lost NÃO termina hoje

Ao contrário do que possa parecer, a série mais comentada da TV dos últimos anos não termina hoje. E tenho lá minhas razões pra acreditar nisso. Não se trata de nenhum golpe de marketing ou manipulação de Benjamin Linus. Acho que o evento televisivo mais esperado do ano nos Estados Unidos (e fora) vá funcionar hoje muito mais como um desfecho formal, e menos como um final.

O aparato montado para a transmissão de hoje à noite dá contornos épicos. Espetaculares. Me lembro do burburinho para o episódio final de Friends – que ficou dez anos no ar – e para E.R. – que ficou 18, e aqui no Brasil foi veiculado como Plantão Médico. E nada se compara. Para se ter uma ideia, a ABC estará cobrando US$ 900 mil para cada 30 segundos de intervalo comercial durante a transmissão. Serão dedicadas cinco horas da programação para o final de Lost. Primeiro, a emissora exibirá um resumo de duas horas das seis temporadas. Depois, virá o Series Finale, com hora e meia de duração. O resto será preenchido com anúncios, e só com essa transmissão, a ABC deve faturar U$ 45 milhões, informa o ótimo Dude We are Lost. É um acontecimento televisivo, semelhante ao Super Bowl, quando dezenas de milhões de americanos param tudo para ver a final do futebol deles…

Mas como eu dizia, Lost não termina hoje.

Depois de seis temporadas e um punhado generoso de mistérios, a série estabeleceu um novo patamar nas produções televisivas. Não apenas porque os gastos por episódio se aproximem dos consumidos por produções cinematográficas modestas, mas porque a qualidade narrativa e a capacidade de envolvimento do público superou o cinema. Sim, sejamos francos. Nos últimos anos, é a TV quem manda. As produções televisivas têm sido muito mais ousadas, exitosas e influentes que os arrasa-quarteirões dos estúdios. Compare-se a geração de filmes e séries/seriados desde o ano 2000… E Lost ajudou a puxar o sarrafo pra cima.

Lost é um fenômeno desses tempos. É um produto da cultura de fã, que já existia bem antes, mas que foi hipertrofiada pelas potencialidades da internet e das redes sociais. Lost é crossmedia, é narrativa transmídia. Não termina no desfecho do episódio, pois continua nos fóruns, nos podcasts e chats. Um personagem pode até bater as botas num momento, mas ressurge nas listas eletrônicas, nas conversas de corredores, nos blogues que reescrevem a trajetória do finado, nas fanfictions

Como eu dizia, Lost não termina hoje. Esta é a minha primeira certeza.

A segunda é que ficaremos todos decepcionados com o que iremos assistir. Sim, ficaremos. Passados seis anos, catalisada toda a ansiedade e expectativa, nenhum desfecho possível (ou impossível) irá nos satisfazer. Mesmo que todos os mistérios sejam competentemente solucionados. Mesmo que nossos prediletos se salvem, deixem a Ilha e refaçam suas vidas da melhor maneira. Nada disso vai aplacar a nossa ânsia pelo capítulo final.

E quer saber? Pouco importa. Ao menos para mim. Isso porque eu tenho uma terceira certeza. Em Lost, mais importante que o desfecho é a viagem. Qualquer que seja o final, o que fica é o acumulado ao longo desses anos: a mitologia, a galeria de personagens, a Ilha, as loucuras que desafiam a ciência e os sentidos, a Iniciativa Dharma, Os outros… Como diz Jorge Drexler, “amar la trama más que al desenlace”… O que fica é a história, a narrativa, a contação. Adultos e crianças se comportam da mesma forma: adoram ouvir histórias, se fascinam por elas, e embarcam nos seus ritos. As crianças, sem vergonha e sem cansaço, pedem que as mesmas histórias sejam contadas, que os trechos tenham os mesmos acentos, as mesmas pausas, os mesmos diálogos. O prazer não está no final, está no meio, no percurso, no curso da ação. Os adultos também fazem assim, mas de forma escamoteada, alugando filmes que já assistiram, assistindo à reprise do final da novela no sábado, revendo jogos, que chamamos de clássicos. Adoramos replay de gols. Adoramos remakes de filmes… Mais uma vez, o que conta é a história, o meio, a trama, o enredo, e não o seu fecho.

E mesmo sem ter ainda assistido ao Series Finale – e o farei na segunda ou terça -, a impressão que tenho é a mesma que tive quando estava prestes a zerar Grim Fandango, delicioso game de PC dos anos 90. Na cena final, um personagem nos lembra que, nas melhores viagens, o que menos importa é o destino e mais percurso, o trajeto. Por isso, Lost não termina hoje. Não termina mais…

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  1. Geraldo

    Concordo. Lost foi um fenômeno televisivo, que encheu os bolsos dos produtores e veiculadores e preencheu a fantasia de milhões de fãs e nos fez passar seis anos de nossas vidas ligados, discutindo teses e teorias, buscando nos sites opiniões de outros como nós, querendo desvendar cada novo mistério (e foram muitos), tentando compreender a trama complexa como a vida. Foi uma jornada e tanto. Já estávamos íntimos do Jack, da Kate, do Hugo, do Sawyer, dos coreanos, do Locke, do Ben e de tantos outros personagens tão ricos, bem desenvolvidos e bem interpretados (com especial atenção para o Jack, o Flocke e o Ben, desempenhados por ótimos atores). E o MIB ? O Flocke ? O Smokey ? O Lostzila ? Os apelidos para os nossos personagens que amamos odiar (me lembro agora do Sylar de Heroes).

    Mas concordo também que o final vai inevitavelmente decepcionar os fãs, pois criamos demais, pensamos demais, fizemos teorias demais e tivemos esperanças demais. É impossível satisfazer todos os nossos desejos (muitos deles contraditórios). Talvez se cada um de nós pudesse montar um final para LOST, nós mesmos não ficaríamos satisfeitos com o reultado (sempre esquecendo alguma coisa ou sentindo a necessidade de rever depois).

    Independente do final, estou aqui também pela viagem (e que viagem!). Foi uma ótimo caminho percorrido junto com os personagens, com as amizades feitas nesses 6 anos pela internet, com a certeza de que haveria um próximo episódio que responderia aos mistérios propostos e criaria outros.

    Que venha o final de LOST e com certeza daqui a muitos anos ainda estaremos falando nele.

  2. Ana Prado

    A rua idéia – de que Lost não acaba hoje – é o tipo de noção que acalma minha sede por mais “percursos” – como bem colocaste – pelos maravilhosos bosques da ficção (lá vem o U.Eco..hehehe) . Tb me fez lembrar do meu sentimento quando assisti ao último episódio de X-Files. Embora estruturada em outro tipo de narrativa, a série de Sci-Fi que eu amava tinha chegado ao fim me deixava órfã de Scully e Molder. A sensação que tive é exactamente a mesma. Depois de alguns anos, comprei todas as temporadas em DVD e hoje devoro-a aos pedacinhos.
    Penso que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde com Lost. Afinal, tb amo os percursos mais que a chegada e revisitar os mesmo caminhos sempre me (nos) faz descobrir novas coisas, não é?

  3. TıKla-CAN

    Concordo. Lost foi um fenômeno televisivo, que encheu os bolsos dos produtores e veiculadores e preencheu a fantasia de milhões de fãs e nos fez passar seis anos de nossas vidas ligados, discutindo teses e teorias, buscando nos sites opiniões de outros como nós, querendo desvendar cada novo mistério (e foram muitos), tentando compreender a trama complexa como a vida. Foi uma jornada e tanto. Já estávamos íntimos do Jack, da Kate, do Hugo, do Sawyer, dos coreanos, do Locke, do Ben e de tantos outros personagens tão ricos, bem desenvolvidos e bem interpretados (com especial atenção para o Jack, o Flocke e o Ben, desempenhados por ótimos atores). E o MIB ? O Flocke ? O Smokey ? O Lostzila::S:S

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