A família de Eluana Englaro conseguiu, nesta semana, a permissão da Justiça italiana para a eutanásia. Eluana, que tem 37 anos, está em coma, num estado vegetativo, há 17 anos, desde que sofreu um acidente automobilístico. O caso vem provocando tremores de terra no país seja pela polêmica natural da decisão judicial seja pelo alto contingente católico da população.

Eluana foi transferida para um hospital em Udine, onde deve morrer pacificamente, embora já haja movimentos inclusive políticos para impedir o procedimento.

O caso lembra de perto a história de Terry Schiavo (foto), a norte-americana que viveu por 15 anos em condições semelhantes e que morreu em março de 2005 após retirarem o tubo de alimentação que a mantinha. À época, o marido de Terry enfrentou os pais dela na justiça para conseguir a autorização que permitiria a morte.

É claro que esta decisão não é nem um pouco fácil. Para ninguém. Não existe consenso em nenhuma parte do mundo sobre a eutanásia e sobre como lidar com situações como a de Eluana e Terry. As duas mulheres foram – cada uma a sua maneira – desligadas de suas vidas convencionais e mantidas por aparelhos por anos e anos. Seus familiares cuidaram delas, administrando não apenas a manutenção artificial do corpo de um ente querido como também as intensas emoções que isso implica. Amigos e parentes sofreram com a excepcionalidade dessas existências nos últimos anos.

Os sempre nervosos debates acerca da eutanásia são recheados de elementos filosóficos, religiosos, éticos. Teme-se decidir pela morte, mas sofre-se com a manutenção de uma vida tão atípica, tão dependente, tão precária. Decidir pelo não-viver depende de coragem, de convicção, de convencimento. Decidir pela morte dos outros é delicadíssimo, pois implica em tomar as rédeas da vida de quem não as pode conduzir.

Por outro lado, não sabemos se Eluana, no caso, deixará o estado vegetativo e retomará a sua vida normal. Não sabemos também em que condições pode voltar. Ignoramos como seus familiares já estão cansados, exauridos dessa tragédia toda. Talvez sua morte seja mesmo o descanso de todos, o fim de uma agonia que não se dissipa.

Se situação semelhante estivesse se dando no Brasil, penso que os debates e a polêmica seriam semelhantes aos que assistimos na Itália. De alguma maneira, somos muito parecidos – em espírito e humor – com os italianos. Não sei se nossa Justiça assumiria os riscos e bateria o martelo da mesma forma. Nosso ministro da Justiça deu amparo a um homem que responde pelas acusações de quatro homicídios e por terrorismo, mas não sei se optaria pela chamada “boa morte”…

Eu, aqui com meus botões, penso que os Englaro estão no caminho certo. Não vão deixar de amar a filha querida que se apagou num acidente. Não esquecerão dos anos devotados a ela, na saúde e na doença. Mas talvez possam fazer permanecer em suas memórias a melhor imagem da filha, vivendo normalmente, rindo, conversando, cantando, entrando apressada em casa, falando ao telefone…

O fato é que viver é uma tarefa difícil. Permanecer vivo requer vontade, amor à vida, sentido de permanência. A vida sem desejo é uma palavra de quatro letras sem o menor sentido.

4 comentários em “caso englaro e a coragem de decidir pela “boa morte”

  1. A decisão é dura, difícil, mas vem da família dela, a única que pode decidir alguma coisa. Criar leis para impedir a eutanásia é uma afronta a democracia, como Berlusconi está fazendo ao tentar mudar as leis italianas a força. No Brasil acho que teríamos algo similar, embora Lula não seja tão conservador como Berlusconi. A Igreja tem força aqui e na Itália é radicalmente contra a eutanásia. Mas o estado não é laico? Porque a Igreja Católica ainda tem tanto poder?

    1. Boas perguntas, Guilherme… boas perguntas… quem sabe alguém do Vaticano queira discutir isso… heheheh

  2. Ótimo texto!!!
    Concordo com você, acho que a família está seguindo o caminho certo. Eles, mais que ninguém, são os que mais sofrem ao ver a filha naquelas condições.
    Que Eluana, finalmente, descanse em paz.

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