Poucas coisas me irritam tanto quanto receber ligações de telemarketing. Elas acontecem sempre quando você menos tem tempo a perder. Porque é isso mesmo: telemarketing é SEMPRE perda de tempo. Não conheço ninguém que tenha feito um bom negócio a partir de uma ligação dessas, ou que tenha se dado bem com isso.
Por essas e outras, nesses anos todos, reuni um bom número de desculpas, xingamentos e patadas a serem desferidas contra quem mais incomoda. Algumas – I must confess… – eu protagonizei; outras, ainda não. Mas quem sabe o leitor pode usar essas dicas de como (des)tratar os teleatendentes.
Sirva-se de fel…
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– Senhor Rogério, bom dia. Sou da Claro, e tenho uma ótima oportunidade para o senhor e…
– Peralá, mocinha! Quem te deu meu nome e meu número?
– Senhor Rogério, está na lista.
– Não está não, senhora. Onde a senhora conseguiu meu número e nome? Sabia que é ilegal comercializar dados das pessoas?
– Mas, senhor Rogério, eu tenho uma ótima oportunidade da Claro para o senhor, e…
– Não. A melhor oportunidade é mesmo não me ligar mais, ok? Obrigado.
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– Bom dia, senhor Rogério. Eu sou da Ranglewraehgsf & Co. – inaudível -, e para sua comodidade, esta ligação está sendo gravada, e…
– Peralá, mocinha! De onde você fala?
– De São Paulo, senhor Rogério!
– Eu perguntei o nome da sua empresa.
– Ah, senhor Rogério. Aqui é da Ranglewraehgsf & Co.- novamente, inaudível -, e para sua comodidade, esta ligação está sendo gravada, e…
– Peraí, moça! Quem te disse que eu quero que grave essa ligação? Nem sei com quem estou falando…
– Senhor Rogério, eu sou a jhfskffdhdf – ininteligível – da Ranglewraehgsf & Co., e …
Tum! Desliguei.
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– Boa noite, senhor Rogério. Sou da BRTurbo e tenho uma oportunidade imperdível para o senhor.
– Sei, mas como sabe o meu nome?
– Senhor Rogério, o senhor já foi nosso cliente e por isso temos o seu nome. E porque foi nosso cliente, temos uma oportunidade imperdível para o senhor.
– É verdade. Já fui cliente. Pode puxar aí no seu cadastro qual foi o motivo pelo qual deixei de ser seu cliente?
– Claro, senhor Rogério. Aguarde um minuto, pois sua ligação é muito importante para nós.
– Mas não fui eu que liguei, moça…
(Três minutos depois)
– Senhor Rogério…
– Oi…
– Senhor Rogério, temos em nossos registros que o senhor deixou de ser nosso cliente às 14h35 do dia 28 de março de 2003, e segundo consta o senhor estava insatisfeito com o tratamento dispensado pela empresa, e…
– Pois é, continuo com a mesma opinião.
Tum! Desliguei.
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– Boa tarde, senhor Ronaldo! Sou Cleivison, da Brasil Telecom, e hoje é seu dia de sorte, senhor Ronaldo…
Tum! Desliguei.
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– Boa tarde, senhor Rogério. Meu nome é Ana Maria, da Telefônica. Tenho uma importante oportunidade para o senhor, senhor Rogério.
– Sei…
– Hoje, pelos nossos registros, o senhor tem um celular pela TIM e o seu telefone fixo é pela Brasil Telecom, certo, senhor Ricardo?
– Como sabe disso, Ana Claudia?
– Meu nome não é Ana Claudia, senhor Ricardo. É Ana Maria.
– E o meu não é Ricardo, moça! Como sabe desses meus dados?
– Nossos registros, senhor. Temos tudo registrado aqui.
– Ah, ótimo! Então, registre mais uma coisinha: não me liga mais, tá?
Tum! Desliguei.
***
– Olá, bom dia! Por favor, eu gostaria de falar com o senhor Rogério Cosoletti…
– Quem?
– Senhor Rogério Cosoletti!
(Quase engasguei com a gargalhada, mas prendi a respiração)
– É ele.
– Senhor Rogério, sou da TSW-7, representante de vendas, e o senhor teria um minutinho para conhecer a minha proposta?
– Na verdade, estou de saída e…
– Pois, então, senhor Rogério, o senhor tem a possibilidade de pagar muito menos pelo seu telefone fixo. Hoje em dia, existem diversas oportunidades e tecnologias no mercado que podem baratear suas ligações nacionais e internacionais, e ainda o senhor pode economizar para viagens e presentes para sua família, correndo inclusive o risco de ganhar prêmios, e…
– Sei, moça, mas eu…
– … e concorrer ainda a prêmios pela loteria federal, tornando-se um milionário em pouquíssimo tempo. O senhor está interessado em ouvir a nossa proposta?
– Na verdade, nã…
– Pois, senhor Rogério Cosoletti, o senhor tem parentes em outras cidades?
– Si-sim.
– Telefona a eles com frequência?
– Na-não.
– Mas como, senhor Cosoletti. Família é muito importante. O senhor – certamente – não liga para seus parentes por questão de custo, mas seus problemas estão próximos de terminar com a TSW-7. Basta apenas aderir ao nosso plano HighFidelity e…
– Mas, moça, eu…
– Senhor, o senhor não acha importante se comunicar? Falar com seus parentes como bem quiser?
– Olha, eu…
– Pois senhor Cosoletti, vamos aderir ao plano HighFidelity e com isso, as suas ligações sairão quase de graça. Quanto o senhor paga por mês na conta telefônica?
– Olha, eu não vou dizer isso. Nem te conheço.
– Mas o senhor paga mais de cem reais ou menos?
– Moça, eu…
– Qual a faixa salarial do senhor?
– Moça, eu não vou di…
– O senhor tem casa própria ou alugada?
– Moça, eu…
– O senhor é assalariado ou autônomo?
– Moça…
– Senhor Cosoletti, eu…
– MOÇAAAAA!!! Qual a cor da sua calcinha?
– Ma-mas, senhor. O que é isso? Que coisa mais indiscreta!
– Indiscreto é ligar aqui pra casa, me encher o saco com nenhuma proposta, me perguntar quanto eu ganho e ainda errar o meu nome.
Tum! Desliguei.
***
– Boa noite. Meu nome é Luís Claudio e sou da Vesper. O senhor Rogério, por favor.
– Um minuto, por favor. Não desligue, pois a sua ligação é muito importante para o senhor Rogério.
Deixo o telefone na mesa, vou tomar banho, fazer a barba, assistir a um filme…