é Claro que é roubada!

Alegria de pobre evapora diante dos olhos!

No finalzinho do ano, fiz uma comprinha nas Casas Bahia. Estava de mudança e precisava de uns utensílios pra casa. Acabei gastando uma grana e o seu Samuel Klein, muito bondoso, me deu um celular de graça. Fiquei exultante. Fui saltitando pra casa, afinal, ganhar um celular… ninguém tem celular, sabe como é!

Pois liguei o aparelho e lá veio a primeira surpresa: o celular era da Claro. Isto é, o seu Samuel me deu um celular bloqueado.

Fui até uma revenda da Claro para desbloquear a coisa, já que tenho conta da Tim. A revenda não fez o serviço: “Só as lojas da Claro é que têm o segredo pra desbroquear”, me disse o diligente atendente. Persisti. Na loja da Claro, o atendente impertigado me pediu a nota fiscal do produto. Mostrei para ele, que fez cara de nojo. Deve ter pensado: “Mais um cliente trouxa do seu Samuel…”.

Do alto do seu poder de decidir se desbloqueia ou não um celular, o atendente me cuspiu na cara: “Esse aparelho só é desbloqueável um ano depois da compra!” Como assim? Não pode! E a tal da portabilidade? “Ou é depois de um ano ou a Claro cobra R$ 20,00 por mês faltante”. Como assim? Não vou pagar R$ 240,00 para desbloquear um celular que na nota tem o valor de R$ 52,00. “Mas este é o sistema, senhor!” Sistema de merda, eu disse educadamente. Não vai fazer, então? Tá certo. Você trabalha pra máfia, rapá! As operadoras telefônicas são máfias, devolvi a cuspida.

Eu nem queria um celular novo…

Resumo da ópera: o seu Samuel não me deu um celular. Me deu uma algema da Claro.

campus party, eu vou!

São Paulo sedia mais uma vez o maior evento informal da internet do país e um dos maiores do mundo, a Campus Party. Planejei participar nos últimos dois anos, mas por uma série de fatores não pude estar no lugar onde todas as mentes se conectam, todos os downloads são possíveis e onde a taxa de upload demonstra que a internet é mesmo mais criativa e compartilhadora do que qualquer outro projeto humano.

Por isso, estou bastante feliz com a perspectiva de estar no meio de milhares de campuseiros. Como estou em processo de mudança, apenas darei um pulinho por lá, mas quero postar alguma coisa seja por aqui ou pelo twitter. Participarei do painel “Cibercultura e pesquisas sobre blogs e conversações” ao lado da Sandra Montardo, de André Lemos, do Henrique Antoun e com moderação do Sérgio Amadeu. O convite partiu do Edney Souza que explica no vídeo abaixo como estará a programação da área de blogs…

Se você quer saber mais, acesse o site do evento (aqui), acompanhe o blog da Campus Party (aqui) ou ainda consulte a agenda (aqui).

2010 já é!

O ano que começa hoje já começou antes do seu primeiro minuto. Começou num pensamento furtivo, numa esperança que me escorreu dos dedos, num sonho que alimentei outro dia. 2010 já é. Pessoalmente, inicio o ano e a nova década muito bem. Depois de seis anos, retorno à cidade mais maravilhosa do mundo: Florianópolis. Retorno em definitivo, espero, à cidade que viu meu filho nascer, me viu sorrir sem dó pra vida, me recebeu como a um nativo.

Inicio 2010 na cidade que amo, no emprego em que sonhei, com a mulher que desejei, e com o astral batendo no Everest. 2009 foi bom, 2010 será melhor. Se os céus puderem me ouvir, faço três pedidos: saúde, paz de espírito e bom humor.
Tudo isso pra mim e para os que me rodeiam. O resto, bem, o resto xácomigo!

2010 terá feriados, dias ensolarados, noites maravilhosas, e pra completar vai começar numa sexta, feriado, e com lua cheia.
Quer mais?

Feliz ano novo, leitores!

(Este blog pode ficar fora do ar nos próximos dias por problemas de conectividade)

2009: uma retrospectiva muito pessoal

2008 foi um ano difícil. Já 2009 foi um tempo de conquistas e de batalhas. Como estamos em fins de dezembro, cabe um balanço, uma avaliação do período. Por isso, ofereço a seguir uma rápida retrospectiva. Siga-me se for capaz!

Janeiro: Comecei o ano com turbulências domésticas. Todo o mundo tem problemas, mas iniciar 2009 com esses tremores me fez decidir dar mais tempo à família o que me obrigou a dizer uma série de “Não” nos meses seguintes. A vida ensina, e na maioria das vezes, as decisões que tomei foram as mais acertadas. Em janeiro, fiz rapidíssima viagem a Brasília para iniciar uma parceria de pesquisa com a Unesco que se mostrou muito rica e interessante. Neste mês, ingressei na minha fase Apple e com o primeiro MacBook. Um deslumbre!

Fevereiro: Mês lotado de reuniões e entraves burocráticos. Nem parecia mês de Carnaval. As aulas começaram pra valer – três disciplinas na graduação! -, mas antes dei uma fugidinha para São Paulo e assisti a um dos meus irmãos casar. Festerê em família. Acertei com a Unesco para atuar como um dos consultores numa pesquisa sobre indicadores da qualidade jornalística.

Março: Duas orientandas do Mestrado em Educação defenderam suas dissertações, o que me deu orgulho e satisfação. Dei início a um tratamento dentário que me deu despesas indigestas. Comecei a migração de nove anos da revista Contrapontos para um portal exclusivo, o que significa dizer transferir manualmente quase 300 artigos. Sem bolsista ou técnico de apoio, passei uma temporada no inferno da Informática, só não tive LER/DORT por sorte. Me decepcionei com a não realização de um curso de especialização que planejei. Sem alunos suficientes, a pós em Mídias Digitais não saiu do papel… Comecei a me preparar para um concurso público na UFSC.

Abril: Mês de orientações constantes a quatro monografias. Páginas e mais páginas de leitura num ritmo alucinante. Fui a Belo Horizonte para o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, revi amigos e fiz contatos excelentes. Assumi a coordenação do Prêmio Adelmo Genro de Pesquisa em Jornalismo: uma trabalheira insana!

Maio: Mergulhei em leituras sobre ensino de jornalismo. Tudo porque queria participar mais ativamente das discussões para a reforma das diretrizes curriculares nos cursos de jornalismo. Cheguei a participar de uma das audiências públicas em São Paulo, e escrevi diversos posts e artigos sobre o tema. Dei uma escapadinha para ir ao Intercom Sul em Blumenau.

Junho: Sofri com ataques ferozes de rinite. Cheguei a consultar um alergista, mas como sou teimoso não dei bola pro doutor. Fiz 37 anos e meu filhote fez cinco. Pensei mil vezes: tô ficando velho. Foi um mês intenso e de oscilação nas emoções: tristeza intensa e felicidade avassaladora. Assisti com pesar a queda no Supremo Tribunal Federal da obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Passei por uma maratona de provas no concurso da UFSC e fui aprovado em primeiro lugar. Era o final de um ciclo de dez anos na Univali…

Julho: Não tive um segundo de descanso. Fechei disciplinas, engatei em reuniões e preparei planos para o segundo semestre. Ao mesmo tempo, fiquei de sobreaviso pela nomeação na UFSC. Fechei quatro monografias de conclusão de curso e vi meus quatro orientandos passarem bem por suas bancas. O segundo semestre começou e lá fui eu novamente…

Agosto: Comemorei diversos aniversários na família que tem uma penca de leoninos (entre os quais, a minha amada). Fui nomeado na UFSC, me despedi da Univali e parti para novos desafios profissionais no melhor curso de Jornalismo do Brasil. Um deles foi ter paciência no trânsito que liga o continente à parte insular de Florianópolis. Cheguei inclusive a bater o carro. Azar…

Setembro: Trabalhei intensamente com outros três colegas na pesquisa sobre indicadores da informação jornalística. Consegui quitar minha casa e me tornei um feliz proprietário: o sonho da casa própria é mesmo universal! Dei início a um novo projeto: o Observatório da Ética Jornalística, objETHOS. Fiz palestras em Novo Hamburgo (RS) e Piracicaba (SP): esse pessoal não tem juízo não?

Outubro: Trabalho, trabalho e só trabalho. Eu nem vi o mês passar…

Novembro: Publiquei a primeira edição da revista Estudos em Jornalismo e Mídia sob minha responsabilidade. Publiquei com meus alunos de graduação um número do jornal laboratório Quatro. Concluí as aulas de três disciplinas e fiz arremates finais no projeto da dissertação de meu orientando no Mestrado. Arrumei encrencas com um vizinho.

Dezembro: Sonhei com o tetracampeonato brasileiro do São Paulo, mas assisti a taça escapar pelos dedos… Afundei em bancas e reuniões. Concluí um curso que fiz à distância sobre ferramentas digitais para professores de jornalismo. Vi meu nome entre os novos bolsistas em produtividade no CNPq. Suei nos primeiros dias de um verão que promete. Comecei a afivelar nossas malas para uma mudança de endereço: de volta a Florianópolis, sonho de anos…

Como adiantei, 2009 foi um ano de batalhas e conquistas. Que 2010 seja também inesquecível, definitivo e maravilhoso. Para mim, para os meus, e para você que me acompanha por aqui.

este blog não parou…

Se você é um dos seis ou sete leitores que me acompanham por aqui deve ter notado que não tenho postado nada há quase uma semana. Calma. Não arranque seus cabelos, não cometa nenhuma loucura, não recorra ao Procon. Este blog não parou.

Só estou tentando terminar um dos semestres mais agitados da “história defe paif”…

Já, já, eu volto.

a falta que ela me faz

Ela se foi. Não sei se para sempre, mas já sinto a sua ausência.

Desde ontem a casa se ressente disso. Sem mais nem menos, não temos mais ela por aqui. Desapareceu, sumiu, se foi, escafedeu-se. Sem deixar bilhete, sem avisar, sem mostrar qualquer sinal de descontentamento. E o que me fica é uma mistura de sentimentos: um embrião de saudade, a perplexidade pelo ocorrido, a surpresa da herança que ela deixou. Afinal, se algo lhe faltasse, se tivéssemos brigado, enfim, se tivesse acontecido um rompimento, até seria possível se preparar para essa ausência, mas fui pego de surpresa. Não só eu, todos por aqui.

Mila era dessas presenças constantes. É curioso dizer mas, mesmo com pouco tempo por aqui, já era a dona da casa, a rainha que ocupava pouco espaço, mas que se espalhava por todos os cantos. Seu silêncio era a sua presença, a certeza de que estava por perto. Seu vai-e-vem pelos cômodos era notado, e quando descia as escadas de sua maneira toda especial, acompanhávamos seu andar lânguido, como se não existisse pressa no mundo, e a vida girasse à base de manivela.

Vez ou outra, chegava em casa e trombava com seu olhar, ora cúmplice, ora reprovador. Eu parava diante da porta e ela simplesmente me escaneava com seus olhos azuis. Quando havia bom humor, me cumprimentava e vinha ter comigo. Mas era raro, é verdade. Talvez porque eu lhe desse menos atenção do que merecesse ou pedisse. Talvez porque eu não derramava tanto sentimento ao seu redor. Talvez, talvez… é tarde agora.

Desde ontem não sabemos nada dela. Vasculhei pela vizinhança, mas fiquei envergonhado de perguntar por ela aos vizinhos. O que iriam pensar? Certamente, me reprovariam: esse não cuidava dela direito e agora está esbaforido atrás. Eles teriam razão, mas não me diriam isso de chofre.

A falta de que ela me faz é uma espécie de vergonha que alimento aqui dentro. Pois é um sintoma de que eu não soube amá-la pra valer. Não que não amasse, mas porque não me dedicasse a isso. Não me desse a ela, como ela se entregava a mim e a outros, que amava. Meu filho, por exemplo, mantém a esperança de que Mila volte, que ela saiu em busca de alguma aventura, mesmo que não fosse do feitio dela. Mas ele tem cinco anos e a inocência ainda brilha nos seus olhos. Minha esposa rumina em silêncio. Talvez seja quem mais sinta a falta de Mila, pois era quem mais convivia com ela, a quem hipotecava o mais desabrigado amor. Elas conversavam entre si: a onça e a gata. Vi isso acontecer mais de uma vez.

Também sinto falta de Mila, a quem trocava o nome até pouco tempo atrás. Olhava para ela e chamava por Nina, referência a outros dois amores do passado. Me reprovavam por isso, mas depois virou piada interna. Mas Mila também me cativou, me fez deitar os olhos sobre seu corpo, seu sorriso de esfinge, seu olhar penetrante e seus ruídos discretos. A falta que ela me faz cresce. Talvez porque eu quisesse hoje afagar-lhe mais do que sempre quis. Talvez porque o seu sumiço me faça aprender mais da vida e de mim mesmo. Mas é só uma gata, o leitor pode murmurar. É. Mas gatos têm uma teimosia própria que insiste em nos ensinar que não somos seus donos. Eles é que se apossam de nós, da casa, da rotina. Quando cansam, empoleiram-se sobre o muro e seguem adiante, sem olhar pra trás.

enchentes em sc: um ano

Um ano atrás, exatamente, eu passava por uma experiência que jamais imaginei enfrentar. Eu e mais de um milhão de pessoas fomos atingidos pelas agora tão trágicas e famosas cheias no Vale do Itajaí. O drama, todos puderam acompanhar pela TV e pelos demais meios de comunicação. Foram dias de intenso sofrimento, de grande angústia, de total destruição, de profundo aprendizado.

Cheguei a postar aqui alguns relatos do que vi e senti à época. A água barrenta em todos os lugares, as marcas indeléveis nas paredes após os rios baixarem, as muitas pilhas de móveis destruídos e colocados nas calçados, à espera do recolhimento para o lixo. Eu, minha esposa e filho ficamos quatro dias fora de casa, alojados num apartamento de uma família amiga. Quarto andar, centro de Itajaí. Apartamento de dois dormitórios que acabou abrigando onze pessoas, com escassez de água, dificuldade de abastecimento de alimentos, medo e tristeza por ver tanta desolação espalhada.

Quando as águas baixaram, voltamos para a casa e havia poucos danos. Minha rua não ficou totalmente alagada. Em casa mesmo, o limite máximo da água riscou 40 cm nas paredes. Perdemos poucas coisas, mas algumas muito preciosas como fotografias, e o mais importante: o sossego. Depois que se passa por um transtorno desses, não se dorme mais tranquilo com uma chuva forte. Os boletins da meteorologia alcançam outra importância, e o apego ao que é realmente essencial fica muito nítido, muito claro.

Uma situação dessas revela o melhor e o pior das pessoas. Vemos a solidariedade e a rapina de doações; vemos a fraternidade verdadeira e o egoísmo; convivemos com o compartilhamento de coisas e sentimentos, e com o individualismo. Para mim, mais difícil que enfrentar os dias fora de casa, torcendo pelo menor dano, foi viver as semanas seguintes, quando a cidade tentava se reerguer de uma queda tão enfática. As pessoas se olhavam fundo nos supermercados. Comungavam um silêncio cúmplice de dor e de resistência. Alimentavam-se de uma esperança rediviva. Reinventavam-se do nada, como se conseguissem se erguer das águas pelos próprios cabelos…

Sobreviver é mais importante que viver.

Para marcar este primeiro ano da pior enchente do estado – quando morreram 135 pessoas! -, o ClicRBS produziu um excelente infográfico, com um farto material e uma dor infinita. As imagens são dramáticas, as histórias, pungentes. A emoção é absoluta. Lembrar é mesmo uma forma de se fortalecer, mesmo quando o que sobra são poucos cacos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

dicionário do cansaço 3

Cheio de coisas pra fazer: soterrado de afazeres; mergulhado em compromissos; subsumido em tarefas; enterrado em demandas. “Cheio de coisas pra fazer” significa vazio de tempo pra si mesmo. Estado de alerta constante, angústia permanente e a frequente sensação de que seu dia é sempre mais curto em duração que o das pessoas normais.

27 horas de um turbilhão emocional

Passei pouco mais de um dia em Piracicaba-Rio Claro este final de semana. Mas foi tudo muito intenso…

Como adiantei, fui ao SESC para uma palestra a convite da Unimep. Lá, me reencontrei com colegas como Paulo Roberto Botão e Belarmino Guimarães, e fui muito bem recebido por turmas de alunos muito interessados e interessantes do curso de Jornalismo. O SESC em Piracicaba tem uma estrutura maravilhosa, que o site da instituição não faz jus. Lá, é tudo lindo, moderno, tudo funcionando muito bem, e lotado de gente da comunidade. Nota-se o belo trabalho da equipe (e aqui, agradeço em particular ao Chico Galvão).

Não bastasse a boa experiência que foi dialogar com os presentes, tive outra ótima surpresa: na plateia, estavam três tias e um tio meu, que não via há muito tempo. Alguns há mais de dez anos. Os parentes – todos na casa dos 60, 70 anos – foram “me prestigiar” porque leram uma reportagem no Jornal Cidade sobre a palestra. Fiquei muito tocado com a surpresa, pois o que a gente quer mesmo é ter o reconhecimento dos mais próximos, não é? Jamais esperaria vê-los ali…

Não bastasse, na mesma noite, revi uma querida amiga dos tempos de universidade, Alessandra Morgado, e que hoje é uma das editoras do Jornal de Piracicaba. Pra terminar, dei uma esticadinha e dormi na casa de minha mãe, o que me permitiu matar saudades do colo e de meu irmão mais novo. Cheguei a almoçar com eles, e corri de volta à base, de onde já escrevo.

Foram pouco mais de 27 horas fora de casa. Inicialmente, para um compromisso profissional, mas que se revelou numa ótima experiência acadêmica e num surpreendente e emocionante retorno ao passado. Eu vi vinte, trinta anos em poucas horas…

uma palestra em piracicaba

Amanhã, dou uma passadinha por Piracicaba – no interior de São Paulo – para uma palestra no SESC da cidade. O evento é também uma iniciativa do curso de Jornalismo da Unimep, e começa às 20 horas. Vou falar sobre ética jornalística, notícias em tempo de novas mídias, redes sociais, e os impactos disso tudo na conduta dos jornalistas. Uma parte desses assuntos está no meu Ética no Jornalismo, que segundo a organização do evento, será lançado lá também…

Faz tempo que não volto a Piracicaba. Faz tempo que não revejo amigos da área. Para um caipira de Rio Claro como eu, será um imenso prazer voltar a falar com “meu sotaque original de fábrica”…

sábado: running

Eliane Elias é uma das artistas brasileiras com carreira mais sólida no jetset do jazz norte-americano.

Como é sábado, como chove lentamente, e como não posso parar, ofereço esta belíssima e contagiante “running”, cuja letra não me sai da cabeça…

Follow the silence
Far from the sadness
Leave all the madness behind
I`ll keep on moving
I`ll keep on running
Passing through hallways
Of who I`ve become
I`ll keep on driving
Into the darkness
Not scared of loving
Turn my lights on
Cause where I`m from
We carry on
And keep on living
And keep on running
Running towards
What I`ve been running from

Ouça!

os professores e os mestres

Sim, hoje é o dia dos professores. Data em que é difícil desviar de reportagens e abordagens que fujam do lugar-comum. E são dois basicamente: as homenagens e “o pouco a comemorar…” neste dia. Isso cansa, sabe?

Sou de família de professores. Minha é professora, tenho irmão e sogra que lecionam. Duas cunhadas também dão aulas. Tenho outro irmão que trabalha com educação, e tios e tias ligados ao ramo. Então, meu cotidiano sempre foi permeado por essa fauna estranha, curiosa, interessante e envolvente que sãos professores. Mas a gente não aprende só na escola. Aliás, é na sala de aula que a gente descobre que há professores e mestres. Os primeiros são importantes, cotidianos, ordinários, necessários. Já os mestres são mais raros, mais influentes, menos necessários, mas mais decisivos em nossas vidas. Continuo encontrando mestres por aí, por onde quer que eu ande. Mas alguns eu trago comigo: dona Ângela – a professora do “parquinho” -, dona Regina – a mestra dedicada -, Manoel – uma influência e um exemplo -, Fulanetti – a mística de um bom orador -, Pedro – uma admiração e uma amizade -, dona Marlene – que ensina a viver até hoje…

Mais importante que homenagear é reconhecer.

não é descaso não…

Se você é um dos poucos leitores fiéis deste blog deve ter notado que ele ficou às moscas por alguns diazinhos… Não é descaso não, viu? É absoluta consumição…

Sim, aproveitei o feriado prolongado e fugi com a família. Foram dias ótimos para recarregar as baterias, aprumar a cabeça e voltar a viver com intensidade cada dia. Quando retornei na terça, ontem, fiquei sem contato internético em casa o que quase me deixou louco com o provedor do serviço. Com uma montanha de coisas por fazer e sem comunicação com o mundo exterior, só podia estressar mesmo…

Pois hoje retomei a vida louca, e na medida do possível estou respondendo emails, lendo feeds, e até mesmo fazendo vazar um ou outro tweet. Normalizarei em breve. Inclusive este blog. Tenha dó e paciência…

dicionário do cansaço 2

COL275EXAUSTOMortinho: estado lastimável e cada vez mais frequente do gênero humano. A despeito do que parece, não se trata do diminutivo masculino de sem vida.

Mortinho é exaurido, exausto, cansado, sugado, consumido.

dicionário do cansaço 1

Sherpa: habitante de região montanhosa do Nepal, sim lá no Himalaia, que auxilia os montanhistas em suas subidas e descidas. Auxiliar quer dizer carregar mochilas, pacotes, pertences e o que mais for necessário.

O sherpa é um nativo forte, resistente, plenamente adaptado àquelas localidades onde o ar é rarefeito, as condições climáticas são hostis, os perigos são muitos e a vida não vale quase nada.

Neste meu Dicionário do Cansaço, estar cansado como um sherpa é como ter subido a montanha mais alta do mundo com um peso incomensurável nas costas…

seus problemas acabaram…

Costumo dizer que existe uma ordem no universo que auxilia na resolução dos problemas. Os problemas tendem ser resolvidos para que outros problemas entrem na fila das pendências da vida. Não que eles se solucionem por si, mas porque há uma pressão por novos afazeres.

Perceba que essa ordem no universo não é uma nova forma do velho ditado “O que não tem remédio, remediado está”. Não, isso é conformismo, fatalismo, resignação ou preguiça mesmo. Esta nova ordem é uma das forças que movem o universo e tal. Só.

E porque hoje – como todos os dias, em especial as sextas-feiras – surgiram-me novos problemas, recebi de Joel Minusculi um mapa para a resolução de problemas. Se você quiser se livrar dos seus, siga o esquema abaixo:

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nada de novo, tudo corrido

Estou com dois o1351_run-forrest-bcu três posts escritos na cabeça para este blog, mas o implacável relógio não dá trégua.
A imagem ao lado sinaliza o mantra do momento (e da minha vida nos últimos 30 anos).

semana que vem o bicho vai pegar

Sabe quando você reclama que tudo parece desabar sobre sua cabeça de repente?

Sabe quando seu maior inimigo é o relógio?

Já pensou em se clonar para estar em vários lugares ao mesmo tempo?

Não, não adianta se queixar. Ainda não conseguiram inventar uma forma de ocupar diversos espaços simultaneamente, nem ao menos aprimoraram as técnicas de clonagem a ponto de nos permitir desfrutar de uma festa e aplicar uma prova na mesma hora…

Por isso e enxotando de uma vez o Sistema Automático de Reclamação, aviso: apertem os cintos porque a semana que vem é uma correria só!

De 21 a 25, acontece a 8ª Semana do Jornalismo, aqui na UFSC.

De 21 a 22, acontece na Feevale o 3º Seminário Blogs, Redes Sociais e Comunicação Digital.

De 25 a 27, acontece no 8º Encontro Nacional de Jornalistas de Assessoria de Comunicação (Enjac), no Rio de Janeiro.

Tentando jogar nas onze, parto na segunda, 21, para Novo Hamburgo (RS) para o Seminário de Blogs, de onde retorno no dia seguinte. Na quarta, quinta e sexta (23, 24 e 25), vou a Florianópolis (SC) para aproveitar um pouquinho da Semana do Jornalismo. No sábado (26), rumo para Teresópolis (RJ) para o Enjac, de onde volto no dia seguinte.

Neste ritmo, muito possivelmente, na segunda, 28, minha mulher me bota pra fora de casa…

tempos de paz: entre cinema e teatro

Fiquei fascinado ao assitir “Tempos de Paz”, filme que chegou aos cinemas esta semana e que é, na sua despretensão, uma das mais interessantes realizações brasileiras desde o “Cheiro do ralo” (2007), por exemplo.

É claro que os dois filmes não têm nenhum parentesco, nada que os aproxime do ponto de vista temático ou estético. Enquanto o “Cheiro…” é um exercício de estilo, transgressivo e moldado a ser um cult para certos públicos, “Tempos de Paz” é muito mais um exercício de linguagem, de realização de um cinema mais maduro e consistente nas suas bases.

E essa diferença se dá fundamentalmente porque “Tempos de Paz” é uma versão cinematográfica de uma peça de teatro. Aliás, um texto sensacional, maravilhoso, apontado por boa parte da crítica como o melhor texto do começo do século XXI no país. Do finalzinho de 2001, o texto assinado por Bosco Brasil tem um título mais longo, próprio mesmo do meio: “Novas diretrizes em tempos de paz”. A história não é rocambolesca e não há uma abundância de personagens, pelo contrário. É a justeza, a singeleza e a profundidade de abordagem que tornam o enredo incontornável, insuperável.

Na trama, estamos em abril de 1945. A Segunda Guerra Mundial está no fim, e as forças européias aguardam o armistício. No Brasil, Vargas está no poder, e o Rio de Janeiro ainda é a capital federal. Lá, desembarcam diariamente hordas de refugiados do nazismo e dos horrores da guerra. Um deles é o polonês Clausewitz, que anseia começar uma nova vida no Brasil, onde se fala uma “língua macia, falada apenas por bebês e idosos, por gente que não tem dentes”.

Clausewitz aprendeu o português, mas na imigração, essa condição e outras contradições despertam a suspeita de um burocrata amargurado, embrutecido e descartado pelo sistema. É dele, Segismundo, que Clausewitz depende para receber o visto de permanência no Brasil, e os dois vão travar uma terceira guerra de palavras, aproximando dois mundos e duas vidas separadas pela língua, pela cultura, pelo destino.

Como se vê, não é um filme de ação, mas de reflexão, de emoção. Daí a importância da realização de Daniel Filho, talvez o homem mais importante do cinema nacional hoje, por trás de sucessos de bilheteria como “Se eu fosse você” (1 e 2), “A partilha”, entre outros. Daniel Filho atua, dirige, produz e, de forma naturalmente gregária, reúne em torno de si os melhores profissionais nos desenhos mais comercializáveis do produto cinematográfico. “Tempos de Paz” não deve se tornar um caminhão de dinheiro como “Se eu fosse você 2”, mas é justamente o sucesso arrasador deste que permite e dignifica a execução de um projeto como o de “Tempos…” Com isso, Daniel Filho marca mais uma vez o seu nome na história do cinema nacional, agora com coragem e maturidade.

Mas a importância de “Tempos de Paz” está também na transposição, na tradução, no trabalho de versão de linguagens. O texto é, como já disse, originalmente uma peça teatral, tem o tempo dos palcos, a ação dramática como base, os diálogos fortes e bem cortados como alicerce, o espírito das coxias. Para não perder em substância ou forma, o diretor convidou o próprio Bosco Brasil para escrever o roteiro, o que se revelou na melhor opção. Ajustes foram feitos do ponto de vista formal, permitindo que o público respire de vez em quando, olhando a bela baía carioca, cenas externas aos porões do cais 22, e por aí vai. Foi adicionado mais um elemento, próprio do cinema: um acerto de contas com o passado. Dois personagens que não existem na peça surgem no roteiro cinematográfico e ajudam a conduzir a trama num embrião de thriller. O próprio Daniel Filho interpreta o elemento-chave deste acerto de contas, um médico sem nome que resistiu ao governo de Vargas.

Nos papéis principais estão Dan Stulbach, na pele do imigrante polonês, e Tony Ramos, como Segismundo. Aliás, os realizadores não tiveram pudor em manter elementos bem sucedidos no teatro. Stulbach já vivera o personagem nos palcos, ao lado de Jairo Mattos. E tanto Tony Ramos quanto Stulbach estão so-ber-bos em seus papéis, num duelo de interpretação, que arranca risos nervosos, lágrimas furtivas e uma ânsia pelo desfecho daquele tormento criado entre eles. O público precisa perceber que estamos diante de um momento histórico da interpretação no cinema nacional, e isso não é exagero. Muito ainda vai se falar do duelo entre Ramos e Stulbach, como o encontro de dois atores de gerações diferentes mas que não encenam, mas contracenam, o que não é fácil quando se trata de cinema, uma arte tão cheia de cortes de câmera para enquadramento e de interrupções do fluxo interpretativo dos atores.

Por fim, a música adequada de Egberto Gismonti e uma belíssima homenagem dos realizadores aos refugiados da Segunda Guerra que chegaram ao Brasil e contribuíram para a nossa cultura e desenvolvimento… Por falar em homenagem, Bosco Brasil mantém a trama de seu texto original que resulta numa extraordinária homenagem e reconhecimento ao teatro, para além de sua utilidade num mundo repleto de desgraças… “Tempos de Paz” não nasce como um clássico do cinema nacional. Não parece ter essa pretensão. É uma realização singela, bem acabada, digna e honesta. Mas por isso tudo uma importantíssima obra para a cinematografia de qualquer país.

ventou, choveu, destelhou, destruiu

A noite passada foi mesmo de pânico, de medo intenso. Ventania, chuva rasgante e raios em toda a parte. Confesso que ainda não tinha visto nada igual. Sabe aquela tempestade em que você imagina São Pedro atirando os raios como lanças? Sabe o temporal coalhado de raios e trovões que estremecem os móveis e as paredes? Pois é, descobri que pior que os estrondos é o raio em total silêncio, precedido e seguido por outros tantos. A noite vira dia, e você fica esperando o rugir, mas ele não vem. A expectativa te mata de tensão…

A Central de Meteorologia da RBS acaba de confirmar que um tornado passou pelo oeste catarinense, sobre a cidade de Guaraciaba, o que matou quatro pessoas e feriu dezenas de outras. Lembro do Catarina, que lambeu meu apartamento em Itapema; lembro das enchentes de novembro passado, que tomaram as ruas e invadiram minha casa; agora, vem esse temporal insano, que deixa a todos alarmados por aqui… Parece marcação… Meu amigo Frank Maia é quem diz…

nanoterrorismo

De repente, ele atacou. Nem pude ver, notar ou me defender. Rapidamente, afastou meu ânimo, esvaiu minhas forças e me debilitou por completo. De quebra, levou meu bom humor.
Eu estava louco para trabalhar durante o feriado. Planejei ignorar a família, o apelo ao descanso, e me dedicar por completo a pilhas de textos para corrigir, a artigos para escrever, a tarefas inglórias e burocráticas… mas não poderei fazê-lo.

Estou fechando o expediente… Não posso mais…
Maldito ácaro!

3 clipes que não me saem da memória

Não é melancolia, não. Mas é que existem coisas que a gente não esquece nunca. Ainda bem…

Tempo perdido

Angra dos Reis

Há tempos

a diferença que um mês faz no futebol

Há exatamente um mês – no dia 19 de julho -, eu choramingava neste blog sobre a campanha pífia do São Paulo nas diversas competições. Eu dizia: a coisa tá feia pelos lados do Morumbi, e me fazia passar por um momento PVC, destilando estatísticas que mostravam que nos últimos 15 jogos, o Tricolor acumulara 7 derrotas, 5 empates e apenas 3 vitórias.

Um mês depois, a coisa mudou, é verdade. Vamos aos números:

  • 19 de julho: ganhou do Santos em casa.
  • 22 de julho: empatou com o Internacional no Beira-Rio
  • 26 de julho: venceu o Barueri lá.
  • 30 de julho: ganhou do Grêmio por 2 a 1 no Morumbi.
  • 2 de agosto: fez 1 a 0 no Vitória no Barradão.
  • 5 de agosto: 3 a 1 no Botafogo em casa.
  • 9 de agosto: repetiu a dose no mesmo palco contra o Goiás.
  • 16 de agosto: foi à Ilha do Retiro e venceu o Sport por 2 a 1.

Resumo da ópera: 8 jogos, 7 vitórias e um empate. Tem mais a ver com o meu time. Ainda mais que hoje, enfrenta o Fluminense no Morumbi, com o retorno de Rogério Ceni (857 partidas pelo clube). Ceni de volta à cena. A conferir…

um domingo com radiohead

Porque é domingo e porque a preguiça tenta me tirar da frente do trabalho…
Porque é domingo e porque Radiohead é genial e depressivo, mas lírico e único…

Por isso, me lembro de dois clipes:

Paranoid Android

No surprises

um sábado com laurin hill

Existem dias em que a gente acorda com uma canção martelando a cabeça. Neste sábado, foi Laurin Hill quem soprou-me essa “I find it hard to say”. É uma performance memorável…

como é que se diz “adeus”?

Sim, de uma forma ou de outra, este é um post de despedida…

Ontem, foi minha última noite de aulas na Univali, instituição onde leciono há dez anos. Não foi uma daquelas aulas especiais que você prepara há muito tempo, nem uma prova inesquecível. Foi uma noite comum. Atendi alunos, tirei dúvidas, conversamos sobre projetos de final de curso, sobre pesquisas a serem realizadas, temas para reportagens, enfim, foi uma noite comum. Como se nada estivesse para acontecer.

Na verdade, nada estava mesmo. Apenas para mim, afinal sou eu quem estou me despedindo.

A noite voou, falei com muita gente, e voltei para casa com um sentimento de que algo não havia se fechado. Pelo menos inconscientemente, eu esperava um fechamento nas aulas de minha parte, uma despedida formal, nem sei mais. Mas hoje cedo, tudo me pareceu tão perfeito e bem amarrado! Ter a última noite como uma noite qualquer é ter a clareza de que a vida continua, de que as coisas mais importantes estão nos detalhes de todos os dias, em toda hora, e que não se pode perder a chance de aproveitar tudo isso. Ter a última noite sem uma despedida formal é muito melhor, pois me permite fazer de visitas extemporâneas, acontecimentos corriqueiros e informais.

Mas por que tantas sentimentalidades neste post?

Ora, completei dez anos de Univali no começo deste mês. Dei aulas para mais de mil alunos neste tempo todo. Lecionei em onze disciplinas diferentes. Orientei quarenta alunos na graduação e pós-graduação. Trabalhei muito neste tempo todo, muito mesmo. Enfim, aprendi e vivi demais nesses anos todos. Foi aqui que aprendi a ser o que sou no mundo da pesquisa, do ensino, na esfera da academia. Tive aulas com alunos, com funcionários, com colegas professores, que puderam me ensinar as coisas do Jornalismo, as coisas da vida, a matéria dos sonhos, os conteúdos secretos dos seres humanos… Aprendi e cresci! E sou muito grato por tudo isso. Dez anos são uma vida, e não se joga tudo isso assim pela janela…

Mas não há tristeza, mas satisfação. Não há dor, mas desapego. Não há incômodo, mas o sentimento-sem-preço de missão completa, de ciclo concluído.

Gosto das metáforas que fazem da vida uma jornada. Isso nos faz ver que a viagem interessa muito mais do que os destinos. Levando isso em consideração, me vejo dentro de um trem em movimento. Estou deixando um vagão para ingressar em outro, mas a direção é a mesma, a composição está ali. Diferente de outras despedidas, esta não é como uma morte. Não, é uma continuidade. Sigo para um outro vagão da longa composição, mas me alegra ver que o vagão que estou deixando continua forte, em movimento, no mesmo sentido. Não há porque dizer “adeus”. Digo então: “boa viagem para todos nós!”

dia dos pais: crônica 10

Giant steps (01/07/2005)

Moro a vinte passos do mar, condição que gera uma certa inveja de uns amigos meus. Tenho um filho lindo, saudável, esperto e feliz, o que também é motivo de inveja. O meu filho tem um ano, e ensaia os primeiros passos. Sozinho, digo. E isso não sei se causa inveja, já que significa algum desapego. Calma, eu explico.

Nas manhãs em que o sol invade a sala de casa (e elas são muitas), eu e meu filho deixamos o sofá e sentamos num quiosque bem em frente à praia. Quando há vento, também há surfistas. Não que a minha praia seja um pico excelente, mas quando o vento entra bem, traz algumas ondas, coisa de metrinho no jargão surfístico. Pois é, eu e o filhote ficamos de camarote assistindo as performances dos mais corajosos. A gente chega a ver bons momentos, é verdade, mas o que mais nos diverte são os tombaços que eles levam. Em terra firme e com preguiça de sobra, nós chegamos a torcer para que a onda seja bem traiçoeira e que passe uma boa rasteira no magrelinho que insiste em se manter em pé naquele pedaço estreito de fibra e parafina. Quando ele cai, a gente se olha e sorri.

Costumo sorri também quando meu filho se precipita no chão por algum motivo e me olha com aqueles olhinhos de porque. Na verdade, são olhos bem grandes e a pergunta que ele me atira na cara é: Como é que eu fui parar aqui? Você não viu não? Quem me derrubou? Pois, eu sorrio para dar confiança. Para mostrar que não foi nada. Como quem diz: Levanta daí, você mais tombos pra cair. E assim, quando ele me olha e encontra o sorriso, repete o gesto, me estica os bracinhos e eu o resgato do chão.

É muito provável que um dia meu filho venha a ser surfista. Adora o mar. Fica vidrado com o vai e vem da água e tem um grande senso de equilíbrio.

Já com onze meses, meu filhote jogava as pernas para frente, de forma coordenada, como se soubesse exatamente o que é andar. Observador que é, ele viu que andar é fácil. Ou pelo menos parece. Aí, esticou os bracinhos na direção dos pólos Norte e Sul e se lançou adiante, equilibrando-se na medida em que se apoiava no que via. Muitas vezes, julgou mal os objetos e se apoiou no que não era firme. Tombo! Outras tantas, calculou mal as distâncias e – no meio do caminho – suas perninhas não agüentaram o próprio peso e ele desabou no chão, exausto. Andar é aprender, ele percebeu. E mais: me ensinou isso.

Não chega a ser nenhuma maldade nossa torcer para a onda derrubar o surfista. Afinal, se ele realmente cair, vai se estatelar num meio flexível, receptivo. Tudo bem, tem a força d’água, o chacoalhar, o caldo e, talvez, a prancha sendo arremessada na cabeça. Claro, isso pode acontecer. Mas a gente não torce por isso não.

Meu filho, agora, ensaia os primeiros passos, sozinho. Não mais se apóia tanto nas coisas e em mim. Na verdade, quando estendo a mão para ele para que caminhemos juntos, ele se esquiva. Quer ir sozinho. É natural. Está conhecendo o mundo, e percebe que não precisa de mim para isso. Andar é aprender, ele me ensina isso. Todos os dias. Quando perde o equilíbrio, projeta-se para frente e para trás, buscando seu centro de gravidade. Às vezes, isso não basta, e ele dá uns passinhos pros lados, corrigindo a postura. Já sabe que é assim, que é preciso ter jogo de cintura, senso de equilíbrio. É assim quando a gente anda. É assim na vida.

Ensinar os filhos a andar é se desapegar. É compreender que eles andarão por si mesmos, que tomarão suas decisões e que despencarão muitas vezes. Dói na gente. Quando eles caem e quando a gente vê que eles já fazem os seus caminhos sozinhos…

dia dos pais: crônica 9

Na prática, a teoria é outra (24/05/2005)

Esses dias, recebi um email muito útil, de verdadeira prestação de serviços. O assunto já dizia a que vinha: Treinamento para ter filhos. E numa linguagem clara e com evidente intenção pedagógica, trazia quatro exercícios práticos para aqueles que planejam ter bebês em breve. Vou reproduzir alguns trechos, adicionando detalhes que aumentam o grau de dificuldade das tarefas.

Exercício 1. “Vestindo a roupinha: Compre um polvo vivo de bom tamanho e vá colocando, sem machucar a criatura, nesta ordem: fraldas, macaquinho, blusinha, calça, sapatinhos, casaquinho e touquinha. Não é permitido amarrar nenhum dos membros. Tempo de execução da tarefa: uma manhã inteira”.

Nesta primeira prova, tenha muito claro que o seu bebê é mais ágil, mais forte e mais insistente que o polvo do exercício. Tudo bem que o polvo é mais escorregadio e tem ventosas nos tentáculos. Entretanto, seu bebê pode também se tornar escorregadio se estiver na hora da troca de fraldas; seu bebê gira em torno do próprio eixo, podendo ocasionar quedas do trocador, da cama ou de qualquer móvel resistente que você o apóie. (O “resistente” da frase anterior é condição sine qua non para a troca. Se puder fixar algemas no trocador, ajuda). Seu bebê não tem ventosas, mas tem unhas que crescem rápido; seu bebê não tem oito tentáculos, mas na hora isso não faz diferença. E o pior: seu bebê sobrevive fora d’água. Diferente do polvo.

Exercício 2. “Comendo sopinha: Faça um buraquinho num melão, pendure o melão no teto com um barbante comprido e balance-o vigorosamente. Agora tente enfiar a colherinha com a sopa no buraquinho. Continue até ter enfiado pelo menos metade da sopa pelo buraquinho. Despeje a outra metade no seu colo. Não é permitido gritar. Limpe o melão, limpe o chão, limpe as paredes, limpe o teto, limpe os móveis a volta. Vá tomar um banho. Tempo para execução da tarefa: uma tarde inteira”.

O melão sugerido ajuda a treinar. Mas assim que executar a tarefa uma vez, volte a executá-la outras tantas. Afinal, seu bebê tem pelo menos três refeições diárias. E geralmente, assim que você termina de limpar tudo, está na hora da próxima papinha. E melões são mais pacientes.

Exercício 3. “Passeando com a criança: Vá para a pracinha mais próxima. Agache-se e pegue uma bituca de cigarro. Atire fora a bituca, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue um palito de picolé sujo. Atire fora o palito, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue um papel de bala. Atire fora o papel de bala, dizendo com firmeza: Não. Agache-se e pegue uma barata morta. Atire fora a barata morta, dizendo com firmeza: Não. Faça isso com todas as porcarias que encontrar no chão da pracinha. Tempo para execução: o dia inteiro”.

O exercício proposto ajuda a desenvolver a paciência, mas você deve lembrar o seguinte: seu bebê se move com mais rapidez que o papel de bala, é mais insistente que a bituca, mais resistente que o palito de picolé e mais nojentinho que a barata. Em condições normais de temperatura e pressão e fora do laboratório, você não vai se limitar em dizer “Não!” centenas de vezes. Na pracinha, você terá que impedir que seu bebê enforque uma inofensiva pombinha; terá que resgatá-lo da lata de lixo que ele decide conhecer por dentro; terá que desobstruir a garganta dele, lotada de pedrinhas, tampinhas de garrafa, bitucas de cigarro, papel de bala e outras coisas que ele encontrou no chão, porque alguém atirou longe…

Exercício 4. “Passando à noite com o bebê: Pegue um saco grande de arroz e passeie pela casa com ele no colo das 20 às 21 horas. Deite o saco de arroz. Às 22:00 pegue novamente o saco e passeie com ele até as 23:00. Deite o saco e vá se deitar. Levante às 1:30 e passeie com o saco até 2:00. Deite o saco e você. Levante às 2:15 e vá ver a sessão Corujão porque não consegue mais pegar no sono. Deite às 3:00. Levante às 3:30, pegue o saco de arroz e passeie com ele até as 4:15. Deitem-se os dois (cuidado para não usar o saco de travesseiro). Levante às 6:00 e pratique o exercício de alimentar o melão. Não é permitido chorar”.

Considere que, fora de simulações, o seu saco de arroz se movimenta sem parar, grita e chora sem parar também. Considere que o seu saco de arroz começa a noite pesando cinco quilos e terminará o seu expediente pesando cinqüenta. Eu disse seu expediente, pois você precisará ser rendido por alguém no meio do turno. Você terá que chamar reforços. Como eu disse, seu bebê não pára quieto: move as perninhas e os bracinhos, golpeando seu rosto, puxando seus cabelos, enfiando os dedinhos no seu nariz, boca e olhos. As perninhas atingem repetidas vezes o seu estômago e o baixo ventre. Alerta vermelho para os papais: se quiserem que o seu bebê tenha irmãozinhos, mantenha-os a uma altura segura para ambos (ele e você). E como eu disse também, seu saco de arroz grita e chora sem parar. Nos primeiros dias, os vizinhos sorrirão amarelos e mentirão, dizendo que nem ouviram o escarcéu da madrugada. Vão até tentar afagos no saco de arroz. Nas semanas seguintes, eles já comentarão nos corredores a gritaria da noite anterior. (É fácil perceber este estágio: quando você chega no prédio e os pega conversando baixo, eles logo sorriem amarelos de novo e interrompem o assunto bruscamente). No mês seguinte, as queixas chegam ao síndico. E no outro, você recebe uma advertência do condomínio com cópia do abaixo-assinado que fizeram, tentando te expulsar dali…

Se isso já aconteceu comigo? Os dois primeiros estágios, sim. Mas meus vizinhos não se deram ao trabalho de fazer o tal abaixo-assinado. Agi antes: vedei a boca do meu saco de arroz com uma silver tape!

dia dos pais: crônica 8

Ladrões de tempo (01/05/2005)

Como é que Shakespeare conseguiu construir sua obra mesmo tendo filhos? Como Marx fez o que fez, apesar das boquinhas miúdas que o perseguiam clamando por comida e atenção? E Einstein, como chegou aonde queria? Como driblaram suas crias e dedicaram-se tão intensamente às suas obras, obtendo tanto êxito?

Vejam: não me refiro a talento, mas a coisas mais prosaicas, como o tempo. Insisto: como é que esses caras conseguiram produzir mesmo tendo nas barras de suas calças aquelas criaturinhas fofinhas, graciosas, barulhentas e de energia inesgotável?

Eu respondo. Eles não tinham aquelas criaturinhas nas barras de suas calças. E assim puderam mergulhar no trabalho, oferecendo à humanidade contribuições de inegável importância.

Embora tivesse filhos pequenos, Shakespeare não hesitou em deixar a família na sua cidade natal para trabalhar com teatro em Londres. Longe de casa, viajava, escrevia, dirigia montagens. E pelo menos uma vez por ano (uau!) voltava a Stratford von Avon para rever os pimpolhos. Nessa distância, escreveu dezenas de poemas (ma-ra-vi-lho-sos!) e 34 peças que mudariam a história da literatura universal e o converteriam na segunda pessoa mais comentada em livros do planeta. (Só perdendo para Jesus Cristo, que, inclusive, nem filhos teve. Pelo menos é o que contam os biógrafos bíblicos).

Karl Marx também não parava em casa. A penca de filhos chorava e a mente do homem fervilhava de idéias, de palavras de força. Eram tempos difíceis e o ainda jovem Marx vendia o almoço para comprar a janta. Com a prole agarrada às suas extremidades, Marx construiu uma filosofia, um modo de compreender o homem no seu tempo. É verdade que os filhos vinham em segundo lugar (as idéias primeiro), mas a humanidade se beneficiou muito com esse pai desnaturado.

Einstein não era muito diferente. Tanto é que nunca chegou a conhecer a primeira filha, Lieserl. A noiva teve a criança na Hungria, enquanto Albert (com apenas 22 aninhos) trabalhava na Suíça. Dizem as más línguas que a menina teria sido criada por outra família, já que o funcionário do escritório de patentes de Berna não tinha onde cair morto.

***

Pois é. Filhos tomam o nosso tempo. Seres adoráveis, são meigos, alegres e fofinhos. Coiotes em pelegos. Sanguessugas disfarçadas em bonecos gordinhos; parasitinhas cruéis que roubam a nossa energia, o pouco tempo que temos e toda a intimidade que mantínhamos com a esposa.

O segredo de Marx, Shakespeare e Einsten está aí. Não só no talento, mas no quanto puderam se dedicar às suas idéias, livres de bebês, fedelhos e adolescentes. Kafka e Nietzsche sequer tiveram filhos. Sartre tampouco. Bob Marley e Pelé, pelo contrário, fizeram muitos, mas tiveram o cuidado de espalhá-los por aí. Com isso, puderam provocar pequenas (e indeléveis) revoluções na música e no futebol.

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Conhecido meu me escreve com visível desespero. “Sou um desmazelado. Perdi o que me mandou. Minha filha me consome”. Escritor, intelectual e artista, ele não consegue mais trabalhar como antes. Todo o tempo que tinha foi sugado por aquele pacotinho de gente que todos insistem classificar de “gracinha”.

Respondo solidário ao conhecido. Afinal, tenho um bebê de dez meses. E como o meu amigo, também venho sentindo as imensas dificuldades para tomar as rédeas da própria vida. Já não leio o que quero, já não consigo um minuto de paz, de solidão. Escrever, então… vixi! Este texto já deveria ter sido mandado há pelo menos dois meses. Já o escrevi mentalmente há um tempão, mas e a chance de sentar e martelá-lo no teclado? Não tinha jeito…

Meu colega retornou momentaneamente aliviado. Não, aliviado não. Conformado… resignado seria a palavra mais acertada. Me chamou inclusive de “meu irmão na paternidade”. Pois é, o cara – que nem me conhece direito – me chamou de mano. Fiquei feliz, lisonjeado, até porque admiro o trabalho dele. Mas dois minutos depois, percebi que era uma ilusão: ele havia me relevado que fazemos parte de uma mesma fraternidade, uma irmandade macabra: a dos pais recentes. E pior: a dos pais que se preocupam com seus filhos e viram reféns dos pequenos tiranos…

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No final de março, comprei um livro sobre a ditadura militar e os seus efeitos sobre os jornalistas. Livro delicioso, feito com critério e com uma pesquisa muito rigorosa. Sabe quantas páginas pude ler até agora? 39. É. Justo eu que comia livros, consumia sem pudor, atropelando tudo… Não tem dado… fazer o quê? Para tentar continuar a leitura, venho carregando o grosso volume em minha valise para todo lugar que eu vá. A esperança é contar com uma fila de banco, com o trânsito engarrafado, com qualquer oportunidade que me obrigue a ficar longe do meu pequeno capataz e assim possa me deliciar com algumas páginas…

Outro dia me peguei como um marginal. Fi-lo dormir e, na ponta dos pés, coloquei a criaturinha em sua jaula, quer dizer, bercinho. Acompanhei seu sono por alguns segundos, certificando-me de que ele estava apagado mesmo, fora de combate. Ótimo, sorri. Dei três passos em ré, sentei-me numa cadeira de praia e apanhei o livro. Abri na página e mergulhei entre duas frases. Dei uma, duas, três braçadas vigorosas e alcancei um novo parágrafo. Fui adiante, mas – de repente – ouvi algo estranho, um suspiro, um resmungo, sei lá. Voei como um raio para fora do livro e olhei o bercinho: meu senhor estava em pé, sustentando-se nas grades e me lançando um olhar reprovador. Numa fração de segundos, não tive dúvidas. Fechei o livro e o escondi atrás de mim. Me senti um criminoso…

***

Mas não é só isso. Descobri outros sintomas que vejo hoje como graves. Venho comendo em pé. Acordo à noite com qualquer barulhinho e saio às cegas pelo corredor em busca de um resmungo ou princípio de choro. Quando em pé, parado e sem nada nos braços, ainda oscilo de um lado a outro feito um pêndulo. Baixei naturalmente o volume da minha voz. Nunca grito. E o pior, o mais grave: tenho feito a barba duas vezes por semana…

A situação não é fácil, mas meus amigos (?) que já têm filhos tentam me acalmar, dizendo que é irreversível.

Sem tempo pra nada; com as idéias e os projetos escorrendo pela cabeça sem as suas devidas realizações; eu continuo levando a vida. A dele e a minha. As queixas são verdadeiras, mas elas mais confundem o meu juízo do que servem de válvula de escape. Se reclamo, ao mesmo tempo me penitencio por isso. Afinal, aquela criança é a melhor coisa que já fiz; o projeto mais acertado de que participei; a coisa mais preciosa que tenho ao meu redor.

O problema não é o tempo, nem a tirania daquele déspota mirim. O problema não está em mim ou no meu egoísmo inalienável. O problema é que os pais de hoje são diferentes dos de antigamente. Nos tempos de Marx, de Shakespeare e de Einstein, era possível deixar as crianças com as mães, sem qualquer remorso ou cobrança emocional. Hoje, um novo lugar foi desenhado para o pai. Uma nova fronteira que nos coloca uma série adicional de compromissos, de contrapartidas familiares, de posicionamentos diante da criação e da educação desses filhotes.

Descobri, então, que a proteção que eu teria que dar ao meu filho não era a mesma que o avô dele imaginou para mim. E que se os pais hoje tivessem seios, guardariam seus filhos bem próximo ao peito. Se fosse assim, essas criaturinhas cândidas não seriam apenas ladrões de tempo: nos tomariam o leite também.

dia dos pais: crônica 7

Vai saber o que ele quis dizer (05/03/2005)

Tem coisa mais patética que o auto-engano? Pois é, pior não é se iludir, mas perceber que você mesmo trabalhou para ocultar aquilo de si. E quando a gente vê isso, dá uma raiva, misturada com arrependimento e a sensação: Putz! Como fui trouxa!

Bem, tudo isso pra dizer que passei por essa situação agora há pouco. Há algumas semanas, o sabidão aqui chegou ao trabalho todo feliz, quase saltitante. Meu filhote de oito meses já fala, já balbucia alguns verbetes. Não os mais complexos, é verdade, mas os mais necessários: Mã-mã e Bã-bá. É claro que até as frestas das paredes souberam da novidade por lá. Orgulhoso, fagueiro, eu desfilava pelos corredores acenando majestático a todos. Até mesmo aos desconhecidos, que se entreolhavam, perguntando: Quem é esse cara?

Um ou outro colega sacana me dizia: Mas você tem certeza que seu garoto está falando essas coisas? Na altura de meus oito meses de experiência, eu fulminava meu interlocutor com um olhar de desprezo, respirava dois segundos (coitado!), e tascava: Mas é claro! Eu conheço o meu filho! Você precisa ver!

Outro dia, quando me deixava inundar por um mar de baba de meu filho, passei a observar os seus hábitos. Eu o levantava para o alto em movimentos rápidos, coisa que – pelo jeito – ele adorou. Eu erguia os braços (ele junto) e baixava. O moleque se matava de rir: não sei se é um sádico ou masoquista. Meus braços quase despregando do corpo de cansaço e ele rindo. Ele quase se estatelando no chão da sala, e ainda rindo. E claro: vocalizava a todo o momento, entre uma risada e outra, um “Bã-bá”. Eu sorria, orgulhoso. Afinal, o cara – com aquele pedacinho de vida que tinha – já me reconhecia, me chamava de pai em seu dialeto particular.

De repente, sua mãe chega, e ele escancara novo sorriso, estende os braços em sua direção: Mã-mã! Evidentemente, solicitava seu afeto e colo. Passei a olhá-los de longe, sem ser visto. A TV ligada e eles conversando, digamos. O molequinho balbuciando coisinhas e a mãe, sorrindo e respondendo palavras que, essas, eu entendia. De repente, aparece na TV o Ratinho, e o garoto vira seu rosto para o apresentador, arregala os olhos e diz: Bã-bá! Me indigno. Em segundos, a imagem é substituída por outra: um pássaro pousa num galho de árvore, e meu filho: Bã-bá! Me confundo. Dois minutos depois, a mãe oferece uma banana ao pequenino, e ele, Bã-bá! Já não entendo mais nada. Disposto a tirar isso a limpo, sigo – passos firmes – até eles e me coloco à frente daqueles olhinhos faiscantes. Ele me vê, sorri no canto da boca, e diz: uama-mame-babobo, seguido de mmmmiammumu. Já sem poder me conter, explodo: Quer dizer que eu não sou mais o Bã-bá? Ele franze o cenho, passa a mão sobre o meu braço e explica: ê-amu-ma-ma-ba.

Daquele dia em diante, eu presto atenção no que ele diz, mas ele não diz nada com nada. “Bã-bá” pode ser um monte de coisas, inclusive eu. “Bã-bá” é vocalizado de forma prazerosa. Eu vejo isso, porque vem acompanhado de sorrisos e risinhos baixos. Mas “Bã-bá” não é apenas uma maneira de se referir a mim. E justo eu que convenci meio mundo disso…