Três armadilhas a evitar quando pensamos sobre a crise do jornalismo

É tentador projetar cenários e apontar para soluções quando estamos estudando ambientes de crise. Tendo como objetivo fazer sínteses para explorar flancos e arrancar saídas, volta e meia cometemos erros de leitura e de julgamento. Por isso, é preciso evitar certas armadilhas.

No caso da crise do jornalismo, vejo como é fácil cair em três delas, pelo menos.

A primeira é fazer diagnósticos sem se apoiar em dados da situação. A indústria jornalística no Brasil é muito reticente em fazer pesquisas e disponibilizar essas informações. O resultado é um setor que funciona de forma errática, aos trancos e barrancos, à base da tentativa e erro. É um setor também que inova menos do que poderia, justamente porque teme o fracasso e não considera o risco como uma constante na equação daquela exploração econômica. Assim, como temos poucos números e nem sempre é possível gerar séries históricas que permitam comparações, recorremos a projeções nem sempre realistas.

Por isso, com alguma frequência, precisamos produzir relatórios, estudos e até mesmo dados. Fiz isso muito rapidamente no segundo capítulo de A Crise do Jornalismo Tem Solução?, que lancei este ano. Me debrucei sobre um material da Associação Nacional dos Editores de Revista (ANER) de anos passados e comparei com a realidade que encontramos nas bancas atualmente. Cheguei a uma taxa alarmante: 35 das 100 revistas mais lidas em 2014 já não circulavam mais quatro anos depois. Perceba: estou falando de publicações bem sucedidas de diversos nichos e públicos, e que simplesmente deixaram de existir em pouquíssimo tempo. Isso é uma medida, não a única, mas ela ilustra parte de como a crise se manifesta no mercado brasileiro…

A segunda armadilha fácil de se cair quando se pensa em crise no jornalismo é ignorar a escala dos acontecimentos e dos atores implicados. Quer dizer: a crise afeta cada um de um jeito, com uma duração e conforme uma proporção. A queda vertiginosa de vendas em banca pode acionar o alerta amarelo num jornal grande (e que tem boa base de assinantes no modo digital), mas pode ser fatal para uma empresa média, muito dependente desse modelo. Da mesma forma, o muro de pagamento pode funcionar em alguns casos e em outros, não, conforme comento também no livro. É preciso considerar o contexto e ponderar como cada fator pode se comportar num contexto de crise. E ficar com olhos atentos porque o peso e a influência desses fatores pode se modificar em meio à observação.

A terceira armadilha é permitir que nossos desejos contaminem nossas leituras da crise. Porque amamos o jornalismo e porque não queremos que ele desapareça, nos apressamos a dizer que ele nunca morrerá, que as mutações pelas quais passa são superficiais, e que não estamos vivendo um furacão, mas só uma ventania. Cuidado! Desejar que algo não aconteça não necessariamente impede que aquilo realmente ocorra. É preciso mais para evitar a realidade: interferir nela. Seja propondo soluções, apontando para erros evitáveis ou implantando saídas na prática, por exemplo.

Não nos enganemos: a crise que afeta o jornalismo é inédita na sua complexidade, duração e alcance. É também nova porque afeta aspectos que são estruturais e não só conjunturais.

Não é fácil nem cômodo estudar o terremoto com ele acontecendo. Você tenta anotar na prancheta, mas ela cai e a caneta também. Logo, é a gente quem está no chão vendo tudo ser remexido e nossa visão se nublando…

Direito à comunicação no Brasil: um relatório

O Intervozes lançou mais uma edição de seu relatório Direito à Comunicação no Brasil. A publicação, referente a 2018, aborda temas como fake news, violações ao direito de protestar, concentração de mídia e políticas de acesso à internet, entre outros. Em PDF, 80 páginas.

Baixe aqui.

A Lava Jato domesticou a imprensa: uma entrevista

Conversei com Laercio Portela, do Marco Zero, um dos mais pulsantes meios jornalísticos independentes de Pernambuco. Ele quis repercutir os terremotos das revelações feitas por The Intercept Brasil sobre Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outros mais.

Falei bastante. Desculpe.

Na íntegra, a entrevista pode ser lida aqui.

Lá se foi Clóvis Rossi

O coração de Clóvis Rossi parou, e o jornalista está morto.

Juca Kfouri escreveu um curto comentário em seu blog, que dá uma dimensão de como é difícil se despedir de amigos.

Eu não conhecia Clóvis Rossi pessoalmente, mas o acompanhava há 30 anos, pelo menos. Eu o li religiosamente durante duas décadas, e ele representou um dos meus horizontes como jornalista. Foi um dos que me influenciou no início de carreira pelo texto, a bagagem profissional, o jeitão de repórter e a compreensão histórica da política na América Latina.

De uns anos para cá, Clóvis Rossi foi caminhando cada vez mais para o epicentro ideológico da classe média, e eu fui me distanciando. Era um moderado, civilizado e até brando. O que ele escrevia já não batia tanto com o que eu acreditava ou via no mundo. Não importa. Hoje, se foi um dos grandes jornalistas do meu tempo. Obrigado, Clóvis.

Nunca sabemos quanto tempo resta

Talvez a gente possa culpar deus ou a filosofia pela ironia que é a consciência humana da morte. Dizem que somos os únicos seres na Terra a saber que um dia morreremos. Os demais são sortudos porque ignoram, vivem e ponto.

A ironia (de deus ou da filosofia) é que sabemos da missa só a metade. Todos sabemos que um dia estaremos mortos, mas não nos é revelado quando isso vai se dar na prática.

Meu pai morreu aos 48 anos. 17 dias depois do próprio aniversário, o que dá pra dizer que aquele foi o ano mais curto da vida dele. E como passou o tempo todo num hospital, nem é possível dizer que aproveitou esse ano. Por isso, considero que o último ano de vida dele foi o anterior, aqueles 12 meses de quando tinha 47 anos.

Imagino que, naquela manhã de 5 de agosto de 1989, quando completou 47, meu pai não imaginava que estaria morto em pouco tempo. Apenas vivia. E ponto.

Completo 47 hoje, e tive uma vida muito diferente da do meu pai. No entanto, como ele, não sei ainda quanto me resta a partir de agora. Isso não me atemoriza de verdade. Só me permite entender o que era aquele homem, naquela fase da vida, um ano antes de desaparecer por completo…

O livro “A crise do jornalismo tem solução?” na mídia

Na metade de maio, começou a chegar nas melhores livrarias do país e nas plataformas de ebooks do mundo inteiro o meu livro “A crise do jornalismo tem solução?” (Ed. Estação das Letras e Cores).

Se você não sabe do que estou dizendo, eu explico aqui. E se ficou interessado em ter o seu, vá por aqui. Veja o que andam dizendo sobre ele:

É possível salvar o jornalismo sem o dinheiro do Google?

Se tem um tipo de notícia que faz os donos da mídia brilharem os olhinhos é o anúncio de que alguém vai abrir as torneiras do dinheiro. Ontem, foi mais um dia desses no 3º Google For Brasil, evento da poderosa Big Tech no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Não, eu não estava lá, mas posso afirmar sem medo de errar que teve gente que saiu feliz da vida e a explicação é uma só: o Google vai despejar milhões de dólares em projetos de fact-checking, fortalecimento de padrões de qualidade, eventos, incubação de novos meios e até educação midiática, conforme conta o Portal Imprensa. Segundo o Marco Tulio Pires, que coordena o Google News Lab, já foram injetados R$ 36 milhões no mercado brasileiro desde 2018. Não é pouco, mas está longe de ser a salvação da lavoura.

Gente muito competente e organizações muito reconhecidas – como Projor, Abraji e ANJ – são beneficiadas com esses recursos, e os seus projetos são muito importantes para o jornalismo e a sociedade, de um modo geral. Não discuto isso, já que os resultados podem ser conferidos em iniciativas como o Comprova e o Credibilidade, por exemplo.

O buraco é mais embaixo. Será que a indústria jornalística pode ficar refém da vontade e do planejamento financeiro de gigantes da internet que ajudam a corroer o negócio das notícias? Não dá pra buscar saídas da crise sem depender dos milhões das grandes plataformas? O dinheiro não pode vir de outras fontes ou cofres? A benevolência das Big Techs não é uma maneira para conter efeitos colaterais da quebradeira que vêm provocando em tantas outras atividades econômicas?

Talvez a indústria jornalística nacional não veja Google e Facebook – que também investe no setor – como concorrentes, e talvez eles não sejam mesmo. São piores: são predadores. E seu apetite insaciável já abocanha mais da metade do bolo publicitário anual, conforme levantamentos em mercados como os Estados Unidos.

Facebook e Google não apenas aspiram para si parcelas enormes das verbas publicitárias que antes iam para os meios jornalísticos. Também drenam o tempo e a atenção dos usuários no planeta todo, desviando o interesse nas notícias, entre outros efeitos.

É errado, então, receber dinheiro do Google e Facebook para fortalecer o jornalismo? Não é errado. Mas depender deles para tirar a cabeça para fora da água é muito, muito temerário. A indústria jornalística precisa de soluções, das suas próprias soluções. Será necessário meter a mão no bolso e convencer a sociedade, os governos e outros atores econômicos a investir em jornalismo. Proteger o jornalismo é manter empregos e empresas, mas também é reforçar um importante tecido que dá sentidos para as pessoas e as sociedades.

Como a universidade pode ajudar a enfrentar a crise do jornalismo?

Escrevi sobre como a academia pode participar dos esforços de enfrentamento da crise do jornalismo. O texto saiu no Observatório da Imprensa e foi reproduzido também no objETHOS e outros lugares.

Defendo que a crise não é um problema de jornalistas e meios de comunicação apenas, e que outros atores podem (e devem!) se envolver nisso, e as universidades têm vocações imprescindíveis para oferecer contribuições. Menciono três casos recentes e, ao final, listo outras três potencialidades dos cursos para a questão.

Na íntegra, o texto pode ser lido aqui.

Confiança e sustentabilidade: dois nós para o jornalismo

A crise do jornalismo não é apenas financeira, tenho dito isso com alguma frequência. É claro que a míngua de anunciantes e de recursos para manter os negócios deixa gestores e jornalistas de cabelos em pé.

Pesquisa recente do Conselho Executivo das Normas-Padrão (Cenp-Meios) observou que os investimentos em mídia no Brasil cresceram pouco mais de meio por centro (0,57%) em 2018. Na prática, é uma estagnação, o que pode ser comemorado pelos mais otimistas ou ser detestado pelos pessimistas. De qualquer forma, estamos falando de um mercado de R$ 16,5 bilhões, nada desprezível.

Tem engrossado o coro, ultimamente, que uma saída necessária para crise é investir no jornalismo local, fortalecendo meios, barrando o avanço dos desertos de notícia, e apostando em saídas com menor escala e resposta mais rápida. Em Nova Iorque, o prefeito Bill de Blasio determinou que todas as agências da cidade gastassem pelo menos a metade de seus orçamentos anuais em meios comunitários e étnicos. Prevista para entrar em vigor em 2020, a iniciativa foi celebrada como um gesto para garantir que notícias locais continuem sendo produzidas e que a mídia que se encarrega disso se mantenha viva e pagando as contas em dia. Nova Iorque gasta mais de 2,75 milhões de dólares em publicidade na mídia local por ano.

É impossível prever que um ato desse contagie outros municípios e realidades, mas já pensou se o prefeito da sua cidade fizesse isso? Gaste um minutinho da sua vida pensando em que meios poderiam ser beneficiados e como isso afetaria a sua dieta pessoal de informações.

Mas como eu disse, não é só de dinheiro que o jornalismo precisa para vencer sua crise. Um outro nó é a credibilidade.

No Brasil, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) vem comemorando os resultados da pesquisa Dimension-2018 que revelou, entre outras coisas,  que jornais e revistas têm mais credibilidade que as redes sociais. As taxas de confiança seriam de 67% e 72% contra 33% das redes. Meios impressos também têm índices menores de rejeição.

Outro estudo – este internacional – aponta não só descrença nas redes, mas um cenário pior para os chamados influenciadores digitais. Apenas 4% das pessoas afirmam confiar no que eles dizem online.

Penso que é um erro brutal quando o jornalismo tenta seguir os passos das redes sociais e de modismos diversos, como é o caso dos influenciadores. O tempo das redes é mais volátil e seus compromissos muito menores que os do jornalismo.

Investir na formatação de um modelo de negócio rentável, perene e sustentável é vital para a sobrevivência da indústria do setor, mas esse movimento não pode ser feito divorciado de uma verdadeira preocupação em reter e ampliar a confiança dos públicos. Afinal, se você não confia num meio de comunicação ou em um jornalista, por que vai consumir as informações que eles distribuem? Por que vai dar atenção a eles, quando seu tempo é tão escasso e há tantas formas sedutoras de gastá-lo?

Deep fake news e rastreamento de olhar: distopias

Dias atrás, um vídeo viralizou nos Estados Unidos mostrando a presidente do Congresso com uma fala arrastada e estranha, mais parecendo estar bêbada. O vídeo não condiz com a verdade porque sua velocidade foi alterada, e o efeito é uma clara manipulação de informação e contexto.

Se antes estávamos preocupados com fake news, nossos problemas aumentaram! Temos agora deep fake news!

O Carlos Affonso explica melhor como isso pode nos afetar e pode funcionar nas eleições do ano que vem. Sim, apertem os cintos.

Ficou preocupado? Ficou preocupada?

Nesta completíssima reportagem, a Vice conta como já estão em uso diversas tecnologias para rastrear os movimentos de nossos olhos, e que isso é o “Santo Graal da publicidade”. Isso já permite que as empresas e agências coletem nossas reações mais íntimas e inconscientes diante de imagens, campanhas e outros estímulos. (Isso é destrinchado de forma bem detalhada pelo Andrew McStay no livro “Privacy and the Media”, que recomendo fortemente a leitura).

E aí, gelou o seu sangue?