Precisamos de mais redes de afeto

Na semana passada, lançamos em Coimbra a Rede Lusófona pela Qualidade da Informação. “Lançar uma rede” é uma expressão recheada de significados aqui e isso tem a ver com o próprio ato do pescador que desafia a madrugada em busca de sustento. No fundo, esse é um gesto de esperança, de quem deseja colher bons frutos.

Foi um dia especial aquele, e na saída, a tarde se despedia no Pátio das Escolas, no coração de uma das universidades mais antigas do Ocidente. Falei por alguns minutos na cerimônia de criação da RLQI, representando os signatários, e foi mais ou menos assim:

Ao cumprimentar o Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra, estendo a saudação às demais autoridades, aos signatários desta rede e ao público presente.

Agradecemos a acolhida da Universidade de Coimbra nesses dias e, em especial, ao professor Carlos Camponez, por seu entusiasmo e profissionalismo, o que resultou na ampla articulação desta Rede Lusófona pela Qualidade da Informação.

Estamos felizes!

Não porque o congresso esteja terminando, mas porque este é um momento muito especial.

Um certo português escreveu certa vez que “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Sim, a Rede Lusófona pela Qualidade da Informação surge e ela é fruto de sonhos, mas sabemos bem que teremos que trabalhar muito para que ela se torne realidade. O português que escreveu esse verso era muitas pessoas, e ele disse também que “o mesmo mar que separa, une”.

Somos uma rede unida pelo mar, mas não somos uma rede de territórios, de países, de mapas. Somos uma rede unida por algo mais poderoso ainda: a língua portuguesa. Não se pode prender, acabar ou fazer desaparecer uma língua. Ela habita o nosso interior e ajuda a constituir os sujeitos. “A língua é minha pátria”, escreveu mais uma vez aquele português.

A Rede Lusófona pela Qualidade da Informação surge hoje, dia 14 de novembro de 2018. Amanhã é dia 15, e no meu país, o Brasil, se comemora o Dia da Proclamação da República. Muitos colegas vieram nos últimos dias conversar comigo, preocupados com os rumos do Brasil, depois dos resultados das eleições. Eles perguntavam sobre o país e eu tampouco sei explicar o que se passa por lá. E o que é pior, se num futuro breve, teremos república, teremos Brasil…

Temos cada vez mais claro que as eleições deste ano foram atípicas, e que foram contaminadas por notícias falsas, por um sistema sofisticado de desinformação, típico do que estamos chamando mais recentemente de pós-verdade. Neste contexto, é muito oportuno criar uma Rede Lusófona pela Qualidade da Informação, afinal, os meus colegas não estão preocupados apenas com o Brasil, mas com a democracia como um todo. Estão também preocupados com o jornalismo, isso que ajuda as pessoas informadas a tomar decisões pequenas e grandes.

Sim, uma Rede Lusófona pela Qualidade da Informação tem muito a fazer.

Mas uma rede como essa salva a democracia? Não.

Salva o jornalismo? Também não.

Mas por outro lado, vamos ficar parados e calados? Claro que não.

Este é um tempo difícil, e é cada vez mais necessário criar redes de cooperação, elos de trabalho, vínculos coletivos. Precisamos de redes de afeto, de respeito e de conhecimento.

Uma rede é feita de nós, e precisamos fortalecer esses laços. Precisamos tramar novas redes, de afetos e trabalho, e assim, desafiar o mar revolto.

Estamos felizes sim. Muito obrigado!

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