já temos a “barriga” do ano!

No Observatório da Imprensa desta semana – que acaba de chegar à rede -, há vários textos comentando o erro jornalístico mais ruidoso da imprensa nacional em 2008. Isso mesmo! A suposta queda de um avião de passageiros da Pantanal sobre um prédio em São Paulo. Na verdade, tratava-se apenas de um incêndio. Mas a blogosfera reagiu mal à pressa dos jornalistas.

Para saber mais:

Sobre as contradições do jornalismo – texto de Venício A. Lima no Observatório da Imprensa

Noticiário de telejornal derruba avião – de Gilson Caroni Filho, também no OI

Avião atinge prédio, ou loja de colchões, ou de tapetes – de Urariano Mota, no OI

Guerra dos Mundos nas chamas de MoemaMauricio Pontes, no OI

GloboNews derruba avião da PantanalManuel Muñiz, no OI

Divulga-se primeiro, para se confirmar depoisAdriano Faria, também no OI

No blog do GJOL, há três links:

UOL derruba avião da Pantanal em cima de loja de colchões

Avião que Record, Globo e UOL derrubaram chega à Espanha e Alemanha

Como se derruba um avião: efeito dominó

Que barriga!

“em brasília, 19 horas”: uma leitura

Eugênio Bucci é hoje um dos mais atentos e criativos leitores da mídia nacional. Seus argumentos são equilibrados, seus comentários aprofundados e a clareza de seu discurso não só convence, como contagia.

Bucci publicou no início deste ano mais um livro, desta vez, um híbrido que mescla memórias, ensaio e prestação de contas. Presidente da Radiobrás durante o primeiro governo Lula, Bucci assumiu a frente da estatal com o claro propósito de resgatá-la do pântano chapa-branca em que sempre viveu e cresceu para um patamar de empresa pública de comunicação, orientada pelo interesse público e avessa ao patrimonialismo, aparelhamento e clientelismo endêmicos.

“Em Brasília, 19 horas” chegou ao mercado editorial com alguma surpresa. Afinal, não é à toda hora que um insider do governo vem à tona com livro desse porte. Algumas hienas devem ter tremido no Planalto; outros chacais rido nervosamente; as serpentes requebraram no cerrado do DF… Viriam daquelas páginas revelações, escândalos, indiscrições? Nada disso.

O livro de Bucci é, na sua quase integridade, um rigoroso relatório, dando contas de como quis imprimir seu projeto e fazer tomá-lo curso. Claro, há uns rompantes aqui, umas rusgas ali, mas o volume – na minha leitura muito personal – tem ao menos quatro bons motivos para ser lido:

1. O livro nos mostra uma Radiobrás que sempre esteve debaixo de nossos narizes e quase nunca nos interessou. Fale a verdade: a gente sempre pensou naquilo como um setor de Publicidade ou Relações Públicas de qualquer governo de plantão. Não se atrelava a estatal a um lugar onde se pudesse fazer jornalismo mesmo. Bucci relembra a experiência que liderou, comparando com outros momentos da empresa, o que é muito instrutivo.

2. O livro detalha como se pode conceber uma tarefa quase-impossível e como se conduz um projeto desses. Para quem vai assumir cargos semelhantes ou empreendimentos análogos, o livro já valeria como uma envolvente fonte de exemplos.

3. Bucci dá verdadeiras aulas sobre ética jornalística, princípios democráticos, valores republicanos e senso de civilidade. Quem conhece Bucci de outros carnavais ou leu outros livros seus, quem já viu isso sabe que não é só discurso da parte dele.

4. O livro dá dimensões muito precisas das distâncias entre os setores de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. Cada um tem a sua função e importância. Mas Bucci separa joio e trigo, aveia e centeio. Com isso, revigora as fronteiras entre um campo e outro da área da comunicação, fortalecendo cada qual com seu ethos, seu espírito, suas demandas. Não é pouco isso…

Se o tom do autor no livro é quase sempre relatorial, não há distanciamento. Afinal, ele estava lá, no centro da arena, dos confrontos. Nos últimos capítulos, Bucci fica nu, despe-se de qualquer pudor de falar de si e da sua história e se entrega para o final que prepara. Ele está prestes a deixar o governo e a presidência da Radiobrás e a longa agonia que o separa da porta de saída é contada na riqueza dos sentimentos e nas memórias mais latejantes. O final do livro, bem, o final é matador. Não deixe de ler.

2 links apressados: voltarei a isso

Porque é noite de feriado, e a semana será curta para tanta coisa.

Porque tenho um capítulo de livro para concluir e entregar amanhã.

Porque amanhã cedo tenho banca de uma das minhas orientandas do mestrado e ainda preciso me preparar.

Porque ainda costuro um projeto para mandar ao CNPq até depois de amanhã.

Só por isso, indico dois links que – à primeira vista – me parecem altamente relevantes, embora eu ainda não tenha mergulhado neles. Mas o farei…

1. The impact of the media on children and young people with a particular focus on computer games and the internet. Estudo liderado pelo renomado David Buckingham, do Instituto de Educação da University of London. Foi concluído em dezembro do ano passado e só agora está liberado na web. Em inglês, formato PDF e com 77 páginas.

2. Relatório Vigilância e Defesa da Liberdade de Imprensa na América Latina e Caribe. Documento em inglês ou espanhol, elaborado pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas e o Programa de Mídia do Open Society Institute (OSI) reunindo dados de quase 50 organizações dedicadas ao monitoramento e defesa da liberdade de imprensa nessas regiões. Em PDF, 46 páginas.

 

ética na web: chamada de textos

O International Journal of Internet Research Ethics está com chamadas abertas para colaborações.
O prazo para recebimento se esgota em 15 de abril.

Special Issue: Research Ethics, Policies, Law: International Perspectives
Call for Papers
This issue welcomes papers dealing with any aspect of international policy and internet research ethics. Specifically, we are interested in papers from researchers and scholars exploring data protection laws; policies and regulations; and ethical models of research protections. We seek practical, applied discussions – i.e., as informed by and focusing on one or more case studies or real-world examples – as well as theoretical papers. Suitable topics include: reviews of existing research protections laws and policies in specific countries or broader units of analysis such as Scandinavia, the European Union, Africa, South Asia, developing countries, and so forth; reviews of existing laws and policies vis-à-vis emerging technologies; cross-cultural analyses of research ethics and online research; specific analyses of related issues such as privacy, attribution, copyright, ownership, consent models; or discussions of online research in action, such as ethnographies, participant observations, research with/on minors, and discourse/content analyses.”

Mais informações: http://www.uwm.edu/Dept/SOIS/cipr/ijire/submit.html

uma revista de ética!

Esbarrei hoje na sala dos professores com um exemplar de Ética & Meios, revista editada pelo Espaço Ética.

A publicação está no seu primeiro número, que data de fevereiro de 2008, tem 24 páginas em papel couché, e se destina a pensar a mídia, assuntos que estão fora dela e ética em geral. Com o slogan “Por uma crítica construtiva da mídia”, a revista tem como publisher o professor Clóvis de Barros Filho, bastante conhecido nos meios acadêmicos por seus textos e pesquisas acerca do assunto Ética da Comunicação.

O lançamento – discretíssimo, diga-se de passagem – não chegou a essas bandas do sul, mas a iniciativa merece elogios. Afinal, alguém já ouviu falar de uma revista sobre ética no Brasil? Alguém aí já viu alguma publicação impressa sobre crítica de mídia circulando? Pois é…

Nesta edição, um perfil de Mario Vitor Santos (ex-ombudsman da Folha e atual do IG), uma pensata sobre a ética das coligações partidárias, uma reportagem sobre corrupção e outros textos.

A revista é agradável e importante, mas tem um porém: faltou ao leitor um expediente com dados de como assinar, como mandar sugestões e críticas…

pausa para pensar

Mindy McAdams faz um rapidíssimo comentário sobre senso comum, compaixão e ética jornalística.

Vale a pena ler. E pensar sobre.

dieta informativa de jornalistas

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Uma pesquisa norte-americana mostra que – cada vez mais – os jornalistas de lá vêm se abastecendo de informações de blogs e sites para fazer o seu trabalho. A informação é de Ramón Salaverría, que adverte que a pesquisa tem fragilidades metodológicas, mas que vale a pena ser observada.

Um resumo ilustrado da pesquisa pode ser visto aqui. Em inglês e em PDF.

PS – Chama a atenção também a frequência do uso de press-releases como fontes das matérias dos colegas. Nada contra usar um texto de assessoria para fazer uma reportagem, mas depender disso – conforme mostram os números das respostas – é perigosíssimo!!!

de onde vem a objetividade?

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Francis Pisani, jornalista que mantém um blog sobre tecnologias no Le MondeTransnets, responde à questão no site de Philippe Gammaire, o UniversMedias:

– A objetividade foi inventada. E pelos americanos! E pra ganhar mercado!

Ok, a gente já sabia disso. Mas vale a pena ler na íntegra aqui.

ética na edição de áudios

Mary McGuire, professora associada da Carleton University, do Canadá, compilou uma série de cuidados que jornalistas devem ter quando editam materiais em áudio. Me refiro a cuidados éticos no uso técnico de equipamentos, sistemas e conteúdos.

O guia de McGuire é sintético e está dividido em três partes basicamente:

  • Cuidados na edição de entrevistas
  • Cuidados na condução de entrevistas que serão posteriormente editadas
  • Cuidados na gravação e uso de sons em arquivos de áudio

O guia pode ser lido aqui

A página pessoal da professora na universidade está aqui.

Vale a pena ler o guia e não guardar. Isso mesmo. Leia e não guarde. Deixe sempre por perto, visível, pulsante…

jornalismo, jornalistas e uma lembrança importante

Duas dicas telegráficas de leitura:

Pedro Doria esquadrinha uma redação genérica, apresentando os personagens desse ofício

Luís Weiss alerta para não repetirmos a Escola Base

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uma série para não perder de vista

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O Observatório da Imprensa está publicando uma série de quatro artigos de Eugenio Bucci sobre jornalismo, liberdade e responsabilidade social. O conjunto tem o título geral “A imprensa e o dever da liberdade – a responsabilidade social do jornalismo em nossos dias”. Alguns dos textos vão compor um livro que a ANDI deve lançar ainda este ano, articulando conceitos como desenvolvimento humano, políticas públicas e jornalismo responsável.

  • O primeiro artigo do jornalista foi “A missão de servir ao cidadão e vigiar o poder” e pode ser lido aqui.
  • O segundo artigo, publicado esta semana no OI, é “A liberdade de imprensa entendida como um dever”, e pode ser conferido aqui.

Esta é uma série que não pode ser ignorada por aqueles que se interessam por pensar o jornalismo na sua dimensão ética e prática com a sociedade.

claude-jean bertrand: um tributo

Outro dia, estranhei a nota de Manuel Pinto no Mediascopio de que Claude-Jean Betrand teria morrido.

Cacei a informação nas edições eletrônicas dos jornais franceses e norte-americanos e não vi nada. Deixei um comentário no Mediascopio, e Manuel Pinto tornou a confirmar o ocorrido reproduzindo, inclusive, email com a informação encaminhado por familiares.

É uma pena o passamento de Claude-Jean Bertrand. O teórico francês foi responsável internacionalmente por uma retomada – sob um certo viés – da discussão sobre a responsabilização das mídias pelos efeitos que causam as notícias. No Brasil, a Editora da Universidade do Sagrado Coração (Edusc) lançou dois títulos de Bertrand: A Deontologia das Mídias e O Arsenal da Democracia. E temos ainda tão poucos trabalhos de fôlego na área da ética e da deontologia que tais títulos foram fácil e rapidamente absorvidos por professores e alunos, que logo os trouxeram para suas bibliografias básicas.

Betrand cunho o conceito de MARS ou MAS, dependendo do título e da tradução. Trata-se de meios para assegurar a responsabilização dos meios de comunicação. Esse conjunto de dispositivos e ações vão de ombusman a revistas especializadas, conselhos de imprensa a quadros nas redações, etc.

Embora eu tenha uma ligeira crítica ao conceito, ele vem a calhar e muito nos auxilia a pensar um outro lugar para os meios de comunicação no panorama contemporâneo e na vida social como um todo. Bertrand contribuiu, e a perda de um intelectual nos dias de hoje não é luxo que podemos ter. 

novo código de ética dos jornalistas

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgou o texto final do novo Código de Ética do Jornalista Brasileiro. O processo de modernização do instrumento começou em 2004 e se estendeu até julho deste ano, com democrático debate nacional.

  • Para saber mais sobre esse andamento, leia aqui.
  • Para saber como especialistas avaliam o novo código, veja aqui.
  • Se você tem fôlego e interesse, leia o que já comentei desse tema aqui. Ou navegue pelas tags (aí ao lado) e busque “Ética Jornalística”

Veja a íntegra do documento:

Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros

Capítulo I – Do direito à informação

Art. 1º O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange seu o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação.
Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público;
III – a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
IV – a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não-governamentais, é uma obrigação social.
V – a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante.
Capítulo II – Da conduta profissional do jornalista

Art. 3º O exercício da profissão de jornalista é uma atividade de natureza social, estando sempre subordinado ao presente Código de Ética.
Art. 4º O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação.
Art. 5º É direito do jornalista resguardar o sigilo da fonte.
Art. 6º É dever do jornalista:
I – opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;
II – divulgar os fatos e as informações de interesse público;
III – lutar pela liberdade de pensamento e de expressão;
IV – defender o livre exercício da profissão;
V – valorizar, honrar e dignificar a profissão;
VI – não colocar em risco a integridade das fontes e dos profissionais com quem trabalha;
VII – combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação;
VIII – respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;
IX – respeitar o direito autoral e intelectual do jornalista em todas as suas formas;
X – defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito;
XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias;
XII – respeitar as entidades representativas e democráticas da categoria;
XIII – denunciar as práticas de assédio moral no trabalho às autoridades e, quando for o caso, à comissão de ética competente;
XIV – combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza.
Art. 7º O jornalista não pode:
I – aceitar ou oferecer trabalho remunerado em desacordo com o piso salarial, a carga horária legal ou tabela fixada por sua entidade de classe, nem contribuir ativa ou passivamente para a precarização das condições de trabalho;
II – submeter-se a diretrizes contrárias à precisa apuração dos acontecimentos e à correta divulgação da informação;
III – impedir a manifestação de opiniões divergentes ou o livre debate de idéias;
IV – expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais;
V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;
VI – realizar cobertura jornalística para o meio de comunicação em que trabalha sobre organizações públicas, privadas ou não-governamentais, da qual seja assessor, empregado, prestador de serviço ou proprietário, nem utilizar o referido veículo para defender os interesses dessas instituições ou de autoridades a elas relacionadas;
VII – permitir o exercício da profissão por pessoas não-habilitadas;
VIII – assumir a responsabilidade por publicações, imagens e textos de cuja produção não tenha participado;
IX – valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais.

Capítulo III – Da responsabilidade profissional do jornalista

Art. 8º O jornalista é responsável por toda a informação que divulga, desde que seu trabalho não tenha sido alterado por terceiros, caso em que a responsabilidade pela alteração será de seu autor.
Art 9º A presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.
Art. 10. A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade.
Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações:
I – visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica;
II – de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes;
III – obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração;
Art. 12. O jornalista deve:
I – ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas;
II – buscar provas que fundamentem as informações de interesse público;
III – tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar;
IV – informar claramente à sociedade quando suas matérias tiverem caráter publicitário ou decorrerem de patrocínios ou promoções;
V – rejeitar alterações nas imagens captadas que deturpem a realidade, sempre informando ao público o eventual uso de recursos de fotomontagem, edição de imagem, reconstituição de áudio ou quaisquer outras manipulações;
VI – promover a retificação das informações que se revelem falsas ou inexatas e defender o direito de resposta às pessoas ou organizações envolvidas ou mencionadas em matérias de sua autoria ou por cuja publicação foi o responsável;
VII – defender a soberania nacional em seus aspectos político, econômico, social e cultural;
VIII – preservar a língua e a cultura do Brasil, respeitando a diversidade e as identidades culturais;
IX – manter relações de respeito e solidariedade no ambiente de trabalho;
X – prestar solidariedade aos colegas que sofrem perseguição ou agressão em conseqüência de sua atividade profissional.

Capítulo IV – Das relações profissionais

Art. 13. A cláusula de consciência é um direito do jornalista, podendo o profissional se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios deste Código de Ética ou que agridam as suas convicções.
Parágrafo único. Esta disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para que o jornalista deixe de ouvir pessoas com opiniões divergentes das suas.
Art. 14. O jornalista não deve:
I – acumular funções jornalísticas ou obrigar outro profissional a fazê-lo, quando isso implicar substituição ou supressão de cargos na mesma empresa. Quando, por razões justificadas, vier a exercer mais de uma função na mesma empresa, o jornalista deve receber a remuneração correspondente ao trabalho extra;
II – ameaçar, intimidar ou praticar assédio moral e/ou sexual contra outro profissional, devendo denunciar tais práticas à comissão de ética competente;
III – criar empecilho à legítima e democrática organização da categoria.

Capítulo V – Da aplicação do Código de Ética e disposições finais

Art. 15. As transgressões ao presente Código de Ética serão apuradas, apreciadas e julgadas pelas comissões de ética dos sindicatos e, em segunda instância, pela Comissão Nacional de Ética.
§ 1º As referidas comissões serão constituídas por cinco membros.
§ 2º As comissões de ética são órgãos independentes, eleitas por voto direto, secreto e universal dos jornalistas. Serão escolhidas junto com as direções dos sindicatos e da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), respectivamente. Terão mandatos coincidentes, porém serão votadas em processo separado e não possuirão vínculo com os cargos daquelas diretorias.
§ 3º A Comissão Nacional de Ética será responsável pela elaboração de seu regimento interno e, ouvidos os sindicatos, do regimento interno das comissões de ética dos sindicatos.
Art. 16. Compete à Comissão Nacional de Ética:
I – julgar, em segunda e última instância, os recursos contra decisões de competência das comissões de ética dos sindicatos;
II – tomar iniciativa referente a questões de âmbito nacional que firam a ética jornalística;
III – fazer denúncias públicas sobre casos de desrespeito aos princípios deste Código;
IV – receber representação de competência da primeira instância quando ali houver incompatibilidade ou impedimento legal e em casos especiais definidos no Regimento Interno;
V – processar e julgar, originariamente, denúncias de transgressão ao Código de Ética cometidas por jornalistas integrantes da diretoria e do Conselho Fiscal da FENAJ, da Comissão Nacional de Ética e das comissões de ética dos sindicatos;
VI – recomendar à diretoria da FENAJ o encaminhamento ao Ministério Público dos casos em que a violação ao Código de Ética também possa configurar crime, contravenção ou dano à categoria ou à coletividade.
Art. 17. Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.
Parágrafo único – Os não-filiados aos sindicatos de jornalistas estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, impedimento temporário e impedimento definitivo de ingresso no quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.
Art. 18. O exercício da representação de modo abusivo, temerário, de má-fé, com notória intenção de prejudicar o representado, sujeita o autor à advertência pública e às punições previstas neste Código, sem prejuízo da remessa do caso ao Ministério Público.
Art. 19. Qualquer modificação neste Código só poderá ser feita em congresso nacional de jornalistas mediante proposta subscrita por, no mínimo, dez delegações representantes de sindicatos de jornalistas.

Vitória, 04 de agosto de 2007.
Federação Nacional dos Jornalistas

a câmera e as mensagens dos togados

Fernanda Bruno comenta o caso do fotógrafo que flagrou ministros do STF trocando mensagens pela intranet em meio ao “julgamento” de possíveis réus no escândalo do Mensalão. Veja o que ela diz aqui.

Para completar, veja a seleção que Luiz Antonio Magalhães fez sobre o caso no Observatório da Imprensa.

(Perguntinha para meus alunos de Legislação e Ética em Jornalismo: E aí, meninos e meninas?)

sobre fotos de acidentes e crimes (2)

O assunto é sério.

Tenho analisado as estatísticas deste blog pelo WordPress e uma coisa me chamou a atenção: a grande procura e leitura por meu post “sobre fotos de acidentes e crimes”. A gente nunca sabe ao certo como se espalham as coisas pela internet e menos ainda na blogosfera. Um link aqui dado num site mais influente despeja leitores os mais diversos no blog do ilustre desconhecido.

Mas neste caso em particular, penso que a situação se explica também pela curiosidade mórbida de alguns que chegam a este espaço via motores de busca. OK. Cada um busca na grande rede aquilo que mais lhe interessa, mas algumas coisas vão além da excentricidade e da bizarrice. Recebi um comentário, não apenas contestando minha posição – de que não podemos concordar com a exploração da dor alheia, com a falta de respeito aos mortos, etc. -, mas fazendo apologia de um certo site que vive disso.

Não, você não leu errado. O site – que não vou linkar aqui – traz fotos de acidentes de trânsito, autópsias, suicídios, tragédias e até “mortes por doença” e “lixamentos” (sic). O menu avisa que há vídeos, mas muitos links estão quebrados. Seu autor defende assim as suas idéias:

“Sr. Rogério christofoletti. Eu tenho um site que mostra tudo isso que você falou. Mas discordo do comentário acima citado. Meu portal tem sim fotos chocantes de tragédia , acidentes e muito mais , mas meu intuito é orientar pessoas com fotos dramáticas. e não aproveitar da dor alheia . Meu portal é utilizado aqui na cidade onde moro , nas palestras de cfc e nas aulas de novos motorista afim de orienta los que a vida levada de forma indevida pode levar a caminhos trágicos e que transito não é brincadeira . A respeito de outras fotos postada que o conteúdo não se enquadra em vitima de acidente de transito podem também ter seu conteúdo como educativo. As fotos são todas trabalhadas afim de preservar a privacidade do indevido , mesmo morto tem familiares e amigos. Já recebi vários relatos que indicam que Motoristas , Jovens e outros que visitarão o site ficão com medo e come são agir de maneira mais cuidadosa seja no transito ou em outras situações da vida. Mas enfim , existem 1000 e 1 maneira de se educar e está foi a que eu escolhi. Carlos A C Souza”

Retirei hoje o comentário deste senhor de meu blog.

Por diversas razões:

1. Não vou dar links ou divulgar esse tipo de iniciativa.

2. Não acredito que educação se faça assim. Educação pelo medo, não!

3. O site traz uma advertência em sua home de que a iniciativa atende ao Código Nacional de Trânsito (Lei nº 9503/97). O autor quer enganar os incautos dando a impressão de que o site é de caráter educativo. Educativo uma ova!!! Basta ler o Capítulo VI da mesma lei e perceber a diferença entre as coisas.

4. O site tem a cara de pau de – após oferecer cadávares e mais cadáveres em situação calamitosa que não apenas choca, mas desrespeita a perda e a dor dos familiares – trazer no seu rodapé um banner de solidariedade a familiares e amigos das vítimas do acidente da TAM, do mês passado.

5. O site é desrespeitoso, rancoroso, moralista, sensacionalista – basta ver o layout com cores quentes berrantes e gifs animados – e de extremo mau gosto. Sem contar as chamadas do tipo “Só mortos”. O site comemora que mostra o que a TV não mostra.

6. Duvido que o dono do site tenha declarações de cessão de imagem de todas as fotos em que aparecem pessoas vitimizadas. E se ele não possui tais documentos está conflitando frontalmente a Constituição Federal e o direito de imagem, entre outras convenções inclusive internacionais. As vítimas clicadas não podem reclamar seu direito à inviolabilidade da imagem, não podem reivindicar anonimato, preservação de imagem.

Nojento! Chocante!

Este site não está sozinho, há outros por aí, claro. Mas este em particular chega a revoltar de tanto desrespeito com a vida humana, de tanta chacota com a dor dos outros, de tanta ignorância sobre o que seja educar pelas imagens.

Num ambiente exasperante como esse fica até absurdo falar em “responsabilidade”, em “ética na web”, em “auto-regulação de conteúdos”,  em  “conduta civilizada”…

Um nojo!

sobre entrevistas e jornalistas 2

Los Hermanos têm um karma com repórteres “bem preparados” para entrevistas.

Veja como a repórter da Globo de Brasília troca o nome do vocalista (Marcelo Camelo vira Marcelo Campelo) e veja como não sabe nada de música (para ela, o grupo fez parcerias com Elis Regina!!).
Por fim, note que Rodrigo Amarante sacaneia com a moça, repetindo o “Campelo”…

Nesta, a performance dos repórteres do Ceará é aterradora. Trocam o nome do entrevistado, confundem “boca a boca” com “bate boca”, não sabem quem compôs o quê…

Isso que é profissionalismo!!

sobre entrevistas e jornalistas

António Fidalgo deu antes; Marcos Palacios repetiu; e toco de novo…

Sabe o que acontece quando o repórter não se prepara para a entrevista?

Acontece isso… assista!

mais código de ética

A Carta de Vitória, documento resultante da Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, não foi divulgada ainda porque passa por revisões e formatação. Mas Fernando Paulino, da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas de Brasília, me repassa texto do vice-presidente da entidade, Antonio Carlos Queiroz, dando uma geral no novo Código de Ética, aprovado no final de semana.

Reproduzo…

 

Aprovado o novo Código de Ética dos Jornalistas

Reunido nesse final de semana em Vitória, Espírito Santo, o Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas reformou o Código de Ética da categoria, em vigor há 22 anos.

O novo texto incorpora princípios da Constituição de 1988 e obrigações definidas em estatutos e códigos de direitos especiais, como o dos consumidores, dos idosos, das crianças e dos adolescentes, e de minorias.

O novo Código de Ética também leva em conta os avanços das novas tecnologias.

Um exemplo de mudança foi a inserção no documento do artigo segundo o qual “a presunção da inocência é um dos fundamentos básicos da atividade jornalística”. Como este é um princípio constitucional, sua incorporação pode parecer redundante à primeira vista. Na verdade, reflete a preocupação política de lembrar aos jornalistas que eles não são cidadãos melhores do que os outros, nem estão acima da lei. O desafio é combater a atual disposição de certos meios de comunicação que se arvoram em polícia, promotoria e juizado ao mesmo tempo, denunciando, julgando e punindo pessoas com a execração pública, muitas vezes sem elementos de prova e sem conceder-lhes o direito de resposta.

Outro avanço foi a adoção da cláusula de consciência, prevista em códigos de ética de jornalistas de vários países, e já reconhecida, por exemplo, pela Justiça de São Paulo. De acordo com a cláusula, o jornalista poderá se recusar a executar pauta que se choquem com os princípios do Código ou que agridam as suas convicções. Para evitar distorções ou abusos, ressalvou-se que essa disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para o profissional deixar de ouvir pessoas com opiniões contrárias às suas.

Entre outras disposições, o novo Código de Ética prescreve a obrigação do jornalista de informar claramente à sociedade quando seu trabalho tiver caráter publicitário ou quando utiliza recursos que modifiquem as imagens originais, como a fotomontagem. E determina que o profissional não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada, como o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo se houver a exigência de esclarecimento de informações de relevante interesse público, e desde que esgotadas todas as possibilidades convencionais.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) deverá divulgar massivamente o novo Código de Ética dos Jornalistas nas próximas semanas, assim que a comissão de redação final, eleita pelo Congresso Extraordinário de Vitória, terminar seu trabalho. Da comissão participam dois representantes do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal: o vice-presidente, Antônio Carlos Queiroz, e o membro da Comissão de Ética, Fernando Paulino.

(do NR-Internet)

fenaj e o novo código

Neste final de semana, a nova diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas tomou posse.
Na mesma ocasião, durante o Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, a categoria discutiu e revisou o seu Código de Ética. O texto final ainda não está disponível na página da Comissão Nacional de Ética e Liberdade de Imprensa da Fenaj.

sobre fotos de acidentes e crimes

Menos de uma semana após a queda do Airbus da TAM em Congonhas, fotos dos destroços da aeronave e de algumas vítimas já circulavam pela internet. Nem é preciso dizer o horror das imagens de corpos mutilados, total ou pacialmente carbonizados, contorcidos. Depois do choque, a gente se pergunta: de onde veio isso? quem tirou essas fotos? será que os próprios peritos, policiais ou bombeiros fizeram vazar essas imagens? em nome do quê? e o que ganham com isso?

Em Santa Catarina, no final de julho, um crime brutal teve circunstâncias semelhantes. Um garoto de 12 anos foi brutalmente assassinado, violentado sexualmente e teve suas pernas decepadas. O suspeito é um coleguinha de 16. O motivo alegado: briga por conta de videogame. Poucos dias após a brutalidade, fotos igualmente terríveis circularam por email e movimentaram chats e comunidades virtuais. Mais uma vez, a gente se pergunta: como isso foi acontecer (o crime e a disseminação das imagens) ? por que acontece? como? em proveito de quem?

Claro que não é a primeira vez que isso acontece. Nos anos 90, quando do acidente que matou os integrantes do grupo Mamonas Assassinas, fotos do local do desastre também foram distribuídas pela grande rede. Imagens dantescas, inomináveis, repugnantes.

“Se algumas pessoas divulgam essas imagens é porque outras querem ver”, explica uma psicóloga em reportagem de hoje do Diário Catarinense. Aliás, o DC traz uma página praticamente sobre o vazamento das imagens do violento crime citado acima. A psicologia arrisca explicações sobre a compulsão de mostrar atrocidades e a vontade quase incontrolável de querer consumi-las. Existe muita coisa envolvida em situações como essa: exploração da dor alheia, desrespeito às vítimas e a seus familiares, crime por vazamento de informações em investigação, ética, direito de imagem, direitos e garantias fundamentais das pessoas, sensacionalismo na mídia, ética jornalística (ou a falta dela), honra à memória dos mortos

Por outro lado, se tanta coisa é mostrada, outras tantas deixam de ser. Marcos Palacios relata uma experiência que fez: buscou no Google palavras-chave associadas ao acidente da TAM e não chegou a encontrar nenhum resultado, embora o evento tenha sido amplamente coberto pela mídia. O que teria acontecido?, pergunta-se Palacios.

vitória, hoje: congresso e posse

Toma posse hoje à noite a nova diretoria da Fenaj. Isso acontece na abertura do Congresso Extraordinário de Jornalistas, em Vitória (ES), onde será definido um novo código para a categoria. O evento vai até domingo. Já tratei disso aqui, mas voltarei. Deixa só eu respirar.

um novo código de ética

Começa depois de amanhã, dia 3, o Congresso Extraordinário dos Jornalistas, evento que vai discutir e definir um novo Código de Ética para a profissão. O encontro vai até o dia 5, e acontece no Hotel Bristol, bem em frente à Praia de Camburi, em Vitória. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) anuncia que delegações de vinte estados brasileiros estarão presentes, e esse alarde não é mera propaganda. O próprio Código de Ética em vigência estabelece que reformas ao documento só podem acontecer em congressos nacionais da categoria, na presença de ao menos dez delegações (art. 27).

Participei menos do que gostaria do processo de discussão do novo Código. Como leciono a matéria e como pesquiso na área, sempre me dispus a discutir a questão. Em fevereiro do ano passado, elaborei uma proposta de novo código e enviei à comissão que sistematizava as sugestões. Em maio, fui a Londrina para o 1º Seminário de Ética no Jornalismo, mas me frustrei á época porque pensei que discutiríamos a coisa por lá. Qual nada. Foi tirada uma comissão para ordenar o material e encaminhar as mudanças, apresentando as minutas do código à categoria.

Dei uma olhada na proposta e não vejo muitas mudanças. Veja você também.

Me organizei para ir a Vitória para o Congresso Extraordinário, mas as aulas e os compromissos me impedem. Vou passar.

De qualquer forma, acredito que um novo código de ética para o jornalista brasileiro é uma questão imperativa. Mas é preciso ter em conta uma coisa. Não basta que se tenha um excelente código se não forem fortalecidas as comissões de ética da Fenaj e dos sindicatos, pois são elas que recebem as denúncias, que encaminham os processos e aplicam possíveis sanções. Já escrevi isso em Jornalismo em Perspectiva (Ed. UFSC, 2005), e em Monitores de Mídia (Ed.UFSC-Univali, 2003). Então, é um processo lento, de educação da categoria, de convencimento da sociedade de que se pode ter um bom código e de que ele é eficaz, eficiente e serve à coletividade e não apenas aos profissionais.

Volto a esse assunto depois.

ética antes e depois da rede

Em Infotendências, Pere Masip cita Jane Singer, da Universidade de Iowa, que reafirma os mesmos preceitos da ética jornalística antes da web para a conduta em rede. Isto é, nada muda. Os valores se mantêm. Muda apenas o suporte, mas não a relação humana.

Este assunto me interessa por completo, já que é muito fácil cair na tentação de se querer inventar a roda a cada atualização do Windows, por exemplo, ou a cada traquitana da moda na web.

Para discutir mais sobre o tema, dou outros dois links:

http://www.mediachannel.org/wordpress/2007/04/20/new-media-culture-challenges-limits-of-journalism-ethics

http://www.ojr.org/ojr/wiki/ethics

sobre o top-top e o direito de imagem (2)

Outro leitor deste blog, Celio Penteado, discorda do que escrevi sobre o fato de jornalistas terem desrespeitado o direito de imagem dos assessores do governo ao gravarem suas reações. Ele escreve: “Que bobagem essa história de autorização do uso da imagem. Se for assim não se poderia documentar um seqüestro. Deveríamos pedir primeiro, e por escrito, a autorização do seqüestrador. Se quisesse manter a privacidade, deixasse a cortina fechada”.

Também concordo em partes. Começo pelo final. Claro! Se o governo quer privacidade, que construa as condições para tal. No episódio, era fácil. Basta fechar as cortinas. Basta zelar pela confidencialidade. Não se expor. Como fez o presidente: não apareceu. Só o fez 72 horas depois. (Que agilidade! Onde estava Franklin Martins, que poderia aconselhar melhor o presidente?) Já disse aqui: quem faz a foto é o modelo, quem zela pela pose é o fotografado. E em tempos de regime das imagens, todo cuidado é mínimo.

Entretanto, a questão do direito de imagem vai mais além. Segundo o direito, a coisa é assim: todas as pessoas têm direito sobre as suas imagens e não podem abdicar delas. O que podem é autorizar a exploração e o uso delas. Todas as pessoas, inclusive os famosos, têm esse direito.

Neste sentido, a Justiça entende que há dois tipos de imagem: imagem-retrato e imagem-atributo. A primeira se refere ao físico, ao visual, à projeção visível e apreensível de alguém, como um retrato da pessoa. A segunda tem relação com sua reputação, decoro, imagem pública, honra, etc. Por que os juristas dividem? Porque, na verdade, a exposição de alguém fazendo algo pode não constituir em danos para essa mesma pessoa e só o fará quando for violada a imagem-atributo. Explico: se sou fotografado numa praia da Espanha conversando com a Daniella Cicarelli, não posso argumentar que sofri algum dano com essa exposição. Agora, se estiver na mesma praia me esfregando em Marco Aurélio Garcia (em pleno ato de traição à minha esposa e em flagrante atentado ao pudor), posso argumentar que a veiculação das imagens foi nociva a minha pessoa. Foi nociva porque constrangeu a mim e aos que me cercam, e porque me vinculou a alguém com quem eu não gostaria de ser visto.

Nesse episódio, eu poderia processar o fotógrafo? Sim. Mas eu teria legitimidade? Aí, já são outros quinhentos. Primeiro, a coisa aconteceu fora do país e lá as leis são outras. É necessário observar se a coisa se aplica. Segundo, podem argumentar que eu estava fazendo duas coisas erradas (adultério e atentado ao pudor, tipificados em nosso Código Penal) e meus delitos são maiores que os danos que sofri com a violação de minha imagem. E é justamente aí que as coisas emperram no escritório do advogado: quando o causídico vê a coisa nesse impasse, orienta – na maioria dos casos – a não entrar na Justiça para não fazer mais alarde ao caso, e porque a causa tem altos riscos de ser perdida.

É claro que o meu exemplo é canhestro. Mas as condições de análise podem ser plenamente transpostas ao episódio do top-top. Marco Aurélio e seu assessor tiveram sim seu direito à imagem desrespeitado pelos jornalistas que os flagraram vendo o Jornal Nacional. Mas não têm força, legitimidade ou – no popular – moral para contestarem as imagens veiculadas, cujo significado simbólico é mais arrasador que a gravação das cenas. 

sobre o top-top e o direito de imagem (1)

No momento em que você lê este post, é muito provável que este assunto nem mais seja pauta na mídia, que os meios de comunicação tenham voltado suas cabeças para outro “Ouro do Brasil” ou ao “deslizamento de parte da encosta de Congonhas”. Mas quero retomar o tema, até motivado por alguns dos comentários que recebi neste blog.

De Portugal, Cadeiradopoder releva os gestos dos assessores do governo brasileiro que trouxeram indignação em meio ao acidente aéreo de Congonhas na semana que passou. Para quem não se lembra, basta voltar ao meu post anterior. “Penso que os gestos dos assessores não têm assunto nenhum. Pode-se criticar outras acções ou falta delas por parte do Governo, agora dar importância a um gesto (igual ou menos mau do que o que o jornalista que captou as imagens deve ter feito) não acrescenta nada à informação”, diz Cadeiradopoder.

Concordo em partes. As imagens do top-top não trazem informação adicional às causas do acidente ou às condições dos aeroportos brasileiros, ou à crise aérea como um todo. Mas, por outro lado, revelam de forma clara e acintosa o que muitos de nós não sabia. Se foi um gesto de “alívio” – como se defendeu Marco Aurélio Garcia – ou de “comemoração indevida” – como alfinetou a oposição -, pouco importa. O que importa é que nenhum de nós esperava AQUELA REAÇÃO, que em nenhum contexto é respeitosa, serena ou preocupada diante das novas informações que traziam a reportagem do Jornal Nacional, assistida pelos assessores, cuja reação foi flagrada pela própria Globo.

Marcia Benetti Machado rechaça a resposta de Marco Aurélio Garcia, e reconhece na sua fala uma contradição dilacerante: ele disse ter tido aquela reação em um momento privado. Ora, ele tem uma ética privada e outra pública, indaga sagazmente Marcia. E é neste ponto que a coisa me interessa primeiro: quem está no governo, quem representa outrem, quem ocupa um cargo de representação não pode argumentar condutas personais quando está no exercício destas qualidades. Como aconteceu com Rubens Ricupero em 1994, lembra? Não dá. Não pode, porque a massa – no caso, os patrões, aqueles que pagam impostos e alimentam o Leviatã – porque a massa não tolera, indigna-se, cobra postura.

E faltou isso mesmo: postura, pudicícia, humildade, respeito aos fatos. Se foi um desabafo ou não, o fato é que Marco Aurélio e o outro assessor deixaram escapar que o governo tratava do assunto na arena da disputa, da política, da atribuição de culpas e responsabilidades. Não era o caso. Não deveria ser assim. Não poderia… O governo não tratou como um problema que fere a Nação, que vitima os nossos, que ceifa vidas de brasileiros, como Rudolph Giuliani e o governo Bush fizeram em setembro de 2001. Tanto que o governo não apareceu em pessoa nas determinantes horas seguintes à tragédia.

Resumindo. Pensando em ética pública, em ética geral, num ambiente democrático, numa atmosfera republicana – não é assim que Tarso Genro gosta de dizer? -, o governo agiu mal de cima a baixo. A indignação nos meios de comunicação e do público expõem esse descolamento moral que assistimos.

eleições na fenaj: deu o esperado

Venceu a Chapa 1, liderada por Sérgio Murillo de Andrade, que agora segue para um segundo mandato à frente da entidade classista dos jornalistas.

O resultado oficial  foi:

A chapa 1, Orgulho de ser FENAJ, encabeçada por Sérgio Murillo de Andrade, foi eleita com 3.614 votos. A chapa 2, encabeçada por Dorgil Marinho, obteve 1239 votos. Já para a Comissão Nacional de Ética, foram eleitos Armando Rollemberg (2.794 votos), Washington Mello (2.526 votos), Carmem Lúcia Pereira (2.478 votos), Regina Deliberai (2.356 votos) e Rossini Barreira (2.347 votos). Os demais candidatos, Arthur Poerner e Venício Lima, obtiveram 1.254 e 1.368 votos, respectivamente”.

Sérgio Murillo, a exemplo do primeiro mandato, tem uma pedreira pela frente: quer retomar a discussão do Conselho Federal de Jornalismo, a regulamentação da categoria e as investidas do empresariado para precarizar as condições de trabalho dos jornalistas. Sérgio tem fibra, mas a diretoria patinou bastante no primeiro mandato, cometendo erros fatais – como o encaminhamento político desastrado do projeto que criava o CFJ e o apoio ao fechamento da RCTV por Hugo Chávez.

A nova diretoria toma posse no Congresso Extraordinário dos Jornalistas, que acontece de 3 a 5 de agosto em Vitória (ES). O evento deve definir um novo Código de Ética para a profissão.

cenas do top-top, ética na política e a ética jornalística

Marcos Palacios convida e eu topo a tarefa. Ele se refere ao vídeo obtido de forma clandestina que mostra importantes assessores do governo federal vendo a matéria do Jornal Nacional que sinalizaria falhas de ordem mecânica como causadoras do acidente da TAM esta semana. Os assessores deixam escapar algum júbilo por meio de gestos obscenos. Um faz o tradicional top-top, batendo a mão espalmada sobre a outra em forma de punho. Outro estende os braços e os contrai, como se estivesse remando…

Se você não viu o vídeo, acesse aqui.

Veja também o pedido de desculpas de Marco Aurélio Garcia.

Mas vamos aos fatos:

1. As imagens dos assessores foram obtidas sem as suas autorizações, pela fresta de uma janela, do lado de fora de um prédio.

2. Os gestos não foram feitos publicamente. Os gestos parecem demonstrar reações privadas dos assessores, mesmo que sejam revoltantes a quem assiste.

3. Mesmo pessoas públicas, como os assessores em questão, têm direito à privacidade.

4. Mesmo pessoas públicas, como os assessores do episódio, podem ter reações infelizes, basta lembrar do caso da ministra Marta Suplicy.

5. Tecnicamente, os jornalistas da Rede Globo invadiram a privacidade dos assessores.

6. Mas tecnicamente também estavam fazendo o seu trabalho, marcando de perto o governo nos dias seguintes à maior tragédia da aviação brasileira.

7. Embora tenham desrespeitado um direito particular, os jornalistas o fizeram em nome do interesse público. Pelo menos é o que se depreende, já que os jornalistas em questão não são notadamente paparazzi e os seus objetos não são celebridades. O flagra foi importante, embora traga também elementos de ordem política. A imprensa – e a população, pode-se dizer – esperava uma reação rápida do governo frente ao acidente, mas o Planalto demorou a aparecer.

8. A imprensa ficou em cima, e pinçou a imagem dos assessores, trazendo para dentro da arena o governo. Arrastando o governo para o debate.

9. A invasão de privacidade justifica a obtenção daquelas imagens? A cobertura do acidente poderia prescindir daquelas imagens, pois elas não trazem nenhuma informação adicional sobre as causas do desastre. Trazem, sim, elementos políticos que corroem ainda mais as desastradas ações do governo nesta crise aérea. Por outro lado, a invasão de privacidade traz elementos desconhecidos do público, como a postura de compostura de autoridades em alguns momentos. O episódio lembra o flagra de câmeras da própria Globo em 1997, quando o ministro Rubens Ricupero disse as célebres frases: “O que é bom a gente mostra. O que é ruim, esconde. Eu não tenho escrúpulos quanto a isso”. Deu no que deu: o ministro do Real caiu em seguida. Afinal, parabólicas em todo o Brasil retransmitiram de forma inconfidente as confissões do chefe da Economia nacional.

10. Um velho ditado diz o seguinte: quem tira a foto não é o fotógrafo, mas o modelo. Isto é, a pose quem faz é o objeto da câmera. Neste sentido, celebridades e famosos, notáveis e autoridades devem sempre zelar (ou super zelar) por suas posturas, mesmo em locais prvados.

11. Os assessores poderiam processar a Globo por uso indevido da imagem? Tecnicamente, sim. Afinal, não lhes foi pedida autorização para uso da imagem, patrimônio inabdicável de toda pessoa. Entretanto, compensaria buscar reparação na justiça? Evidentemente que não. Pois o constrangimento gerado pelas imagens despe de qualquer legitimidade uma autoridade que age de forma tão desrespeitosa com o fato.

12. Resumo da ópera, pela minha ótica: A mídia estava no calcanhar do governo e setores subalternos do Planalto se deixaram flagrar em momentos infelizes. O governo errou (mais uma vez) na estratégia de se comunicar com o público, atrasando a sua aparição diante da tragédia. Os jornalistas agiram em nome do interesse público, muito possivelmente motivados pelas prováveis repercussões políticas que as imagens trariam. Os jornalistas desrespeitaram o direito à privacidade dos assessores, mas no cenário atual, de constantes frustrações do público diante da crise aérea, isso pouco importa. As imagens não ajudam a explicar o acidente, nem trazem qualquer alento às vítimas.

derrapagem na pista e no jornalismo

A tragédia do vôo 3054 numa navegação muito particular…

Clique 1. Marcia Benetti se enfurece em seu blog com a ausência de informações. Lá do Rio Grande do Sul, ela se queixa do despreparo de jornalistas e da ausência de autoridades.

Clique 2. Também do Rio Grande, Alex Primo denuncia a lambança de um repórter que confia em google, mas não checa as informações devidamente.

Clique 3. O Intermezzo monitora a cobertura do acidente.

Clique 4. O UOL publica foto adulterada e depois se desculpa.

Clique 5. Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, critica a mania de pré-julgamento da imprensa nacional em casos como o de Congonhas.

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não foi isso que eu disse…

Alex Primo deu entrevista para o Link, do Estadão, e não gostou nadinha do que o repórter fez. Por isso, publicou em seu blog o que queria ter visto e que realmente disse. O assunto? O futuro da web.

o bicho tá pegando

Matéria de capa da revista Imprensa deste mês afirma que 86% dos jornalistas brasileiros já sofreram algum tipo de pressão, e que quanto menor a cidade, menor a liberdade de imprensa. Veja.

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