O golpe fez 100 dias

Michel Temer está na condição de presidente interino há 102 dias.

Pelo andar da carruagem – e a figura cai muito bem pelo tom arcaico -, vai se transformar em presidente efetivo com a deposição de Dilma Rousseff no final deste mês, mais tardar no começo de setembro.

Nesses pouco mais de três meses no comando, Temer não fez do Brasil um país mais unido, nem mais pacificado, muito menos um país melhor. Perdemos todos. Em direitos, em esperança, em sonhos. A nação tem sobre si um tecido esgarçado em cujos rasgos vê que a corrupção não foi extinta, que o otimismo se esfarelou, e que a economia está longe de melhorar.

Temer, Serra, Jucá, Renan, Cunha, Aécio e os demais corvos que roem a esperança nacional estão também muito distantes de serem modelos de honestidade e conduta. Rodrigo Maia, o segundo homem da República, foi citado generosas vezes no Listão da Odebrecht, em segredo de justiça por ordem do ministro Teori Zavaski. O Congresso Nacional que ele lidera representa conservadorismo, intolerância, rancor e retrocessos.

Com a queda de Dilma, o PT destruído, as esquerdas aparvalhadas e a população exausta, corvos, chacais e hienas vão avançar sobre o que imaginam ser uma carcaça sem vida. Veremos nos próximos tempos se o país estará assim mesmo. Torço para que não.

De certeza, só tenho uma: daqui pra frente, as coisas não vão melhorar. Não vão.

Claro que não é golpe!

boxeador-1As pessoas exageram demais! O país está desse jeito porque as pessoas ficam vendo chifre em cabeça de cavalo.

Há meses ficam dizendo por aí que está em curso um golpe de estado no Brasil.

Ora!

  • Se fosse golpe, Michel Temer, o vice, teria conspirado contra Dilma, aplicando-lhe uma rasteira!
  • Se fosse golpe, o PMDB não teria se contentado com seus oito ministérios (mais ainda que o PT!) e teria dado um empurrão na presidente!
  • Se fosse golpe, Janaina Pascoal, uma das autoras do processo de impeachment, teria sido paga pelo PSDB para defender a perda do mandato de Dilma. Seria um baita chute!
  • Se fosse golpe, Eduardo Cunha teria acelerado o processo na Câmara, fazendo deputados trabalharem num domingo para dar um cruzado na chefe do Executivo.
  • Se fosse golpe, teriam escolhido Antonio Anastasia – que já foi vice do derrotado Aécio Neves – para ser relator do processo de impeachment no Senado. Funcionaria como um pontapé contra Dilma!
  • Se fosse golpe, teriam ignorado o Ministério Público, para quem “pedaladas fiscais” não é crime. Aí, seria uma paulada!
  • Se fosse golpe, o presidente interino teria acabado com ministérios e programas sociais, e criado novo slogan e marca para o governo. Seria um soco na cara do povo brasileiro.

Como nada disso aconteceu, e como rasteira, empurrão, chute, cruzado, pontapé, paulada e soco não são golpes, não é golpe!

Não dá pra entender a estratégia da Band

Durante meses a fio a Band martelou o público com a divulgação do seu aplicativo. Com ele, seria possível acompanhar a programação da emissora em qualquer lugar, conectado com a internet por celular, tablet ou dispositivos móveis semelhantes. A jogada era simples: todas as emissoras de TV aberta (e fechada) percebem que a audiência está migrando paulatinamente (ou aceleradamente) para a web e aí, todos tentam reter os grãos de areia nas mãos.

No início desta semana, uma “matéria” do Jornal da Band comemorava que cinco milhões de pessoas têm acompanhado o telejornal que passou a ser transmitido em tempo real no Facebook. Uai! Mas e o aplicativo? Por que a Band está recheando a empada do Facebook se ela já oferecia pastel?

Dá a impressão de que a emissora está atirando para todos os lados, mas isso não é necessariamente acertado. Se você tem um aplicativo que serve de atalho para a sua audiência e também permite que você colha dados que ajudem a monitorar esse consumo, por que joga isso pro alto e adere a um monstro tentacular como Facebook, que controla toda a operação?

Apenas “porque todo o mundo está no Facebook”? É pouco, muito pouco. É suicida.

 

Este é o ano do “não”

2016 tem se mostrado um período difícil, de tantas recusas, de tantos senões, de tantas vírgulas. Metade do ano já era, e eu já sei que não é um bom momento. Tenho acumulado uma quantidade impressionante de nãos. As pessoas não estão dispostas, os recursos não estão disponíveis, as oportunidades não estão na mesa!

Tudo parece travado, interrompido. É o medo do risco, é a impossibilidade de incerteza, é a certeza de reticências.

Dá vontade de desistir de tudo, de jogar as cartas para o alto, de cavar um buraco na direção do núcleo da Terra. Acha que eu vou desistir? Não. Essa é a única resposta que eu conheço para tantos outros nãos.

A Nobel tem mão quentinha

20160705_104225Eu tinha certeza de que iria me encontrar com Svetlana Aleksiévitch na Flip. Não havíamos combinado nada (quem dera!), mas eu tinha certeza. Por isso, onde quer que eu fosse, carregava comigo o exemplar de Vozes de Tchernóbil que me marejou os olhos tantas vezes.

No meio de um mar de gente que zanzava pelas ruelas de calçamento ancestral, avistei a jornalista que se notabilizou por contar histórias tristíssimas como a da tragédia nuclear de 1986 na Bielorússia. Svetlana andava com passos miúdos e olhar perdido nas fachadas das casinhas coloniais. Estava acompanhada por sua agente literária na Europa e por uma tradutora. Bendita tradutora!

Abordei Svetlana em inglês e ela me olhou desarvorada. Este idiota esqueceu de décadas de Guerra Fria! A gentil tradutora veio ao nosso socorro e construiu uma simpática ponte entre o Brasil e a Ucrânia, já que eu não sei dizer nem obrigado em russo…

Agradeci Svetlana por ter contado as histórias dos anônimos em Vozes de Tchernóbil. Suas sobrancelhas formaram um triângulo surpreso. Mencionei meu episódio favorito no livro, aquele do homem que deixa tudo na cidade evacuada, mas volta para levar consigo a porta de casa. Sobre ela velou o pai e nela marcou ao longo dos anos as fases de crescimento dos próprios filhos. A escritora sorriu e passou a falar com voz clara e olhos animados.

Eu disse que era professor de jornalismo e que desejava que meus alunos a lessem. Afetuosa, Svetlana disse algumas amabilidades. Apesar de se queixar de uma dor no trigêmeo – o incômodo nervo da face -, sorria e balançava a cabeça.

“Você não tem um livro para ela autografar?”, perguntou a tradutora. Saquei meu exemplar e tirei fotos com ela. Svetlana fez uma dedicatória, apertou minha mão e se foi com as amigas. Tinha a mão quentinha, e o cumprimento foi forte. Como a sua escrita.

Como o desmonte da comunicação pública afeta a TV UFSC?

É amanhã!13438963_10201769525995507_8573321705432805980_n

Venha discutir o desmonte da EBC

Cartaz EBC

Sobre Florianópolis e a inovação no jornalismo

Tenho uma visão preocupante e a ao mesmo tempo otimista quando o tema é jornalismo. Preocupante não apenas pela crise das empresas do setor, mas também pelas muitas mudanças culturais pelas quais a nossa profissão tem passado nas últimas três décadas. Otimista justamente pela potencialidade do que tais mudanças podem provocar em termos de aperfeiçoamento e correção de rotas.

Um post do Alexandre Gonçalves no seu Primeiro Digital acabou me provocando. Ele se pergunta “Por que Florianópolis não é a ‘capital da inovação’ do jornalismo?”. Ele menciona uma característica que a cidade e seu entorno exibem: uma indústria consolidada de tecnologia e seus recursos humanos altamente qualificados. E exorta que jornalistas, veículos e esse promissor e influente segmento econômico dialoguem, buscando formas inovadoras de apresentação de conteúdos e mesmo de modelo de negócio.

Para além do fetiche que a expressão “capital da inovação” causa por aqui – e pelo que conheço do Alexandre, ele foi irônico -, eu gostaria de apimentar mais as coisas, pois quando se trata de inovação, estamos falando não apenas da obssessão pelo novo, mas acima de tudo, pelo busca do diferente e do inconformado. A inovação é um processo, um conjunto de ações e esforços para não fazer do mesmo, na tentativa de fazer melhor. A inovação também ajuda a fertilizar uma cultura dinâmica de desapego, de empreendimento e – cuidado com o palavrão! – de risco.

As empresas jornalísticas e os profissionais da área estão dispostos a correr riscos? Quais? E suportariam quanto?

O Alexandre Gonçalves conhece melhor as empresas locais de tecnologia do que eu, mas alimento uma desconfiança de que esse setor não esteja assim tão aberto ao jornalismo. Isso implica em formar parcerias e elas só se forjam quando há interesse mútuos e cambiáveis. Neste sentido, será mesmo que a indústria tecnológica de Florianópolis precisa do jornalismo que aqui é produzido? Será que depende dele? Será que iria se beneficiar com ele e com seus profissionais?

Essa minha desconfiança se apoia na observação dos fatos. Os grandes monstros da tecnologia global têm se aproximado do jornalismo tão somente para vampirisá-lo. Facebook e Google fazem isso. Não porque se importem ou se interessem por jornalismo. Eles estão atrás de conteúdos que atraem usuários, que carregam consigo dados e mais dados. Facebook não é uma rede social, é uma empresa de dados. Google não é uma páginas amarelas da web, é uma empresa de dados. Jornalismo, mídia ou entretenimento têm mostrado nos últimos dois séculos que comportam em si condições de atrair a atenção das pessoas, e é dessa maneira que os grandes conglomerados tecnológicos mundiais veem. O jornalismo é uma oportunidade.

Numa escala bem menor – Florianópolis -, não seria o mesmo?

Agora, vamos inverter a equação. O jornalismo que se pratica por aqui depende de nova tecnologia? É dependente dela? Iria se beneficiar com ela e seus desdobramentos?

Não arrisco respostas fáceis. Minhas questões têm um propósito simples: colocar em xeque o fascínio que construímos em torno das soluções tecnológicas como se nossa existência e subsistência dependessem delas. Será mesmo? Não estaríamos nós transferindo a terceiros a necessidade de alcançarmos melhores patamares de apuração e apresentação de conteúdos, de interação com públicos, e de sustentabilidade financeira?

Sim, a cidade tem potenciais incríveis, é verdade. De um lado tem um pólo tecnológico inovador, atuante, produtivo e agressivo. De outro, a região oferece pelo menos quatro opções de formação superior em Comunicação, sem contar o único Doutorado em Jornalismo no país, e uma quantidade respeitável de veículos e profissionais na área. No meio disso tudo, há quem empreenda. É o caso do Barato de Floripa, do Desacato, do Estopim, do Maruim, do Catarinas, e do Farol Reportagem, que chega hoje à rede, sedento por fazer coisas. Essas iniciativas ainda não se consolidaram, mas estão erguendo pilares se não de inovação tecnológica, mas de oferta alternativa de informação. Há outros coletivos e empreendimentos surgindo e essa efervescência só melhora o ambiente de discussão, formulação e implantação.

Numa rede de pesquisadores em torno do projeto GPS-JOR, estamos mapeando o cenário, coletando dados e discutindo modelos de governança, formas de financiamento e arranjos produtivos que transcendam a imagem única e poderosa que se consolidou no mercado: a empresa. É possível pensar em jornalismo de qualidade e que seja sustentável, para além de como funciona uma empresa jornalística? Como isso pode ser feito? Quem ganharia com isso? Quem estaria conosco nessa? Afinal, isso também não é uma forma inovadora de se ver o jornalismo?

Transformações no jornalismo: quer que desenhe?

O pesquisador José García Avilés junta num único post oito infográficos que mostram de forma clara, contundente e direta as muitas mudanças pelas quais passa o jornalismo. É um ótimo exercício de síntese para uma equação complexa e dinâmica.

Trocando em miúdos: economia da atenção + crescimento constante das redes sociais como fonte de informação + redução do papel dos meios impressos + consequente reinvenção desses meios + explosão dos ganhos de publicidade dos gigantes da internet + preferência do mobile + retorno do “textão” + fortalecimento do vídeo na web.

Para ver na íntegra, clique aqui.

Há 30 anos, Borges…

… enganava todo o mundo, fingindo morrer na Suíça, quando na verdade, se esgueirava entre prateleiras de uma gigantesca biblioteca e nela se perdia para todo o sempre…

borges e o tigre

Não temos whatsapp. Não insista

Toda semana alguém arregala os olhos e luta para impedir que seu queixo bata no chão. É assim quando respondo “não tenho whatsApp”. A pessoa me olha meio estupefata, meio incrédula, quase com desprezo. “Como assim?”, ela insiste diante daquela inacreditável revelação, quase um segredo de Fátima. E aí eu preciso argumentar porque não uso o software quando 100 milhões de brasileiros já o utilizam “há séculos”.

“Mas você não usa por quê?” – pergunta, com olhar desconfiado.

(sorrio amarelo) “Porque não…”

“Isso não é resposta. Diga aí!” – diz, querendo arrancar uma confissão.

(gaguejo) “Porque não sinto necessidade e…”

“Mas como não?! Você não tem celular?” – já aumentou o volume da voz.

“Tenho…”

“Com o whatsapp, você não precisa pagar a ligação nem a mensagem que enviar. É uma solução grátis!”

(eu penso: pular da ponte também grátis, mas também não estou a fim de usar essa solução) “Bem… eu não vejo porque usar…”

“Mas é super prático!” – arranca uns tufos de cabelos.

(eu penso: tomar chuva em vez de tomar banho também é prático, mas não abro mão do chuveiro) “Não acho necessário e…”

“Mas você não é jornalista? Não lida com comunicação?” – interpela, com as mãos prestes a alcançar meu pescoço.

(esquivo do estrangulamento) “Sim, eu sou, mas…”

“E como é que você se comunica?” – a pessoa está prestes a sacar uma faca…

(meus olhos varrem o perímetro buscando rotas seguras de fuga) “Bem, eu uso email, ligo para as pessoas, mando SMS, deixo recados, converso pessoalmente…”

“Ah, mas não é a mesma coisa!” – agora, a pessoa me olha com nojo. Virei uma barata.

(penso em responder, mas o interlocutor faz sinal para parar. Ele olha seu smartphone que emite ruídos múltiplos, avisando que chegaram várias mensagens. Com os olhos pregados na tela, me deixa ali sem falar nada. Eu sorrio: salvo pelo whatsApp!)

Vigilância global e os riscos para o jornalismo investigativo

O aumento e a sofisticação dos mecanismos de vigilância global colocam em perigo a privacidade como um direito individual e o jornalismo investigativo como uma engrenagem importante para a democracia. É o que conclui o artigo de Paul Lashmar, publicado na Journalism Practice no final de maio. Em “No more sources? The impact of Snowden’s revelations on journalists and their confidential sources”, o jornalista e acadêmico entrevista 12 repórteres investigativos que apontam os impactos do recrudescimento do Grande Irmão sobre a atividade daqueles que fiscalizam os poderes…

Mais informações aqui

ATUALIZAÇÃO: O próprio Paul Lashmar escreveu um artigo hoje pedindo mais supervisão das agências de inteligência para que não incorram na vigia dos jornalistas (e dos demais seres humanos)…

Ética jornalística, uma entrevista

Há anos, a Rádio Univali FM mantém um interessante programa de entrevistas na sua programação: o Viva Voz. Sempre comandado pela jornalista e professora Liza Lopes Correia e por um estudante de jornalismo, o programa aborda diversos temas da vida social. Em maio estive na universidade para uma palestra e passei pelos estúdios da rádio. A conversa, que teve ainda o acadêmico Lucas Rosa, tratou de ética no jornalismo e cobertura da crise política. Confira!

Miles Davis faz 90 e continua milhas à frente

queremos milesParece piada, mas foi verdade.

Miles Davis estava num jantar na Casa Branca e uma socialite igualmente branca se aproximou dele e tentou se enturmar: “Quem é o senhor e o que está fazendo aqui?”. Miles falou com sua voz de lagarto: “Vim a convite do presidente porque mudei o panorama da música umas três ou quatro vezes”.

As palavras podem não ter sido exatamente as mesmas, mas Miles não exagerou.

No dia em que ele completaria 90 anos – hoje, 26/05/2016! -, basta olhar ao redor, apurar bem os ouvidos e perceber como não apenas foi instrumentista excelente, band leader temperamental, mas acima de tudo um inquieto renovador da música.

Para celebrar o dia do aniversário, alguns presentes:

O golpe parlamentar nas capas dos jornais

Recorte e guarde. Para cobrar coerência depois.

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“Stoner” me fez chorar de novo

12985588_1665400570387011_2803034507267203373_nPense por alguns segundos e responda: quantos livros já te emocionaram de uma forma tão arrebatadora a ponto de perder o chão? Pense com calma, tenho certeza de que não foram muitos. Comigo também, e os livros que me fizeram chorar cabem nos dedos das mãos, de uma talvez…

Há muito anos, chorei amargamente quando Gregor Samsa percebeu que sua família não lhe devotava nenhum valor, nada de respeito. E não era porque havia se tornado um inseto monstruoso…

Há alguns anos, chorei fundo quando Baleia veio consolar um dos meninos-sem-nome de Vidas Secas, encostando a cabeça magra em uma mãozinha suja…

Há poucos anos, chorei copiosamente quando os remorsos da infância tomaram a vida do narrador em O caçador de pipas…

Hoje, voltei a manchar as páginas de um livro: Stoner, de John Williams.

Desta vez, conhecemos um professor de literatura, com um casamento falido, sem vaidades ou ambições, e que conduz sua vida como se fosse levado por um caudaloso rio. Williams oferece a vida ordinária de um homem sem qualquer brilhantismo, contada de uma forma linear e cotidiana que nos mostra o quanto se pode descobrir de dignidade e honestidade em alguém. Suas escolhas erradas, a impassividade e a resiliência, os fracassos pessoais, as fragilidades emocionais, tudo o que nos faz sermos o que somos. Pungente, bem escrito, profundamente humano.

Foi um prazer conhecê-lo, professor Stoner…

 

Vamos falar de imparcialidade da mídia no Brasil?

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a votação do impeachment em 7 capas de jornais

A história costuma guardar recortes de jornal. Alguns amarelam rapidamente, outros já nascem descolados da realidade. Neste domingo de justiçamento, selecionei sete primeiras páginas dos jornais brasileiros. Vamos ver amanhã!

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Jornalismo, crise, crítica e ética: um debate

lancamento livros joinville

Um abril como nenhum

Tudo indica que esse mês vai escorrer pelos nossos dedos como nenhum outro. Basta ver o que a política nos reserva nesta semana… Nada comparável ao pungente romance de Ismail Kadaré, tão soberbamente batizado de “Abril Despedaçado”.
Nele, nos Montes Malditos da Albânia, na década de 1930, famílias tentam recuperar a honra por meio de pequenas vinganças. Se alguém mata o filho de um clã, pode esperar que terá o troco na mesma moeda. A camisa manchada de sangue ficará pendurada ao sol até que amarele. A partir daí, a trégua terá terminado e a resposta virá.
Em tempos como os nossos, quando as vinganças são mesquinhas, e as traições, rasteiras, a honra e o respeito parecem nada valer. Nosso mês pode se fragmentar como a delicada asa da borboleta em mãos grosseiras.

Perspectivas para um jornalismo em transformação: uma palestra

Mailing Aula Inaugural

“Vigilância não tem a ver a com segurança, mas com poder”

A jornalista Marta Peirano, do espanhol El Diário, encontrou-se com Edward Snowden para uma das raras entrevistas do homem mais procurado do mundo. Sentaram-se frente a frente num dos quartos do Hotel Metropol, em Moscou. Ela conta que Snowden escolheu aquele lugar não porque seja uma relíquia do czar Nicolau II, sede dos bolcheviques, onde o próprio Lenin se hospedou com sua esposa. Snowden escolheu o Metropol por razões mais práticas: o prédio tem sete portas de saída…

Na conversa com a repórter, o ex-analista de informação da NSA volta à carga contra os planos de vigilância global e aos ataques frequentes à privacidade dos cidadãos comuns. Desmonta a lógica que vincula o recrudescimento da vigilância a aumento da segurança, e destrói argumentos que sustentam a violação do direito de intimidade para combater o terrorismo.

Vale a pena ler. A entrevista está em duas partes (aqui e aqui).
Marta Peirano conta neste vídeo como foi entrevistar Snowden.

Cony, 90

conyEle me fez rir sem jeito com Pilatos.

Ele me fez sentir mais saudades com Quase Memória.

Ele me faz amar mais com Romance Sem Palavras, A Tarde da Sua Ausência, e Antes, o Verão.

Feliz aniversário, velho. Amo suas páginas.

A escrita e a potência de ser outro

22165971É uma ideia recorrente aquela que vê no ator um afortunado por sua capacidade de viver mais vidas que a própria. É comum também esquecermos que outros podem ir além dos contornos de suas existências. De um modo geral, a arte permite isso; de uma forma específica, a literatura também. Não consegui desgrudar dessa sensação após ler “Cavala”, de Sérgio Tavares.

Despretensioso, o livro venceu o Prêmio Sesc de Literatura em 2009 na categoria contos e nos oferece alguns motivos para reafirmar essa potência do ato de escrever. Consciente disso ou não, Sérgio não perdeu a chance e se desdobrou numa modelo bulímica com TOC, numa descuidada ninfomaníaca, num frágil limpador de banheiros e num adolescente que acredita trazer seu cão no bolso de trás. Gente tão distante do pai de família que se divide entre o trabalho, a vida doméstica e a lida literária nas madrugadas insones. Gente esquisitamente diferente de nós, e tão próxima nas suas ansiedades… Como Sérgio pode saber tanto da vida dessas pessoas? Alguém pode responder: Ora, foi ele quem as criou. Mas não basta porque reconhecemos ali personagens de NOSSAS vidas! Mesmo que você evite concordar, mesmo que deseje não se perceber ali…

O fato é que Sérgio afunda tanto nos labirintos mentais, nas fragilidades daqueles corpos que promove um apagamento de si absolutamente necessário para o efeito que quer causar: nos fazer acreditar nas personagens, nos dramas e nas ilusões que as sustentam.

Somos tão convencidos daquilo que vasculhamos o bolso da calça, contamos os passos do cômodo que ocupamos, passamos a mão pela virilha (para acalmar ou despertar algo)… Sérgio engana, transforma, metamorfoseia. Modula sua voz conforme a conveniência, traveste-se, monta-se. Sem medo aparente. Mas não é assim que tem que ser a literatura: convincente, verdadeira, bem feita? Sim, esperamos algo desse jeito. Mas você há de convir comigo que não é toda hora que esbarramos com uma literatura que nos tira do centro e do sério. “Cavala” faz isso. Dá um coice no leitor, desestabiliza, causa vertigem.

Temos ali 92 páginas de energia bruta, vazada por pensamentos fugidios e desejos pulsantes (ora contidos, ora não). Os protagonistas são solitários e quebradiços, errantes em suas miseráveis rotinas. São como nós, tentam sobreviver, lutam contra si mesmos e contra as adversidades. São humanos demasiadamente humanos e, talvez por isso, sequestram nossa simpatia até mesmo quando cometem ações reprováveis… Te desafio: tente condená-los após fechar o livro!

A potência literária de Sérgio está nesse descortinar de personas que o homem Sérgio pode ser só diante do teclado. Mas sua força vai além. Lá de Niterói – seja pela ponte ou pelas barcas -, Sérgio Tavares emite uma voz própria que ecoa na produção literária brasileira contemporânea. Não é barítono nem tenor. Mas tem timbre único, registro próprio. Não é pouco, pois isso não é para muitos.

Um Biajoni, curioso, explora outros caminhos

A-viagem-de-James-AmaroLi com muita curiosidade “A viagem de James Amaro” (Língua Geral, 2015). Luiz Biajoni mandou um exemplar pra casa, com uma dedicatória simpática, e me adiantou que havia muito jazz naquelas páginas. Corri pra ler, mas atrasei um pouco o ritmo de viradas de página para “ouvir melhor”. Sim, o pequeno volume tem grandes sets e jams!

E se você já conhece o Biajoni, espera personagens alucinados por sexo, que fazem muito sexo e que se fazem pelo sexo. Em livros anteriores – e ele não precisou de muitos -, o autor de Americana (SP) martelou um conjunto de características literárias e narrativas que acabou por moldar um certo estilo. “A Comédia Mundana” reúne três novelas sacanas que calcificam essa ideia, e a tentação é pensar: Biajoni segue a linha do Bukowski, Henry Miller, no mesmo naipe. O James Amaro destoa e nos mostra um Biajoni diferentão, sensivelmente mais maduro e disposto a arriscar em outros quintais.

Então não tem sexo? Claro que tem. Não tem putaria? Alguma, é verdade. Mas cadê o diferentão? Está na condução dos destinos dos personagens, na linha que o autor traça para depositarmos sobre ela nosso olhar e por ali vagar. Na capacidade de ir além dos gritos e sussurros, do suor e dos movimentos pélvicos.

James Amaro é um advogado bem-sucedido, rico, predador sexual, e que – a partir de um susto na vida – decide fazer uma viagem de carro do interior paulista a Parati, no Rio. Abastece seu grande carro branco com CDs de clássicos do jazz e leva consigo um antigo amigo dos tempos de escola, um cara que não via há décadas, mas que se convence de acompanhá-lo por absoluta falta de saída. Sentamos, então, no banco de trás do grande carro branco, ouvimos as confissões de lado a lado e numerosos comentários sobre música, formação de bandas, virtuosismos e tragédias do mundo do jazz. Para quem conhece e gosta do gênero, um deleite. Para quem não está nem aí pra coisa, uma oportunidade de acompanhar um didático desfile, gloriosa galeria de artistas.

Se fosse um filme, teríamos um sonoro road movie. Mas é literatura e temos à mão uma convidativa road novel, sem maiores pretensões ou ambições de transformar o mundo das letras. Como a trilha sonora é daquelas, periga de a gente se distrair e não perceber um Luiz Biajoni mais arrojado. Se há dez anos, era ousadia escrever tão escancaradamente sobre sexos e fluídos corporais, agora, enfrentar emoções em outros pavimentos se traduz em mais coragem. O que é que sobra depois que alguém se levanta para ir se lavar no banheiro? O que nos resta depois que o parceiro pegou no sono?

Nem falei para o Biajoni, mas confesso aqui: temi que ele ficasse refém de certos cacoetes, esparramado sobre aqueles corpos nus e mergulhado na molhada fugacidade dos gozos apressados. Em “A viagem de James Amaro”, Biajoni não deixa de tratar daquilo, mas é possível dizer que ele deixou a zona. A do conforto. E isso me alegra.

Tendências do jornalismo em língua portuguesa

dispositivaAs revistas Dispositiva (PUC-MG) e Estudos de Jornalismo, do GT Jornalismo e Sociedade da associação portuguesa Sopcom, lançaram há pouco uma edição conjunta com artigos apresentando alguns vetores da investigação em jornalismo.

São dois volumes, e o próximo deve sair em abril.

O primeiro número está em formato PDF, em português, tem 135 páginas e arquivo de 2,5 Megas.

Baixe aqui.

32 maneiras de trazer dinheiro ao jornalismo

A lista é oferecida por Miguel Carvajal com base em sugestões de seus alunos do Máster en Inovación en Periodismo, na Espanha. Útil para quem pretende sobreviver.

http://mip.umh.es/blog/2016/01/31/vias-ingresos-periodismo-monetizacion/

A chantagem de Cunha em 15 capas de jornais

Guarde essas primeiras páginas.
No futuro, elas podem se revelar um capítulo importante da história do país ou apenas mais um ato patético e desesperado.
A ver.

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Precisamos falar de crise no jornalismo

Em dezembro, vamos lançar em Florianópolis Questões para um Jornalismo em Crise (Ed.Insular), livro em que reúno treze perguntas incômodas para o presente e o futuro do jornalismo.

É irônico, mas as notícias não têm sido nada boas para o jornalismo. Queda nas tiragens dos meios impressos, redução de verbas publicitárias, demissões nas redações e até fechamento de jornais e revistas. Para piorar, os públicos têm dado sinais claros de desinteresse frente ao que a mídia tradicional oferece.

questoes para um jornalismo em crise

O diagnóstico é de crise e ela não se limita à indústria jornalística brasileira. Está em todas as partes. Diante desse quadro, empresas, gestores e jornalistas se dividem entre lamentos, desespero e busca de soluções. Nos meios acadêmicos, também existe muita apreensão. Nas próximas páginas, pesquisadores e profissionais arriscam perguntas que podem ajudar a encontrar respostas para um cenário tão complexo.

Se o jornalismo ainda tem um lugar importante em nossas vidas, o que poderá ser feito para que voltemos a ler boas manchetes sobre ele?

Mais sobre o livro aqui.