o blog da petrobras e os interesses desacomodados

Há milhões de anos, quando o maior dinossauro chegava à beira do lago para beber água, causava tremores, derrubava árvores, fazia fugir animais menores e trazia muita confusão para o local. Pelo menos por um curto período, ele mudava o panorama da região. Não era novidade nenhuma matar a sede por ali, mas a chegada do gigante causava desconforto geral.

Passado tanto tempo depois disso, a história se repete, e na blogosfera brasileira.

Desde o dia 2 de junho está na rede o Fatos e Dados, blog oficial da Petrobras. Isso equivale dizer que a maior empresa do país aderiu a alguns dos caminhos da web 2.0, aquela da participação, da colaboração, do compartilhamento de arquivos, de busca de maior transparência. Até aí, parece que não há nada demais, né?

Pois a Petrobras chega à blogosfera mais de uma década depois do surgimento dos blogs, e chega vestindo a indumentária do momento. Seu blog está hospedado no WordPress, gratuito, e não num sistema próprio de publicação. Seu visual aproveita um dos templates disponíveis, e não há nenhum acessório ou traquitana inovadora do ponto de vista tecnológico. Não importa. Um dinossauro é sempre um dinossauro, e embora esteja camuflado com texturas brandas, seu vigor e força são os de um gigante. O que significa dizer que o que importa no Fatos e Dados são o espírito e a motivação. O espírito é a quantidade de informações e notícias que uma empresa como a Petrobras gera a cada dia, e que interessa a milhões de pessoas. A motivação pode ser traduzida por uma “linha editorial” que se pretende ser mais transparente e aberta, divulgando dados e fatos, até mesmo antes da mídia tradicional.

E aí, o dinossauro começa a incomodar a fauna já estabelecida.

Vazamento ou transparência?

O fato é que o blog da Petrobras já criou gritaria entre alguns jornais e entidades ao divulgar não só comunicados oficiais, mas também perguntas e pedidos de informação de jornalistas. Com isso, provoca uma situação nova nas relações entre fontes e jornalistas no país, já que pode prejudicar investigações sigilosas, alertar concorrentes sobre matérias em andamento ou mesmo evidenciar que os veículos de comunicação distorcem ou corrompem algumas informações ao divulgá-las.

Folha de S.Paulo e O Globo se queixaram do que acusam ser um vazamento premeditado de informações, de forma a virar o jogo sobre a mídia. Carlos Castilho lembra que isso já se dá nos Estados Unidos, por exemplo, onde algumas fontes de informação têm seus próprios canais de difusão de dados. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) lançou nota, condenando a postura da Petrobras: “Ao agir dessa forma, a Petrobras inibe os meios de comunicação e os jornalistas que precisam verificar com a empresa informações de eventuais reportagens que serão veiculadas”. A Abraji pede uma revisão de política por parte da Petrobras.

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) também lançou documento oficial, criticando a “canhestra tentativa de intimidação” da estatal.

A Petrobras respondeu às críticas, lançando mão de conceitos e práticas do próprio jornalismo:

A noção de confidencialidade e sigilo, como a própria nota da ANJ registra, é um princípio que norteia a relação dos jornalistas com suas fontes (pessoas ou empresas, consultorias). O objetivo principal é preservar aqueles que passam informações aos jornalistas e que, por qualquer motivo, precisam ou querem se manter no anonimato. Mas não há compromisso semelhante de confidencialidade e sigilo da fonte para o jornalista, pois isso limitaria o próprio caráter público e aberto da informação.

Passos de gigante

Parte da blogosfera nacional convulsiona nos últimos dias com a novidade. Avelar fala do “desespero da mídia”, Túlio Viana ironiza dizendo que O Globo quer ter o monopólio das perguntas e das respostas. Azenha lista dez razões que explicariam porque jornais atacam o blog da Petrobras. Sergio Leo responde a Azenha e dá bons argumentos contra a ação do Fatos e Dados. Comentários abundam nesses e noutros blogs, e o estrago já é uma realidade.

A chegada da Petrobras à blogosfera é um movimento que transcende a opção de uma grande empresa por canais gratuitos e mais ágeis de informação. Trata-se de uma briga ruidosa e de contornos brutais. A Petrobras tem lucro superior a PIB de muitos países, é uma grande anunciante, uma expressiva financiadora de projetos. Seus interesses nem sempre coincidem com os do país ou com os de largos setores da sociedade. Afinal, é uma empresa colossal, de escala mundial e agressiva nos segmentos que opera. Grandes jornais como a Folha e O Globo – a exemplo de outros veículos – não querem ficar nas garras desse dinossauro. Mas o gigante já está à beira do lago, sua presença esbarra nos interesses comerciais da mídia, seu hálito incomoda.

O blog da Petrobras pode constranger, intimidar, acuar pequenos e grandes meios, jornalistas experientes e novatos. O blog da Petrobras não tem que se submeter aos preceitos da ética jornalística, já que seus produtores são assessores de comunicação, cujas condutas devem se orientar pelos interesses da empresa. Sei que essa discussão de uma ética distinta para os assessores causa arrepios em muita gente, e quero tratar disso numa outra ocasião. Mas o fato é que o blog da Petrobras expõe nervos infeccionados da relação mídia-fontes de informação.

Não estou convencido de que o blog da Petrobras seja um mal para o jornalismo. É mais um canal de informação, que pode ser confiável ou não, e que pode contornar a mídia para chegar ao público. Ao prescindir dos meios tradicionais, o blog contraria interesses de quem ainda quer manter uma comunicação de mão única, o monopólio das formas de informação. O blog da Petrobras não é um mal para o jornalismo, mas pode ser para alguns jornalistas. As coisas estão mudando muito rápido nos últimos tempos, e essa é mais um desafio para os jornalistas. O jornalismo mantém o seu compromisso de buscar a informação custe o que custar, colidindo com interesse da petrolífera ou não. Os jornalistas que não quiserem ficar sob a sombra do dinossauro precisarão ser ágeis, versáteis, inteligentes. Nem todos os dias pertecem ao predador…

16 comentários em “o blog da petrobras e os interesses desacomodados

  1. Acho que você apontou a grande questão. A imprensa não deveria estar brigando para ser a única a passar as informações para a sociedade – mesmo por que o monopólio já era. Deveria estar mostrando que é a mais confiável, apesar das diversas fontes de informação disponíveis por aí. O problema é que a discussão evidencia as fragilidades…

  2. Parabéns pela postagem, Rogério. Esperava uma análise do caso baseada em sua experiência como professor de Legislação e Ética, e não me decepcionei. Os autores do Blog da Petrobras não são santinhos, mas tampouco estão incorrendo em algo ilegal ou – na minha opinião – imoral.

    A pluralidade de canais de informação é sempre algo a se celebrar. Achei cínica a declaração de que a Petrobras “feriu a confidencialidade dos jornalistas”. Ué, não é a imprensa que sempre exige transparência? Agora quero só comparar as respostas da Petrobras com as das reportagens para ver se as informações são omitidas ou distorcidas.

  3. Rogério, estou de acordo contigo. O problema está na noção de “autoridade” do jornalismo no que diz respeito a divulgar informações. Como já dissemos outro dia, é preciso modernização/atualização do pensamento da categoria.

  4. Concordo com o professor!

    Vejo nessa iniciativa da petrobras um pioneirismo. São pioneiros em quebrar a relação de mediação dos jornalistas com as grandes empresas e o publico interessado. Dessa forma, a Petrbras, pode tambem, escapar das “versões-dos-fatos-através-da-construção-da-notícia”, quando na esmagadora maioria das vezes os fatos negativos e as acusações estampam as capas de jornais. E a defesa? o outro lado da versão? se resume em algumas linhas, quando não somente em informe publicitário, espaço pago.

    Estava representando o mestrado da Univali hoje de manhã? O que achou?

    Um abraço!

    1. Sim, Thiago, estave representando a coordenação do Mestrado em Educação naquela cerimônia. Sou vice, sabe como é…
      Obrigado pelo comentário. Abraço ao Hermes…

  5. Rogério,

    Sempre fico encantada com suas postagens. Lúcidas, pertinentes, direto ao cerne.
    Várias “caças” utilizam o ambiente para terem vantagens em relação ao “predador”. Acredito que está na hora da imprensa fazer as perguntas certas… Ambos os desdobramentos (respostas abertas ou evasivas) podem ser o início de ótimas reportagens.

    Um abraço,
    Anelise

  6. Ler o site da Petrobrás ou ler o Globo ou a revista Veja, cada um irá editar os fatos segundo SEU ponto de vista.

    É o que digo sempre aos meus alunos de jornalismo: vocês podem ler tudo, acreditar em quase nada. Acreditem apenas se investigarem os fatos, com muitas provas. Mediar é selecionar. A pergunta norteadora de uma boa leitura, portanto seria: a serviço de quem se presta esta informação. Não há mediação sem intenção.

    Brigar, gritar, espernear porque uma organização decidiu, embora tardiamente, ter o seu veiculo direto é prova de autoritarismo ou de onipotência.

    Lamento que alguns colegas se vejam assim dono do espaço publico. O que contradiz um passado de dar voz a quem não tem.

  7. Tudo o que se agiganta, torna-se lento, padece de controle, incomoda, entre outros atributos! Penso que atualmente não há estudantes nem jornalistas ingênuos, assim como políticos e empresários deixam isso logo que assumem seus cargos.
    Mas sugiro um olhar que combina a “vontade” de dizer tudo quando se quer, com uma outra possibilidade: a de “desviar o foco” e criar cenários diversos para representar uma peça teatral. Duvido que somente agora a Petrobrás tenha sentido a pressão da mídia, apesar desta às vezes ser tosca!
    Pressão de pior quilate advém da política, pois sempre sorrateira e com desejos insanos, especialmente em uma nação cuja maioria está desatenta.
    Apesar de gostar demais de novidades e de polêmicas, algumas cheiram a enxofre.
    O tamanho da Petrobrás deveria assustar os concorrentes e não a imprensa. Ao que parece, a empresa também movida por uma espécie de “susto” em relação à mídia resolveu “abrir-se”! Mas até quando meus caros!? Uma empresa que é utilizada politicamente a meu ver merece crédito mediante desconfiança!
    Ou alguém aí acredita que o governo utiliza esta etiqueta BR apenas pensando no Brasil! Há muita hipocrisia no ar, de ambos os lados, motivo pelo qual relembro o que disse Ribeiro no seu Sempre Alerta, quanto a diferença entre jornalismo, jornalista e empresa jornalística, algo geralmente confuso na cabeça e nas práticas de muitos, estejam eles na grande imprensa ou na grande empresa.
    /////
    @_@
    ~~~
    ET: e porque utilizar um ambiente free!? Sugiro checar a audiência e a tendência de rede social no wordpress!?

    1. Valeu, William, pelo comentário.
      Sim, Flavia. Porque não cheira bem é que a gente precisa abrir mais os olhos.
      abs e obrigado pela visita.

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