a morte no jornal e o jornalismo ferido

Uma reportagem cotidiana sobre um crime banal vem causando algum alvoroço nas redes sociais e em listas eletrônicas por aí. Assinada por Afonso Benites e publicada em 28 de maio passado na Folha, a matéria provoca mal estar por conta de dois trechos que, de jornalísticos, nada têm. Leia, com meus grifos:

José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90). Era dia de promoção —a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.

As queixas que colhi por aí são de duas naturezas: técnicas e éticas. Em alguns comentários, elas se fundem. Mas de maneira geral, as reclamações se resumem a três:

  • A Folha de S.Paulo estaria fazendo merchandising no meio de uma peça jornalística, contrariando uma antiga divisão de territórios no terreno da comunicação e no interior do próprio negócio das notícias: jornalismo de um lado e publicidade de outro. É a velha separação Igreja-Estado, dois poderes na sociedade que devem se respeitar, conviver em relativa harmonia e preservar suas autonomias, sem mútua intervenção.
  • A Folha de S.Paulo estaria banalizando a violência urbana na medida em que notícias policiais estariam se prestando a veicular informações de cunho publicitário. Pouco importam as três vítimas esfaqueadas no hipermercado. Interessa mais é aproveitar a situação para evidenciar produtos e promoções.
  • A Folha de S.Paulo teria ultrapassado o limite do mau gosto, do respeito à vida alheia, tripudiando com perigosa ironia o fato noticiado e suas circunstâncias.

Confesso que a leitura da matéria me causou um tremendo estranhamento. Não me soou bem, me pareceu sarcástica, oportunista (no sentido mais arrivista), infeliz. Quis me manifestar nas listas eletrônicas, mas me contive. Optei por sentir as reações e em todos os casos foram críticas, quando não raivosas.

Um dos poucos a escrever um pouco mais serenamente sobre o caso foi Marcelo Träsel, que oferece uma interpretação do caso. Entre outros aspectos, ele não vê publicidade descarada na matéria e o crime maior está em como o jornalismo se alimenta de assassinatos e outros delitos para se prevalecer. “A meu ver, a sociedade não perderia nada se as histórias policiais fossem simplesmente banidas dos noticiários”, escreve Träsel. Pelo que pude entender, o autor exime o repórter da responsabilidade sobre o produto final, concede-lhe o benefício da dúvida, mas não poupa a indústria que se nutre do sangue.

Penso ligeiramente diferente. A indústria é implacável e muitas vezes se alimenta de crimes, de escândalos, de polêmicas para engordar seu noticiário, hipertrofiar sua audiência. Mas repórteres, redatores e editores também têm lá suas responsabilidades. No processo de produção jornalística, muitas mãos moldam, alteram e às vezes descaracterizam o texto original. O produto final pode ser muito diferente do que saiu do teclado do repórter, e responsabilidade se dilui. Mas não evapora. Dar o benefício da dúvida ao repórter é sensato pois faz prevalecer o princípio da presunção da inocência.

Mas o fato é que os elementos que causam estranhamento no texto de Afonso Benites poderiam ter sido simplesmente suprimidos. Por uma razão mais do que simples: não são jornalisticamente informativos. Basta voltar ao parágrafo e lê-lo sem os trechos grifados. Algo essencial fica de fora? Não, não fica. Essas sobras não têm estatuto jornalístico, mas contém informações que realçam características comerciais do produto – a faca – e da situação – um dia de uma promoção específica no hipermercado.

Por isso que o episódio inspira debates em torno da ética jornalística. A inserção na reportagem dos trechos grifados adiciona também elementos que contrariam o que convencionamos esperar do jornalismo. Ele é composto por informações que se orientam por interesses coletivos e públicos, e não por interesses de grupos e motivações primordialmente mercantis. Não porque o jornalismo seja melhor que a publicidade ou porque esteja acima do capitalismo. Mas porque o jornalismo se balize por valores que o aproximem mais da democracia do que do mercado. Historicamente, o jornalismo se desenvolveu como uma tecnologia social para as comunidades que servia. Na medida em que se aprimorava, a imprensa construiu em torno de si um conjunto de práticas que a credenciava como fiscal dos poderes, denunciadora de abusos, defensora da livre expressão e do pluralismo no pensamento. A sociedade foi delegando tais funções ao jornalismo, e este foi tecendo para si uma frágil, mas importante teia de sustentação: finalidade pública, função social.

O mal estar que senti ao ler a matéria de Afonso Benites – e pelo jeito não fui o único – é o sintoma do descolamento entre o que se vê no jornalismo e o que dele se espera. É o desvio de função que nos faz torcer o nariz. É uma indisfarçável sensação de estar sendo traído que nos preocupa, que nos indispõe.

O ruidoso episódio na Folha não mata o jornalismo, mas provoca uma incômoda ferida. Ela pode evoluir, arder, infeccionar. Mas também pode secar e cicatrizar. Qualquer diagnóstico é apressado… Irônico é perceber que não foi a faca quem feriu o jornalismo, mas o seu preço estampado na matéria.

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  1. Eliana Frantz

    Caríssimo Rogério!
    Também fiquei atônita, com a banalização continuada, do jornalismo, em matérias, como a do autor citado: Afonso Benites.
    Muito tempo está sendo utilizado, para manchetes sensacionalistas e nada instrutivas.
    E o que mais me deixa triste, é perceber que há público,para elas.
    Porque elas vendem jornais; dão ibope a programas de tv e as redes sociais também estão ficando muito pessimistas, quando assuntos dessa natureza, viram foco principal do dia.
    Não aceito esta forma de encarar o jornalismo,porque é preciso orientar as crianças e os jovens; apaziguar os corações sofridos e esse tipo de matéria só traz infortúnio, mostra o lado negro da alma humana.
    Não sou a favor disso, e nunca serei.
    É preciso que os jornais e demais canais de comunicação repensem a Ética e tragam de volta os valores primordiais, para uma sociedade saudável: o amor ao próximo; a desbanalização de conceitos dados como “manchetes sensacionalistas” e cuidar mais do preparo dos profissionais de comunicação.
    Do jeito como estamos indo, numa aldeia globalizada, onde em segundos, sabemos tudo o que ocorre no mundo, notícias como essa geram maior agressividade; mais criminalidade.
    E não são esses exemplos, que precisamos, no presente momento.
    Concordo com você, em tudo.
    Um abraço.
    Eliana

  2. Marcelo Idiarte

    Por isso que eu acho uma suntuosa perda de tempo ficar avaliando as mudanças estéticas da Folha de S.Paulo. O que tem que mudar mesmo, o jornalismo praticado por eles, pouco se altera. E quando se altera, geralmente é para pior. É um triste caso de deformação indelével.

  3. Raciel Gonçalves Junior

    Professor,

    Muito interessante este post e os seus comentários. Não sou jornalista, portanto, as considerações abaixo são de um leitor que também anda preocupado com a falta de ética e de moral ilibada.

    A princípio também fiquei chocado e a primeira vista o texto nos leva a considerar que o merchandising é descarado.

    A FOLHA, para mim, goza de um bom conceito, mesmo eu não sendo um leitor assíduo de suas páginas. Fui buscar as justificativas dos responsáveis. Elas estão disponíveis no Blog Novo em Folha – O Blog do Programa de Treinamento da Folha em http://bit.ly/a2zKE9 (BIT.LY short URL).

    Confesso que são considerações interessantes e não vejo motivo para não acreditar nas motivações do Jornalista.

    Nos acostumamos a cômoda visão da imagem que tudo explica e justifica e o nosso cérebro preguiçoso já não mais lê com atenção textos com mais de três parágrafos (curtos), e muito menos livros.

    Na reportagem a dinâmica da escrita (com ou sem segundas intenções) nos transpõe para dentro da cena. Podemos ver o José percorrendo os corredores do Extra, parando em frente de uma prateleiras com várias facas e escolhendo a Tramontina, – marca que ele confia -, (aqui temos uma falha na reportagem, já que diz que José empunhava UMA (1) faca, mas faz referência ao preço de um pacote com QUATRO (4) facas… O que teria feito José com as outras TRÊS (3) facas de tamanhos diferentes?), e por aí segue…

    A referência ao percentual de desconto nas quarta-feiras do Extra, também é muito significativa. Como todo dia tem um dia com descontos especiais em alguma seção dos supermercados, acabamos esquecendo que nas quarta-feiras do Extra o desconto para frutas e verduras de 30% atrai muita gente, ou seja, é um dia em que muitos podem se ferir e sequer estão atentos a isso.

    Assim temos: É melhor não ir no Extra às quartas-feiras para comprar facas, porque não estão em promoção e devemos refletir bem se vale a pena correr risco de morte em um supermercado por conta de um desconto nas frutas e verduras – que convenhamos, cada vez comemos menos.

    Conclusão: Não vejo merchandising, mas vejo o Extra perdendo clientes às quartas-feiras.

    [ ]’s,

    Raciel

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  5. Demétrio de Azeredo Soster

    A forma da matéria em questão corrobora uma percepção que temos desde há muito: edição é matéria de primeira importância no cenário em que nos encontramos desde a instância graduação. Infelizmente, as instituições têm relegado esse conhecimento a, quando muito, uma ou duas disciplinas nos currículos de graduação em jornalismo, ao passo que, nas redações, edita-se cada vez mais e mais cedo. E pior, haja vista que editar requer um nível de aprimoramento técnico que necessita inclusive de tempo de maturação para se formatar como tal.

  6. Rogério Kreidlow

    Não acredito em má-fé. Prefiro apostar na boa vontade do repórter em descrever a situação com detalhes, como ele mesmo relata ao Novo em Folha.

    E, como repórter e amante de bons textos também, gosto de detalhes – assim como há leitores (e colegas) que também gostam, e que reclamam de textos secos demais.

    O que me pergunto é de onde surgem tantas teorias conspiratórias, como se tudo fossem acordos comerciais ou políticos fechados em reuniões ultrassecretas, com objetivos tão fabulosos como o de dominar o mundo.

    Os prazos são tão curtos e, às vezes, a dificuldade para se conseguir informação interessante e necessária é tão difícil, em uma redação, que a única meta que um repórter se impõe e tentar contar a história da melhor forma, mais detalhada e plural possível.

    Claro, qualquer pessoa tem o direito de achar o que quiser depois, de interpretar da forma que quiser, e de parar de ler o que não lhe agrada ou não lhe interessa.

    Abs.

  7. Ana Prado

    Rogério,
    A tua preocupação é pertinente e compartilho na mesma. Não se trata de teorias conspiratórias, mas de um olhar atento sobre a subtis mudanças que por vezes ocorrem na cultura de uma determinada actividade – e que nem sempre nos damos conta dos processos nas quais ocorrem.
    Só para lembrar o que nos diz o Código de Ética dos jornalista brasileiros: “Art.2º, III – A produção e a divulgação da informação devem ser pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público”. Li as explicações do repórter, mas não estou convencida de que haja algum interesse público na forma como a informação sobre o preço das facas e das promoções do supermercado foram estruturadas. E, ademais, para aqueles que se interessam pelas promoções feitas pelo mercado de varejo, a publicidade se encarrega disso, em espaços muito bem delimitados e que avisam aos que se interessar possam.
    Monitorar é preciso, informar tb, mas alto lá!!

  8. Thiago dos Reis

    Não vejo problema em haver publicidade no meio das notícias.

    Nem deve ter sido, porque não é uma publicidade legal falar com qual faca o cara cometeu um assassinato. Não vou ao extra pensando “po, vou comprar a faca com que aquele cara matou 1 e feriu 2! Mas não vou na quarta pq tá cheio”..

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