O hotel de Lula e a retratação da Band

Pra variar, parte da mainstream media teve chiliques com os vestidos de Janja e com o hotel em que Lula se hospedou em Londres em sua recente viagem à Inglaterra. É ótimo quando o jornalismo fiscaliza os poderes, mas também é muito bom quando se retrata e reconhece seus erros, como fez a Band… Clique na imagem para assistir

UOL erra feio com Nath Finanças

Nesta semana, o UOL publicou chamada em suas redes sociais sobre alguns membros do Conselhão de Lula, e no caso de Nath Finanças, reduziu uma das maiores influenciadoras financeiras do país a “ficante de BBB”… A reação veio forte e o portal precisou se retratar.
A história é contada em detalhes por Rafael Capanema no Núcleo.

 

Cobertura jornalística de massacres em escolas precisa melhorar

O programa Além da Notícia, da TV ALMG, debateu a necessidade de ajustes nas coberturas jornalísticas sobre massacres e ataques a escolas e creches. Participei junto com a professora Lola Aronovich, da UFC, uma referência nacional em discurso de ódio machista nas redes. O programa é apresentado pelo jornalista Alexandre Campello. Clique na imagem para assistir:

 

PL das Fake News: uma entrevista

Semana trepidante em Brasília e nas redes sociais com a urgência de tramitação do PL 2630 na Câmara dos Deputados, o PL das Fake News. Dei meus dois centavos sobre o tema para a Agência Radioweb. Ouça.

A tentativa de golpe nos jornais

Hordas de bolsonaristas invadiram ontem, 8, os principais prédios públicos da república. Os palácios mais importantes dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário foram também vandalizados e saqueados em atos de terrorismo à luz do dia. Os principais jornais do Brasil e do mundo estampam hoje, 9, a vergonha inesquecível.

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A saga de um leitor por um livro

O leitor acorda com uma obsessão: ler aquele livro antes daquela viagem.

Ele sabe que não tem o volume em sua coleção. Do autor, o leitor só tem um título, que descobre que deu de presente para a esposa há 15 anos. É a dedicatória quem lembra, e mais: com espírito romântico, chega a prometer a tal viagem, menos por convicção e mais para embelezar o recadinho de dedicação.

Satisfazer a obsessão será fácil, pensa o leitor. Basta acessar a Amazon e comprar uma cópia eletrônica do livro, mas a ilusão termina em menos de um minuto. Por razões misteriosas, o único título do autor indisponível em ebook é justamente o que ele procura. Pensa em encomendar um exemplar físico, mas a entrega pode demorar mais do que ele poderia suportar.

O leitor, então, aciona o modo furtivo e recorre a sites de download clandestino de livros. Nada. Realmente, o objeto da sua obsessão não está acessível em bits. Vai até a Estante Virtual e até encontra a preços módicos, mas a entrega prevista é daqui a um século!

Cabe então uma busca peripatética por livrarias e sebos da cidade. O obcecado arruma uma desculpa qualquer para ir ao centro, convence o filho a escoltá-lo, e eles varrem os sebos campeões em ácaros e rinite, e… nada! Encontram outros títulos do autor, mas nada próximo daquela santa perseguição.

Num dos capítulos finais, ele acelera o carro para chegar a tempo de encontrar um sebo de bairro aberto. Não! Inexplicavelmente fechado antes das seis da tarde… com a tromba arrastando, o leitor volta para casa, quase derrotado. À noite, emaranhado em pensamentos, tem uma ideia que vai salvá-lo de todo o mal: a biblioteca da universidade!

O sistema eletrônico de busca arranca um sorriso do rosto do leitor. Ele só precisa atravessar uma noite de sono até resgatar o volume naquele deserto das férias escolares. Os corredores estão mal iluminados e o obcecado teme pelo fracasso quando se depara com um setor de estantes isoladas por fita e lonas. As chuvas do mês passado interditaram uma parte do acervo, muito próximo da numeração que ele buscava. Muitos livros foram atingidos pelas malditas goteiras e estão indisponíveis. Precisam se recuperar. Com passos miúdos e o coração apertado, o leitor contorna o espaço proibido e chega à estante; percorre com os dedos as prateleiras e alcança a lombada mais procurada do mundo.

De várias maneiras, aquele fanático tentou comprar o livro, e não conseguiu. Foi uma biblioteca pública que pacificou seu coração. Foi essa invenção perigosa – juntar milhares de livros e permitir que as pessoas os leiam gratuitamente! – que salvou seu dia. Foi essa criação antiga – bibliotecas públicas -, a encarnação do espírito do bem comum, que permitiu ao leitor segurar aquele surrado volume.

Lula eleito nas capas dos jornais

Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente de República ontem, 30, com mais de 60 milhões de votos. É a terceira vez que vestirá a faixa presidencial, um feito inédito, pois nem mesmo Getúlio Vargas foi eleito três vezes para o Palácio da Guanabara. As primeiras páginas dos jornais hoje são históricas.

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A leitura da carta pela democracia nas capas dos jornais

Atos cívicos em todo o país marcaram o 11 de agosto de 2022 com leituras da Carta às Brasileiras e aos Brasileiros, iniciativa ecumênica para alertar sobre os riscos de golpe à democracia nacional.

Os principais jornais do país dedicaram espaços generosos em suas primeiras páginas no dia seguinte. Chamo a atenção para a Gazeta do Povo, que preferiu destacar a pífia redução do preço do diesel, que aconteceu coincidentemente ontem…

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Imprensa ainda hesita diante das mentiras do presidente

O presidente da República reuniu 70 embaixadores estrangeiros para mais uma investida ao sistema eleitoral brasileiro. Hoje, 19 de julho, os principais jornais do país reconheceram que foi mais um ataque, mas apenas um deles teve a coragem (bom senso? senso jornalístico?) de dizer que ele mentiu… aliás, a Folha de S.Paulo também publicou editorial com o seguinte título: “Presidente golpista: Bolsonaro barganha com Congresso liberdade para atacar a democracia; isso tem que acabar”.

Nas capas dos jornais que juntei, destaque também para o Correio do Povo, que trouxe uma foto que traz mensagem subliminar sobre os apoiadores de Bolsonaro.

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Transparência no jornalismo: um mapeamento

Acaba de ser publicada a mais recente edição de Ámbitos, periódico científico da Universidad de Sevilla e um dos mais instigantes da área da Comunicação na Espanha.

O número tem um “monográfico” sobre pesquisa e transferência de conhecimento em comunicação, organizado por Sara Loiti-Rodríguez e meu querido amigo Juan Carlos Suárez-Villegas. Além do dossiê, há artigos sortidos e um deles é assinado por mim e minha ex-bolsista de iniciação científica, Juliana Naime Ferrari, onde apresentamos um rápido mapeamento de instrumentos e práticas de transparência no jornalismo.

Para ler o artigo, clique aqui. Para baixar a Âmbitos 57 inteira, clique aqui.

Perdi meu ex-futuro marido

Conheci Frank Maia num casamento.

As véias nunca mais serão as mesmas…

Era o casamento dos jornalistas Cris Fontinhas e Maurício Oliveira na Ingrejinha da Lagoa. E eu estava de penetra porque não conhecia os noivos e fui de  contrabando da minha esposa à época. No final da cerimônia, o Frank veio falar com a gente e foi amor à primeira vista. Uma amizade de milênios reconhecida num segundo. Quem podia resistir àquele sorrisão e um alto astral simplesmente contagioso…

Não deu muito tempo e trabalhamos juntos num jornal, e eu via dia-a-dia como o Frank evoluía no traço, nas gags, na sua arte. Foi pouco tempo, talvez dois anos, sei lá…

Mas a gente se encontrou muitas outras vezes, quase sempre com nossas mãos agarradas a copos, e era sempre como se tivéssemos conversado há dois minutos. Amantes de quadrinhos, trocávamos impressões de um artista ou de outro, e sempre nos prometemos fazer alguma coisa juntos. E rolou uma vez. Escrevi um historinha de duas ou três páginas que ele desenhou. Faz mais de vinte anos e eu nem encontro mais vestígios daquilo. Mas eu não esqueço o que aconteceu depois. Laerte veio a Florianópolis para uma palestra, e estávamos os dois lado-a-lado e perguntamos sobre duplas de criação. Laerte coçou a barba – sim, faz muito tempo – e disse: “Se você tem quem desenhe pra você, se você tem quem escreva pra você, case com essa pessoa!”.

No lançamento do livro que celebrou parte da obra do Frank

Frank gargalhou, e olhou pra mim com aquela cara de louco dele. Gargalhei também, e prometemos repetir a parceria, mas não aconteceu mais. Em compensação, eu pude acompanhar de perto (às vezes de longe) o meu ex-futuro-marido se tornar o melhor chargista que Santa Catarina já teve. Maior ainda que o ídolo dele, o Bonson, que também já partiu.

Frank viveu e sobreviveu  por conta da sua inteligência, do seu traço rápido e de uma alegria que eu nunca entendi de onde vinha. Não havia tempo ruim com ele. Era generoso, estava sempre muito bem informado e não se desgrudava das filhas mais novas. Nos últimos meses, nos encontramos sem querer sempre no centro da cidade, onde frequentamos bar e banca de jornais, desconfio que os lugares que ele mais gostava. Ainda não acredito que ele foi embora. Ele sempre ficava até o final da festa…

Frank casou algumas vezes, teve vários filhos e fez infinitos amigos. Sou um deles. Mas e se a gente tivesse ouvido a Laerte, hein, Frank?!

Baixe o livro!

Acaba de ser lançado em formato eletrônico o livro “Jornalismo Local a Serviço dos Públicos” (Ed. Insular).
Organizado por Jacques Mick, eu e Samuel Pantoja Lima, a publicação reúne alguns dos resultados do projeto GPSJOR que investigou esforços para a superação das crises do jornalismo. Financiada pelo CNPq, a pesquisa reuniu dezenas de pesquisadores da UFSC, Ielusc e UEPG e se estendeu por quase seis anos de trabalho.

Temos vagas!

Aqui no Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) estamos com vagas abertas para novos pesquisadores e pesquisadoras.

Com o lançamento do edital do Processo Seletivo 2022 do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC, nosso grupo de pesquisa pode ampliar a equipe. O PPGJOR vai selecionar pós-graduandos e pode preencher até 20 vagas, sendo 11 de Mestrado e 9 de Doutorado. Como no ano passado, 50% das vagas são destinadas às ações afirmativas: pessoas pretas e pardas, indígenas, quilombolas, refugiados, pessoas trans e pessoas com deficiência.

No objETHOS, são três vagas.

O professor Samuel Lima tem duas vagas para orientar um mestrado e um doutorado. Esses trabalhos devem se alinhar aos assuntos de sua especialidade: jornalismo como profissão: perfil profissional, identidade e condições de trabalho; teoria do jornalismo – jornalismo como forma social de conhecimento; e crise no jornalismo e sustentabilidade do negócio jornalístico.

Eu tenho uma vaga para doutorado, e meus temas de interesse de orientação são: ética jornalística; crise no jornalismo; transparência no jornalismo e media accountability; privacidade, e credibilidade jornalística.

A seleção tem três etapas, todas a distância por causa da pandemia: análise de currículo e projeto, prova escrita, e entrevista. O prazo de inscrição vai até 13 de março.

Não quer aproveitar?

O que se pode dizer do futuro do jornalismo local?

O pesquisador Giovanni Ramos lidera o Dialéticas, podcast de divulgação científica que se mergulha em temas de jornalismo e comunicação. Emitido a partir da Universidade da Beira-Interior (UBI), de Portugal, o Dialéticas debateu futuros e impasses para o jornalismo local. Participei com Jacques Mick e Samuel Lima. Falamos longamente sobre o projeto GPSJOR, que consumiu seis anos de nossas vidas de pesquisadores…

A conversa rendeu dois episódios do podcast, e o primeiro já pode ser conferido aqui; o segundo será publicado dia 24…

ATUALIZAÇÃO: O segundo episódio acaba de sair. Aqui!

Que impactos terá a eleição de Lula para o jornalismo?

Esse clima de já-ganhou pode dar mais tempo para as redações se perguntarem sobre que efeitos terá a eleição de Lula para o jornalismo brasileiro. Será que o Lula-lá vai recalibrar as coberturas?

Escrevi sobre isso para o BemDito.

Ética e desinformação: um debate

No finalzinho de janeiro, debati ética jornalística, desinformação e outros temas afins com meu amigo e companheiro Samuel Lima . O vídeo, na verdade, é uma entrevista que demos para os colegas do Observatório Internacional Estudantil da Informação (ObservInfo), da UnB.

Veja aqui:

Observatórios de imprensa e desinformação

Sou um dos convidados do debate “Uma Rede contra a desinformação: o trabalho dos Observatórios”, que acontece amanhã (17), a partir das 19 horas. Esta é uma realização da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), com transmissão pelo canal de Youtube da rede.

A proposta é reunir representantes de observatórios de mídia de diferentes regiões do país, e que são parceiros da RNCD Brasil, para compartilhar relatos sobre experiências, trabalhos e métodos de atuação, em especial num cenário de ampla desinformação e em que o trabalho dos observatórios pode contribuir para o entendimento dos modos de funcionamento dos sistemas midiáticos e subsidiar o desenvolvimento de políticas que garantam a pluralidade democrática.

O debate contará também com a participação do professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e coordenador do Observatório da Mídia: direitos humanos, políticas, sistemas e transparência, Edgard Rebouças; da professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora do Observatório da Comunicação Pública (Obcomp), Maria Helena Weber; e do professor da Universidade Federal do Tocatins (UFT) e coordenador do Observatório de Pesquisas Aplicadas ao Jornalismo e ao Ensino (Opaje), Gilson Porto.

Sobre a RNCD

A Rede Nacional de Combate à Desinformação foi lançada em setembro de 2020 e reúne projetos e instituições de diversas naturezas que atuam de alguma forma para combater o mercado da desinformação. Participam da RNCD, coletivos, iniciativas desenvolvidas dentro de universidades, agências, redes de comunicação, projetos sociais, projetos de comunicação educativa para a mídia e redes sociais, aplicativo de monitoramento de desinformação, observatórios, projetos de fact-checking, projetos de pesquisa, instituições científicas e revistas científicas.

Baseada numa plataforma digital, a rede busca oferecer conteúdos de educação midiática, monitoramento de fake news, jornalismo de fact-checking e debunking, bem como ações de comunicação proativa levando informação precisa e necessária para a sociedade. O objETHOS integra a rede de parceiros da organização. Para saber mais sobre a RNCD, acesse rncd.org/

Quem vai financiar o jornalismo independente?

Amanhã, 3 de outubro, tem um debate muito bacana no Fala!, Festival de Comunicação, Culturas e Jornalismo de Causas, que acontece online de 1 a 8 de outubro: Quem vai financiar o jornalismo independente no Brasil?

Estarei com Daniele Moura (Jornal Maré Notícias), Elaine Silva (Alma Preta Jornalismo) e Rosenildo Ferreira (1PapoReto), que faz a mediação. A mesa acontece a partir das 10 horas, e pode ser acompanhada pelo canal de vídeos do festival.

O Fala! foi idealizado e organizado por quatro grupos de mídia independente – Alma Preta Jornalismo, Marco Zero Conteúdo, 1Papo Reto e Ponte Jornalismo, e tem apoio do Sesc.

As capas dos jornais neste 7 de setembro

Alguns dos diários brasileiros farejaram hoje os odores golpistas em suas primeiras páginas. Vale analisar, guardar e acompanhar. Nesta manhã do dia da independência, ainda é cedo para dizer o que pode acontecer, se algo mais grave e violento ou apenas cenas patéticas, alucinadas e reveladoras do charco em que o país mergulhou com aquele homem terrível.

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Limites éticos no jornalismo e na publicidade

No próximo sábado, participo do painel de abertura do 8º Seminário de Pesquisa da Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

Estarei com o ombudsman da Folha de S.Paulo, José Henrique Mariante, para falar sobre limites éticos no jornalismo e em anúncios publicitários. A ideia é abordar o caso do polêmico anúncio dos Médicos pela Vida, assinado por profissionais da saúde e que prescrevia o uso de substâncias comprovadamente ineficazes no tratamento de sintomas da Covid-19.

Um pouco do que eu penso sobre isso está neste artigo. O resto eu conto no debate.

Taxar as big techs e salvar o jornalismo: um debate

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tem realizado um conjunto de seminários regionais para discutir a proposta que vem defendendo junto com a federação internacional (FIJ) para taxar as grandes companhias de internet e criar um fundo de apoio financeiro ao jornalismo.

Hoje à noite, a partir das 19 horas, participo de um desses debates, ao lado de Beth Costa e de Celso Schroeder.

Você pode acompanhar por aqui.

E a ética jornalística na pandemia?

Participo amanhã, dia 28, de um debate com a Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, e com o Mauri König, da Uninter, sobre reflexos da pandemia na ética jornalística. É às 19 horas, ao vivo pela página do Facebook do Sindijor-PR, com acesso público para perguntas e comentários.

A jornalista e professora Lenise Klenk, presidenta da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Paraná, será a mediadora. Aliás, o evento é uma realização da Comissão Estadual de Ética.

Perseguição a jornalistas, um debate

Inaceitáveis 500 mil mortes

O Brasil alcançou hoje, 19 de junho de 2021, ao trágico marco de meio milhão de mortos oficiais por Covid-19.

Não podemos normalizar essa ferida escancarada.

Não podemos aceitar que famílias se dilacerem, se dissolvam, se esfacelem.

Não queremos mais mortes que poderiam ser evitadas.

Jair Bolsonaro é o maior responsável por chegarmos a este cenário dantesco. É o presidente da República, a autoridade que deveria liderar o combate à doença, o ocupante de cargo público que deveria apontar caminhos para enfrentarmos a pandemia.

Por incompetência, inabilidade, descaso, despreparo, insensibilidade e perversidade, Jair Bolsonaro pouco ou nada fez. Não é o único responsável por tantos cadáveres, mas é o maior responsável. A ausência de liderança, de uma política pública nacional nos trouxe até aqui.

Que os cidadãos deste país e que as instituições que compõem isso que resta de sociedade possam ter a dignidade e a força para responsabilidade Jair Bolsonaro e todos os outros que, por ação ou inação, produziram esse genocídio.

Transparência no jornalismo, em dois livros recentes

Dois livros recém-lançados no exterior por prestigiadas editoras internacionais trazem textos meus sobre um tema a que venho me dedicando há três anos: transparência no jornalismo.

“Cultures of Transparency: Between Promise and Peril” acaba de sair pela Routledge e é organizado por Susanne Fengler (Erich Brost Institute for International Journalism da TU Dortmund University), Stefan Berger, Dimitrij Owetschkin e Julia Sittmann, docentes da  Ruhr University Bochum. O volume reúne textos de autores de diversas partes do mundo abordando criticamente o conceito de transparência na vida social contemporânea. Eu assino o capítulo “Whistleblowers, Media, and Democracy in Latin America”, onde analiso como denunciantes na mídia se comportam nos países latino-americanos.

Este livro surgiu de um evento em Berlim, patrocinado pela Fundação Volkswagen, que reuniu pesquisadores de diversas partes para discutir as promessas e os perigos da transparência. Foi em 2018 e foi uma experiência muito bacana participar…

“News Media Innovation Reconsidered” é um lançamento da Wiley Blackwell, organizado por Maria Luengo e Susanna Herrera-Damas, ambas da Universidad Carlos III, da Espanha. A coletânea traz textos que discutem como a ética e os valores jornalísticos estão impactando e sendo afetados por esforços inovadores de reconstrução da indústria de mídia. Entre os autores estão Stephen J. Ward, José Alberto García-Avilése Alfred Hermida. “Transparency, Innovation, and Journalism” é o título do meu capítulo, onde a transparência é analisada como um fator de inovação que pode distinguir positivamente alguns empreendimentos jornalísticos.

Por que a EBC não deve ser privatizada

Em carta à população, a “Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública”, que reúne dezenas de entidades da sociedade brasileira, em conjunto com as trabalhadoras e trabalhadores da EBC, manifestou-se sobre o tema.

Carta à sociedade: por que a EBC não deve ser privatizada

O Ministério das Comunicações anunciou recentemente o envio da Empresa Brasil de Comunicação ao Programa Nacional de Desestatização (PND). A decisão parece ser uma resposta a setores da imprensa ligados ao sistema financeiro, reproduzindo a lógica de dependência dos “mercados” da própria comunicação privada. Embora o movimento ainda envolva estudos sobre possíveis formas de privatização da empresa, foi um passo perigoso rumo à destruição da estatal. Neste sentido, trabalhadores que atuam nos setores da companhia vêm dialogar com a sociedade sobre sua natureza e importância.

Desde o seu nascimento, em 2007, a TV Brasil e a EBC são alvos de intensas campanhas negativas e, mais recentemente, pela sua privatização. Os argumentos vão desde um suposto déficit que a empresa daria ao governo até o valor gasto com salários e baixa audiência de seus veículos. Os trabalhadores vêm aqui trazer alguns esclarecimentos que esperamos sejam incluídos nas matérias, em geral com somente um lado.

A EBC foi criada a partir do que manda a Constituição Federal. O Artigo 223 da Carta Magna prevê a complementaridade dos sistemas público, privado e estatal. A Lei que criou a estatal (11.652, de 2008) regulamenta esta diretriz, criando a empresa. Assim, a EBC não foi um feito de um governo, mas a materialização tardia do que a Constituição já determinava desde sua promulgação, no fim dos anos 1980.

A comunicação pública não é uma invenção brasileira, mas, ao contrário, é realidade na grande maioria dos países do mundo. Enquanto alguns segmentos buscam atacar a existência deste serviço, outros países com democracias consolidadas (até mesmo de caráter bastante liberal) entendem e estimulam o papel da comunicação pública para atender ao direito à informação dos cidadãos, investir em conteúdos sem apelo comercial e pautar temas de interesse público. É o caso da BBC no Reino Unido, da RTP em Portugal, da NHK no Japão ou da PBS nos Estados Unidos.

A EBC não dá “prejuízo” ou “déficit”. Ela é uma empresa pública dependente, e não autossuficiente como Correios ou Banco do Brasil. Embora ela consiga arrecadar recursos com patrocínios e prestação de serviços, suas fontes de financiamento não servem e nunca servirão para torná-la autônoma, já que ela não deve se tornar refém do próprio mercado para garantir ainda mais sua autonomia. Assim como ministérios e universidades não dão “prejuízo”, a EBC (assim como outras estatais dependentes, como Embrapa) também não dá.

Este modelo de negócio não é inovação da EBC, ele ocorre no mundo inteiro. Só conseguem autonomia financeira empresas custeadas a partir de impostos, como a BBC do Reino Unido ou a RAI na Itália. Não é o caso do Brasil. Ao contrário, a EBC tem uma fonte de receita própria complementar (a Contribuição para o Fomento à Radiodifusão Pública), que, do total arrecadado, só foi reservado R$ 2,8 bilhões em todos os anos de contribuição à EBC, mesmo que quase nada tenha sido repassado à empresa (tanto por uma contenda judicial quanto por falta de vontade política dos governos).

Matérias na imprensa reproduzem o argumento do governo, afirmando que o orçamento de R$ 550 milhões por ano é “muito”. E ressaltam sempre valores gastos com salários. Não se mantém uma empresa que tem duas TVs, oito rádios, duas agências nacionais, produz conteúdo e presta serviços ao governo federal sem recursos. Tampouco se faz comunicação sem pessoas – que devem ser contratadas conforme prevê a legislação, e não fraudando a lei com contratações por pessoa jurídica (PJ). É o que a maioria das empresas de radiodifusão o fazem, como Band, Globo e SBT, o que levou a multas milionárias da Receita Federal e problemas graves na Justiça trabalhista. É de se esperar, naturalmente, que as empresas públicas cumpram, minimamente, a lei.

Colunistas e o próprio governo reclamam do “desempenho” da EBC e falam em melhoria e “otimização” por conta da audiência. Os veículos da EBC não foram criados para disputar audiência, embora devam buscar sempre esse alcance. A TV Brasil já chegou a ser a 7ª emissora nacional e é a única aberta com programação infantil de fato. Poderia ter avançado em marcas mais efetivas, mas a falta de investimento e prioridade política dificultaram o ganho de visibilidade da empresa.

Mesmo com a falta de apoio e desmonte recente, a Agência Brasil produz conteúdos gratuitos que abastecem milhares de grandes e pequenos veículos de comunicação. A Radioagência Nacional faz o mesmo com estações de rádio. A Rádio Nacional da Amazônia serve centenas de milhares de ouvintes nos rincões do país. Além disso, a empresa tem caráter educativo, com difusão de programas e reportagens para contribuir com a formação dos cidadãos.

O questionamento da privatização da EBC vai muito além de seus empregos – embora essa preocupação seja legítima, uma vez que estamos falando de famílias que são sustentadas por esses empregos em um país com mais de 14 milhões de desempregados. Mesmo assim, é necessário restabelecer informações diante de uma campanha de ataque e que esconde a relevância social da empresa. Se é fato que o governo atual vem aparelhando editorialmente e desmontando muitos programas e serviços, a saída não pode ser extinguir ou privatizar, mas sim corrigir os erros e dar a devida estrutura para que a empresa possa, de fato, cumprir sua missão constitucional de fazer comunicação pública.

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Crises do jornalismo? Um podcast

Em fevereiro, conversei com o jornalista Vitor Struck, da Folha de Londrina, sobre as crises que afetam o jornalismo. Foi para o podcast da casa, disponível aqui. Tem 26 minutos.

Jornalismo, pandemia e liberdade de imprensa: uma palestra

Participo daqui a pouco  – às 17 horas – da abertura do ano letivo 2021 no curso de Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) com a palestra Jornalismo, pandemia e liberdade de imprensa. Estarão comigo nesta atividade as professoras do curso Flora Daemon, Rejane Moreira e Ivana Barreto.

Vai ser por sistema de videoconferência com transmissão pelo canal do curso de Jornalismo no YouTube: aqui.

Minha prima astronauta e as coisas importantes da vida

Em janeiro de 2017, estávamos num café em Roma quando uma notícia no Corriere Della Sera me chamou a atenção. Era sobre os astronautas norte-americanos Mark e Scott Kelly, irmãos gêmeos, os únicos da história. Mas não foi esta curiosidade que gritou das páginas do jornal. Foi a abertura da matéria que era mais ou menos assim: Dizem que viajar muda as pessoas e, no caso de Scott Kelly, isso não é um exagero. Aí, a matéria dizia que Scott ficou quase um ano no espaço e seu irmão ficou na Terra, e estavam comparando os DNAs dos dois para ver mudanças cósmicas em suas constituições físicas. E perceberam várias…

Achei saborosa a história e isso ficou arquivado na minha mente em algum cubículo.

Quatro anos depois, por alguma razão insondável, li Endurance: Um Ano no Espaço, livro em que Scott Kelly narra sua aventura de 340 dias na Estação Espacial Internacional. É um relato delicioso, cheio de informações interessantes e de grande interesse humano e científico. Entre as muitas coisas que Scott conta está o fato de ter convivido uns três meses com a primeira astronauta italiana, Samatha Cristoforetti.

Isso mesmo! Samantha não sabe, mas é minha prima, embora nossos sobrenomes não sejam exatamente os mesmos. Nossos descendentes vêm da mesma região da Itália e ela sequer imagina que seja minha parente, mas isso pouco importa.

O que importa mesmo é que Samantha foi a primeira italiana a ir para o espaço, é uma recordista de tempo nas estrelas, e é muitíssimo respeitada na sua profissão e em outras áreas. Para se ter uma ideia, ela lançou um livro de memórias  recentemente – Diary of an Apprentice Astronaut – e todo o dinheiro das vendas vai para a Unicef, onde ela é um tipo de embaixadora. (Aliás, Scott Kelly tuitou outro dia que estava lendo o livro)

Não bastasse todas essas credenciais, Samantha foi o primeiro ser humano a fazer o primeiro café espresso no espaço, o que já reserva a ela um lugar destacado em nossos corações. É, sem dúvida, a pessoa na família que foi mais longe, não é mesmo?

Eu quis ler as memórias do astronauta Scott Kelly justamente no momento em que notícias davam conta de uma segunda onda de mortes por Covid-19 na Itália e novas altas aqui no Brasil e nos Estados Unidos. Quem sabe um sujeito que ficou confinado um ano no espaço não tem algo a me ensinar?, pensei.

Tem. Muita coisa. Diferente do esperado herói americano, ele se mostra um narrador gentil, humilde e empático. Um sujeito que valoriza as pequenas coisas que importam, como a amizade, a chuva, um bom livro, e tomar um café numa xícara. Com a gravidade da Terra, claro.

Os Beatles e os Reis Magos

No tempo em que morei na Espanha, nunca me perguntaram quem era o meu Beatle preferido. Mas Sevilha é uma cidade muito católica e uma colega quis saber quem era o meu Rei Mago favorito!

Vocês sabem, alguns países comemoram mesmo o Natal no dia 6 de janeiro, data em que teriam chegado Baltasar, Melquior e Gaspar ao estábulo do deus-menino. Os reis magos trouxeram presentes para Jesus e isso inaugurou a tradição que temos até hoje. Em Sevilha, as pessoas fazem jantares no dia 24 de dezembro, mas o melhor está reservado para o Dia de Reis, quando se abrem os pacotes coloridos.

Na véspera, costuma acontecer uma coisa sensacional, a Cavalgada dos Reis, que é um desfile de carros alegóricos e montarias, lotados de crianças e adultos, distribuindo balas nas ruas. É um carnaval. Todos ficam nas calçadas e quem desfila, vestido como reis magos, atira punhados de balas como se fossem confetes ou serpentinas. Todos retornam as suas casas com sacolas lotadas de doçuras e as ruas ficam pegajosas com as toneladas de caramelos que são repartidos…

A coisa é tão séria que celebridades vestem-se como os monarcas viajantes e chegam à cidade, representando um novo ano, novas esperanças e renovando a fé das pessoas. Te lembrou as representações teatrais da Paixão de Cristo no interior do Brasil? Pois é igual na comoção…

Neste ano, a pandemia adiou a Cabalgata de Los Reyes. Para evitar aglomerações. Mas os sevilhanos não ficarão sem ver os Reis Magos chegarem. A prefeitura vai colocá-los em balões que atravessarão a cidade a 300 metros de altura, e bastará que as pessoas fiquem nos seus quintais, terraços ou sacadas de prédio e olhem para o céu. Não é lá um Submarino Amarelo, mas não deixa de ser um belo transporte “para la ilusión”…