ciclo sobre ética jornalística na bahia

De Cachoeira, na Bahia, vem o convite para um evento que deveria acontecer em todos os cantos do país, dada a grande importância do tema…

O I Ciclo de Ética na Mídia da UFRB, ocorrerá na próxima quarta-feira, 10 de dezembro, a partir das 14h:30, no colégio Sacramentinas, em Cachoeira-Bahia. A proposta é que os convidados relatem aa suas experiências pessoais sobre a ética na área em que atuam. Portanto, o ciclo terá especialistas e jornalistas dos seguintes veículos de comunicação: TV, rádio, internet, impresso e publicidade.
O evento se justifica como o fórum adequado para que alunos e professores tenham uma visão mais ampla das questões éticas que envolvem, não apenas a mídia, mas também os consumidores dos conteúdos. Recentemente tivemos casos de cobertura midiática que estão sendo questionados nacionalmente e exatamente por isso convidamos profissionais que atuam nos veículos de comunicação de massa para debater os problemas éticos enfrentados nas coberturas de casos conflituosos como o de seqüestros (Caso Eloá) e de assassinatos (Caso
Isabela), que causam comoção devido à transmissão ao vivo do drama e relatos sem o cuidado para as questões éticas.
O QUE: I Ciclo de Ética na Mídia da UFRB
QUANDO: dia 10 de dezembro de 2008, a partir das 14h:30
LOCAL: Auditório do Colégio Sacramentinas, em Cachoeira
INFORMAÇÕES: (71) 81909547; (75) 81655792; (75) 91136064
INSCRIÇÕES: no local
ENTRADA: Franca

as coisas vão se normalizando

Este blog mudou bastante a sua rotina nas últimas três semanas.

Em 18 de novembro, eu deixava um post em que prometia “na medida do possível” contar aqui e no Twitter o que estava acontecendo de mais interessante no 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. Pois é, não deu. Em São Bernardo do Campo, tive diversos problemas de conexão, além da correria habitual desses eventos curtos em que a gente revê muitos amigos, quer acompanhar todos em suas programações e aí falta tempo até pro banho…

Voltei de São Paulo com a cabeça em Santa Catarina, afinal a chuvarada que iria se transformar num dilúvio já tinha começado. Relatos de casa davam conta de que as aulas haviam sido canceladas e que não havia previsão de tempo firme. Cheguei no sábado, 22, e no domingo aconteceu a enchente. Deixei minha casa por quatro dias e a vida online ficou mais à deriva ainda.

Só consegui consultar caixa postal, feeds e blog no dia 25, quando escrevi um longo post sobre as enchentes no estado. Primeiro de forma intuitiva, usei este espaço para organizar minhas idéias e meus sentimentos sobre aquilo que vivíamos. Depois, percebi que além disso, o blog serviria para avisar amigos da situação por aqui e para dar relatos deliberadamente impressionistas sobre o evento.

De forma surpreendente, as visitas a este espaço explodiram. Não que eu não saiba o quanto a tragédia tenha atraído a atenção e a curiosidade das pessoas. Mas não imaginava que um simples blog como este alcançasse a visibilidade que conseguiu nesses dias, chegando a um pico de 2146 visitas no dia 26 de novembro, um recorde para este espaço. Em média, temos 200 e poucas visitas diárias…

De lá pra cá, as coisas vêm se normalizando. A vida lá fora mostra isso, mas nossas estatísticas também, veja abaixo.

estatsss

A queda vertiginosa dos acessos aponta para o gradativo desinteresse das pessoas em ler sobre a tragédia catarinense, sobre o desastre que vitimou – pelo menos – 120 pessoas, desabrigando e desalojando outras 78 mil. Melhor assim. Que as pessoas retomem suas vidas, suas rotinas, seus cotidianos. Que Itajaí, Blumenau, Ilhota e outras atingidas passem a se reconstruir, a se reinventar, a se refazer.

Sim, é preciso ir adiante. Tenho dito com alguma insistência que é necessário continuar remando, pois ainda há rio. Que seja assim e que voltemos ao que sempre nos queixamos: a rotina.

monitor relata cobertura da mídia de sc sobre as enchentes

O Monitor de Mídia atualiza hoje seu site, colocando no ar a edição 145, a última deste ano. Os destaques são um relato sobre os meios de comunicação catarinense na cobertura sobre as cheias de novembro, e um amplo levantamento sobre as capas dos jornais brasileiros sobre a vitória de Barack Obama – que toma posse mês que vem.

monitor de mídia na final do prêmio caixa-unochapecó

O Monitor de Mídia concorre como um dos três finalistas do II Prêmio Caixa – Unochapecó de Jornalismo Ambiental. As acadêmicas Stephani L. Loppnow, Gabriela Forlin e Marina Fiamoncini são as autoras da webreportagem Qual o Futuro da Praia Brava? que questiona o processo de verticalização daquele paraíso ambiental.

O acadêmico Joel Minusculi assina as infografias na mesma reportagem.
O Monitor publicou a reportagem multimídia na edição de setembro passado. Veja aqui.

A revelação do primeiro colocado acontece na próxima quarta-feira, em Chapecó.
Dedos cruzados!

josenildo guerra lança importante livro para o jornalismo

Josenildo Luiz Guerra, professor da Universidade Federal de Sergipe, convida para lançamento de seu livro “O percurso interpretativo na produção da notícia: verdade e relevância como parâmetros de qualidade jornalística”.

O lançamento acontece amanhã, dia 4 de dezembro, às 18 horas, no hall da Reitoria a UFS, em Aracaju.

ATUALIZAÇÃO: Josenildo avisa que pedidos do livro podem ser feitos pelo email percurso.interpretativo@gmail.com

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enchentes em itajaí (14)

O medo voltou ontem à noite. Choveu forte em Itajaí por volta das 22 horas.

No Twitter, amigos de Florianópolis e Blumenau relatavam que também despencava o céu por aquelas cidades. A saraivada de 40 minutos deixou a todos em estado de alerta.

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Minha esposa chegou a monitorar o nível da enxurrada na nossa rua. Sileciosamente, passei a pensar num plano de fuga. Uma amiga ligou oferecendo pouso caso a água ameaçasse entrar.

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Diferente da semana passada, desta vez, senti medo. Um medo de que tudo se repetisse.

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Brinquei dizendo que estava traumatizado, e talvez seja alguma verdade. O fato é que não estou conseguindo muito me distanciar desses acontecimentos todos para fazer uma análise mais fria, mais objetiva. Admiro os colegas que estão formulando hipóteses sobre o uso dos microblogs nessa crise, os que estão avaliando o papel da mídia, etc… Eu, que estou acostumado a ler a mídia por dever profissional, confesso que estou com dificuldades tremendas de tecer juízos acerca disso.

Já disse aqui. Posso dizer que não fui afetado diretamente pelas cheias, já que meus prejuízos pessoais são ínfimos perto do estrago que vejo ao redor. Mas é uma confusão de sentimentos, um redemoinho selvagem, que gira na minha cabeça. Vi cenas muito tristes, comoventes mesmo. Mas meus olhos ainda estão secos. De forma dramática, já desejei que estivessem cegos. Besteira. É preciso ver para tentar entender.

O que nos faz demasiados humanos?

Esses dias que nos separam do fatídico domingo, 23, esmaecem um pouco as imagens. O que me fica muito presente ainda são impressões. Aliás, esses meus relatos aqui, são deliberadamente impressionistas. Testemunhais.

Ficam-me as impressões. Um cheiro de chorume que persiste na cidade. Um amarelo barrento que se tatuou nas paredes quando a água e o lodo baixaram. As montanhas – sem exagero – de móveis imprestáveis, descartados por quase todas as residências. O choro incontido das pessoas diante da TV, a perplexidade de todos, até os mais velhos.

Fica também uma pergunta: o que é que nos faz humanos, então? São as coisas que acumulamos? São as memórias e histórias que imprimimos nas coisas que guardamos? São nossos medos e os restos dos sonhos, levados pela enxurrada? Não sei. Sinceramente, não sei.

A solidariedade, a amizade, a doação, a dedicação ao outro também me deixam impressionado. Nunca vi uma corrente de ajuda tão forte, tão extensa, tão contagiante. As pessoas doam coisas, oferecem-se como voluntárias nos trabalhos de triagem e encaminhamento dos donativos. As pessoas ofertam suas próprias casas a desconhecidos. Comovem-se com um drama que chacoalhou com a vida de todos. Um amigo meu escreveu dizendo que talvez a solidariedade seja a mais nobre das nossas virtudes. Eu emendei afirmando que ela nos fazia mais humanos.

Nossa vulnerabilidade tornou-se nossa força. A certeza de que podemos perecer num estalar de dedos nos uniu. Damos as mãos, oferecemos ajuda, mas era preciso passar por tudo isso para compreender essa lição?

Boas notícias

Uma amiga ligou ontem, anunciando que o Sindicato dos Professores de Itajaí e região conseguiu uma verba junto a uma rede de solidariedade da CUT para dar assistência aos educadores atingidos pelas cheias. O montante foi obtido numa “vaquinha” feita por outros sindicatos, e o dinheiro será usado para a compra de cestas básicas e… livros! Sim, tem professor que perdeu tudo, inclusive seus materiais de trabalho. Conheço um que perdeu cerca de dois mil volumes, inclusive obras raras e fora de catálogo. Outro salvou apenas 40 livros de seus quase 800!

A iniciativa do Sinpro quer resgatar a dignidade dos colegas atingidos, cujas vidas foram arrastadas pelas chuvas. Para professores, livros não são um luxo, são seus instrumentos de trabalho, estão diretamente associados ao seu bom desempenho profissional.

(Nos próximos dias, o sindicato fará levantamento dos afetados e dará os principais encaminhamentos. Pedidos de ajuda podem ser feitos diretamente neste email)

Outra boa notícia é que a rede social virtual Arca de Noé, criada em apoio às vítimas das cheias, vai continuar trabalhando nas próximas semanas. A rede se constituiu numa forma alternativa de comunicação, tentando ligar desabrigados, voluntários e autoridades em torno do salvamento e atendimento aos flagelados.

enchentes em itajaí (13)

Atualizando os números da Defesa Civil:

Até agora são:

  • 114 mortos
  • 19 desaparecidos
  • 27410 desabrigados
  • 51297 desalojados
  • um milhão e meio de atingidos

enchentes em itajaí (11)

novosaite

A Defesa Civil criou um novo site para agregar as informações sobre as enchentes em Santa Catarina: http://www.desastre.sc.gov.br

Até agora são:

  • 110 mortos
  • 19 desaparecidos
  • 27410 desabrigados
  • 51297 desalojados
  • um milhão e meio de atingidos

virando a página

Ultrapassamos, hoje, as cem mil visitas a este blog.

Isso me surpreende e me alegra. Por isso, agradeço aos leitores que passam por aqui e aos que recomendam nossos links. Para brindar o momento, para afastar o baixo astral e para iniciar um outro ciclo, inauguramos um novo layout.

O tema usado a partir de agora é o Cutline, criado por Chris Pearson.

Como sempre, entre e fique à vontade.

enchentes em itajaí (10)

Passei a tarde de hoje no Centro de Eventos da Marejada, o pavilhão onde acontece a maior festa da cidade e onde se montou o centro de recebimento e distribuição de donativos. Havia centenas de pessoas por lá, separando alimentos, montando cestas básicas, dobrando e triando roupas. Voluntários, autoridades, militares das mais variadas patentes e corporações, anônimos e famosos da região, todos trabalhavam com rapidez, cadência e vontade.

A todo o momento chegam carretas lotadas, automóveis particulares, caminhões, gente a pé com sacolas. É muito alimento, muitas roupas de uso pessoal e de cama, muito material de higiene e limpeza. As doações vêm de diversas partes, num volume estrondoso e rápido.

No interior do imenso pavilhão da Marejada, senti um clima diferente dos anteriores. Não mais a tensão, a carranca, o semblante carregado das pessoas. Não mais a nuvem negra pairando sobre as cabeças. Senti um espírito cooperativo, vibrante, aglutinador. Percebi nos rostos das pessoas um brilho difuso, uma esperança agora incontida. Havia a generosidade de antes, mas uma energia mais positiva, mais voluntariosa, determinada a seguir e a ajudar.

Como escreveu o Joel Minusculi, é hora de recomeçar. Não é vontade de esquecer, de virar a página. Mas de ir adiante. Rogério Kreidlow, por exemplo, evoca a figura de um narrador para contar a sua própria vontade de contar o que se perdeu nessa tormenta toda. Um texto lindo e comovente.

Luto e luta

Andando pelas ruas da cidade, a impressão é uma só: aconteceu uma hecatombe por aqui. A quantidade de móveis destruídos descartados é inacreditável. Num mesmo quarteirão, quase todas as casas têm entulhos nas suas fachadas. O prefeito Volnei Morastoni, em entrevista à TV, deu um número assombroso: ele calcula que serão necessárias cerca de onze mil viagens de caminhão para recolher todoo entulho e lixo resultante das cheias. “A quantidade é tão grande que a cada quatro casas enchemos um caminhão”, completou.

A tristeza é grande. A desolação é tamanha, e o sentimento de abandono e perda são indescritíveis. Mesmo assim, tenho encontrado gente que prefere a luta ao luto. Sim, gente que tem uma coragem verdadeira e inquebrantável. Gente que te olha nos olhos e diz com convicção que a vida vai entrar nos trilhos, que as coisas vão se ajeitar, que os prejuízos foram muitos, mas mais importante é estar vivo. É arrepiante estar aqui e ver essas demonstrações inequívocas de força e alma.

A medida da água

No final de semana, foi tudo muito rápido. Em dez horas, tivemos a maior enchente da história de Santa Catarina, e uma das maiores catástrofes ambientais do país. Foi o nosso Katrina. Na manhã do domingo, por volta das 10 horas, minha esposa registrou a chegada das águas na esquina de casa, conforme se vê abaixo.

cheias_novembro2008_8

Quando a água chegou ao ponto mais alto, estava pela cintura. O lodo tomou tudo.

Ana Laux
Fotos: Ana Laux

A água só foi vazar mesmo na terça e na quarta. O que ficou tatuado no asfalto era um misto de lixo, de pedaços de móveis e objetos pessoais perdidos, de corpos de animais, de lama ressecada. A destruição deixada pela enxurrada foi apenas uma dimensão das cicatrizes que ficaram na memória e na vida de quem passou por tudo aquilo.

Sim, é hora de ir adiante. De se reerguer, sacudir os cabelos e olhar para a frente. A vida é mais.

enchentes em itajaí (9)

O Monitor de Mídia produziu no início deste ano um videozinho sobre as principais enchentes em Santa Catarina. Veja:

enchentes em itajaí (8)

Deu no New York Times:
http://www.nytimes.com/aponline/world/AP-LT-Brazil-Flooding.html?_r=1

enchentes em itajaí (6)

(*) Algumas fotos da enchente podem ser vistas no link abaixo:
http://gavetadoautor.wordpress.com/2008/11/27/aviso-gaveta-do-autor-sem-atualizacao-ate-dia-1o-de-dezembro

(*) Um blog para organizar informações sobre doações:
http://santacatarinaurgente.blogspot.com

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(*) Mais um blog para auxiliar:
http://arcadenoe.ning.com

(*) Bookmarks no Delicious:
http://delicious.com/tag/scurgente

enchentes em itajaí (5)

Retornei ontem à noite para casa. Foram mais de 80 horas de tensão permanente, apreensão, e sofrimento. Voltamos e enfrentamos a lama e a sujeira. Na segunda, barcos passavam na frente de casa, onde o nível da água chegou à minha cintura. Em casa, o lodo marcou 30 cm nas paredes. Foi pouco, muito pouco, perto do que vi pela cidade. Tenho amigos que perderam tudo, pois a água tomou as habitações por completo.

Foi tudo muito rápido. Muitos não acreditavam que seriam atingidos, já que suas casas tinham mais de um piso. Outros nem tiveram tempo para retirar seus carros ou móveis. Felizmente sobreviveram, mas outros não.

A enchente aconteceu no domingo, e conforme os dias iam passando, crescia a ansiedade para conferir o tamanho do estrago. Quem havia deixado sua casa queria logo voltar. No retorno, surpresa, perplexidade, tristeza, solidão. Desolação.

Sorte, azar, destino

Diante de tudo o que vi, diante de tudo o que vejo e leio, não consigo me desviar de um sentimento: fui poupado. Me sinto um afortunado por ter sobrevivido, por ter sido pouco atingido e por tantos amigos que me ligaram, me escreveram, enfim, ofertaram ajuda, conforto e solidariedade.

São quase cem mortos. Os números não estão consolidados. Teremos mais corpos, inevitavelmente. Nas ruas, já desde ontem, restos de móveis, entulho, e lixo se acumulam. Camas, portas, sofás, geladeiras, fogões, berços, guarda-roupas, pedaços de madeira, mesas, todos jogados. Não prestam mais. Em alguns pontos, muros inteiros caíram, trechos de rua cederam, placas e postes tombaram. As ruas estão marrons, com lama ressecada, sujeira e desordem.

Na segunda, o trânsito era caótico. Carros na contramão, semáforos sem funcionar, filas e impaciência. Enxurradas leitosas como café-com-leite. Na terça e na quarta, saques em vários pontos assustaram a todos. Parecia o caos, uma terra sem lei, uma falência completa da ordem. Hoje, decretaram toque de recolher, e após as 22 horas não se pode andar pela cidade sem justificativas. É uma tentativa de restabelecer a segurança, e resgatar a sorte.

Operação de guerra

Na segunda e terça, fiquei impressionado com o circo armado em Itajaí. Havia policiais civis, militares e federais atuando. Chegaram homens da Marinha e do Exército e alguns da Força de Segurança Nacional. Vi o Bope também nas ruas. Vi lanchas nas principais ruas, blindados e muitos caminhões camuflados, como as fardas dos militares. 23 helicópteros coalharam o céu.

No Centro de Eventos da Marejada, chegavam carretas e mais carretas com alimentos, roupas, colchões e cobertores. Cordões de voluntários desembarcavam as cargas fazendo as chegar nas pilhas no canto do imenso pavilhão. Havia um espírito impressionante de preocupação, de urgência, de querer ajudar. Mais impressionante é perceber como as pessoas estão se reerguendo. Nas ruas, ainda impera um silêncio tenso. As pessoas se olham nos olhos, se comunicam num instante, tornam-se cúmplices na desgraça.  Todos aqui têm uma história para contar sobre a tragédia. Todos. Isso é inesquecível, atordoantemente inesquecível.

Mas parece que a coragem dessa gente é maior que o pesadelo, que a devastação. Me arrepiei há pouco com isso, com a vontade sem fim de dar a volta por cima.

Tenho aprendido tanto nesses dias! Tenho visto tanta coisa, e pensado tanto na vida! Esta é uma experiência transformadora. O pesadelo ensina.

Esses são dias em que se envelhece anos.

enchentes em itajaí (4)

Reforçando:

enchentes em itajaí (3)

Uma boa notícia!

A sensação é de que, desde a manhã, os diversos atores envolvidos na operação de salvamento e atendimento aos flagelados pelas cheias estão falando a mesma língua. Defesa Civil, governos municipal, estadual e federal, e outras instituições – como a Univali – estão atuando de forma mais coordenada.

As doações estão sendo encaminhadas para o Centro de Eventos da Marejada. A Univali recebe e atende desabrigados, junto com outros 30 postos pela cidade. Na Univali, os voluntários chegam, fazem um cadastro e são encaminhados para as localidades mais necessitadas. Choveu muito rapidamente no meio da tarde, mas o sol retornou e o nível das águas nas ruas vai diminuindo, sempre dependendo da região. Ainda existem pontos onde há água e lama até o telhado das casas; noutras, nem parece que choveu.

Percebo uma esperança, mesmo que diminuta…

enchentes em itajaí (2)

Muito rapidamente:

(*) Já são 72 mortos, e os números ainda sobem. Ontem à noite, eram 53.

(*) São quase 54 mil desalojados e desabrigados, estatística que dobrou de ontem pra hoje.

(*) Parou de chover e as águas já estão num nível mais baixo.

(*) Um blog foi criado para reunir informações sobre os atingidos: http://www.desabrigadositajai.wordpress.com

A situação na cidade parece, aparentemente, melhorar. No centro, próximo à rotatória da rua Joca Machado Brandão, ontem tomada pelas águas e lama, já havia trânsito agora há pouco. Já se podia ver o asfalto. Saiu o sol pela manhã toda e parte da tarde. Isso fez com que o espírito da cidade ficasse mais aliviado, mais desperto, mais reativo.

enchente em itajaí

Sou um dos mais de 20 mil desalojados nas enchentes que assolam o Vale do Itajaí, em Santa Catarina, neste final de novembro. É um drama, mas não é um drama isolado. Estimativas dão conta de que 1,5 milhão de pessoas tenham sido afetadas pelas fortes e constantes chuvas. São mais de 44 mil pessoas – até o momento – que estão desabrigadas ou desalojadas. Existe uma diferença entre uma coisa e outra: desabrigado é quem não tem onde ficar e vai para abrigos improvisados ou organizados pela Defesa Civil e órgãos de atendimento. Desalojado é quem está em casa de amigos, vizinhos, parentes, como é o meu caso.

Cerca de 80% da cidade de Itajaí está sob as águas, e todas as classes sociais estão atingidas. Dos miseráveis aos ricaços, ninguém foi poupado. Mesmo quem não foi diretamente atingido está sofrendo as conseqüências: veja o caso dos meus amigos Isaías e Raquel, que acolheram a minha família e mais outras duas em seu apartamento. A cidade deve sofrer nas próximas horas com falta de água, alimentos, combustíveis… Boa parte da cidade, metade dela, está sem energia elétrica.

Os gestos

É um lugar comum, um clichê desgastado, mas tem uma verdade incontornável: em momentos trágicos como este, nos surpreendemos com os gestos de solidariedade, amizade, fraternidade das pessoas. Das pequenas às grandes demonstrações: é o empresário carioca que disponibiliza caminhões da sua empresa para distribuir água; é o caminhoneiro anônimo que oferece carona a desconhecidos para atravessar um trecho alagado; são os amigos que se ligam para ter informações; são as pessoas que – mesmo atingidas – se colocam como voluntários para atender os outros.

Deixei minha casa, e depois conferi que cerca de 30 ou 40 cm de água havia invadido o local. Não pude permanecer lá. Saí no domingo de manhã, antes mesmo da água chegar. Fui com mulher e filho para um local seguro, e em seguida, fomos auxiliar no Colégio Dom Bosco, onde centenas de pessoas chegavam molhadas, com frio, com fome, e sem nenhuma esperança. Perderam tudo. Distribuindo roupas para as pessoas, eu via nos olhos delas um misto de vergonha, de desalento, de perplexidade. Um sofrimento intenso, difícil de escrever aqui.

Ontem, à noite, quando fomos à Univali para ajudar mais sofrimento e dor. Desespero e medo.

Tensão

No domingo à noite, passamos pelo Supermercado Angeloni e havia um clima silencioso de grande tensão, de comunhão pelo medo. As águas não paravam de subir e a maré cheia se aproximava. Depois, soube que o Angeloni – ao menos o seu estacionamento – ficou todo tomado pela água barrenta.

É manhã de terça, e os mortos já são 65. Temo que os números disparem assim que o nível da lama baixe e que a Defesa Civil, Bombeiros e Polícia possam chegar aos locais onde houve deslizamentos e quedas de barreira.

Conversei com vários moradores mais antigos da cidade, e que já passaram pelas famigeradas enchentes de 1983 e 1984. Eles me disseram que os dias que vivemos aqui são piores, bem piores. A cidade cresceu muito desde então. A área impermeabilizada aumentou, assim como a quantidade de lixo produzido também. Tudo isso associado às condições atmosféricas fizeram com que um cenário de guerra se descortinasse por aqui.

O caos

Alguém aqui lembrou um livro. Outro alguém, um filme. Acho que os dois exemplos dão uma noção do que estamos passando por aqui. O livro: Ensaio sobre a cegueira. O filme: Guerra dos Mundos. Nos dois, o panorama é de abandono, destruição, hordas de famintos e flagelados; desespero e o inevitável sentimento de perda. Imagens podem ser vistas no blog do meu amigo Robson Souza (http://luzeestilo.wordpress.com), e informações bem atualizadas no blog do Juliano Flor, acadêmico de Jornalismo (http://visaoextra.blogspot.com).

Demorei a postar algo aqui por diversos motivos: viajei a São Bernardo do Campo para o 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo na quarta 19 e só voltei no sábado, 21. No domingo, tudo aconteceu, e fiquei fora de órbita. Na verdade, ainda estamos fora de ordem.

A dor e o sofrimento não vão parar

Assim que as águas baixarem, projeto eu, entraremos em outra fase desse calvário: o de contabilizar os danos, limpar a destruição e passar a reconstruir a vida. Nada será como antes, e isso não é um pessimismo à toa. Quem passa por isso aqui não esquece. Nunca. Então, a vida está andando de lado, está suspensa. Não há aulas. Não há compromissos. Não há agenda a ser cumprida. Não há vida normal. Só existe o essencial: sobreviver.

Por isso, as imagens evocadas pelos meus amigos do livro e do filme não largam a minha cabeça. Calculo que não chegaremos a um nível tal de degradação como o relatado por José Saramago, em seu lindíssimo livro. Também acho que a destruição não será como a protagonizada por Tom Cruise nos cinemas. Mas a mobilização das pessoas, a interrupção brusca do ritmo da existência e a perplexidade com a nossa fragilidade e vulnerabilidade são os mesmos.

Estou bem. Minha família também. Os amigos idem. Aliás, graças à amizade, à generosidade, à imensa capacidade de doação de alguns, muito estão sobrevivendo.

encontro de pesquisadores em jornalismo começa amanhã

sbpjor

Tem início amanhã à noite em São Bernardo do Campo a 6ª edição do Encontro Nacional de Pesquisadores de Jornalismo, evento que deve reunir cerca de 300 participantes de todas as regiões e alguns estrangeiros. A iniciativa é da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) em parceria com a Universidade Metodista, e apoio do CNPq, Capes e Fapesc. O Santander patrocina.

O site do evento é o http://www.sbpjor.org.br/6sbpjor

A seqüência de apresentação dos trabalhos pode ser acessada aqui.

Embarco pela manhã para São Paulo e sigo direto para o ABC. No evento, vou coordenar uma mesa sobre Qualidade da Informação Jornalística, junto com meus colegas da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi), vou frequentar outras reuniões, lançar dois livros – veja no lado direito desta página -, fazer contatos e rever amigos. Na medida do possível, quero postar novidades aqui e também no Twitter.

marques de melo vai liderar revisão de diretrizes curriculares dos cursos de jornalismo no brasil

O Ministério da Educação anunciou hoje que o professor José Marques de Melo vai presidir a comissão que reformará as novas diretrizes curriculares dos cursos de Jornalismo. Segundo a assessoria de comunicação do MEC, o convite para a empreitada teria partido do próprio ministro Fernando Haddad, a exemplo do que fez com Adib Jatene com os cursos de Medicina.

Conforme ainda o MEC, Marques de Melo terá carta branca para constituir a comissão que reavaliará as diretrizes curriculares do Jornalismo, cujo período de trabalho será de 90 dias. Concluída a missão, um parecer deve seguir para o Conselho Nacional de Educação, órgão que irá bater o martelo para o documento.

Marques de Melo é o nome mais indicado para presidir a comissão, já que é o nome mais representativo da Comunicação no país. É autor renomado, tem fácil trânsito entre as entidades da área, é reconhecido por seus pares, tem articulação nacional e internacional, e trabalha muito.

A revisão das diretrizes é um pedido antigo de pesquisadores e professores da área, já que o documento é um exemplo completo de esquizofrenia. As diretrizes sinalizam competências e habilidades que egressos dos cursos de comunicação – e suas muitas habilitações – devem ter. Mas a leitura do documento e dos perfis esperados angustia o leitor que enxerga facinho a distância entre cineastas e jornalistas, entre publicitários e editores, entre relações públicas e radialistas, todos cobertos pelas mesmas diretrizes curriculares.

A revisão do documento, portanto, é muito bem vinda. Marques de Melo e sua equipe terão bastante trabalho pela frente, mas é preciso vencer os medos, as resistências, os ranços.

chamada de textos: ciência, tecnologia e sociedade

A Revista Brasileira de Ciência, Tecnologia e Sociedade lançou a chamada de artigos e resenhas para sua primeira edição. A publicação, em versão exclusivamente eletrônica, está ligada ao Grupo de Pesquisa Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) do Departamento de Ciência de Informação e Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade Federal de São Carlos. Saiba mais sobre o programa em http://www.ppgcts.ufscar.br/

A revista possui orientação pluralista e publica trabalhos que apresentem contribuições originais, teóricas ou empíricas, relacionadas à área CTS. Seu endereço é http://www.revistabrasileiradects.ufscar.br

Os trabalhos serão recebidos por via eletrônica até 2 de março de 2009. Os autores poderão acompanhar o progresso de sua submissão através do sistema eletrônico da revista.

lançamentos para ficar de olho

Juntei um punhado de títulos de livros que estão chegando às livrarias e que merecem a maior atenção para quem estuda, pesquisa ou se interessa por jornalismo.

Demétrio Soster, Angela Fellipi e Fabiana Piccinin organizaram “Edição de imagens em jornalismo”, segundo livro que aborda o tema – sempre raro – da edição na área.

edicao_soster

Luciene Tófoli faz uma oportuna e bem-vinda reflexão acerca do novo Código de Ética dos jornalistas brasileiros em “Ética no Jornalismo”. O livro se insere numa coleção da Editora Vozes sobre ética das profissões.

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Mauri König é um dos jornalistas brasileiros mais premiados nacional e internacionalmente. Atuando fora do eixo Rio-São Paulo, Mauri vem fazendo um trabalho excepcional no Paraná. Em “Narrativas de um correspondente de rua”, ele reúne algumas das reportagens que lhe renderam prêmios e homenagens. Contundente!

mauri

Roseméri Laurindo adaptou sua tese de doutorado, resultando em “Jornalismo em três dimensões: singular, particular e universal”, onde discute a autoria no jornalismo e retoma a teoria do jornalismo de Adelmo Genro Filho.

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Eduardo Meditsch e Valci Zuculoto organizam o segundo volume de “Teorias do Rádio”, onde convocam os principais pesquisadores do meio no país para revisitar textos seminais da área e refletir sobre eles em perspectiva.

teorias_do_radio

aprovados na seleção do mestrado em educação

O Programa de Mestrado Acadêmico em Educação da Univali anunciou os candidatos aprovados para compor a Turma 2009.

Veja a lista: selecionados_2009

A Coordenação do PMAE informa que os candidatos não selecionados podem se inscrever como alunos especiais para o próximo semestre. Para este procedimento, informações já estarão disponíveis em dezembro.

Uma nova seleção para mestrandos no programa acontece em maio, para ingresso no segundo semestre.

observatório publica especial sobre 20 anos de constituição

Arte de Henrique Costa para o Observatório do Direito à Comunicação
Arte de Henrique Costa para o Observatório do Direito à Comunicação

O Observatório do Direito à Comunicação acaba de publicar um (ótimo) especial sobre os 20 anos da Constituição Federal e a mídia nacional. Compõem o dossiê textos de Mariana Martins, Henrique Costa, Jonas Valente e Cristiana Charão. Os temas vão da concentração na propriedade dos meios à tensão entre público e privado, passando também pelas concessões de radiodifusão, liberdade de expressão e produção de conteúdos com identidades locais e nacionais.

Não é novidade alguma dizer que esse Observatório realiza um trabalho importantíssimo para a sociedade na medida em que reflete criticamente as relações entre comunicação e sociedade. Desta vez, com este dossiê, mais um material de referência é oferecido.

pesquisa: jornalistas “mais estudados” ganham mais

Deu no Portal Imprensa

(A matéria no site da Fenaj – mais completa – pode ser lida aqui)

A FENAJ concluiu, em outubro de 2008, a etapa nacional de um estudo qualitativo sobre as condições de trabalho dos jornalistas da América Latina e Caribe. Os números expostos pela pesquisa revelam que a maioria dos profissionais atua na área urbana e que há um equilíbrio de gênero nas vagas ocupadas pelo setor e que a escolaridade interfere diretamente nos ganhos salariais. O levantamento também mostra que a violação dos direitos trabalhistas está entre as maiores preocupações dos profissionais. A realização do estudo é de competência da Federação Internacional dos Jornalistas, em parceria com a ONG norte-americana Centro de Solidariedade.

No Brasil, o levantamento foi coordenado pelo Departamento de Mobilização, Negociação Salarial e Direito Autoral da FENAJ. Segundo o diretor do órgão, José Carlos Torves, a amostragem escolhida levou em conta profissionais presentes ao 33º Congresso Nacional de Jornalistas, segundo informa a Federação.

Na divisão entre gêneros, a pesquisa aponta igualdade entre homens e mulheres no quadro de profissionais da categoria, 50,8% e 49,2%, respectivamente. Outro dado fornecido pelo estudo revela que nas redações a faixa etária dos jornalistas fica, em média, entre os 41 e 55 anos.

A pesquisa mostra também que o aumento da remuneração dos profissionais está diretamente relacionado ao nível escolar apresentado. Nos que possuem mestrado e doutorado, os quais somam mais de 12%, os salários giram entre mil a cinco mil dólares.

Com relação às questões trabalhistas, a falta de vínculos empregatícios, o não comprometimento entre empresa e funcionário nas datas e salários fixados e a morosidade no cumprimento de obrigações sociais são pontos mais abordados pelos profissionais do setor.

gaveta do autor, atualizada a edição

Acesse: http://www.gavetadoautor.com

gavvvvvvv

rápido e rasteiro: 4 links sobre jornalismo e cibercultura

Tentando tirar umas teias de aranha que se acumularam de sábado pra cá neste blog, mando ver com uns links represados em meu RSS:

eliane elias, em doses generosas

eliane_elias

Porque hoje é sábado – como diria Vinicius -, quero oferecer refresco.
Para quem gosta de jazz, para quem gosta de talento duplo – voz e dedos afinados -, para quem gosta de música brasileira: Eliane Elias.

Running

Águas de Março

Call me

Samba triste