olhar…

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