dia dos pais: crônica 2

Os insones são felizes (12/07/2004)

Faz duas semanas que me tornei pai. Claro, isso não é lá grande novidade já que quase toda a fauna de homens no mundo passa por isso em algum momento da sua vida. Mas é a minha primeira vez, e ainda não percebi a coisa toda… Vasculhando minha agenda essa tarde, em busca de qualquer outra coisa, esbarrei num bilhetinho que escrevi para mim mesmo na capa do caderno. Nem me lembrava mais que havia feito aquilo, mas agora me recordo nitidamente que rascunhei algumas frases no meio da madrugada: minha mulher descansava do parto, o bebê dormia sem culpa nem nada, e eu ainda me refazia de tudo aquilo. É claro que acompanhei a cirurgia, que tirei fotos, que anunciei o nascimento pelo celular, que monitorei cada respiração daquele menino naquela noite. Medo bobo. Medo de pai novo…

No silêncio do quarto, a clínica praticamente vazia, fiquei ali, só assistindo os dois dormirem. Quis gritar, quis dançar, mas me detive: seria ridículo; incompreensível para qualquer enfermeira que ali entrasse de repente. Cocei a mão e apanhei a agenda. Com uma letra miúda, fui deixando escoar uma ou outra palavra, como num conta-gotas. Não que eu pesasse as palavras, mas porque não queria acordá-los. Fui imprensando palavra com palavra, sem pressa, com cuidado na pontuação, fazendo a madrugada só minha.

***

Tornei-me pai há poucas horas e ainda estou tomado por uma imensa sensação de paz. Não chorei no parto; não fiquei nervoso; só fui sorriso. Não esperava reagir assim, mas acho mesmo que já estava esperando tudo isso. Ser pai me preencheu com tanta força, serenidade e delicadeza que quase nem me reconheço.

A força, eu roubo dos dedinhos dele, que apertam minha mão; a serenidade, eu vejo no soninho leve e contagiante dele; a delicadeza mora nos movimentos suaves dos lábios, quando balbucia historinhas incompreensíveis.

Como será daqui pra frente? Como o mundo vai tratar esse novo passageiro da vida? Eu não sei. Também não quero me preocupar agora com isso. Deixa o mundo girar que eu quero mesmo é velar por esse soninho gostoso.

***

Se fosse essa noite, escreveria outra mensagem. Talvez mais serena, mais amena. Já mudei bastante desde aquela madrugada. Não é responsabilidade ou o peso da idade. Não é medo, nem coragem. É uma sensação diferente, que me preenche, que me acalma, que me renova. É uma paz imensa, espalhada, inebriante. Só. Nessas duas semanas, a vida mudou bastante. Comi menos, sorri mais. Dormi menos do que o normal, é bem verdade. Mas não foi apenas para amainar algum chorinho sem-causa. Perdi o sono para sonhar com ele crescido, correndo pela praia, chutando a espuma da onda que lambe a areia. Não perdi o sono. Ganhei sonhando acordado.

2 comentários em “dia dos pais: crônica 2

  1. de minha parte, lembro que, quando deixamos o quarto para voltarmos para casa, desta vez com o Pedro no colo, um casal estava entrando no quarto ao lado, ela com uma barriga enorme, qual a da Fabi um dia antes do parto. nós, com os olhos esbugalhados de sono. eles, faceiros (na verdade, ele; porque ela estava um tanto quanto, eu diria, apavorada). nós, igualmente felizes, mas com muuuuito sono. no dia seguinte, seria a vez deles, agora em três, deixarem o quarto de olhos esbugalhados pela noite insone, ainda que felizes, e darem lugar para mais um casal sorridente (ele, pelo menos). tudo isso para dizer que este ciclo é maravilhoso, e que somos, você e eu, privilegiados por podermos fazer parte dele de forma tão bacana. Feliz Dia dos Pais, garoto; muita luz a todos vocês.
    Em tempo: quem nasceu no diaa posterior ao Pedro, a 20 de julho de 2009, foi uma menina chamada Isadora. Mora aqui perto e o Pedro espicha os olhos toda vez que a enxerga, o que não deixa de ser um bom sinal aos olhos de um pai.

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