documento da comissão moderniza diretrizes, mas alonga cursos

A comissão de especialistas designada pelo ministro Fernando Haddad para reformar as Diretrizes Curriculares para os Cursos de Comunicação entregou ontem ao Ministério da Educação seu relatório final, um documento de 26 páginas que sugere modificações nas bases que sustentam os cursos de Jornalismo brasileiros. A comissão foi formada por alguns dos nomes mais respeitados e reconhecidos do país na área: os professores Alfredo Vizeu (UFPE), indicado pelo Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ), Eduardo Meditsch (UFSC), indicado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Luiz Motta (UnB), indicado pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), Manuel Carlos Chaparro (USP), Sonia Virginia Moreira (UERJ), da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), Sérgio Mattos (UFBA) e Lúcia Maria Araújo, do Canal Futura.

Eles tiveram pouco mais de seis meses para consultar a comunidade acadêmica, o mercado e organizações da sociedade civil, para reunir-se e discutir e para sistematizar todos os dados colhidos. O resultado é este documento. A partir de agora, o trâmite é interno ao MEC, com discussões no Conselho Nacional de Educação, onde tudo pode mudar, como já aconteceu em 2001, na edição das Diretrizes Curriculares em vigência. Aliás, é preciso ter em mente isso também: enquanto o CNE não aprovar novo documento que oriente os cursos, fica valendo o atual, um verdadeiro monstro de Frankenstein, que traz instruções para diversas habilitações do curso de Comunicação. O documento entregue na sexta já parte de um novo contexto: o de que o Jornalismo pode ter cursos específicos, com diretrizes próprias.

Há exatos sete meses, escrevi neste blog o que poderíamos esperar da comissão e do seu trabalho: em linhas gerais, eu manifestava que era um momento histórico para a área, pois estávamos diante da construção de novas bases para os cursos, e próximos de uma definição do Supremo Tribunal Federal sobre a polêmica do diploma. Eu temia pelo tempo, pela extensão do prazo: seis meses.

Se conseguirmos chegar à metade de 2009 com a decisão do STF – qualquer que seja ela -, com uma nova regulamentação profissional e com novas diretrizes curriculares, poderemos iniciar uma nova fase para o jornalismo brasileiro. A partir de 2010, estaremos começando uma nova década e não apenas no calendário…

Ora, eu estava errado, apressado demais. Seis ou sete meses foram um bom tempo para o diálogo, para a reflexão. O que precisamos agora é que a tramitação no CNE seja rápida e possíveis alterações apenas aperfeiçoem o documento da comissão. Chegamos aos dias que correm com a decisão do STF e com o final do trabalho dos especialistas sobre as bases dos cursos de Jornalismo. Este tem sido sim um ano histórico, basta adicionar a esses episódios o fim da Lei de Imprensa.

Mestrado profissionalizante e especificidade

Sem dúvida, o documento apresentado ao MEC atualiza as bases para os cursos de Jornalismo. Se o relatório passar sem grandes alterações, vai estabelecer outras orientações para os cursos existentes e os a surgir. Mas as proposições não se conformam apenas à graduação. Deve impactar também sobre cursos de pós-graduação. O documento sinaliza, por exemplo, que “a formação de profissionais especializados (…) tem a possibilidade de se estabelecer através de cursos de mestrado profissional, credenciados pela CAPES. Neles, os formados em outras áreas do conhecimento poderão preparar-se para colaborar nas editorias especializadas, atuando como comentaristas, consultores ou planejadores de conteúdo. A especialização de graduados em jornalismo (…) pode também ser garantida em mestrados profissionais”.

A modalidade profissionalizante dos mestrados ainda é uma incógnita para a maioria das áreas de conhecimento no sistema de pós-graduação. Em campos como o da Educação, teme-se, por exemplo, que o surgimento de mestrados do tipo “acabem” com os mestrados acadêmicos, discussão que não tem sentido no Jornalismo. Mas a sinalização da comissão demonstra ousadia não apenas na sugestão deste tipo de pós-graduação, mas abrindo a possibilidade de formados em outras áreas chegarem ao jornalismo por meio de pós, como se dá muitas vezes em outros países.

O relatório é categórico: as mudanças propostas sepultam a idéia de que o Jornalismo seja uma habilitação dos cursos de Comunicação Social, “uma vez que esta, como profissão, não existe, assim como não existe uma profissão genérica de Saúde”. O esforço da comissão não é romper com a grande área de conhecimento da Comunicação, mas apagar o equívoco cristalizado pelas diretrizes atuais. Funciona, mais ou menos, como na Saúde, onde Medicina, Odontologia e Veterinária pertencem à mesma grande área de conhecimento, mas oferecem cursos e profissões específicas. O movimento pelo fim das habilitações já está em franco desenvolvimento, e em 2006 mesmo outro curso da Comunicação – Cinema e Audiovisual – “já foi desmembrado das Diretrizes Curriculares comuns pelo Conselho Nacional da Educação, através da Resolução n­º.10 de 27/06/2006”.

Em seu documento, a comissão faz um extensa e ampla discussão sobre as bases teóricas, históricas e práticas do jornalismo, recorrendo à bibliografia nacional e internacional, demonstrando a evolução do campo e a necessidade de os cursos de formação acompanharem esse ritmo. São apontadas instruções para os projetos pedagógicos dos cursos e salientadas as competências a serem desenvolvidas para o preenchimento de um perfil de formação.

Eixos de formação e duração dos cursos

A proposta prevê que os cursos de Jornalismo se apoiem em seis eixos de formação:

  • Eixo de fundamentação humanística
  • Eixo de fundamentação específica
  • Eixo de fundamentação contextual
  • Eixo de formação profissional
  • Eixo de aplicação processual
  • Eixo de prática laboratorial

A comissão colheu sugestões em pelo menos três audiências públicas com diversos setores da sociedade, direta ou indiretamente interessados na reforma das diretrizes. Penso que o alicerce dos seis eixos contempla todas a gama de proposições, e ajuda a equilibrar a formação oferecida. Os cursos – se tiverem que se adequar a este novo modelo – terão ainda que superar velhas dicotomias como Teoria-Prática e Academia-Mercado. Isso não é um problema da comissão, mas dos cursos, de seus gestores e professores.

Para preservar o equilíbrio entre os eixos, a comissão estabelece equidade nas cargas horárias – em torno de 400 horas para cada eixo -, e ainda reserva 300 horas para os trabalhos de conclusão de curso, mais 200 horas de estágio supervisionado e outras 300 para atividades complementares . Com isso, a comissão alonga o período de formação dos jornalistas. Se até hoje, os cursos devem ter ao menos 2,7 mil horas, se aprovado o relatório, passarão a ter ao menos 3,2 mil horas. Neste sentido, pessoalmente, discordo da comissão, pois não tenho certeza de que aumentar a carga redunde necessariamente numa formação melhor. O próprio MEC já sinaliza que cursos de graduação possam ter três anos, acelerando a chegada dos profissionais no mercado e enxugando ao essencial os conteúdos oferecidos nos cursos. Penso que os cursos de Jornalismo podem ter menos de três anos, e novas oportunidades formativas serão necessárias ao longo da carreira do profissional, cabendo a ele buscá-las para se reciclar e definir especializações.

Positivo, no entanto, é perceber que a comissão sugere que as atividades laboratoriais sejam oferecidas aos alunos já a partir do primeiro semestre, em sequência progressiva, conforme níveis de complexidade e de aprendizagem. Esse aspecto contraria a lógica do velho currículo mínimo que cindia os cursos em módulos teóricos – os primeiros dois anos – e práticos – os restantes. Com essa nova lógica, contempla-se o aluno que recebemos hoje nas escolas, e os contextos atuais de informação e comunicação.

Outro ponto importante do relatório da comissão é o que trata do estágio supervisionado, um tabu na área. Por conta da lei que regulamenta a profissão, os estágios eram considerados irregulares, mas na prática executados sem nenhum acompanhamento ou orientação pedagógica. A comissão estabelece normas gerais para sua execução e traz o estágio como uma etapa de complemento formativa, o que deveria ter sido feito desde sempre…

Aperfeiçoamento dos professores

Duas recomendações finais no documento da comissão de especialistas precisam tambéms ter a anuência do Conselho Nacional de Educação nas novas diretrizes. A primeira sugere a criação de um “Programa Nacional de Aperfeiçoamento Docente destinado às novas gerações de professores de Jornalismo”. Com isso, a comissão chama a atenção para um problema que se descobre apenas no cotidiano da sala de aula: professores, muitas vezes, inseguros e mal preparados para o exercício da docência, com sérios problemas de didática e que se mostram antipedagógicos. Muito bom a comissão ter observado isso.

Um segundo aspecto a ser ressaltado é a “manutenção de uma comissão supervisora das novas diretrizes (…) para garantir a concretização das estratégias” defendidas no documento. Evidentemente, a comissão não quer assistir de camarote à descaracterização do seu trabalho ou mesmo estabelecer regras que não sejam minimamente acompanhadas.

Muito particularmente, penso que o documento da comissão é um relatório que auxilia o MEC a modernizar e reestruturar os cursos de Jornalismo no país. São mais de 300 por aí, muito além da capacidade de absorção de mão-de-obra que o mercado tem. O relatório atualiza as bases, mas penso que dois são os seus calcanhares de Aquiles: o alargamento do tempo de formação e o alicerce dos seis eixos de formação.

O alargamento da formação pode ser um problema numa época em que há pressa para tudo, inclusive para chegar ao mercado de trabalho. A extensão da duração dos cursos pode inclusive “motivar” o apressado a não fazer o curso superior, já que, ao menos por enquanto, não é necessário ter diploma para ter registro. Isso não é um problema para a comissão, mas para as instituições de ensino…

A definição dos seis eixos de formação, por sua vez, é resultado muito mais de um esforço para contemporizar e agregar opiniões divergentes da comunidade do que propriamente o substrato de uma orientação pedagógica, de uma lógica formativa. Tomara que eu esteja errado, mas se não estiver, gestores e professores terão que suar muito para planejar cursos orgânicos e bem definidos. Além do que me parece forçado estabelecer a mesma carga horária para tão diferentes eixos… Tomara que eu esteja vendo fantasmas à toa…

De qualquer maneira, a expectativa agora é pela tramitação do documento no CNE, e pela implementação de novas diretrizes. Volto a repetir: é um momento histórico para a área. E é muito bom estar vivendo tudo isso…

10 respostas para “documento da comissão moderniza diretrizes, mas alonga cursos”.

  1. Rogério,

    Eu vejo o alargamento do tempo de maneira um pouco diferente – levando sempre em conta a desobrigação do diploma. Não sendo obrigatório se formar antes de começar a trabalhar, um estudante mais ligado pode trabalhar ao mesmo tempo em que busca uma formação mais demorada que a atual. Concordo que apenas aumentar a quantidade de “horas-bunda” não resolve os problemas do curso, mas acho que a maior demora não é necessariamente um empecilho se o sujeito não precisa se formar antes de começar a trabalhar. Por experiência própria, digo até que é o contrário. Fiquei nove anos na faculdade, se contar tudo. Na primeira fase, eu trabalhava à noite num jornal de Porto Alegre em funções auxiliares (boy, telex, internet, assessor para assuntos aleatórios). Tranquei por uns dois anos pra trabalhar na Folha, depois voltei pra terminar – e continuava trabalhando como freelancer, porque precisava pôr o bife na mesa. Aproveitei muito melhor a faculdade depois que já tinha alguma experiência como jornalista. A prática somada à reflexão foi fabulosa para o meu aprendizado (e também não é nada desprezível o fato de que aos 25 anos eu estava mais maduro que aos 18). No caso de estudantes de faculdades particulares, há outro incentivo importante: em muito poucos casos, infelizmente, uma bolsa de estágio cobre a mensalidade. Mas um salário chega no mínimo um pouco mais perto disso.

    Abração,

    Marcelo.

  2. Avatar de rogério christofoletti
    rogério christofoletti

    Interessante a sua experiência, Marcelo.
    Tá vendo como esse negócio de educação, curso, formação é complexo? E aí, sempre tem gente que advoga o fim dos cursos só porque eles “são ruins”… como o médico que sugere cortar a cabeça do paciente já que aquela dor não passa nunca…
    abs

  3. Interessante ler esse texto da comissão de especialista e observar o nova grade do curso aqui da Univali. Como você sabe melhor do que eu (não é mesmo, professor?), esta grade curricular de Jornalismo atende a quase todas as indicaçoes proposta pelos especialistas.
    Quero aproveitar para perguntar sobre os cursos de jornalismo e suas demandas: o professor acredita que não existe mercado suficiente para absorver todos esses jornalistas formados? ou a qualidade duvidosa de alguns deles é que dificulta o ingresso no mercado?

    Um abração!

  4. […] é melhor ler o que diz Rogério Christofoletti, que analisou todos os pontos importantes do […]

  5. Segue o debate suscitado na lista da Compós em torno das “novas” diretrizes para jornalismo. Com uma visão extremamente CRITICA sobre a proposta.

    ———- Forwarded message ———-
    From: Mauricio Lissovsky
    Date: 2009/9/21
    Subject: RES: [Compos] novas diretrizes para o curso de jornalismo?
    To: Compos@yahoogroups.com,

    Pessoal,

    Sei que na qualidade de coordenador do curso de rádio e TV da UFRJ, minha legitimidade sempre fica em questão quando se trata de discutir a formação de jornalistas,

    Mas confesso que fiquei chocado com as tais “diretrizes”.

    A separação do curso das “habilitações” de comunicação é um erro do ponto de vista conceitual e um desastre do ponto de vista da formação profissional. E sinceramente, isso de estágio obrigatório parece acordo para fornecer mão-de-obra (barata e mesmo gratuita) para nossos “órgãos de imprensa”.
    – Ocultar texto das mensagens anteriores –

    Não entendi bem se estas diretrizes é para serem implantadas mesmo ou se são “indicativas”.

    De modo ou de outro, no que me diz respeito, o jornalismo vai permanecer uma habilitação do curso de comunicação social (assim como o audiovisual, a editoraçao, a multimídia, etc…)

    Diploma não é fetiche, mas quem estiver sendo consumido pela nostalgia, pode pendurar o seu na parede.

    Abs a todos,

    Mauricio Lissovsky/ Eco/ufrj

    De: fabiomalini
    Enviada em: domingo, 20 de setembro de 2009 13:55
    Para: Compos@yahoogroups.com;

    Assunto: [Compos] novas diretrizes para o curso de jornalismo?

    De volta para o futuro

    Novas diretrizes curriculares de jornalismo empurram curso para uma concepção reacionária na formação, não percebendo que as novas práticas do fazer jornalístico não passam simplesmente pela obrigação do estágio, mas pela produção autônoma de veículos de comunicação, que são, cada dia, criados e mantidos pela sociedade em rede.

    Por Fabio Malini (UFES)

    Escrevo esse artigo, que trataria da relação das chamadas mídias livres no campo da comunicação social, no momento que sai a proposta das novas diretrizes para o curso de jornalismo. Inevitável mostrar como o cenário do midialivrismo gera reação até onde seria o campo da recepção das novas demandas sociais: a formação acadêmica. De antemão, não há muitas novidades nas diretrizes para o ensino de jornalismo, senão uma tentativa de posiscionar-se diante ao fato cabal de que o campo da comunicação social se tornou mais elástico e rico, e o campo do jornalismo, mais restrito e corporativo. É nessa tensa relação que as diretrizes foram geradas. Novidades radicais: estágio supervisionado obrigatório e separação do curso de jornalismo do campo da comunicação social. O restante é chover no molhado, só atualização à novas necessidades.

    Mas, muitos do problemas dessas diretrizes, tem haver com o fato de nascer fora de lugar, disso ciada das decisões do Supremo tribuna Federal, que gerou o fim da exigibilidade do diploma de jornalismo, a queda da lei de imprensa e do acórdão que entende a internet como espaço da liberdade absoluta.

    As novidades das “novas diretrizes” são um trágico “de volta para o futuro”. Elas apontam muito mais para trás, mesmo que exista uma boa fé daqueles que pensam em estar olhando para frente.

    Quem institucionaliza a formação em jornalismo?

    Uma questão concreta, um interesse concreto. Aqui na Universidade Federal do Espírito Santo, propomos um novo curso de especialização lato sensu, em jornalismo. O foco é ser uma especialização teórico-técnica aberta a todos os profissionais graduados, como queremos e a justiça também. Ordem do Supremo. Não podemos, por lei, dizer que somente graduados em jornalismo podem fazer o curso de aperfeiçoamento, nível pós-graduação lato sensu, em jornalismo. Claro que t ambém é uma atitude política. Queremos qualificar a formação do campo dos não-jornalistas, graduados em habilitações da comunicação social e outras áreas, que agora são jornalistas, de direito.

    Ao mesmo tempo as novas diretrizes permitirão que a graduação em jornalismo não será mais uma habilitação da comunicação social. Nada de delírio sulamericano, pensam alguns, que acreditam que essa coisa de comunicação social é abstrata demais e impede o ensino de jornalismo de focar mais no fazer jornalístico.

    Mas veja o nosso caso aqui de Vitória como vai no núcleo da “questão da formação”.

    Se um dia, um departamento, como o nosso, propor fazer uma pós-graduação lato sensu de jornalismo, com foco no “campo profissional”, será que o curso/departamento de jornalismo iria dizer o quê? Não, pelo amor de Deus, é só na graduação de jornalismo que aprendemos a fazer fotojornalismo, pelo amor de deus é só na graduaç ão de jornalismo que aprendemos a fazer telejornalismo? As diretrizes curriculares do campo profissional vão impedir cursos de jornalismo lato sensu nas universidades públicas e faculdades privadas desenvolvidos por professores, que são jornalistas, mas que atuam em outros cursos de habilitação da Comunicação Social ou em outras áreas da Humanidades?

    Veja que essa idéia de criar um “campo profissional” dissociado de um “campo de conhecimento” pode gerar uma dinâmica de guerra na área. Eu, se estiver num curso de audiovisual ou de economia, para usar exemplos concretos, posso propor um curso de jornalismo em nível de pós-graduação lato sensu, quer o depto de jornalismo da minha instituição queira ou não. Eu posso propor, e a instituição superior de ensino aceitar criar um curso de especialização com todas as disciplinas técnicas do jornalismo. E aí, de novo, quem vai me proibir? Ninguém, porque as diretrizes querem separar a formação d e jornalismo da área de comunicação no nível de graduação, mas não no de pós-graduação, porque neste o que vale é o fato de jornalismo ser parte do grande campo de conhecimento chamado Comunicação Social. E daí o discurso do jornalismo como apenas campo profissional não cola. Dessa forma, o nosso curso de lato sensu para profissionais “do” jornalismo é absolutamente algo legitimado institucionalmente e traz, de volta, a junção daquilo que a comissão sugere separar, o jornalismo como uma faceta do campo da comunicação social. Eu posso formar jornalistas, graduados em qualquer área, no nível de pós-graduação, independente da formação que o estudante possa vir a ter.

    Então, no lugar de fortalecer os cursos de jornalismo a proposta acaba por criar um conflito entre áreas da comunicação social que pode, em última instância, fragilizar as graduações, senão até acabar com muitas delas, porque, pela lógica, só poderão estar dentro dos cursos de jornalismo graduados em jornalismo. Lembre-se, para comissão, o jornalismo é campo profissional e não campo de conhecimento. Eis aí a primeira volta para o futuro. Enquanto a sociedade radicaliza a comunicação social (pressionando pela ampliação de direitos no campo da comunicação), aqueles que formam jornalistas querem dissociar das dinâmicas concretas da sociedade.

    Pela lógica da decisão do Supremo, o estágio supervisionado é ilegal

    Não podemos esquecer que temos uma dimensão constitucional nova sobre o que é jornalismo. O fim da exigibilidade gerou viúvas, sabemos. E aí, essas diretrizes podem estar é acabando com os cursos de jornalismo, na maior boa fé.

    Essa coisa do estágio supervisionado é uma atidude pedagógica reacionária, repressiva, mesmo que, repetindo, exista uma boa fé nisso. Num contexto em que a sociedade produz comunicação (e jornalismo como uma das suas linguagens), como eu vou pedir pro cara que cursa jornalismo e tem um blog indepedente de jornalismo político fazer estágio na editoria de política do jornal local? Eu vou pedir pro cara que atua num coletivo de jornalismo independente, que mistura, cinema, audiovisual, produção gráfica, computação, sociologia, teoria da comunicação, etc, e ganha uma grana com novas formas de sustentabilidade profissional, a passar pelos “postos de trabalho” da fábrica fordista? Eu que tenho minha revista online, com 10 mil acessos dia, focada em jornalismo cultural, vou ter de fazer estágio onde? Esses são exemplos reais, pois estamos num cenário de radicalização da comunicação social e de esplendor para o jornalismo.

    E o pior que nem sou somente eu quem diz isso, é só fazer uma pesquisa básica no Google e encontrar entrevista do editor do Washington Post Philip Bennet, publicada no jornal El Pais, comentando o fato de ter demitido 250 jornalistas nos últimos três anos: “tive q ue fazer isso com um paradoxo sempre na mente que estamos a viver uma época terrível para empresas de notícias e uma era de ouro para o jornalismo”.

    A proposta dessas diretgrizes quer – de novo, com a maior boa fé – é retomar a proposta de exigibilidade do diploma, mas só para uma classe de trabalhadores, e pasmem, para os jornalistas. Reparem a lógica. O cara que faz jornalismo terá que fazer estágio. Onde? Nas redações e ambientes institucionais. Porque, o estágio poderá ser feito apenas em “instituições” (com curioso detalhe que poderá ser em assessoria de imprensa). De qualquer forma, o estágio recupera a velha concepção da fábrica fordista (estudante primeiro, produtor depois). Assim, o fazer jornalismo fica condicionado, nas faculdades, a um estágio, portanto, dentro das redações (no sentido mais amplo possível do termo, por mais irônico que isso seja, para aqueles que pensam em jornalismo, legitimando o jornalismo de uma fonte só ). O cara fica quatro meses, no mínimo lá no local, depois, pé na buzanfa.

    Nessa lógica, não pode existir jornalista formado em jornalismo sem residência. Contudo, o que vai acontecer? Só é jornalista graduado aquele que passar pela dimensão corporativo-sindical. Com um avanço, o cara que for fazer estágio, não entrará como estudante, mas como JORNALISTA, porque legalmente o ESTÁGIO EM JORNALISMO É UMA FICÇÃO. Com o fim da exigibilidade, não se pode criar, nas redações, a figura do estagiário. Ninguém sacou que o fim da exigibilidade deixará o sindicato de jornalista rico? Então essa de estágio é ilegal nas redações, porque a atuação jornalística não requer diploma e o estudante terá que ser contratado como profissional ou, o pior, ser contratado como um estagiário de serviços gerais, para fugir das normas que regem a legalidade. Com a decisão do Supremo, não pode haver “estagiário em jornalismo”, só jornalistas.

    M as o pior, cômico e trágico ao mesmo tempo, o cara que faz história pode fazer jornalismo sem passar pelo estágio. É verdade, pode. Mas o cara que já é jornalista, e cursa jornalismo, não pode ser jornalista se não fizer estágio. Então, as diretrizes, com todo respeito, pioraram a situação para quem quer fazer jornalismo, porque só é “jornalista quem for fichado”. E o pior: nenhuma redação vai querer contratar o cara, num regime de trabalho CLT, para ficar trabalhando apenas um ano, porque depois vai ter de demitir e pagar todos aqueles encargos que empresário quer pagar (40% de demissão etecetera). O estágio inviabiliza os cursos de jornalismo no país porque, na verdade, não existe conceito de estágio em jornalismo. Quem for atuar no jornalismo, por não exigir diploma, precisa ser sindicalizado como tal. Se existe residência em medicina, não haverá no jornalismo. É por isso que os cursos de residência em jornalismo no país não pagavam, e vã o continuar a não pagar, um centavo para os nossos estudantes, porque se trata de uma benevolência do grupo de comunicação em ensinar o jornalismo a partir das suas regras editoriais.

    Agora com a obrigatoriedade do estágio as coisas melhoram para o empresariado (apesar do contrato de estágio fake que terão que criar, como já criam, diga-se de passagem). E agora, de volta para o futuro, a comissão recorre no esquecimento da decisão do Supremo: nada de estágio, vamos assumir, dentro da CLT, o trabalho jornalístico profissional, seja ele de um garoto de 18 anos ou de um senhor de 60.

    Mas o pior não é a interpretação caduca da comissão. Mas é a visão mesmo de que só há jornalista se houver o estágio institucional. O estágio supervisionado obrigatório é rescaldo da cultura do aprisionamento do fazer jornalismo como uma atividade corporativo. E tá na cara que inseri-lo no currículo pode criar uma situação de inconstitucionalidade. Afinal, im por-se-á uma obrigação na formação que não tem amparo legal, à medida que o estudante pode atuar na produção de jornalismo antes ou depois de formado, tal como o estudante de audiovisual ou de história que podem, agora ou amanhã, atuar no jornalismo. Valerá à pena fazer o curso de jornalismo à medida que este coloca a barreira do estágio como condição para ser jornalista?

    Para mim, a questão passa é por romper essa dimensão disciplinar do estágio. O que significa afirmar que a gurizada precisa fazer o que curte hoje: criar suas próprias mídias, de forma autônoma, inclusive, em relação ao próprio professor. Para que somente ter a moral do escravo entre nós? Não, não, não. Hoje podemos construir nossas próprias mídias e viver delas. Há tantos exemplos, tantos, de inovações jornalísticas, na rede sobretudo, que não passam por ter um chefe, que fica dificil apoiar essa história de “obrigação do estágio”, porque exclui as novas práticas sociais de mídia livre, em que ter seu próprio veículo é condição de estar no mercado de trabalho.

    Então no lugar da moral do escravo, temos é que criar a moral do empreendedor coletivo, que articula diversos saberes na produção de veículos jornalísticos para além de ter um patrão. Mídia Livre nos currículos de jornalismo para conseguirmos ter a oportunidade de produzir novas linguagens, novoas oportunidades de trabalho.

    Os empregos continuarão a existir.

    Os espaços institucionais não cessarão. Estarão sempre à disposição de talentosos jornalistas (formados ou não em jornalismo/comunicação social). Mas, veja bem, eu não sei se uma entidade poderá criar estágios em jornalismo, repito. Já estamos a ver concursos públicos que abrem vagas de jornalismo, mas que não pode priorizar aqueles formados em jornalismo. Os gestores que fizerem essa priorização pode ver o concurso público sendo questiona do na justiça. E no campo da redações profissionais é o talento e a obediência (não é vero?) à cultura organizacional que vai decidir a parada. Enquanto isso centenas de jovens talentos já estarão produzindo os seus próprios veículos, quase sempre de forma coletiva, junto com carinhas que são cineastas, publicitários, designers, programadores, matemáticos, cientistas sociais etc, num processo incrível de mistura de conhecimentos para criar histórias contemporâneas.

    E não há dúvidas que é nessa maioria que a inovação deve passar, o que não inviabiliza que a “grande mídia” pesque alguns desses talentos, remunerando-os de maneira digna (oremos!).

    Então, vejo, como dentro da normalidade que alguns professores de jornalismo tenham receio da cultura da comunicação social. Mas é dela que precisamos. Sei que o termo “comunicação social” pode soar muito abstrato para esses professores, de fato, é. Mas, para mim, se trata apenas de um termo para mostrar o óbvio. O processo sempre aberto do campo da liberdade de expressão, em que o jornalismo é sempre um dos seus mais importantes pilares. Nossa constituição tem lá, o capítulo Da Comunicação Social. O termo não é só acadêmico, mas constitucional. Não se trata de ter uma perspectiva estruturalista no campo. Ao contrário, é entender que a dimensão da comunicação social é exatamente o que o “novo jornalismo” deve ter como horizonte profissional. Perder a dimensão comunicacional é perder parte da ética jornalística e das dinâmicas concretas de exigência de democratização da comunicação, porque o jornalismo é feito das diferentes linguagens, práticas e éticas que estão circunscritas ao domínio da comunicação.

    O que eu posso fazer se os americanos pensam a formação de “jornalismo como curso de jornalismo”? Veja lá a situação dos caras. O processo intenso de disputa com o campo da comunicação social, que se insurge contra ou c hacoalha o “campo profissional de jornalismo”. A situação americana é esta. E a gente aqui dizendo que o campo da comunicação social é coisa menor para o jornalista, enquanto aprovamos uma legislação eleitoral que afirmar que todo cidadão deve ter direito à produção da informação, que os políticos queiram ou não.

    O que é isso, companheiro? A luta, de hoje, significa trazer a cultura do remix para dentro do jornalismo. E não excluir dele as novas linguagens originadas dentro da comunicação social, que hoje tem a rede como seu principal paradigma.

    Este semestre dou aula para o jornalismo e o desenho industrial, no mesmo espaço, no mesmo dia. Descobri que não tem como pensar narrativas multimídia dissociadas do campo do design e da programação. Ante,s os meninos e meninas de jornalismo faziam conteúdos bem legais, mas, o que adiantava, se a gente não sabia programar e potencializar ainda mais o grau de conhecimento aplicado na pr odução de reportagem. Então resolvi radicalizar. Botei todo mundo na mesma sala. A galera do design discute personagens, narrativas, iconicidade dos personagens etc. A galera do jornalismo design, formas de organização da notícia dentro das narrativas do multimídia, programação php e desenho a partir da lógica CSS. Isso para mim é comunicação social. É radicalizar o princípio da comunicação social. A galera vai produzir seis especiais jornalísticos multimídia. Reportagem com profundidade a partir da hibridização jornalismo + design + informática.

    Só penso nisso porque fui formado em comunicação social, habilitado em jornalismo. E não quero fazer a viagem “de volta para o futuro”. Não me façam tirar os alunos do design e sistema de informação da minha turma de laboratório de jornalismo online.

    Meu antigos professores, vocês estavam certos. É a comunicação social que está sendo radicalizada hoje. Deixem os americanos e os europeus na crise. E assumam o devir latino-americano do jornalismo como “comunicação social”. É como diz o Roberto e o Erasmo, “Não dê ouvidos a maldade alheia / E creia / Sua estupidez não lhe deixa ver que eu te amo / Meu bem / meu bem / Use a inteligência uma vez só / Quantos idiotas vivem só / Sem ter amor / E você vai ficar também sozinha / Eu sei porque …”.

    Fábio Malini/UFES
    …………………………………………………………………………………..
    Erick Felinto para Compos

    para Compos@yahoogroups.com
    data 20 de setembro de 2009 20:59
    assunto Re: [Compos] artigo “de volta para o futuro” revisado

    Excelente reflexão, Fábio. Aqui neste país (e de forma especialmente triste no campo da educação) se vive de “obrigatoriedades”, “legislações”, “classificações”, “diretrizes”, todas continuamente contribuindo para o congelamento da sociedade em suas formas mais arcaicas, passadistas e burocráticas. Este é realmente o país do futuro. O problema é que nunca chegamos lá…

    Abços,

    Erick Felinto./UERJ

    1. Avatar de rogério christofoletti
      rogério christofoletti

      Obrigado, Ivana. Tento, mas não consigo entrar na lista da Compós…

  6. Olá Rogério,
    Meu nome é Mara Rodrigues trabalho para o Laboratório de Comunicação Digital F5 da Faculdade UNA, onde curso jornalismo. Estamos interessdos em fazer uma matéria sobre as novas diretrizes do jornalismo. Gostaria de saber se você pode me disponibilizar seu e-mail para enviar algumas perguntas.

    Obrigada,
    Equipe F5

  7. […] não são definitivas, como afirma em seu blog o Doutor em Comunicação e Mestre em Lingüística Rogério Christofoletti. “Tudo pode mudar, como já aconteceu em 2001, na edição das Diretrizes Curriculares em […]

  8. Avatar de Jose Carlos de Souza Morais
    Jose Carlos de Souza Morais

    Na primeira visada >
    Parece até que os professores da comissão não pesquisaram junto as mantenedoras se elas vão continuar por muito tempo ofertado um curso que não tenha inscrição de alunos.
    Se não houver inscrições de alunos não haverá oferta de disciplinas.
    Se não houver a disciplina não vai haver professor.
    Se não houver disciplina, nem professor, nem aluno, não haverá CURSO DE JORNALISMO.
    Logo, aumentar a carga horária do curso de jornalismo e individualizá-lo foi um erro. Alguns professores perderão!
    O Curso de jornalismo tem existência mais forte no seu conjunto, na sua integração com outras habilitações.

    Numa segunda visada!
    O estágio foi um modo de aplacar as conveniências das mídias ( elas, “as mídias formais” lutaram sempre contra a necessidade de diplomas).
    Qualquer dono de uma mídia (rádio, tv, jornal, revista etc.) fica desesperado com o final do mês. Custo e benefícios é seu maior problema. Havendo uma política de estágio ele, dono da mídia, vai bater palmas. Vai suspirar…
    De certa forma a comissão agiu de modo político!

    Na terceira visada.
    Retirar o curso de jornalismo do âmbito da Comunicação Social foi um erro.
    Há necessidade de um conjunto de disciplinas que aumente a cultura geral dos alunos. As maiores críticas que os alunos recebem das mídias é a falta de cultura.
    Será que não houve uma tentativa de reserva de mercado para os formados em jornalismo. Isso tem nome: tiro no pé!
    Numa quarta visada.
    A comissão perdeu a oportunidade de:
    1 Ampliar as conexões do curso de jornalismo com as diversas habilitações em Comunicação Social.
    2 Adequar sua grade com outras graduações, tais como, economia, administração, história, língua portuguesa etc.
    3 Criar um modelo de Curso de Jornalismo para os já formados nas diversas graduações, por exemplo: medicina, engenharia etc.
    4 Aproveitar o grande filão que é a internet e criar algo como “jornalismo para web”.
    morais,jcs

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