dia dos pais: crônica 1

Sou pai há apenas cinco anos.
No começo, foi uma novidade incrível. Continua sendo.

E como estamos às vésperas do Dia dos Pais, desengaveto aqui alguns textos que cometi há quatro ou cinco anos. Originalmente, eles foram escritos para o site do meu amigo Marcio ABC, grande jornalista e pai da Maria Clara. Nem sei se ele mantém esses textos por lá, mas em todo o caso, deposito aqui também.

Se você é pai, talvez se identifique. Se não é, talvez se motive a ser…

Crônica 1
Mas quem é o pai?
(12/03/2004)

Outro dia, acabei descobrindo que a maternidade é uma instituição e que a paternidade é uma situação. Quer dizer, ser mãe é uma condição já embutida no DNA das mulheres e que se manifesta em algum momento de suas vidas, mesmo que elas não venham a parir. As mães têm sexto sentido; sempre têm razão; têm paciência e pressentem perigos para a prole; estão no centro da família e, quando é o dia delas, recebem presentes. Sempre. Por outro lado, ser pai não é lá grande coisa, e em muitos casos, isso acontece até mesmo sem querer. No dia dos pais, eles recebem uma lembrancinha; eles não detêm nenhum superpoder como a clarividência materna ou o coração em forma de latifúndio. Pais quase não são mais necessários. Ainda mais nos dias de hoje, quando temos bancos de sêmen, técnicas avançadíssimas de inseminação artificial e mulheres mais avançadas ainda. Não vai demorar muito para que os pais sejam tratados como meros doadores de líquidos corporais. (Na verdade, já tem pai que é tratado assim… ou você não se lembra do Luciano Szafir?).

Por isso, a maternidade é uma instituição respeitada e cultivada, um estado desejado, uma condição invejada. A paternidade perde o pouco espaço que teve até então, sendo relegada a um detalhe aqui, outro ali.

Prova disso é o interesse que atrai. Quase nenhum. Um exemplo é o mercado editorial. Minha mulher foi a uma loja atrás de um livro que tratasse de cuidados e conselhos a futuros pais. Andou, andou, andou e não achou nada. Encontrou dezenas de títulos sobre a saúde das gestantes, os cuidados com a gravidez, técnicas de parto, orientações e exercícios físicos para facilitar a dilatação na hora H, guias de nomes, dicionários e enciclopédias neonatais, livrinhos de banho para os recém-chegados, e uma infinidade de manuais de educação infantil. A esmagadora maioria dessas obras era voltada às futuras mamães, ignorando solenemente a presença dos idiotas ao lado, que tentam disfarçar o constrangimento com um sorriso amarelo. Para não dizer que não existam títulos no mercado voltados para os futuros pais, vou citar dois: um foi escrito pelo Gugu Liberato e outro pelo Hélio de La Peña, um dos Cassetas. Diante de tantas opções e graus de especialidade, só mesmo apelando. A pouca oferta é reveladora: ninguém está nem aí para os pais; afinal, eles são meros coadjuvantes, alguém aí pode deixar escapar. Entretanto, depois de procurar muito, até encontramos algo, um livro chamado “O manual do grávido”, que é bem humorado, tem inteligência e é bem útil. Mas é pouco, né!?

O episódio me fez pensar nisso que a gente se transforma quando o exame dá positivo. E, cada vez mais, me convenço de que a paternidade é uma situação, e tudo depende de um bom convencimento. Deixa explicar. Há gerações, as mulheres são condicionadas a esperar que um dia irão se tornar mães. Aí, elas crescem brincando com bonecas, adestram-se na lida com esses afazeres e tomam para si que a missão feminina na Terra é mesmo gerar e parir. A mulher nasce para ser mãe. O homem, não. Ele não é preparado física, técnica e intelectualmente para ser pai. Muito menos emocionalmente. Então, o homem não nasce pai, mas vai acabar se convencendo disso. Alguém – geralmente, a mulher; às vezes, a amante – vai colocar na cabeça dele que é hora de ser pai.

Digo isso com convicção. Tenho amigos que se comportam da mesma forma, e outros que já reproduziram o procedimento que parece ser mesmo padrão. Não é que a gente não queira ser pai, a gente só não estava preparado para isso desde o começo…

De qualquer forma, isso me leva a pensar no que é mesmo ser pai hoje em dia. Se a paternidade é uma situação (e não uma instituição como a maternidade), se, para ser pai, o sujeito tem de se convencer disso, se não fomos educados para isso e se o mundo já é muito diferente do construído pelos nossos pais e avós, é necessário repensar o papel do pai na sociedade atual.

As famílias não são apenas aquele grupinho que tinha papai, mamãe e filhinhos numa mesa de café da manhã passando margarina no pão. Há diversos modelos de células familiares: num deles, quem é o chefe da casa é a mãe; em outro, o casal é homossexual; num terceiro, há filhos de pais separados e casados novamente, gerando aquela confusão de meio-irmão; entre tantos outros exemplos. A família mudou, e o pai já não é aquele cara que sabia tudo e tinha pleno controle das situações. As crianças não temem mais tanto os pais e geram ordens e comandos próprios, conquistando relativa autonomia. Os casais mudaram também. As mulheres são mais emancipadas, independentes e fortes; são mais racionais e ocupam os espaços mais distintos no mundo. Os homens revelam-se mais frágeis, emocionalmente instáveis, avessos a compromissos, desorganizados compulsivos, verdadeiras baratas-tontas bípedes. Com tudo isso, o pai precisa se ajustar a um novo cenário familiar. Não basta apenas que seja o provedor, o protetor, o modelo masculino da força e da coragem. É preciso reconhecer-se em outras posições, em terrenos ainda desconhecidos.

Diante disso, é claro que eu não tenho todas as respostas. Eu só descobri que serei pai faz seis meses. Esta é a minha primeira vez, e é assustador. Mas é fascinante. É pavoroso. Mas empolgante. Calamitoso. Emocionante. Aparvalhante. Maravilhoso…

Sabe, algumas vezes por dia. eu me pego olhando para aquela barriguinha e tento enxergar quem vem vindo ali. Eu abro bem os olhos e passo a ponta dos dedos sobre o ventre dela e sussurro algo (mas não faço com aquelas vozes bobas, juro!). Dá um arrepio de saber que alguém lá dentro me ouviu. Principalmente, se aquele parasitinha dá algum sinal de vida, do tipo chute, cotovelada ou cambalhota. Quando isso acontece, eu não consigo segurar e escancaro um sorriso no rosto. Como se eu tivesse esperando por aquilo desde que nasci…

5 comentários em “dia dos pais: crônica 1

  1. O Vinícius sabe que você o chamou de parasitinha? hahaha Adorei Rogério! Lembrei do meu pai e de tudo que ele e minha mãe fizeram pra ter filhos. Foram 10 anos entre tentativas, cirurgias e stress. Mas valeu a pena, modéstia a parte! hahaha Parabéns pelo seu dia!

  2. Rogério, essa questão da maternidade enquanto instituição além de biológica é muito mais cultural tb, e qqer uma, que fuja e/ou não tenha interessa na maternidade é tratada como uma pária, ressentida e muitos outros adjetivos piores. Então acho que a coisa é um pouco mais complexa do que a mera natureza. Por outro lado, concordo plenamente contigo no quesito de que a sociedade e a mídia deixa os pais completamente de lado no processo, como se fossem meros bonecos. É triste!

  3. Nossa, estranho ver como o outro lado se sente!
    risos
    Para mim, que tenho uma família que ainda não fugiu muito do padrão pão com manteiga, o meu pai é tudo… é complemento da minha mãe, a figura forte ao mesmo tempo sensível… Temos uma ligação incrível e acho que um dia o seu pequeno também vai pensar isso de você. [só evite que ele leia o parasitinha! hahaha]

  4. Luiza e Marina, “parasitinha” é um termo carinhoso… De que forma chamar uma minhoquinha que cresce na barriga das mulheres e que, mesmo depois de sair dela, vive sugando suas energias?

    Sim, Adri. É uma pressão sem dó nem piedade. Como se precisássemos povoar o mundo a qualquer custo. bj

  5. Uau!!!

    Que texto massa! Encontrei-o ao procurar por um texto que falasse sobre a ausência do pai e encontrei um texto de um pai tão presente, embora ainda não tenha lhe chegado a criatura que já mudou a tua vida. Parabéns!

    Que seu filho(a) chegue bem e te faça bem feliz.

    Abraço!

    Peterson Nogueira

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