privacidade, interesse público e equilíbrio

Como qualquer atividade humana, o jornalismo se equilibra em valores. Interesse público, equilíbrio no tratamento das informações e respeito à privacidade são alguns deles.

Na coluna de hoje, a ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, escreve que muitos dos leitores daquele jornal se queixaram da reportagem que denunciava que Mônica Serra, esposa do presidenciável José Serra, teria feito um aborto há décadas no Chile. Os leitores criticaram o jornal pela invasão de privacidade e questionavam o valor jornalístico da matéria assinada por Mônica Bérgamo. A ombudsman reconheceu que a reportagem trata de um assunto delicado e “quase inverificável”. Mas defende a oportunidade de tratar do tema, tão explorado na campanha eleitoral não apenas por Serra, mas por sua rival Dilma Rousseff. Suzana Singer conclui:

É, sem dúvida, polêmico e desconfortável fazer jornalismo da vida privada. Mas, à medida que os dois candidatos -Serra e Dilma- assumem personagens quase fictícios nessa campanha, justificam-se os esforços em tentar desnudá-los.

Um leitor mais exigente poderia indagar: Quer dizer que para “desnudar” um candidato os jornalistas podem até mesmo invadir o seu passado, a sua privacidade?

Particularmente, não sei se é pra tanto, mas a se pensar… A se pensar nos limites para o jornalismo, inclusive o praticado pelos jornalões como a Folha. Em setembro passado, durante a Semana do Jornalismo aqui na UFSC, a mesma ombudsman da Folha deu detalhes sobre como o seu jornal se orienta para cobrir os candidatos. Entre outros indicadores, estão as pesquisas eleitorais, e quem está na frente recebe mais atenção que os demais. Não proporcionalmente em termos de espaço, mas em termos de investigação. Isto é, quem está na frente tende a ter mais preocupação do jornal em “desnudar” seu passado, suas ações, suas promessas.

Confesso que essa orientação me incomoda. Ela se distancia muito de uma cobertura equilibrada, balanceada e justa. É certo e esperado que a imprensa fiscalize, investigue, vasculhe informações atrás de detalhes que atendam ao interesse do público, da coletividade. Mas é preciso fazer isso de lado a lado, não impulsionado por pesquisas ou sondagens, mas por valores mais perenes e amplos. Ficar ao sabor do vento não me parece garantir uma boa jornada nesses tempos tão revoltos…

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  1. Josie Mendes

    Posso falar?

    Há algum tempo parei de acompanhar as notícias destas eleições. Por diversos motivos, mas o principal foi o rumo que tudo isso tomou, que por sinal, é sem volta. Invasões, acusações, você é isso e aquilo também.

    O que nós eleitores devemos nos importar é com projetos, algo que pouco se fala nestas eleições.

  2. rogério christofoletti

    Concordo contigo, Josie. A campanha degringolou; a imprensa se perdeu; os ânimos estão à flor da pele… precisamos virar esta página.

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