ainda sobre os conselhos de comunicação

Sei que o assunto anda pegando fogo e tem gente muito sensata e gabaritada discutindo. Mas não resisti e fiz um rápido comentário no objETHOS sobre a gritaria em torno da criação de conselhos estaduais da comunicação. Ficou curioso? Veja um trechinho:

A instituição de conselhos de comunicação permite regular o setor. É preciso sim criar e implementar regras para a indústria da comunicação. Isso não significa regrar ou restringir seu conteúdo. Aí está o ponto.

Quer mais? Leia na íntegra no Observatório da Ética Jornalística, aqui.

veja derrapa. de novo

A edição que está nas bancas da revista semanal de informação mais influente do país é categórica: o governo Lula não quer jornalismo nenhum e está fazendo de tudo para cercear a liberdade de imprensa.

Impositiva, editorializada, recheada de adjetivos e carente de dados, a matéria de capa – A imprensa ideal dos petistas – é assinada por Fábio Portela. Em oito páginas fartamente ilustradas, a Veja desfere frontais ataques ao governo numa espécie de revide após declarações críticas do presidente Lula na semana passada. Lula se queixava da imprensa, o que é natural e esperado de qualquer governante. Veja transforma as reclamações em ações concretas do governo para deter os meios de comunicação e os jornalistas. Este é o raciocínio, que – convenhamos – não se sustenta pela absoluta falta de dados da realidade e argumentos no plano discursivo.

A revista exagera.

Sim, estamos a menos de uma semana das eleições e os ânimos estão inflamados. Mas isso não justifica exagerar.

Se um estrangeiro ou alienígena lesse a reportagem, sua impressão seria a de que vivemos num país ditatorial, que não existe liberdade individual e que o exercício profissional dos jornalistas é impedido pelas instituições. E isso não é verdade. A questão da liberdade de expressão e de imprensa é um nervo exposto, delicado, quando se discute solidez democrática, estabilidade política e vigência de estado democrático de direito. Historicamente, há uma relação tensa entre governos e mídia, pois alguns interesses de lado a lado não coincidem e, às vezes, se contrapõem. Os governos têm suas funções, a mídia também. Consagrou-se para o jornalismo a tarefa de fiscalizar os poderes, o que significa denunciar abusos, investigar, revelar e apresentar à sociedade sintomas do mau funcionamento das relações entre estado e cidadãos.

Com isso, reafirmo: é natural que os governantes se queixem da imprensa. Assim como é natural os jornalistas reafirmarem a defesa das liberdades de imprensa e expressão, e perseguirem sua função de cães de guarda frente os poderes instituídos. Mas a própria reportagem da Veja não sustenta o pânico que tenta instaurar. Das seis “ameaças” do governo apresentadas num box da página 79, nenhuma se efetivou. Por quê? Por várias razões, entre as quais o fato de que o país é mais complexo do que supõe a revista e que as instituições, se e quando contrariadas, atuam politicamente, fazendo funcionar um sistema de pesos e contrapesos para estabilizar a democracia.

Por isso, a reportagem da Veja derrapa. É mais campanha antigoverno do que peça jornalística. Basta contar as fontes ouvidas. Não se ouve o lado denunciado. O governo ou fontes ligadas a ele são apenas mencionadas; não foram procuradas, ouvidas ou entrevistadas. Ouvir os lados é essencial no jornalismo. Ser parcial e não promover a pluralidade de opiniões e versões é tão ou mais perigoso quanto as “ameaças” do governo…

A ministra caiu, mas não só isso…

Frank Maia manda bem again!

dilma, serra e a quebra de sigilo na receita

Meu amigo Frank Maia, mestre na síntese do pensamento humano, oferece o melhor do noticiário sobre essa questão:

os 10 piores defeitos dos jornalistas

  1. Faltar com o rigor ou a ética.
  2. Acreditar que é o único que conhece “a verdade”.
  3. Achar que é infalível.
  4. Pertencer a uma falsa elite de “jornalistas medalhões”.
  5. Criar manchetes a partir de perguntas capciosas.
  6. Autocensurar-se por vários motivos.
  7. Acreditar que é juiz ou salvador.
  8. Confiar demais nas fontes.
  9. Esquecer que seu objetivo principal é informar as pesssoas.
  10. Acomodar-se em recursos fáceis como o “copia-e-cola” ou “google”.

Calma. A lista não é minha.

A jornalista Esther Vargas conta que a lista surgiu a partir da pergunta “Qual é o principal defeito de um jornalista?”, lançado na página Clases de Periodismo no Facebook.

Você concorda ou discorda? Antes, conheça a lista inteira.

jornalismo em rede, e redes sociais no jornalismo convencional

Os grupos de mídia brasileiros demoram pra se mexer.

O jornal mais influente do país – a Folha de S.Paulo – só foi perceber que as mídias sociais podem ajudar seus canais convencionais de jornalismo há pouquíssimo tempo. Com isso, há três meses apenas, criou a função de editor de mídias sociais, cargo para coordenar ações nesses vetores. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, os britânicos não só absorvem o poder das redes há mais tempo como já dispõem de estudos interessantes para gestores, jornalistas e estudiosos. Cito dois casos bem recentes e cujos resumos executivos que podem ser lidos rapidamente. Em The value of networked journalism, Charlie Beckett avalia como o jornalismo praticado em rede já faz parte da mídia mainstream da Inglaterra e como ele agrega valores para os meios convencionais. A publicação tem 20 páginas, e é resultante de uma conferência que reuniu o BBC College of Journalism, o Channel 4 TV, entre outros, em junho passado

Accountability through Social Media at the BBC é um resumo de um trabalho assinado pela Unthinkable Consulting e data de abril deste ano. A empresa avalia e sugere ações de como a poderosa BBC deve atuar com transparência em redes e mídias sociais. A publicação tem quatro páginas, e as preocupações ali esboçadas poderiam ser parcial ou integralmente assimiladas pelos grupos de mídia brasileiros…

(as dicas vieram de @agranado)

games e tv: tudo o que é ruim é bom pra você

É com essa afirmação provocativa que um dos caras mais antenados e inteligentes da atualidade chacoalha o nosso senso comum. Steven Johnson tem três filhos, 42 anos, e está baseado no Departamento de Jornalismo da New York University. E a sua provocação neste livro é esta: a cultura de massa que costumamos culpar pela idiotia massiva não imbeciliza ninguém. Pelo contrário: games, TV, internet e cinema têm feito com que fiquemos mais inteligentes nas últimas décadas!

Num dos mais comentados livros de 2005, o autor contraria os argumentos fáceis que satanizam as mídias massivas, principalmente quanto ao “baixo nível” da TV, às constantes cenas de violência gratuita e sexo abundante e por aí vai. Johnson apresenta dados que mostram, por exemplo, que os seriados atuais têm narrativas mais complexas, menos maniqueísmo e recursos tecnológicos que permitem uma outra experiência de fruição. Equilibrado, o autor propõe uma análise que transcende a habitual – e injusta – comparação entre a leitura de livros e os gestos de assistir a TV e jogar videogames. A comparação é injusta porque são complexos cognitivos muito diferentes. Não se trata de melhor ou pior, mas de operações distintas. Se por um lado, não se pode exigir de um videogame o aprofundamento psicológico de personagens que se encontra num romance; por outro, também não se pode esperar que o leitor tenha o mesmo “sistema de recompensa” dos games durante a leitura do tal romance. Cada meio oferece um tipo de experiência.

Steven Johnson mostra que cognitivamente os produtos da TV, do cinema, da internet e dos games têm exigido mais dos seus públicos do que tempos atrás. A complexidade narrativa, a não-linearidade do tempo, a ambiguidade moral, o recurso a paralelismos e a múltiplos focos de ação, tudo isso vem fazendo com que treinemos mais nossos cérebros. E isso é resultado de uma evolução paulatina na indústria de massa. Graças aos seriados rasos dos anos 70 é que hoje absorvemos com naturalidade séries mais complicadas como Lost e Fringe, por exemplo. Graças a quilômetros de filmes com explicações roteirizadas que aprendemos os códigos cinematográficos que nos permitem ter a sensação da previsibilidade de algumas cenas, de alguns gêneros.

Mas engana-se quem pensa que Steven Johnson sugira que joguemos fora as formas convencionais de informação e diversão. Não. Ele reconhece que TV e games nos tornam mais inteligentes, mas defende fortemente a leitura, os estudos habituais e as experiências que acumulamos desde então. Ele deplora a violência e o sexo gratuitos, e insiste na importância de pais acompanharem seus filhos no consumo das mídias e na sedimentação de valores morais verdadeiros. Johnson só não é careta, hipócrita e reacionário. Apontado pela Newsweek como uma das cinquenta pessoas mais importantes da internet, Steven Johnson é arejado, equilibrado e disposto a enfrentar o senso comum.

No Brasil, “Everything bad is good for you” foi editado pela Campus, mas a tradução dá umas derrapadas. A começar pelo título que se tornou “Surpreendente!”…

o estupro, a denúncia, o jornalismo e as redes sociais

Na semana que passou um email explosivo se espalhou como rastilho de pólvora na Grande Florianópolis: adolescentes filhos de gente importante da mídia e da elite teriam violentado uma jovem na cidade. A denúncia se disseminou pelos porões da internet, sob a assinatura difusa de “mães do Colégio Catarinense”. Cocei os dedos para escrever sobre o assunto, mas não tive elementos suficientes para fazer uma análise mais equilibrada, mais detida, mais focada.

O César Valente fez isso hoje, e recomendo a leitura no blog dele.

a morte no jornal e o jornalismo ferido

Uma reportagem cotidiana sobre um crime banal vem causando algum alvoroço nas redes sociais e em listas eletrônicas por aí. Assinada por Afonso Benites e publicada em 28 de maio passado na Folha, a matéria provoca mal estar por conta de dois trechos que, de jornalísticos, nada têm. Leia, com meus grifos:

José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90). Era dia de promoção —a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.

As queixas que colhi por aí são de duas naturezas: técnicas e éticas. Em alguns comentários, elas se fundem. Mas de maneira geral, as reclamações se resumem a três:

  • A Folha de S.Paulo estaria fazendo merchandising no meio de uma peça jornalística, contrariando uma antiga divisão de territórios no terreno da comunicação e no interior do próprio negócio das notícias: jornalismo de um lado e publicidade de outro. É a velha separação Igreja-Estado, dois poderes na sociedade que devem se respeitar, conviver em relativa harmonia e preservar suas autonomias, sem mútua intervenção.
  • A Folha de S.Paulo estaria banalizando a violência urbana na medida em que notícias policiais estariam se prestando a veicular informações de cunho publicitário. Pouco importam as três vítimas esfaqueadas no hipermercado. Interessa mais é aproveitar a situação para evidenciar produtos e promoções.
  • A Folha de S.Paulo teria ultrapassado o limite do mau gosto, do respeito à vida alheia, tripudiando com perigosa ironia o fato noticiado e suas circunstâncias.

Confesso que a leitura da matéria me causou um tremendo estranhamento. Não me soou bem, me pareceu sarcástica, oportunista (no sentido mais arrivista), infeliz. Quis me manifestar nas listas eletrônicas, mas me contive. Optei por sentir as reações e em todos os casos foram críticas, quando não raivosas.

Um dos poucos a escrever um pouco mais serenamente sobre o caso foi Marcelo Träsel, que oferece uma interpretação do caso. Entre outros aspectos, ele não vê publicidade descarada na matéria e o crime maior está em como o jornalismo se alimenta de assassinatos e outros delitos para se prevalecer. “A meu ver, a sociedade não perderia nada se as histórias policiais fossem simplesmente banidas dos noticiários”, escreve Träsel. Pelo que pude entender, o autor exime o repórter da responsabilidade sobre o produto final, concede-lhe o benefício da dúvida, mas não poupa a indústria que se nutre do sangue.

Penso ligeiramente diferente. A indústria é implacável e muitas vezes se alimenta de crimes, de escândalos, de polêmicas para engordar seu noticiário, hipertrofiar sua audiência. Mas repórteres, redatores e editores também têm lá suas responsabilidades. No processo de produção jornalística, muitas mãos moldam, alteram e às vezes descaracterizam o texto original. O produto final pode ser muito diferente do que saiu do teclado do repórter, e responsabilidade se dilui. Mas não evapora. Dar o benefício da dúvida ao repórter é sensato pois faz prevalecer o princípio da presunção da inocência.

Mas o fato é que os elementos que causam estranhamento no texto de Afonso Benites poderiam ter sido simplesmente suprimidos. Por uma razão mais do que simples: não são jornalisticamente informativos. Basta voltar ao parágrafo e lê-lo sem os trechos grifados. Algo essencial fica de fora? Não, não fica. Essas sobras não têm estatuto jornalístico, mas contém informações que realçam características comerciais do produto – a faca – e da situação – um dia de uma promoção específica no hipermercado.

Por isso que o episódio inspira debates em torno da ética jornalística. A inserção na reportagem dos trechos grifados adiciona também elementos que contrariam o que convencionamos esperar do jornalismo. Ele é composto por informações que se orientam por interesses coletivos e públicos, e não por interesses de grupos e motivações primordialmente mercantis. Não porque o jornalismo seja melhor que a publicidade ou porque esteja acima do capitalismo. Mas porque o jornalismo se balize por valores que o aproximem mais da democracia do que do mercado. Historicamente, o jornalismo se desenvolveu como uma tecnologia social para as comunidades que servia. Na medida em que se aprimorava, a imprensa construiu em torno de si um conjunto de práticas que a credenciava como fiscal dos poderes, denunciadora de abusos, defensora da livre expressão e do pluralismo no pensamento. A sociedade foi delegando tais funções ao jornalismo, e este foi tecendo para si uma frágil, mas importante teia de sustentação: finalidade pública, função social.

O mal estar que senti ao ler a matéria de Afonso Benites – e pelo jeito não fui o único – é o sintoma do descolamento entre o que se vê no jornalismo e o que dele se espera. É o desvio de função que nos faz torcer o nariz. É uma indisfarçável sensação de estar sendo traído que nos preocupa, que nos indispõe.

O ruidoso episódio na Folha não mata o jornalismo, mas provoca uma incômoda ferida. Ela pode evoluir, arder, infeccionar. Mas também pode secar e cicatrizar. Qualquer diagnóstico é apressado… Irônico é perceber que não foi a faca quem feriu o jornalismo, mas o seu preço estampado na matéria.

termine já a sua tese ou dissertação!!!

Recebi de minha amiga Marcia Benetti, e repasso por haver altíssimo valor científico…

Oração para “destrancar” trabalhos acadêmicos

Você está na reta final da sua tese ou dissertação?
Você sente que existe uma força misteriosa que tira seu ânimo?  Faz seu orientador adoecer ou sumir do mapa inexplicavelmente? Seu computador quebra ou é roubado com todos os seus dados e análises? Ou melhor, os seus dados não tem explicação??

Lamento ser o portador dessa má notícia, mas… VOCÊ TEM UM EXU TRANCA TESE NA SUA VIDA!!!

Esta é a corrente da Nossa Senhora Destrancadora de Teses. Você deve evocar esta novena toda vez que for vítima de alguma das artimanhas do “Exu Tranca Tese” ou se quiser apenas proteção contra essa entidade!!!  Então, toda vez que sentir necessidade, faça a seguinte oração:

“Nossa Sra. Destrancadora das Teses, em ti confiamos para a proteção contra o Exu Tranca Tese, nos proteja de: Queimação de pen drive; bibliografia em alemão; visita fora de hora; linha no word que não sobe com “del”; fotocopiadora quebrada. Dá-me: encontros com o orientador no corredor da Universidade e   livro emprestado com data de devolução pra 2050.

Ah, senhora, livra-me também das perguntas indiscretas, das dúvidas fora de hora, e das certezas idem. Ajuda-me a lembrar dos nomes dos autores e da   pronúncia deles, assim como do modo como se faz notação de revistas.
Nossa Senhora, livre-me de pensamentos acerca de minha tese durante meu sono. Que eu possa dormir o sono dos justos impunemente, sem que eu tenha que me levantar ou acender a luz para anotar insights invasivos que detonam minha mente quando preciso descansar para mais um dia de batalha! Que tais pensamentos venham na hora certa, quando me sento diante de meu PC e eu não me torne um zumbi.

Ó Senhora, desperta no meu orientador uma enorme vontade de ler minha tese. Que ele a leia com olhos vigilantes, para não deixar passar nenhuma monstruosidade, mas também com olhos piedosos, para me deixar enfrentar a banca. E que a banca, Senhora, me dê os apertos que achar necessários, mas que ao final assine a poderosa ata, redenção final dos meus inúmeros pecados.

Nossa Senhora, meu orientador insiste em dizer que a minha tese está, entre aspas, uma merda, mas eu sinto que a Senhora vai me dar uma luz bem forte e lançar como de um passe de mágica, artigos que abram meu cérebro tão debilitado por tamanha pressão.

Minha Santa querida, já que eu fiz esta escolha na minha vida e sinto na obrigação de terminar, me dá forças para não matar um, e que este “um” não seja o meu orientador, porque ele ainda precisa assinar a versão final!
AMEM!!!!”

E não seja egoísta, repasse esta mensagem imediatamente a todos os seus amigos e alunos que estão passando pela mesma pressão senão o Exu não vai te largar e você vai passar o resto da sua vida “quase” terminando sua tese.

reality show pra valer…

Meu amigo Frank Maia dá uma real na realidade…

a quem interessa um jornalismo fraturado?

Enganou-se redondamente quem pensava que uma decisão do Supremo Tribunal Federal resolvesse por completo as questões mais importantes do jornalismo como profissão. A sentença que fez cair a obrigatoriedade do diploma na área para a obtenção de registro profissional não sepultou a questão, e só permitiu mais visibilidade às muitas fraturas que ajudam a compor essa combalida categoria. Hoje, passados oito meses do veredicto do STF, as fissuras são tantas que nem mesmo as entidades que poderiam atuar como pontos de aglutinação conseguem algum sucesso.

Talvez em poucos momentos os jornalistas tenham estado tão desunidos e divergentes

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) lidera uma campanha pela valorização da formação profissional e orienta seus 31 sindicatos filiados a trabalharem nesse sentido. Os sindicatos aquiescem e fazem figurar banners em seus websites, enaltecendo a importância dessa formação. No entanto, já há sinais evidentes de que há furos no barco. O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, por exemplo, já admite a sindicalização de não-diplomados. O Sindicato de São Paulo sinaliza que pode fazer o mesmo, e deve decidir sobre isso no dia 1º de abril.  No Espírito Santo, o sindicato não aceitou a proposta e se nega a receber não diplomados entre os seus quadros.

No caso catarinense, a decisão é altamente contestável, já que o assunto não passou pelo crivo da categoria em assembleia, tendo sido discutido só entre os diretores. Este é um tema político ou administrativo? É uma decisão cartorial que se move por consequentes dividendos de novos filiados ou é um movimento político para fragilizar a presidência da Fenaj, exercida pelo também catarinense Sérgio Murillo de Andrade? Difícil responder, já que as decisões dessa diretoria são tão transparentes…

A confusão se espalha

Mas a fragmentação no campo do jornalismo vai para além do movimento classista. Em diversos estados, as incertezas são tantas que se corre de um lado para o outro. A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, por exemplo, aprovou projeto de lei que obriga jornalistas que servem em órgãos públicos estaduais a terem diplomas na área. Em Roraima, projeto semelhante foi aprovado na Assembleia. No Amazonas, os deputados estaduais vetaram projeto do tipo, e em Mato Grosso do Sul, a Comissão de Constituição, Justiça e Redação da assembleia local deu sinal verde para a tramitação de um projeto de lei análogo.

Há projetos de emendas constitucionais que resgatam a obrigatoriedade do diploma tramitando na Câmara Federal e no Senado. Há divisões cada vez mais evidentes na categoria. Há divergências entre as unidades sindicais. Há cursos de Jornalismo fechando no país. Essas circunstâncias ajudam a compor um cenário complexo e emblemático na história da consolidação do jornalismo como uma profissão. É evidente que a falta de unidade fragiliza a categoria e não ajuda a sociedade a melhor compreender o jornalismo, sua natureza e suas atribuições. É evidente também que há flagrantes choques de interesses dentro e fora da categoria. Há quem adore ver o circo pegar fogo. Pior: há quem ache que se beneficia com isso. Mas ninguém lucra com um jornalismo fragmentado. Nem mesmo a classe empresarial, que poderia colher frutos com uma categoria dividida.

Numa lógica imediatista, os empregadores podem ganhar mais força nas negociações trabalhistas, pois enfrentariam oponentes em frangalhos. Mas numa lógica mais perene, apostar na deterioração da profissão é contribuir para o enfraquecimento do jornalismo como negócio e como atividade social. Sem auto-estima, sem contornos profissionais bem definidos, sem profissionais que nele acreditem, o jornalismo vai mal. Se se apresenta hesitante, o jornalismo não serve à sociedade, não interessa ao cidadão comum e, portanto, não encontra meios de se sustentar como prática de negócios.

E a saída?

Apostar no ocaso do jornalismo, no embaçamento das fronteiras entre a profissionalidade e o amadorismo, e na fragmentação dos profissionais que dele vivem, volto a dizer, não beneficia a ninguém. Nesta guerra, não há vencedores no seu final.

Onde está a luz no fim do túnel? Na busca razoável por redefinições para o jornalismo. A decisão do STF é uma solução jurídica para um impasse permanente na área. Mas essa saída jurídica não resolveu os problemas da categoria, só precipitou mais dissonância e incerteza. Se aprovadas, as propostas de emenda constitucional podem ressuscitar a exigência do diploma, mas não vão enterrar a discussão em torno da qualidade da formação desses profissionais, da sua necessidade e da sua efetiva colaboração para um jornalismo melhor. Se aprovada, uma PEC dessas é mais uma solução legal, mas não total.

A meu ver, a solução total conjuga esforços jurídicos, de marcos regulatórios, mas também culturais e políticos. É necessário discutir e discutir e discutir o que constitui o jornalismo hoje nas sociedades complexas. É necessário repensar funções sociais e políticas para o jornalismo no jogo da contemporaneidade. É inadiável enfrentar a crise de identidade (e não financeira) do jornalismo. Sem isso, estaremos apenas adiando. Como quem deixa para a edição de amanhã a pauta de hoje…

a inteligência deles me impressiona

Eu morro e não vejo tudo.

A mais nova ideia brilhante que mantém o halo sagrado de inteligência dos administradores públicos não vem de Brasília nem de Washington. Vem de Florianópolis. Com medo de andarilhos e malfeitores diversos, a prefeitura da cidade planeja colocar grades ao redor da Praça XV de Novembro. A alegação é que o local, que abriga uma centenária figueira, é local pouco iluminado e mal frequentado. Então, a saída é cercar a praça e, à noite, fechar os portões, impedindo que as pessoas que não têm casa durmam por lá.

O que eu acho da ideia?

Excelente! Isso mesmo. Vamos fechar a praça. E não apenas. Vamos botar fogo nela. E mais: jogar na fogueira os energúmenos que tiveram a ideia.

Pelamordedeus! A prefeitura não pode iluminar mais o local? Não pode determinar à Guarda Municipal que faça rondas por lá? Não pode encaminhar os sem-teto para albergues ou atendê-los de outra forma? Claro que não. Assim, o poder público age como aquele médico que, para curar uma dor de cabeça, decepa o paciente.

Ao invés de ampliar os espaços públicos para o cidadão, a prefeitura restringe os já existentes. Vai ter gente preparada assim pra governar na Pontequepartiu!

quando se tropeça nas palavras

Talvez tenham sido os astecas, mas se não foram, ficam sendo ao menos neste post. Mas os astecas diziam que as palavras caminham. Sim, elas se movem e por caminhos que nem sempre controlamos. Digo isso porque uma porção delas vem me incomodando muito ultimamente. Mas o problema não está nas palavras, mas no uso que as pessoas fazem delas, tripudiando, distorcendo, desapropriando sentidos.

Veja o exemplo de “Colaborador”. Até outro dia, era o cara que dava uma ajuda, que prestava um serviço esporádico. Hoje, pra muita gente, não. Gerentes, diretores, gestores de recursos humanos sorriem dentro de seus colarinhos. Ciosos, dizem que suas empresas têm duzentas, seiscentos, trocentos “colaboradores”. Ora, “colaboradores” uma ova! Os caras são empregados, funcionários, trabalhadores. Salvo melhor juízo ninguém está ali apenas pra colaborar. Pra usar palavras antigas, eles vendem sua força de trabalho por dinheiro, por salários, mesmo que aviltantes, indecentes.

Um baita eufemismo esse o do “colaborador”. Será que os tais gerentes, gestores e diretores pensam que ofendem alguém ao chamá-lo de “funcionário”?

Outro eufemismo é o que me disse outro dia a moça do telemarketing: “Senhor, esta revista foi descontinuada“. Ahn? “Descontinuada, senhor”. Ah, tá, a revista acabou. “Não, senhor, foi descontinuada”. Quase esbofeteei pelo telefone a moça. Será que ela pensa que eu sou idiota? Se a revista não circula mais, se não está disponível, NÃO FOI DESCONTINUADA. Ela simplesmente foi interrompida, extinta, acabada, e  ponto. Tava com vergonha a moça do telemarketing?

Mas pior que essa atitude zelosa de evitar constrangimentos, atritos e melindres, pior é trazer o administrês, o economês para as conversas mais cotidianas e prosaicas. Então, você não melhora mais o relacionamento, você “agrega valor à relação”. Você não é um cara diferente, distinto, é “diferenciado”. É um saco isso! Vai desculpar, mas é dureza ouvir a mãe na escolinha dizendo que o seu pequerrucho tem uma alimentação “diferenciada” e que ela mesma prepara a lancheira, fazendo questão de dar mais “valor agregado” ao suquinho com bolachas…

Às vezes, me faltam as palavras, sabia?

plágio preocupa. como lidar com ele?

Tem crescido o número de plágios por aí. É perceptível. Denúncias e notícias sobre esse tipo de apropriação tem circulado com uma velocidade e num volume maiores que anos atrás. O primeiro catalisador que nos vem à mente é a internet, que possibilita o já consagrado Control C-Control V com uma facilidade antes não encontrada. Mas se a web permite copiar e colar também permite identificar fraudes, cópias e outras violações do tipo.

Não se trata, portanto, de demonizar a internet, nem de confinar pessoas e obras. O advento de uma rede que permita fácil compartilhamento de arquivos de todos os tipos tem ajudado a desenvolvermos novos regimes de autoria. Não só a autoria coletiva e cúmplice (wiki!), mas o remix, o bricolage, a própria discussão acerca do que é obra, do que é autoria e dos limites do seu e do nosso. Isso tem forçado a juristas e a legisladores que revisem os marcos que regulam os direitos autorais. Isso tem causado confusões nas escolas, nas universidades, na mídia e na própria indústria cultural.

A autoria é um conceito relativamente recente, data lá do século XIII, mas só se consolidou mesmo no final de 1700. De lá pra cá, transportamos para o plano das ideias e das imaterialidades o regime de propriedade e paternidade que mantemos no mundo material. Posse, propriedade, detenção de direitos, possibilidade de queixa e disputa de territórios. O fato é que estamos vivendo um instante de instabilidade crescente nesse terreno. De novas demarcações de limites. Com isso, acontece de tudo. Na academia, professor plagia o colega; na escola, aluno copia o trabalho do coleguinha que mal conhece e que encontrou disponível na internet; na mídia, tem o jornalista que se apropria de trechos de textos de seus concorrentes, sem dar o devido crédito, e por aí vai… a lista é longa, cada vez mais diversificada.

Outro dia, Ramón Salaverría se queixava de ter sido plagiado por El Mundo . Nos Estados Unidos, um jornalista do New York Times foi demitido pela mesma prática. Na mesma semana, no Poynter, Kelly McBride escreveu sobre porque o plágio ainda rola tão solto por aí.

Não nos enganemos: há uma zona de atrito, uma disputa permanente quando o assunto é propriedade intelectual, ideias, conceitos. Os norte-americanos são tão preocupados com o assunto que criaram até mesmo um Centro de Integridade Acadêmica. Nas bandas de cá, o assunto ainda é tratado nas hostes de crime intelectual e de uma maneira dispersa, desorganizada e titubeante. Sei que, em muitas situações, é difícil caracterizar o plágio, identificar os infratores e puni-los. Mesmo tendo uma lei de direitos autorais e menção explícita no Código Penal .

De qualquer maneira, ainda é necessário reafirmar que plágio é um crime e que é uma prática antiética. Plágio não é um crime sem querer, mas um ato deliberado de quem acredita que não será pego e punido. Não se surrupia uma música ou um texto de alguém, apagando-se a assinatura de seus autores e registrando como de sua lavra sem querer, sem intenção. O plágio é um crime intencional, doloso, portanto. É uma atitude antiética porque desrespeita o direito de paternidade de alguém, porque atenta contra o direito moral de alguém de reivindicar sua autoria sobre algo. É uma conduta que menospreza as demais pessoas, acreditando que a verdade não virá à tona e que todos serão permanentemente enganados.

É preciso sim delatar os plágios, deplorar essas práticas, identificar os infratores e buscar suas punições. No jornalismo, na escola, na academia, no mundo das artes, em todas as esferas onde a originalidade, a primazia, a inovação e o senso criativo são realmente relevantes e definidores. O plágio precisa ser combatido e execrado. Ao menos até definirmos novas noções de autoria e de proteção de direitos aos que criam, aos que recriam e disseminam conteúdos que julgamos relevantes…

uma espiadinha nas capas dos jornais: e o arruda, hein?

O Dia – Rio de Janeiro
“Um, dois, três! Arruda no xadrez!”

Extra- Rio de Janeiro
“Arruda não vem para o desfile da Beija-Flor. Foi preso”

Correio Braziliense – DF
“Arruda é preso. DF sob ameaça de intervenção”

Hoje em Dia – Belo Horizonte
“Arruda atrás das grades”

sou um selvagem, eu confesso

Esta semana, estava num ambiente público à espera de uma palestra, e como o evento não começava, passei a folhear um livro que tinha em mãos. A demora me fez espiar um parágrafo e quando percebi, já estava lendo páginas. Não só: com uma caneta, eu sublinhava trechos que considerava importante.

De repente, me senti perfurado por olhares. Virei do lado e percebi dois rapazes me vigiando indignados. Eles comentaram entre si algo e me apontaram o livro e a caneta em punho. Sim, eu havia sido pego em flagrante delito: eu estava rabiscando um livro. E à caneta, o que significa de forma permanente, indelével, definitiva.

Me passou um filme na cabeça: julgamento sumário, condenação perpétua. Eu seria sentenciado a apagar milhares de páginas que sublinhei com a própria língua…

Para evitar o sermão, me antecipei e fiz um gracejo: “Não adiantou anos e anos de educação. Sou mesmo um selvagem! Não respeito os livros e rabisco…”

Um dos meus algozes sorriu amarelo e emendou: “Eu também fazia isso. Mas percebi que, quando voltava aos livros, os trechos sublinhados me orientavam a leitura, me atrapalhavam…”. Tentei argumentar que eu quase nunca relia livros, mas não adiantou. A condenação já havia acontecido. Perdido por um, perdido por mil e lá fui eu novamente: “Mas fique tranquilo. Este livro não é meu! Eu só rabisco livros dos outros e de bibliotecas públicas!”, menti para alarmar ainda mais. Os rapazes riram, desarmados. Devem ter pensado: “Que babaca!”

Eu corrigiria: Babaca, não. Selvagem! Monstro! Vândalo!

Afinal, eu estava lendo. E leitura é coisa que se deva condenar hoje em dia.

Afinal, eu estava marcando frases e parágrafos que eu queria fichar, guardar, citar em outros momentos.

Afinal, eu me apego às ideias, às palavras e não ao objeto-livro, à coisa. Como diz o João Marcelo Bôscoli sobre a música, se um dia inventarem isso em forma de spray, eu compro, eu consumo. O que me importa é a leitura, o prazer, a possibilidade de conhecer. Os livros deterioram, as páginas se queimam, se rasgam, mas as palavras, ah… essas voam!

Eu sou um selvagem mesmo. Confesso!

objethos entrevista alberto dines

O Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) acaba de publicar uma entrevista exclusiva com o jornalista Alberto Dines, o decano da media criticism no Brasil. Na conversa, Dines fala sobre o fim da obrigatoriedade de diploma para a carreira, sobre o alardeado fim do jornalismo e outros tantos assuntos palpitantes.

Para quem não sabe, no finalzinho do ano passado, Dines relançou seu livro O papel do jornal. A nona edição não é apenas uma reimpressão da obra, mas uma atualização de um livro que já conta 35 anos nas prateleiras e na bibliografia nacional. Indispensável à época em que surgiu – em plena crise do papel de imprensa em 1974; indispensável hoje, em plena crise do papel da imprensa e do jornalismo na vida social contemporânea.

A entrevista foi concedida ao repórter Marcelo Barcelos, mestrando em Jornalismo da UFSC.

o jornalismo precisa de novos pactos

A informação recente de que os maiores jornais brasileiros tiveram queda de 6,9% em sua circulação no ano passado pode precipitar as discussões sobre a crise dos impressos por aqui. Eu mesmo me surpreendi de ver títulos que antes pareciam tão sólidos em suas trajetórias e que agora amargavam números menores de exemplares. No fundo, no fundo, o burburinho em torno de uma crise dos jornais e – em casos mais apocalípticos e exagerados – do fim dos mesmos não envolve apenas a dimensão financeira. Isto é, embora se dê uma importância demasiada à sustentabilidade da indústria e a permanência de padrões de consumo de décadas, há uma discussão que está por trás disso tudo: o jornalismo como o conhecemos estaria com os dias contados?

Colocado dessa maneira, a crise dos jornais não é apenas um problema econômico, mas cultural, de consumo de informações, de posicionamento na sociedade. É também uma crise de confiança. Podemos acreditar nos jornais como os fieis depositários de nossas crenças e valores como o fazíamos antes? Podemos deixar para os jornalistas a missão de nos informar e tapar os ouvidos diante do canto da sereia 2.0? Estamos dispostos a pagar por informação em uma época de grande abundância dessa commodity? Queremos manter uma indústria conservadora e paquidérmica, como a dos jornais, sempre muito resistente aos ventos de mudança?

A crise dos jornais é, antes de financeira, uma crise de confiança, afinal já não se confere a esses meios a autoridade e a credibilidade de antes. Num estudo recente da Edelman, pode-se perceber que as instituições em geral têm sofrido com quedas constantes de seus níveis de confiança popular. Embora se queixe sempre dos políticos, até mesmo o governo goza de mais confiança do que a mídia. A pesquisa é realizada pela décima vez e envolve 22 países, incluindo o Brasil. Segundo a Edelman, todas as fontes de informação viram suas confiabilidades declinarem de 2009 para 2010.

Nos países emergentes, por exemplo, a confiança em TV e jornais caiu 15 pontos em dois anos!

Claro que isso é apenas uma amostra, já que o estudo da Edelman ouve uma parte da elite que forma opinião e que toma decisões. Mas a queda nas tiragens e nos índices de audiência, a migração das verbas publicitárias, e o declínio da confiança apontam para mudanças urgentes no panorama, no negócio de se produzir e distribuir informações.

O jornalismo precisa de novos pactos. Precisa demonstrar novamente aos públicos que é digno de confiança, de que seus produtos e serviços não apenas são de qualidade, mas que são essenciais para se viver nos dias de hoje. O jornalismo precisa resgatar a credibilidade, adotando posturas mais transparentes, mais equilibradas e mais focadas no interesse coletivo de seus públicos. Não é fácil, mas o jornalismo precisa se reinventar. Em tempos pragmáticos como os nossos, é cada vez mais necessário que o jornalismo se mostre útil, imprescindível, inalienável. Isso significa dizer que a crise do jornalismo é contra o descarte, contra a substituição por outras formas de informação.

Sim, me parece que o jornalismo precisa restabelecer novos pactos com seus públicos. Ao menos para mim, a reinvenção do jornalismo – e sua consequente sobrevivência e manutenção – passa não apenas pela adoção de sistemas mais tecnológicos de difusão e produção, mas por redimensionar em que bases vai se apresentar como algo essencial para o público.

ensino de jornalismo: o que esperar?

Acho que, aqui no Brasil, discutimos pouco o ensino de jornalismo. Acho não, tenho certeza.

Prova maior é a rara bibliografia que temos sobre o assunto, a escassez de eventos que se debrucem sobre essa problemática e a quase inexistência de canais para difundir debates e ideias.

Sim, há poucos livros sobre ensino de jornalismo em particular e de comunicação em geral. E isso reflete o fato de que temos pouca gente pesquisando e pensando mais detidamente isso. Sim, exceto pelos encontros do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo e por algumas iniciativas da Intercom, quase não vemos por aí eventos que discutam pedagogias, didáticas, materiais e estratégias de ensino. Sim, também são poucas as revistas científicas que tratam de ensino. A revista “Educação e Comunicação”, editada pela ECA/USP desde 1994, é uma das exceções raras. A “Revista Brasileira de Ensino de Jornalismo (Rebej)”, do FNPJ, por sua vez, não sai há anos e parece ter desaparecido antes mesmo de se tornar uma referência para a área.

Combinados, esses fatores contribuem para um preocupante marasmo no campo da Comunicação em geral e no Jornalismo em particular.

Para os desavisados, ingênuos e recém-chegados, a ilusão é de que está tudo bem com o ensino, e que nossas escolas são referências internacionais na formação dos profissionais. Diante da maravilha, só o paraíso.

Mas sabem professores e alunos, pesquisadores ou não, que o ensino da área carece ainda de muita discussão, de estudos aprofundados, da circulação de experiências bem sucedidas, do compartilhamento de práticas inovadoras, e da adoção de novos paradigmas que sustentem um ensino efetivo e transformador.

E como é que se convence a comunidade acadêmica a fazer isso?

Não sei.

Só sei que é necessário. E urgente. E vejo que outros países transformam a preocupação em ação. Esta semana, por exemplo, dois contundentes e relevantes textos circularam em sites norte-americanos. Seth C. Lewis se perguntou no Nieman JournalismLab, da Universidade de Harvard: “Pra que servem as escolas de jornalismo?” A questão de Lewis vem do Texas, mas vai além do Canal do Panamá e se espalha por toda a parte… Da Califórnia, Dan Gillmor se arrisca em responder, apontando para o que suas notas rascunham: “O futuro do ensino de jornalismo”.

É certo que as realidades brasileira e norte-americana são muito distintas, e seus sistemas de ensino mais ainda. Mas é interessante ver o que os professores de lá pensam, e como pensam suas escolas. Aqui, as interlocuções parecem ainda muito restritas e eu gostaria que fosse diferente. Isso porque meu palpite é de que teremos um jornalismo melhor quando estivermos abastecendo o mercado de trabalho com grandes contigentes de excelentes ex-alunos. Eles é que podem mudar nossas redações e nossa mídia, não posts angustiados como este…

é hoje mas é amanhã também

Sim, hoje é sexta-feira, 13.
Mas Jason aparecerá amanhã, quando o Tricolor for enfrentar o Vitória, cujo nome anda meio incongruente…

o jornalismo cava a própria cova

Jorge Rocha Neto alimenta uma tese polêmica: para ele, o jornalismo morreu. É bem verdade que Rocha Neto não seja o único a soprar tal trombeta, mas seu timbre é particularmente interessante. Provocador, não é à toa que na internet assine como Exu Caveira Cover e cuspa labaredas para quase todos os lados…

Seu vaticínio mais parece uma praga. Afinal, esse Exu é jornalista e professor da área, o que pode soar como alguém que também cuspa no próprio prato. Que nada! Essa aparente contradição e as raízes do seu raciocínio são explicados pelo diabo em pessoa na entrevista – feita em dois tempos por email – a seguir.

Você mantémfoto para entrevista1 um blog cujo mote principal é a morte do jornalismo. O jornalismo morreu mesmo? Quando e como foi que isso aconteceu?

É preciso frisar ainda que o blog tem como subtítulo “imprimatur de exucaveiracover”. Se pensarmos esse blog como um terreiro virtual, a entidade que incorpora naquele espaço pode ser chamada de gravekeeper, uma sutil sacanagem com o termo gatekeeper – é, eu estou explicando a piada, pode me apedrejar. Há todo um estado de espírito mórbido ali para tratar do jornalismo, porque acredito que esta é a única forma de lidar com este tema sin perder la envergadura. Não pretendo, seja aqui ou acolá, precisar a data da morte do jornalismo, porque se trata de um rigor mortis sui generis, pois é espasmódico e faz confundir estertores com sobrevida.

A prática jornalística a que me refiro é a dos jornalões, é uma tentativa de emular Brás Cubas, cuja condição de morto lhe permitia analisar livremente a si mesmo e as histórias que viveu e acompanhou. No entanto, falta um élan post mortem a esta prática para chegar a estas vias de fato e há corpos de vantagens em quesitos falcatruescos. Se o Fantasma é o espírito-que-anda, o jornalismo é o cadáver-que-escarnece. Seja da sua própria condição, seja do trato com a opinião pública, seja da realidade que faz contorcer em espasmos de entranhas, seja da audiência, ao tentar solapar-lhe nacos de cidadania em sucessivas mordidas de zumbi. Permita-me ser generalista uma vez na vida: o atestado de óbito é diário nas páginas de jornais e revistas, na telinha da TV e nas ondas sonoras dos rádios. Não é redundância ou exagero, desde sempre me defendo: o jornalismo é o cadáver que cava a própria cova. E, no caso brasileiro, dessas buraqueiras, tal como lírios na lama, surgem iniciativas como o Blog da Petrobrás – há lições e lições a tirar daquilo lá para quem sublima a raivinha besta sentida no momento da sua criação –, o Crônicas de uma catástrofe anunciada e o Cloaca News, só para citar alguns exemplos, porque não estou aqui para fazer elogios.

O fim do jornalismo significa o fim dos jornalistas também?

Eu defendo a ideia de que o jornalismo, conforme apresentado anteriormente, permaneça como está: morto. E enterrado. Assumir a persona de gravekeeper tem lá seu grau de seriedade, pode apostar. O jornalismo é uma prática social, umexu_pagea necessidade inerente à sociedade, e não algo que preste apenas a ser alimentado por dossiês, manipulado por lobistas ou atrelado tão somente a “interesses empresariais”.

Antes que detratores esfreguem as patinhas e venham me chamar de defensor de um jornalismo romântico – como já ouvi diversas vezes, assim como a frase “você é muito radical” –, adianto que sou purista apenas em relação ao uísque que bebo. É claro que entendo a correlação de forças que se aplicam ao jornalismo, convivo com elas mesmo estando fora de redação – por escolha própria e posteriormente por acordo mútuo entre mim e a “barriga da besta”. Enquanto aquilo que é chamado de “pensamento empresarial” dos grandes meios de comunicação servir apenas para atochar gagballs até o palato no jornalismo, encobrindo a safanagem com o epíteto de quarto poder, sem entender que – até mesmo em termos empresariais – é um tiro na cabeça sustentar esse modelo por mais décadas, ficamos todos na lesma lerda. Eu prefiro engrossar as fileiras daqueles que fazem coro com Erik Neveu.

Para o tiozinho, a prática jornalística é um “ofício de fronteira” – sendo que o termo “fronteira” tem aqui muito mais a conotação de pontos de contato do que de barreiras alfandegárias. Neveu considera, e eu prefiro acreditar que compartilho essa crença, que essa forma de lidar com o conceito de fronteira tem que orientar o jornalismo a pensar sua própria natureza como algo ligado à anexação de outras atividades, concatenadas até mesmo – pasme, filisteu! – aos novos meios de comunicação. Fora disso, meu caro, não há vida. E este é o momento em que eu puxo Armand Mattelart pelo braço e deixo que ele diga – uma vez mais – que a comunicação prioritariamente deve corresponder às mudanças percebidas nas relações entre emissor e receptor e no contexto histórico, além de prestar atenção às reconfigurações relacionadas às tecnologias.

O jornalismo a que me refiro como morto é justamente esse que não observa esses pontos e os jornalistas que regurgitam este cadáver nada mais são do que zumbis. Como fã de George Romero que sou, acredito que a solução mais prática é acertar-lhes a cabeça.

Em caso afirmativo, alguém sentirá falta de um ou do outro?

A mesma falta que um corpo morto sente falta dos vermes que se alimentam dele.

No caso de o fim do jornalismo não significar o fim dos jornalistas, o que os jornalistas vão fazer então???

Não sei de outro tempo no qual a figura do jornalista foi mais necessária. Mesmo com toda essa conversa de crise no/do jornalismo que a própria mídia alavanca e faz com que as empresas jornalísticas reajam a esse mal demitindo jornalistas. É o típico ato de cuidar das caspas cortando a cabeça – e você achando que eu é que sou o psicótico nessa história. Mas essa necessidade da qual estou falando é a de um tipo de jornalista que não se locupleta com o “fazer corpo mole” em uma redação. Porque, além de um certo atravancamento no pensamento das empresas de comunicação – dá vontade de rir quando escrevo “empresas de comunicação” – há jornalistas que se contentam em praticar e repetir o mantra “fazer-o-arroz-com-feijão-tá-muito-bão”, que se contentam em fingir de morto para evitar problemas. Tenho raiva desse tipo de profissional e escrevo isso tranquilamente, porque nunca escondi esse sentimento.

Para piorar esse quadro, cabe dizer que parte dos jornalistas que admiro está morta ou fora das redações. Mas respiro aliviado ao ver que ainda salvação – substancialmente fora da “barriga da besta” mas que pode ser transplantada para dentro. De novo: é um jogo político, de enfrentamento e correlação de forças. Como todo e qualquer setor da vida social.

Entendo o seu raciocínio, mas você não teme ser rotulado de “polemista de papel”, de “provocador bem acomodado”, de crítico da academia que se diverte ao atirar pedras no mercado? E de que maneira, sua posição pode não ser vista dessa maneira?

Ah, essa é uma armadilha para rato pequeno e nela eu não tropeço. E é até relativamente fácil de desarmar. Sigam a bolinha, crianças. 1) Só para citar um exemplo fácil, fatos como a família Sarney controlar os meios de comunicação no estado do Maranhão – esta incógnita –, conforme está bem listado no Donos da Mídia, prescindem que eu esteja ou não em uma redação de jornal para compreender a importância política de uma capitania hereditária midiática como essa e criticá-la. E estas capitanias loteiam o Brasil de ponta a ponta, Estado a Estado, cidade a cidade – e dá-lhe síndrome do pequeno poder; você consegue calcular o estrago disso tudo? Isso acontece já a olhos vistos, passível de ser observado por jornalistas nas redações, professores em salas de aula e até mesmo por marcianos rondando o céu de brigadeiro do Brasil.

Fazer tal crítica é algo necessário, independente de onde se esteja, observando a relação promíscua entre – vá lá – poderes constituídos, os arrolhos metidos no jornalismo por conta de conchavos políticos ou a concordância à subserviência para garantir o uísque das crianças. Você pode até não ter espaço para publicizar essa observação/opinião no veículo em que trabalha, mas isso não o tolhe de entender a roda dentada e saber como manifestar seu ponto de vista – de novo, é um jogo político. 2) Acha que minhas considerações são duras por que estou em uma posição confortável, fora de uma redação? Bobagem. Eu nunca escondi minha opinião acerca do jornalismo mesmo quando estava na redação e assim como todo jornalista, passei por maus bocados, como alguns que pontuei aqui. Mas são histórias que prefiro não contar em uma entrevista. Como acadêmico, eu tomo muito mais cuidado com o que digo: em redação eu era muito, mas muito pior.

Mercado e academia podem dialogar na direção de um jornalismo melhor? Como pode se dar esse encontro?

Eu me pergunto a quem interessa esse diálogo. De um lado, há acadêmicos que torcem o nariz à simples menção da palavra “mercado”, de outro, empresários de mídia – e seus “jornalistas representantes”, todos covers de William Bonner e/ou Pedro Bial – que apregoam treinar jornalistas para o mercado. Ambas as proposições estão incorretas, uma vez que estão centradas meramente na ideia de contentar ou não o mercado, essa entidade apocalíptica.

Sim, falta aí uma visão macro, menos dualista, menos passional. É justamente por esse aspecto de “deslumbramento por um treinamento ninja” que não aprecio os cursos de Jornalismo da Abril e afins – e também não é de hoje que eu falo isso –, porque essa é uma visão reducionista às pampas. No meio desse melelê todo, ficam os estudantes de Jornalismo como baratas tontas, muitas vezes acreditando que essa é a única métrica confiável. Claro, não se pode negar a existência das – aham – necessidades mercadológicas, nem mesmo como atitude filosófica, porque o jornalista vai enfrentá-las, isso é estupidamente óbvio. Para um jornalismo melhor, como você classificou, no que tange as duas partes citadas, é preciso que ambos os lados cedam em algumas de suas particularidades: que as empresas de comunicação estimulem e mantenham espaços editoriais para a aplicação de conhecimentos adquiridos na academia – técnicos, teóricos e humanistas – e que as instituições de ensino tenham condições de equipar os estudantes com um cabedal de informações que formem o caráter dessa moçada. Chamo atenção à essa última parte especificamente, dizendo que não se aprende Ética na redação – entendi isso da pior forma possível. Parece discurso de político, não? E é.

Para finalizar, se o jornalismo é o cadáver que cava a própria cova, quando ele finalmente descansar, quem jogará a última pá de cal sobre o finado?

Espero sinceramente que não seja o Caio Túlio Costa.

william bonner e o fosso entre academia e mercado

Tempos atrás, a visita de um profissional a uma universidade seria um episódio restrito apenas a quem o presenciasse. Por mais ruidosa que fosse a passagem, alunos e professores discutiriam nos corredores, e o fato seria armazenado na memória de quem o testemunhasse. Bem, eu disse “tempos atrás”. Hoje é diferente, e as muitas possibilidades tecnológicas de compartilhamento de informação, conhecimento e experiência soterram qualquer tentativa de esquecimento voluntário.

Acontecimento recente ajuda a ilustrar essa nossa obsessão por lembrar: no início do mês, o apresentador e editor-chefe do Jornal Nacional William Bonner palestrou na Universidade de Brasília e causou ranger de dentes com as críticas que fez aos cursos de Jornalismo brasileiros. Segundo relatou a professora Zélia Adghirni, publicado originalmente no Observatório da Imprensa, Bonner disse que as escolas de Jornalismo “não servem para formar jornalistas” e que elas “deveriam se preocupar mais com o ensino de Português e História. Para o resto, a universidade serve apenas como experiência de vida”. Conforme conta a professora, o editor-chefe foi categórico em afirmar que “jornalismo se aprende no mercado”, e que nem mesmo técnicas de redação e ética profissional seriam bem oferecidas nesses momentos de formação.

Bonner, contextualiza a professora Zélia, disse tudo isso, após a já esperada pergunta de estudantes acerca do fim da obrigatoriedade do diploma para a área. O auditório da UnB estava lotada, e fora dele, um telão retransmitia a palestra do jornalista. Ainda segundo o relato da professora, Bonner teria dito que “em seis meses, eu pego um estudante e faço dele um editor na Globo”, transformação que poderia fazer de um taxista em jornalista.

Como eu disse, a passagem de Bonner pela UnB – por ocasião da turnê de lançamento de seu livro “Jornal Nacional – Modo de Fazer” – provocou ranger de dentes, que não ficaram apenas nos longos corredores da Universidade de Brasília, mas se espalharam feito rastilho de pólvora na blogosfera e em listas eletrônicas de professores e alunos.

O fosso

Não, eu não estava na palestra de Bonner. Mas confio no relato da professora Zélia, a quem conheço e respeito. E a julgar pelo teor do que foi dito, a passagem foi desastrosa. Não porque eu não concorde com o jornalista, afinal isso pouco interessa. Mas porque declarações como aquelas só fazem aprofundar e alargar um abismo entre academia e mercado, entre universidade e empresas. Aliás, é histórica a existência desse fosso separando duas instâncias que poderiam muito bem dialogar mais. Há muito tempo, assisto a demonstrações mútuas de ojeriza. Há anos, vejo gente na academia torcendo o nariz para o mercado, e gente do mercado bufando diante de professores da área. Não é, portanto, meramente ilustrativo o que digo sobre um fosso. Ele existe, e perdura e, ciclicamente, se expande.

Por contraste geológico, o desprezo manifesto por Bonner pela formação oferecida nas escolas é só a ponta do iceberg de uma relação de estranhamento que não contribui para o avanço do jornalismo profissional nem para os processos formativos de repórteres, editores e redatores. Isto é, ninguém ganha com isso. O mercado não se beneficia com os debates, as pesquisas, as soluções encontradas na academia, e esta se alija do que acontece no mundo competitivo, cruel, real e complexo a que as empresas estão habituadas. O setor produtivo não dialoga com o mundo da reflexão. A massa pensante tapa os ouvidos para a gente que faz. Claro que estou me apegando aos rótulos que se impuseram esses lados da equação, mas não estou muito longe do que influentes e importantes setores pensam acerca de si e de outrem.

O fato é que temos uma zona de atrito entre academia e mercado que – de forma muito prática – interessa a poucos. Interessa a quem se imagina como o centro do mundo, como quem está indisposto ao diálogo e à construção de caminhos.

Saídas?

Não defendo um pacto artificial entre as partes, nem ao menos a capitulação de suas posições. A academia não precisa pensar como o mercado, mas não pode ignorá-lo. Também não é prudente ou recomendável que as empresas, por sua vez, dêem de ombros para o que se pensa e se produz nas escolas. Se os cursos de Jornalismo estão ruins, é preciso encontrar maneiras de aperfeiçoá-los, se os produtos jornalísticos têm qualidade duvidosa, deve-se perseguir parâmetros melhores, refletindo sobre a prática, sobre rotinas produtivas, fluxos informativos, procedimentos operacionais, adoção de novas tecnologias…

São bem-vindas iniciativas como o da Globo Universidade, de aproximar seus quadros profissionais e empresas às escolas. Bem como é oportuna a criação de cátedras específicas, como a Cátedra RBS da UFSC. Repórteres, redatores, produtores, editores precisam transitar pelas universidades, palestrando ou fazendo cursos. Professores e alunos devem fazer visitas técnicas nas empresas, onde se pode colher dados para estudos de caso. Isto é, as saídas para a redução do fosso entre academia e mercado passam incontornavelmente pelo diálogo e pela disposição. Em outros países, a tensão empresas-universidade é menor, e o encaminhamento dos recém-formados aos postos de trabalho é um processo natural, não-traumático.

O manual e Homer

A academia se gaba de querer pensar criticamente as práticas do mercado. Que continue a fazê-lo, mas que também ofereça exemplos práticos de como aperfeiçoar processos e produtos jornalísticos. Isto é, que as práticas laboratoriais sirvam não apenas para reproduzir comodamente o que vem dando certo por aí, mas também simulem os desafios para a busca da experimentação e inovação, e contribuam para habituar os alunos a um ritmo profissional de produção.

O mercado alardeia que recebe jovens profissionais despreparados e que os “salva” na correria do dia-a-dia. Isso não é totalmente verdadeiro, e nos casos em que é, as empresas podem contribuir para que os cursos sejam melhores. Alguns grupos empresariais oferecem cursos internos de formação que muito se assemelham a períodos de treinamento e adestramento. Na ânsia de preparar seus quadros, as empresas formatam, engessam, restringem. Ultimamente, na mesma direção, tem sido lançados livros que atuam como suporte a esses cursos. “Jornalismo Diário”, de Ana Estela de Sousa, é um exemplo disso. O livro – que tem suas qualidades – segue a mesma receita já empregada pela Folha de S.Paulo em seu Manual de Redação: sabemos fazer jornalismo e só nós sabemos. Por isso, sigam as nossas regras e você estará fazendo jornalismo.

Isso não é dito literalmente, mas a leitura do volume permite entrever o quanto se despreza a academia e as linhas que guiam os cursos acadêmicos. Articulado ao programa interno de formação, do qual a autora é responsável, o livro é outra forma do monólogo que aprofunda a fissura entre academia e mercado.

O livro de William Bonner não é endereçado a estudantes de Jornalismo ou a professores. O timbre didático que ele assume do começo ao fim sinaliza que seu público é maior, na direção da audiência do telejornal mesmo. A preocupação com explicações técnicas é tão grande que o leitor pode se constranger pela rasura de alguns trechos. Como se o leitor fosse Homer Simpson. A comparação é minha, mas não é gratuita. Em 2005, Bonner se viu envolvido num incidente que ajudou a macular sua imagem, pois teria comparado o telespectador médio do JN ao personagem do desenho animado. A aproximação foi “denunciada” pelo professor Laurindo Lalo Leal e causou ressentimentos de parte a parte. Bonner alegou ter sido mal interpretado.

No final de “Jornal Nacional – Modo de Fazer”, o autor vai à forra e desenterra o assunto para um acerto de contas com Lalo Leal. Sob o pretexto de tratar da clareza como um valor a ser perseguido no telejornal, Bonner conta a sua versão do incidente e contrapõe, inclusive, declarações de colegas do professor para contestá-lo. Bonner não segura o rancor, e mesmo que em poucas páginas – e como na UnB – alarga ainda mais o fosso entre academia e mercado.

compacto do chat no ciclo comunicar tecnologia…

Participei hoje à tarde de um chat no Ciclo Comunicar Tecnologia, que o pessoal do Nós da Comunicação está tão profissionalmente promovendo. Foi uma experiência muito legal. E se você não pôde passar por lá mas ficou curioso, leia um resumo do que rolou… aqui!

modelos de negócio, valores de fundo e a salvação da pátria do jornalismo

Três links do momento não podem ser deixados de lado. Se você se interessa por jornalismo e pelas discussões sobre sua sustentabilidade, permanência e evolução, siga os links:

  • Mindy MacAdams problematiza levemente a busca por novos modelos de negócio no jornalismo, assunto que vem crescendo em complexidade e importância com a crise dos jornais impressos nos Estados Unidos.
  • O Washington Post ditou regras para seus jornalistas atuarem em redes sociais. Uma das preocupações do jornal seria a preservação da objetividade, este ainda importante valor de fundo no jornalismo. Paul Bradshaw comenta o caso e alarga seu raciocínio para pensar o fim da objetividade numa versão 2.0.
  • Michael Rosemblum bate mais uma vez na tecla da salvação do jornalismo.

manifesto internet: 17 constatações de como o jornalismo funciona

Paulo Querido conta como surgiu a versão portuguesa do Manifesto Internet, elaborado por um conjunto de jornalistas alemães em reação à desastrada Declaração de Hamburgo, feita por um grupo de proprietários de meios de comunicação europeus. O Manifesto Internet reacende a discussão sobre o papel do jornalismo e de jornalistas no turbulento e visceral cenário atual ultra e pós-midiático.

As 17 constatações que alicerçam o Manifesto são:

1. A Internet é diferente.

2. A Internet é um império dos media tamanho de bolso.

3. A Internet é a nossa sociedade é a Internet.

4. A liberdade da Internet é inviolável.

5. A Internet é a vitória da informação.

6. A Internet muda melhora o jornalismo.

7. A Internet requer gestão de ligações.

8. Ligações recompensam, citações enfeitam.

9. A Internet é um novo palco para o discurso político.

10. Hoje, liberdade de imprensa significa liberdade de opinião.

11. Mais é mais – não existe algo como demasiada informação.

12. A Tradição não é um modelo de negócio.

13. Os direitos de autor tornam-se um dever cívico na Internet.

14. A Internet tem muitas moedas.

15. O que está na Net fica na Net.

16. A qualidade permanece a mais importante das qualidades.

17. Tudo para todos.

Para ler na íntegra, veja o Manifesto aqui.

mais 7 mil vagas: já pensou se…

A Câmara Federal aprovou ontem a proposta de emenda constitucional que cria mais 7 mil vagas de vereador em todo o Brasil. Segundo o G1, 370 deputados votaram a favor e só 32 contra. A PEC foi aprovada em primeiro turno e ainda precisa passar por mais uma votação no plenário. Só depois deve ser promulgada.

Sete mil novos vereadores!!!!

É claro que o Brasil não precisa de mais 7 mil vereadores, e é claro que a maioria dos eleitores seria contra isso, caso fosse ouvido de verdade por seus representantes. Mesmo assim, e talvez tardiamente, fico pensando: a sociedade não precisa de mais sete mil vereadores, porque eles não necessariamente trarão melhores condições de vida, porque não necessariamente responderão mais rápido aos anseios da população. Mas já pensou se, do dia pra noite, criassem…

… mais 7 mil vagas para dentistas no Brasil?

… mais 7 mil vagas para ginecologistas e obstetras para atuar nas periferias e nos sertões?

… mais 7 mil vagas de médicos de família, que visitassem as casas de idosos e enfermos?

… mais 7 mil postos de trabalho para juízes, que desafogariam os tribunais?

… mais 7 mil vagas para engenheiros tocarem e acompanharem obras paradas no país?

… mais 7 mil vagas para paramédicos do Samu?

… mais 7 mil cargos de agitadores culturais e artistas que atuem em bairros e pequenas cidades?

… mais 7 mil vagas para assistentes sociais que atuam junto a comunidades carentes?

… mais 7 mil vagas para professores de educação básica?

Já pensou?

mais uma do azeredo

Como se já não bastasse o AI-5 Digital, o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) continua brindando a Nação com sua expertise em internet e novas tecnologias, com seu bom senso legislador e com sua pertinácia grandiosa: ele é o relator da reforma eleitoral que quer deixar a internet de fora das campanhas. Como se fosse possível recolher grão por grão de areia do deserto…

Com seu brilho e inteligência, o senador considera que internet é como rádio e TV, e devem ser restringidas no uso. Blogs, redes sociais, sites de compartilhamento de vídeos e outras invencionices podem ser letais à democracia. Vai entender assim de comunicação e tecnologia lá no Senado…

não se engane: “intrigas de estado” não opõe jornalistas e blogueiros

A primeira coisa que ouvi de “Intrigas de Estado” era que o filme dirigido por Kevin MacDonald colocava frente a frente para um combate jornalistas e blogueiros, personagens talhados a se odiar e se autodestruir. Confesso que demorei um pouco para assistir receando encontrar um enredo maniqueísta e raso. Mas jornalista não deve acreditar nos primeiros comentários que ouve, precisa é checar, conferir, provar a coisa.

Pois fiquem sabendo que “Intrigas de estado” (State of Play, no original) não opõe jornalistas e blogueiros e, por isso, não alimenta guerrinhas que se insinuam em ciclos cada vez mais curtos. Há exatos dois anos, aqui mesmo no Brasil, uma campanha do Grupo Estado causou polêmica na internet, comparando blogueiros a chimpanzés e a gente muito esquisita. À época, não quis embarcar numa briga intestina que para mim não tinha o menor sentido. Vi que não se tratava de algo apaixonado, mas apenas business.

No caso de “Intrigas de Estado”, a coisa também é bem diferente. O enredo coloca o jornalista Cal McAffey (interpretado por Russell Crowe) ao lado da blogueira Della Frye (Rachel McAdams) na cobertura de um caso que parece, no início, um simples assassinato de um anônimo mas se converte num caso de conspiração nacional, com implicações bilionárias e pessoais. Outra morte – agora de uma assistente do congressista Stephen Collins (Ben Affleck) – coloca mais gasolina na fogueira, pois entram em cena elementos como infidelidade conjugal, corrupção política, lobbies em Washington, as ascendentes empresas de segurança privada que alistam mercenários… enfim, juntaram sexo, poder, dinheiro e guerra! Para temperar, os produtores agregaram interesse público, conflitos de interesse e ética jornalística num cenário de transição midiática.

Veja o trailer

A trama coloca em primeiro plano uma dupla que parece no início muito contrastada, mas que ao longo do filme vai se mostrando afinada e convergente: de um lado, o jornalista tarimbado, conhecedor de lugares e pessoas, criterioso e desorganizado, comprometido com a profissão mas conflitado pois é amigo de longa data do deputado em apuros. De outro, a jovem blogueira, imediatista, impulsiva e levemente arrivista, mas que na verdade é apenas uma jovem repórter. Não, a dupla não vira um casal. Há pouco espaço e tempo para romances aqui. A relação que se mostra é muito mais de mestre e aprendiz, e é aí que a coisa está: o filme não opõe blogueiros e jornalistas, nem o velho contra o novo jornalismo.

Na minha leitura, o filme discute o que é essencial no jornalismo, o que faz do jornalismo algo relevante e útil na sociedade. Neste sentido, as críticas que o diretor deixa escapar pela boca do jornalismo experiente têm alvo certo: o jornalismo de sensação, a velocidade como fetiche, a correção e a precisão como acessórios, e a fofoca como modo de existência da informação. Cal McAffey dirige as suas ações para o que está por trás das versões que vão se colocando. Como quem tenta trazer à tona a verdade, o segredo oculto pelos interesses corruptores. O jornalista tenta convencer a jovem blogueira e a veterana publisher que há algo por trás daquilo tudo, algo que é essencial, que é o espírito da matéria.

Russell Crowe encarna esta perspectiva, a do homem-essencial. Seu jornalista anda com cabelos desgrenhados, está visivelmente fora de forma, come de forma desregrada, se veste de qualquer maneira. Seu carro é um velho Saab de 1990, azul calcinha. Seu apartamento até que é arrumado, mas a sua mesa no jornal é a sucursal do inferno… Cal McAffey é despojado, informal, focado no que é essencial. É avesso ao deslumbramento, ao imediato, à primeira impressão. É instintivo, racional e pouco convencional nos seus procedimentos. Afinal, a situação é delicada, e a distância que precisaria manter de suas fontes não é a ideal…

Você já viu isso…

“Intrigas de Estado” lembra mesmo “Todos os homens do presidente”, dirigido por Alan Pakula. Mas é deliberado, conforme reconhecem os próprios realizadores. A redação do jornal Washington Globe é um decalque de qualquer grande redação, e ainda mais a do Washington Post recriada para o clássico de 1976. O clima de suspense e de intriga segue os mesmos passos, e até mesmo a sequência da checagem de informações pelos jornalistas se remete ao trabalho de Bob Woodward e Carl Bernstein, interpretados por Robert Redford e Dustin Hoffman. (Veja o trailer)

Não só isso. “Intrigas de Estado” traz a ótima Helen Mirren no papel da publisher Cameron Lynne, fácil de ser comparada às editoras mandonas e inesquecíveis vividas por Glenn Close em “O jornal” e por Meryl Streep em “O diabo veste Prada”. Grandes atrizes em papéis fortes e decisivos.

O que não havíamos visto é a belíssima sequência final que mostra o processo industrial de impressão do jornal. Da composição, passando pelo fotolito das páginas e pela gravação da chapa de metal, vamos ao encaixe nas rotativas e o acoplamento das imensas bobinas de papel. Depois, as esteiras, a velocidade, as manchetes, a cadernização, os encartes, a dobra, o refile e o empilhamento dos exemplares. Por fim, os fardos de jornais são embarcados nos caminhões e seguem para a entrega nas bancas. Sim, é isso mesmo: contei o final do filme. Mas isso nem é o essencial, o essencial está em outro ponto, momentos antes do que contei.

Para Débora Miranda, do G1, o filme presta uma homenagem ao “velho jornalismo”. Talvez, talvez. Mas vejo mais como uma reafirmação do que é essencial no jornalismo, daquilo que mais importa nessa coisa ininterrupta de correr atrás dos fatos e contá-los da melhor maneira possível. O filme não tem gorduras, é enxuto e sem grandes efeitos especiais. Os cenários são cotidianos, os figurinos realistas e convencionais. A trilha sonora passa despercebida e até mesmo se apela para sequências onde sequer há fundo musical, num completo silêncio, magreza total. O filme se apóia na história, nas boas interpretações, nas idéias sérias que nos são atiradas no colo. Não há firulas nem penduricalhos, só despojamento e não-deslumbramento. Justamente, valores que o jornalismo – seja ele novo ou velho – deveria sempre cultivar…