Jay-Z e Alicia Keys fazem uma ode à Big Apple, e New York se oferece num retrato bem recortado, caprichosamente emoldurado e cool.
Sabe, São Paulo merecia algo parecido…
ATUALIZAÇÃO-RELÂMPAGO:
Mal postei o clipe acima, e o conectado António Granado me informa que lá em Portugal já circula com muito sucesso uma paródia da canção de Jay-Z. Trata-se de Diana Piedade e Rui Unas contando suas desventuras na Margem Sul. Ironia, Ritmo e Poesia.
Aos seis anos, eu não sabia nada de nada. Mais de trinta anos depois, a coisa continua na mesma.
Mas não desanimem: novas gerações chegam para salvar o mundo e converter a humanidade numa nota de rodapé relevante no Grande Livro da Vida no Universo. Meu filho, por exemplo, nem completou seis anos e já sabe o que quer. Quando crescer, vai ser “desenhor”. Isso mesmo! Ela vai desenhar, criar personagens novos, colorir o mundo, apagar as coisas ruins, e por aí vai.
Você duvida?
Veja só o que o moleque já apronta com uma folha amassada e um punhado de canetinhas quase-sem-tinta, toquinhos de giz de cera e canetas esferográficas…
Existem livros que trazem consigo muito mais histórias que suas páginas contam. A trama, os personagens, as ações estão ali, mas o próprio-livro-como-coisa às vezes escreve narrativas a respeito de si mesmo.
Ontem, me deparei com um desses casos. Soube pelo Twitter que o André Lemos estava lançando o seu “Caderno de viagem: Comunicação, Lugares e Tecnologias”, um e-book gratuito sobre seu tempo de pós-doutoramento no Canadá. Fiquei curioso, baixei e depois me pus a olhar as mais de 300 páginas com um misto de curiosidade e encantamento. Quando percebi, já estava lendo, e devorando as páginas curtinhas, caprichadamente editadas para serem lidas com bastante conforto na própria tela do computador.
Lançado em vários formatos – inclusive para kindle e outros leitores digitais, com opção de impressão em papel -, o livro é interessantíssimo. Híbrido de diário de bordo, álbum de fotos inusitadas, e compilação de insights conceituais, “Caderno de Viagem” é atraente até mesmo para quem não quer saber do Canadá, não se interessa por traquitanas tecnológicas ou por quem sequer imagine quem é o seu autor. O livro interessa pois traça um mapa que reúne ideias muitíssimo importantes para todos nós, humanos: comunicação, cidades e caminhos.
Por isso e por outras razões, a gente consome o livro sem parar, em poucas horas. Seja motivado pelos mapas que o próprio André desenha de suas caminhadas pelas ruas de várias cidades; seja pelo que se pode imaginar desse narrador no momento de suas ações.
Produzido em meio a um ano sabático, o livro é um belo exemplo de como ciência e sensibilidade, narrativa agradável e pesquisa social, tecnologia e geografia se encontram. Aliás, não é que cairia bem se os editores lançassem uma versão em audiobook? É que aí, o “leitor” baixaria em seu IPod, e – caminhando – ouviria as páginas de André, tendo uma espécie de companheiro na jornada…
Como eu disse, o livro foi concebido num período sabático, aquele tempo em que artistas e intelectuais deveriam se devotar um tempo maior para maturar ideias e projetos, enfim, uma puxada de freio no campo das ideias e emoções. Que nada! Como o próprio André conta no livro, de sabático, o período não teve nada. Foi um tempo de muito trabalho, de muita produção, de muito empenho. O “Caderno de viagem”, que ele agora nos oferece, é apenas um dos muitos frutos desse ano no Canadá; desse período fértil, vieram artigos acadêmicos, palestras, capítulos de livros, comunicações científicas e até mesmo um filho…
Enfim, como eu disse no início, existem livros que têm suas próprias histórias. “Caderno de viagem” é um desses generosos casos…
***
Mas a vida nos atropela mesmo. E os livros com ela. Semana passada, encontrei em minha página no Facebook um recado inusitado de uma total desconhecida. Ela me contava que escrevia de Campinas (SP), onde havia ganho um livro com uma assinatura minha, seguido de uma data e uma localidade: 05 de outubro de 1992, Bauru.
A moça ficou curiosa diante do fato de que o livro continha outras marcas. Carimbos de um sebo de Itajaí (SC), mas o volume havia sido comprado em Ribeirão Preto (SP) por um amigo que a presenteara. A moça deve ter pensado: como esse livro veio parar aqui e quem é esse cara da assinatura? Entrou na internet e acabou me encontrando lá no Facebook (e em lugares não comentáveis aqui…).
O livro andou. Por caminhos que sabe-se lá quem determinou…
Este é mais um exemplo de como livros e percursos nos interessam, nos chamam a atenção. A ponto de a história que acabei de escrever ser até mais interessante que o próprio livro em questão. (A propósito, era um exemplar de “Comunicação em prosa moderna”, do Othon Garcia)
Olho de carneiro cozido. Miolos de bezerro marinados. Testículos de boi assados. Gafanhotos crocantes. Pâncreas tenros de cabrito. Assado de arraias. Cabeças fritas de sardinha… e o menu é quase infinito.
Andrew Zimmern é um autêntico estômago de avestruz… Este nova-iorquino careca, de olhos vibrantes e sorriso fácil é praticamente um sparring da gastronomia. Diferente de outros personagens da TV, ele não prova apenas os pratos chiques e altamente saborosos. Zimmern enfrenta as comidas mais esquisitas do planeta no lugar onde elas são devoradas com o maior prazer.
Se você não conhece a figura, pode vê-lo na TV a cabo no programa Comidas Exóticas, no Discovery Travel & Living. Originalmente, a atração tem o título Bizarre Foods, que dispensa tradução. E Andrew Zimmern faz tudo sem medo, sem frescuras, sem cerimônia. E o mais importante: sem dublê! No Marrocos, ele se senta com os populares para devorar em praça pública uma iguaria local, os miolos de bezerro. Prova, e se delicia. Nos Andes, come larvas e carne de cabrito. Mastiga lentamente e descreve como é a textura da carne, os sabores e… odores!
Andrew não é um exibicionista nem irresponsável. Ele se serve de pratos altamente exóticos, esquisitos, de aparência duvidosa para mostrar que a gastronomia, a culinária, a imaginação e o estômago humanos não têm limites. Andrew é um desbravador; ele está constantemente alargando as fronteiras da curiosidade de quem senta à mesa. Andrew é ousado, e se diverte muito fazendo o que faz. Ele realmente gosta dessas comidas excêntricas. Na Espanha, serviram um leitão à pururuca pra ele. Você acha que ele atacou o lombo ou as partes mais tenras do porquinho? Que nada! Ele se atracou com a cabeça do bicho, delicadamente separando com o garfo o que era carne dos ossos e cartilagens…
Ah, esse Andrew é o cara! Isso sim é programa de Gastronomia… Desculpaí, Nigela…
Quer saber mais desse cara? Vá ao blog dele, mas fique com um saquinho de vômito por perto…
A cidade dos meus sonhos, a cidade que me fez perder o sono, a cidade que hoje me embala as noites faz hoje 284 anos. Florianópolis é ilha e é continente; é capital e é refúgio; é um recanto de liberdade e traz no nome uma homenagem a um presidente tirânico. Já foi Nossa Senhora do Desterro e ainda hoje é asilo, é exílio, é degredo, é desterro, é oásis.
Passados mais de 103 mil dias de seu surgimento no mapa, a cidade faz e se refaz. Todos os dias.
São muitas as histórias que cercam a origem da palavras “jazz”. São muitas as lendas que tentam traduzir a palavra “blues”. Numa delas, uma mulher conta que, ao retornar da igreja, numa manhã de domingo, deitou-se na cama e olhou para o teto com um sentimento tão profundo, uma tristeza tão atroz, e este era um sentimento tão blue… O blues virou lamento, virou ruminação, choro contido… O jazz é um gênero que se destaca dos demais pelo improviso e por uma escala musical de DNA negro. Diferente da escala europeia, a matriz do jazz tem uma blue note, uma nota blue.
Como o samba, o jazz e o blues não são apenas sofrimento e tristeza. Mas como no ritmo dos morros, a música dos pântanos, dos bairros negros, do algodoal e das planícies inundáveis tem lá as suas tragédias, as pequenas-grandes tragédias do cotidiano. Sem querer, esbarrei numa delas esta semana. Numa livraria de aeroporto, encontrei “Buddy Bolden’s Blues”, de Michael Ondaatje. O livro estava numa pilha de títulos vendidos a R$ 8,90. Subtexto: não valia muita coisa. Não tanto pelo preço, mas pelo que li na orelha, trouxe o volume comigo, e o devorei em dois dias.
Além de ser assinado por um importante autor – “O paciente inglês” é sua obra mais famosa -, “Buddy Bolden’s Blues conta a história de uma das raízes do jazz, o cornetista negro que imprime seu nome na capa. Mas o livro não é uma biografia, é um romance. Não é apenas ficção, é da linhagem de livros que ignora as fronteiras entre o real e o imaginado, entre o lembrado e o inventado.
Buddy Bolden é uma lenda por vários motivos: tocava seu cornetim de uma maneira tão diferente que ajudou a inventar uma nova música; era talentosíssimo, e nunca gravou; trabalhava como barbeiro durante o dia e tocava em boates à noite; enlouqueceu aos 31 anos e tentou resgatar sua sanidade até os 55, quando deixou-se morrer no sanatório; pouco ou quase nada se sabe dele, e apenas uma foto esmaecida e desfocada testemunha a sua real existência.
Ondaatje se vale dessa espessa zona de incerteza para construir-reconstruir-criar a história de um dos fundadores do jazz. E, claro, com ele, mergulhamos nas ruas insalubres de New Orleans, na virada do século 19 para o 20. Os bairros manchados pelos crimes e pelas contravenções, as hordas de prostitutas, traficantes e personagens que beiram a esquisitice. O ambiente moralmente fronteiriço. A vida difícil, a pobreza material e a riqueza espiritual dos anônimos que ajudam a fundar uma nova página na arte e na expressão humanas.
A tragédia de Buddy Bolden soa como um blues. Há sonho, há amor, há sexo e loucura. O sopro no bocal do instrumento, o coração pulsante, um indisfarçável sentimento de estrangeiridade no mundo. O romance de Ondaatje é tocante e não é preciso gostar de jazz. É bem escrito, bem pesado, e funciona como o dardo cuspido por uma zarabatana: vai direto ao alvo. Zarabatana ou cornetim, tanto faz.
Wynton Marsalis, o mais talentoso trompetista de jazz desde Miles Davis, nasceu em New Orleans, a Meca do jazz. Reverente à tradição de seu gênero e ramo mais evidente de uma árvore jazzneológica, Marsalis mostra “Buddy Bolden’s Blues”, música também conhecida como “Funky Butt”. Feche os olhos e abra os ouvidos.
Em novembro de 20o8, cidades do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, sofriam com enchentes, talvez as maiores da história naquela região. Chovia há dias sem parar e o solo encharcado não absorvia mais nada. A oscilação das marés impedia a vazão dos rios. A ocupação desordenada de morros e encostas e a impermeabilização dos terrenos foram outros componentes que ajudaram a produzir uma catástrofe que matou 135 pessoas.
Em Blumenau, um punhado de jornalistas, blogueiros e cidadãos comuns criaram o Alles Blau, um blog que conectou a cidade ao mundo, noticiando o que acontecia por lá quando os veículos convencionais de informação convulsionavam. Em Itajaí, um homem articulado e com um poder incrível de aglutinação criou uma rede social na internet que tinha como objetivo não apenas difundir informações, mas mobilizar a sociedade local para criar um efetivo sistema de defesa civil. O idealizador desta iniciativa é Raciel Gonçalves Jr., que tem um largo histórico de trabalho voluntário e de atuação em órgãos do poder público. A rede social era a Arca de Noé, evidente metáfora para um ponto de salvação diante de um dilúvio como o que testemunhávamos.
Desde o início, Raciel foi incansável: motivador, incentivador, concentrado e agregador. Criou para si um avatar, O Capitão, que moderava a rede, que a expandia e que convidava a tantos para não só subir ao convés, mas para integrar também a cabine de comando. Foi um belo trabalho!
Acabo de saber que O Capitão se demitiu. Não por cansaço ou por frustração. Mas porque uma rede social precisa ser descentralizada, precisa ter muitos nós operantes e planejantes, e porque o Raciel está assumindo novos desafios. A Arca de Noé está sem comandante, mas não está à deriva. Há muita gente por lá ainda e a força e a capacidade de trabalho e engajamento deles não há de fazer a arca parar. Modestamente, estive no convés algumas vezes, mas minha volta a Florianópolis naturalmente me afastou de Itajaí. Eu ainda sigo a Arca de Noé, sigo amigos e colegas em seus blogs e sites, e ainda tenho raízes na cidade-peixeira. Não poderia deixar de registrar minha admiração pelo trabalho de Raciel – a quem sequer conheço pessoalmente! – e não poderia deixar de torcer pela Arca. Que ela encontre um mar calmo, bons ventos e muitos entardeceres maravilhosos!
O cartunista Glauco e seu filho foram mortos noite passada em Osasco. Teria sido uma tentativa de sequestro, segundo os primeiros relatos. Que lugar é este onde se atira em dramaturgo, onde se mata cartunista, onde se trucida crianças?
Quando assassinam um cara que nos faz sorrir ficamos todos mais tristes. Não há humor que resista.
Acompanho o Glauco há mais de vinte anos. Conheço Geraldão há tempos. Já vi milhares de vezes as tetas empinadas de Dona Marta. Me intriguei como aquele traço apressado, disforme e relaxado poderia ser tão sintético nas piadas… Fui fã (sou fã) de Glauco nos tempos de Los Três Amigos, uma bem sucedida joint-venture que também envolveu o Laerte e o Angeli. Glauco, era notório, tinha o traço mais primário dos três, mas uma vez ouvi da própria boca do Laerte uma história que me desconcertou: as histórias eram escritas e desenhadas pelos três artistas, mas não eram raras as vezes em que Laerte e Angeli não entregavam as suas partes. Quem então copiava o traço e os personagens dos colegas? Glauco! Ele carregava os dois nas costas…
Era uma molecagem entre eles. Sacanagem de meninos. Típico de Geraldão e Geraldinho.
Um velho projecionista. Um garoto fascinado pela luz. Uma paixão em comum e uma amizade infinita. A cidade é minúscula e temos a vida inteira pela frente. “Cinema Paradiso” é desses filmes que fazem os espectadores se desmancharem em lágrimas, com um sorriso tímido no final.
Philippe Noiret dá uma aula de atuação. Sem exagero, Enio Morricone compôs uma das canções mais inesquecíveis do cinema. Mas pouco se comenta de uma letra que Dulce Pontes fez para o tema. Veja o belo poema…
Era uma vez
Um rasgo de magia
Dança de sombra e de luz
De sonho e fantasia
Num ritual que me seduz
Cinema que me dás tanta alegria
Deixa a música
Crescer nesta cadência
Na tela do meu coração
Voltar a ser criança
E assim esquecer a solidão
Os olhos a brilhar
Numa sala escura
Voa a 24 imagens por segundo
Meu comovido coração
Aprendeu a voar
Neste Cinema Paraíso
Que eu trago no olhar
E também no sorriso
Ouça agora o resultado, mas não se reprima: está escuro no cinema e ninguém vai ver você chorando…
Terminei esta semana de ler “Céu de Origamis”, o mais recente caso de mistério do delegado Espinosa. Pra quem não se lembra, ele é o personagem principal do escritor carioca Luiz Alfredo García-Roza, e já protagonizou oito romances desde 1996. De longe é a maior experiência na literatura policial brasileira.
O livro é ótimo e desde “Uma janela em Copacabana”, eu não me envolvia tanto com a narrativa do autor e com o estado de ser do personagem. Se você leu “Na multidão” e ficou com impressão de que o delegado da 12ª DP penduraria as chuteiras, esqueça. Espinosa está de volta. Hoje é domingo, mas ele deve estar perambulando do Leme à Ipanema…
Neste vídeo, Garcia-Roza apresenta um pouco o mais recente livro. Para adoçar…
Talvez tenham sido os astecas, mas se não foram, ficam sendo ao menos neste post. Mas os astecas diziam que as palavras caminham. Sim, elas se movem e por caminhos que nem sempre controlamos. Digo isso porque uma porção delas vem me incomodando muito ultimamente. Mas o problema não está nas palavras, mas no uso que as pessoas fazem delas, tripudiando, distorcendo, desapropriando sentidos.
Veja o exemplo de “Colaborador”. Até outro dia, era o cara que dava uma ajuda, que prestava um serviço esporádico. Hoje, pra muita gente, não. Gerentes, diretores, gestores de recursos humanos sorriem dentro de seus colarinhos. Ciosos, dizem que suas empresas têm duzentas, seiscentos, trocentos “colaboradores”. Ora, “colaboradores” uma ova! Os caras são empregados, funcionários, trabalhadores. Salvo melhor juízo ninguém está ali apenas pra colaborar. Pra usar palavras antigas, eles vendem sua força de trabalho por dinheiro, por salários, mesmo que aviltantes, indecentes.
Um baita eufemismo esse o do “colaborador”. Será que os tais gerentes, gestores e diretores pensam que ofendem alguém ao chamá-lo de “funcionário”?
Outro eufemismo é o que me disse outro dia a moça do telemarketing: “Senhor, esta revista foi descontinuada“. Ahn? “Descontinuada, senhor”. Ah, tá, a revista acabou. “Não, senhor, foi descontinuada”. Quase esbofeteei pelo telefone a moça. Será que ela pensa que eu sou idiota? Se a revista não circula mais, se não está disponível, NÃO FOI DESCONTINUADA. Ela simplesmente foi interrompida, extinta, acabada, e ponto. Tava com vergonha a moça do telemarketing?
Mas pior que essa atitude zelosa de evitar constrangimentos, atritos e melindres, pior é trazer o administrês, o economês para as conversas mais cotidianas e prosaicas. Então, você não melhora mais o relacionamento, você “agrega valor à relação”. Você não é um cara diferente, distinto, é “diferenciado”. É um saco isso! Vai desculpar, mas é dureza ouvir a mãe na escolinha dizendo que o seu pequerrucho tem uma alimentação “diferenciada” e que ela mesma prepara a lancheira, fazendo questão de dar mais “valor agregado” ao suquinho com bolachas…
Causei revolta, ranger de dentes e olhares desconfiados ao dizer aqui que sublinhava trechos de livros à caneta. Mas alguns corajosos saíram do armário e deixaram comentários no blog, confessando-se também vândalos livrescos que fazem o mesmo. Aliás, na contabilidade rasa, os comentários solidários foram mais numerosos… sinal de que há um exército munido com suas canetas pronto para vilipendiar páginas e páginas por aí…
Mas preciso explicar: não desprezo os livros. Devoto a eles o que o Caetano Veloso dizia dos maços de cigarro: um amor-táctil. Adoro livro novo: o cheiro do papel, a maciez da capa, o barulhinho do farfalhar das folhas, o formato fácil de empilhar… mas há anos venho notando que as coisas vêm mudando e que posso ler em outros suportes… por causa do trabalho, consumo páginas e mais páginas diante da tela de um computador: corrijo trabalhos escolares, leio teses inteiras, reviso materiais, tudo sem apalpar papel… não é só um brio ecológico; é que assim acontece…
Com a chegada dos e-readers, essas reflexões pessoais se tornaram mais agudas. E sim, eu teria um Kindle para ler meus PDFs e carregar levemente uma boa biblioteca. Só não tenho ainda porque sou um duro… (mas aceito presentinhos sem segundas intenções…)
Por isso, o que me interessa é a leitura. Os livros também, mas um dia, é possível que eles sejam deixados de lado, como as fitas cassetes em que a gente gravava as canções favoritas diretamente do rádio… Quando isso acontecerá? Sei lá… até este dia devo rabiscar um milhão de outras páginas…
Ontem, a ABC deu a largada à já famigerada última temporada de Lost.
No Brasil, a expectativa não é menor pelo desfecho da série que renovou padrões narrativos na televisão nos últimos anos. Por isso, a AXN vai retransmitir os episódios com apenas uma semana de diferença da cronologia original.
Se você consegue aguardar mais uma semana, contente-se com o vídeo promocional…
Ciência não precisa ser chata.
Pesquisa não deve ser uma coisa enfadonha.
Cientistas não são necessariamente aqueles caras que se escondem atrás de óculos de aros grossos e vestem aventais brancos.
Eles podem ser legais, divertidos, inteligentes, irônicos, interessantes, sensíveis… que ver?
No campo da Comunicação, um dos grupos mais criativos e dinâmicos é o dos pesquisadores da cibercultura. Eles são super conectados, ágeis, versáteis. São praticamente uns herois. Formaram até mesmo uma Ciberliga de Pesquisadores Paladinos, e têm seu próprio seriado. Assista aos dois primeiros episódios…
Para brindar os nativos deste dia, lembro dois ilustres aniversariantes. Primeiro, Diana Krall que parece modelo, americana, cantora pop; mas é loura-com-voz-de-negra, pianista, jazzista e canadense. Depois, José Saramago, que aos 87 não para de martelar o seu teclado e a inspirar quem segue as suas linhas.
Diana Krall canta a clássica The Look of Love, em um envolvente arranjo com orquestra.
José Saramago se emociona ao final da versão cinematográfica de Ensaio sobre a Cegueira.
Hoje, faz vinte anos que o Muro de Berlim ruiu, iniciando ao menos que simbolicamente uma nova era e fechando o século XX.
Não vou fazer nenhuma análise histórica porque não sou historiador. Prefiro lembrar o trailer de “Adeus Lênin”. Nesta produção, um filho faz de tudo para que a mãe comunista que voltou do coma não descubra que a Alemanha está se reunificando. Ele teme que ela enfarte novamente e não resista. Então, faz milagres para tornar um apartamento de 79 metros quadrados o último refúgio da Alemanha Oriental.
Sensível, engraçado, inteligente, o filme é uma boa maneira de se ver a que nos apegamos para ter o pé na realidade…
Passei pouco mais de um dia em Piracicaba-Rio Claro este final de semana. Mas foi tudo muito intenso…
Como adiantei, fui ao SESC para uma palestra a convite da Unimep. Lá, me reencontrei com colegas como Paulo Roberto Botão e Belarmino Guimarães, e fui muito bem recebido por turmas de alunos muito interessados e interessantes do curso de Jornalismo. O SESC em Piracicaba tem uma estrutura maravilhosa, que o site da instituição não faz jus. Lá, é tudo lindo, moderno, tudo funcionando muito bem, e lotado de gente da comunidade. Nota-se o belo trabalho da equipe (e aqui, agradeço em particular ao Chico Galvão).
Não bastasse a boa experiência que foi dialogar com os presentes, tive outra ótima surpresa: na plateia, estavam três tias e um tio meu, que não via há muito tempo. Alguns há mais de dez anos. Os parentes – todos na casa dos 60, 70 anos – foram “me prestigiar” porque leram uma reportagem no Jornal Cidade sobre a palestra. Fiquei muito tocado com a surpresa, pois o que a gente quer mesmo é ter o reconhecimento dos mais próximos, não é? Jamais esperaria vê-los ali…
Não bastasse, na mesma noite, revi uma querida amiga dos tempos de universidade, Alessandra Morgado, e que hoje é uma das editoras do Jornal de Piracicaba. Pra terminar, dei uma esticadinha e dormi na casa de minha mãe, o que me permitiu matar saudades do colo e de meu irmão mais novo. Cheguei a almoçar com eles, e corri de volta à base, de onde já escrevo.
Foram pouco mais de 27 horas fora de casa. Inicialmente, para um compromisso profissional, mas que se revelou numa ótima experiência acadêmica e num surpreendente e emocionante retorno ao passado. Eu vi vinte, trinta anos em poucas horas…
Eliane Elias é uma das artistas brasileiras com carreira mais sólida no jetset do jazz norte-americano.
Como é sábado, como chove lentamente, e como não posso parar, ofereço esta belíssima e contagiante “running”, cuja letra não me sai da cabeça…
Follow the silence
Far from the sadness
Leave all the madness behind
I`ll keep on moving
I`ll keep on running
Passing through hallways
Of who I`ve become
I`ll keep on driving
Into the darkness
Not scared of loving
Turn my lights on
Cause where I`m from
We carry on
And keep on living
And keep on running
Running towards
What I`ve been running from
Se você é um dos poucos leitores fiéis deste blog deve ter notado que ele ficou às moscas por alguns diazinhos… Não é descaso não, viu? É absoluta consumição…
Sim, aproveitei o feriado prolongado e fugi com a família. Foram dias ótimos para recarregar as baterias, aprumar a cabeça e voltar a viver com intensidade cada dia. Quando retornei na terça, ontem, fiquei sem contato internético em casa o que quase me deixou louco com o provedor do serviço. Com uma montanha de coisas por fazer e sem comunicação com o mundo exterior, só podia estressar mesmo…
Pois hoje retomei a vida louca, e na medida do possível estou respondendo emails, lendo feeds, e até mesmo fazendo vazar um ou outro tweet. Normalizarei em breve. Inclusive este blog. Tenha dó e paciência…
Costumo dizer que existe uma ordem no universo que auxilia na resolução dos problemas. Os problemas tendem ser resolvidos para que outros problemas entrem na fila das pendências da vida. Não que eles se solucionem por si, mas porque há uma pressão por novos afazeres.
Perceba que essa ordem no universo não é uma nova forma do velho ditado “O que não tem remédio, remediado está”. Não, isso é conformismo, fatalismo, resignação ou preguiça mesmo. Esta nova ordem é uma das forças que movem o universo e tal. Só.
E porque hoje – como todos os dias, em especial as sextas-feiras – surgiram-me novos problemas, recebi de Joel Minusculi um mapa para a resolução de problemas. Se você quiser se livrar dos seus, siga o esquema abaixo:
Estou com dois ou três posts escritos na cabeça para este blog, mas o implacável relógio não dá trégua.
A imagem ao lado sinaliza o mantra do momento (e da minha vida nos últimos 30 anos).
Fiquei fascinado ao assitir “Tempos de Paz”, filme que chegou aos cinemas esta semana e que é, na sua despretensão, uma das mais interessantes realizações brasileiras desde o “Cheiro do ralo” (2007), por exemplo.
É claro que os dois filmes não têm nenhum parentesco, nada que os aproxime do ponto de vista temático ou estético. Enquanto o “Cheiro…” é um exercício de estilo, transgressivo e moldado a ser um cult para certos públicos, “Tempos de Paz” é muito mais um exercício de linguagem, de realização de um cinema mais maduro e consistente nas suas bases.
E essa diferença se dá fundamentalmente porque “Tempos de Paz” é uma versão cinematográfica de uma peça de teatro. Aliás, um texto sensacional, maravilhoso, apontado por boa parte da crítica como o melhor texto do começo do século XXI no país. Do finalzinho de 2001, o texto assinado por Bosco Brasil tem um título mais longo, próprio mesmo do meio: “Novas diretrizes em tempos de paz”. A história não é rocambolesca e não há uma abundância de personagens, pelo contrário. É a justeza, a singeleza e a profundidade de abordagem que tornam o enredo incontornável, insuperável.
Na trama, estamos em abril de 1945. A Segunda Guerra Mundial está no fim, e as forças européias aguardam o armistício. No Brasil, Vargas está no poder, e o Rio de Janeiro ainda é a capital federal. Lá, desembarcam diariamente hordas de refugiados do nazismo e dos horrores da guerra. Um deles é o polonês Clausewitz, que anseia começar uma nova vida no Brasil, onde se fala uma “língua macia, falada apenas por bebês e idosos, por gente que não tem dentes”.
Clausewitz aprendeu o português, mas na imigração, essa condição e outras contradições despertam a suspeita de um burocrata amargurado, embrutecido e descartado pelo sistema. É dele, Segismundo, que Clausewitz depende para receber o visto de permanência no Brasil, e os dois vão travar uma terceira guerra de palavras, aproximando dois mundos e duas vidas separadas pela língua, pela cultura, pelo destino.
Como se vê, não é um filme de ação, mas de reflexão, de emoção. Daí a importância da realização de Daniel Filho, talvez o homem mais importante do cinema nacional hoje, por trás de sucessos de bilheteria como “Se eu fosse você” (1 e 2), “A partilha”, entre outros. Daniel Filho atua, dirige, produz e, de forma naturalmente gregária, reúne em torno de si os melhores profissionais nos desenhos mais comercializáveis do produto cinematográfico. “Tempos de Paz” não deve se tornar um caminhão de dinheiro como “Se eu fosse você 2”, mas é justamente o sucesso arrasador deste que permite e dignifica a execução de um projeto como o de “Tempos…” Com isso, Daniel Filho marca mais uma vez o seu nome na história do cinema nacional, agora com coragem e maturidade.
Mas a importância de “Tempos de Paz” está também na transposição, na tradução, no trabalho de versão de linguagens. O texto é, como já disse, originalmente uma peça teatral, tem o tempo dos palcos, a ação dramática como base, os diálogos fortes e bem cortados como alicerce, o espírito das coxias. Para não perder em substância ou forma, o diretor convidou o próprio Bosco Brasil para escrever o roteiro, o que se revelou na melhor opção. Ajustes foram feitos do ponto de vista formal, permitindo que o público respire de vez em quando, olhando a bela baía carioca, cenas externas aos porões do cais 22, e por aí vai. Foi adicionado mais um elemento, próprio do cinema: um acerto de contas com o passado. Dois personagens que não existem na peça surgem no roteiro cinematográfico e ajudam a conduzir a trama num embrião de thriller. O próprio Daniel Filho interpreta o elemento-chave deste acerto de contas, um médico sem nome que resistiu ao governo de Vargas.
Nos papéis principais estão Dan Stulbach, na pele do imigrante polonês, e Tony Ramos, como Segismundo. Aliás, os realizadores não tiveram pudor em manter elementos bem sucedidos no teatro. Stulbach já vivera o personagem nos palcos, ao lado de Jairo Mattos. E tanto Tony Ramos quanto Stulbach estão so-ber-bos em seus papéis, num duelo de interpretação, que arranca risos nervosos, lágrimas furtivas e uma ânsia pelo desfecho daquele tormento criado entre eles. O público precisa perceber que estamos diante de um momento histórico da interpretação no cinema nacional, e isso não é exagero. Muito ainda vai se falar do duelo entre Ramos e Stulbach, como o encontro de dois atores de gerações diferentes mas que não encenam, mas contracenam, o que não é fácil quando se trata de cinema, uma arte tão cheia de cortes de câmera para enquadramento e de interrupções do fluxo interpretativo dos atores.
Por fim, a música adequada de Egberto Gismonti e uma belíssima homenagem dos realizadores aos refugiados da Segunda Guerra que chegaram ao Brasil e contribuíram para a nossa cultura e desenvolvimento… Por falar em homenagem, Bosco Brasil mantém a trama de seu texto original que resulta numa extraordinária homenagem e reconhecimento ao teatro, para além de sua utilidade num mundo repleto de desgraças… “Tempos de Paz” não nasce como um clássico do cinema nacional. Não parece ter essa pretensão. É uma realização singela, bem acabada, digna e honesta. Mas por isso tudo uma importantíssima obra para a cinematografia de qualquer país.
A noite passada foi mesmo de pânico, de medo intenso. Ventania, chuva rasgante e raios em toda a parte. Confesso que ainda não tinha visto nada igual. Sabe aquela tempestade em que você imagina São Pedro atirando os raios como lanças? Sabe o temporal coalhado de raios e trovões que estremecem os móveis e as paredes? Pois é, descobri que pior que os estrondos é o raio em total silêncio, precedido e seguido por outros tantos. A noite vira dia, e você fica esperando o rugir, mas ele não vem. A expectativa te mata de tensão…
A Central de Meteorologia da RBS acaba de confirmar que um tornado passou pelo oeste catarinense, sobre a cidade de Guaraciaba, o que matou quatro pessoas e feriu dezenas de outras. Lembro do Catarina, que lambeu meu apartamento em Itapema; lembro das enchentes de novembro passado, que tomaram as ruas e invadiram minha casa; agora, vem esse temporal insano, que deixa a todos alarmados por aqui… Parece marcação… Meu amigo Frank Maia é quem diz…
De repente, ele atacou. Nem pude ver, notar ou me defender. Rapidamente, afastou meu ânimo, esvaiu minhas forças e me debilitou por completo. De quebra, levou meu bom humor.
Eu estava louco para trabalhar durante o feriado. Planejei ignorar a família, o apelo ao descanso, e me dedicar por completo a pilhas de textos para corrigir, a artigos para escrever, a tarefas inglórias e burocráticas… mas não poderei fazê-lo.
Estou fechando o expediente… Não posso mais…
Maldito ácaro!