nervos à flor da pele e o brasil dividido

Evitei tratar de eleições neste blog nos últimos meses. Foi deliberado. Não me senti muito à vontade para fazê-lo, mesmo que seja um assunto que eu goste muito e entenda menos do que gostaria. Acompanhei a campanha com muito interesse como em outros anos. Mas tentei não transformar este espaço em mais um palanque. Há quem o faça, e é igualmente legítimo. Um blog pode ser também um espaço muito pessoal, muito particular. E no meu caso – o de evitar tratar de eleições aqui – também foi uma opção muito pessoal e particular.

Mas antes da votação de domingo, quero deixar registradas umas duas coisinhas:

Primeiro. Há muito tempo eu não via uma campanha tão nervosa, tão combativa e tão suja. Na verdade, desde 1989, eu não via algo assim tão polarizado, tão confrontante. Os candidatos não ajudaram: não têm carisma, elegeram temas desimportantes e apelaram para diversos expedientes condenáveis para se atacar. Perdeu-se uma oportunidade histórica de se discutir mais profundamente o país, de se definir uma agenda mais concreta para os próximos quatro anos, de avançarmos em temas ainda não tratados, como as reformas política e fiscal. Fiquei enojado em alguns momentos. Tentei não me irritar, fiz graça, embarquei em algumas piadas e até narrei um debate ao estilo de uma luta de boxe. Tudo para manter algum equilíbrio, distância e senso da importância (ou não) de alguns episódios.

Segundo. A campanha suja, o clima apaixonado, tudo isso ajudou a dividir o país. Li nas redes sociais, nos jornais, em diversos locais ataques de lado a lado, o que é natural e esperado. Mas percebi um clima de guerra fratricida, diferente do que já havia presenciado antes. Eu sei, é tudo muito impressionista, mas foi o que senti, o que vi e testemunhei. Vi pessoas que eram tão amistosas bloqueando outros colegas no Twitter por causa de suas preferências eleitorais; vi gente se agredindo violentamente nos comentários de blogs; alguns habitualmente corteses mostraram-se irados; outros habitualmente nervosos mostraram-se mais agressivos ainda; no trânsito, testemunhei motoristas provocando com palavrões quem estava com o carro ao lado e que ostentava um adesivo diferente do seu… Isso me fez pensar bastante em conceitos tão repetidos nesses dias, como democracia, cidadania, respeito à opinião alheia, paz…

Sim, eu entendo que o próprio formato das eleições contribui para a polarização, para a divisão, já que a existência do segundo turno é o confronto direto de um contra o outro.

Sim, eu sei que a eleição é importante, que é determinante para o futuro a curto prazo, que serviu para escolher governantes e representantes nos legislativos. Sei também que eleger um presidente não é qualquer coisa. Mas por outro lado também não é a decisão mais importante da vida, a que justifique perder amizades, criar inimigos, destilar ódio e irracionalidade, mentir desvairadamente, desejar a morte dos outros e por aí vai…

Aliás, taí uma coisa que é preciso ser dita: escolher o presidente é importante, mas a importância não termina aí. Pelo contrário: ela começa aí. Tão importante quanto eleger o presidente é acompanhar seus atos, perceber a “quebra de contrato” com o eleitor, cobrar, fiscalizar, posicionar-se. Então, não se justifica gastar toda a energia e destempero agora. A vida é mais do que essa disputa. A vida é uma disputa maior, bem maior.

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  1. rborgesdfaveri

    A vida como disputa é um aspecto legítimo da tua interpretação, mas mais do que disputa, é mais importante o debate, a controvérsia, diria. Esquecesse de observar que o “terceiro excluído” nesta eleição (preciso dizer quem era?) optou pela despolarização, e de certo modo obteve sucesso. Mas concordo, com um aspecto teu, tbm achei a eleição mais “nervosa” e tbm a mais emocionante da minha vida, desde 89 (quando votei pela primeira vez). Agora, tenho uma questão: pq não? pq não comentar e pq não tomar partido? Eu tomei partido pelo tal “terceiro excluído”, procurando pela despolarização, desdicotomização. Eu fui um que andei bloqueando uns amigos, e provavelmente devo ter sido bloqueado tbm por outros, já que além de explicitar minha posição pelo candidato despolarizador, tbm ataquei os polarizadores. Mas, na minha opinião e nos meus sentimentos, pior do que um ataque legítimo (explicito e anunciado) é a dissimulação disfarçada, coisa que abomino e me sinto muito ofendido quando sou alvo deste tipo de estratégia. Quer dizer, fui ignorado, pois, muito provavelmente, não estava à altura dos sabichões temerosos (ou incapazes) da auto-crítica. Quanto a tomada de posição (ou partido) explicita, será pior do que a dissimulação? Talvez, em alguns casos. Por exemplo, quando a intolerancia e a violencia se arvoram de liberdade de expressão. Nesse caso, estou de acordo. Existe coisa mais importante, por ex., como “monitorar” (ops!) os candidatos eleitos. Ok. Mas a dissimulação auto-confiante e anti-crítica tbm pode, tranquilamente, fazer uso da intolerancia. Só admito dissimulação em uma situação: a de extremo perigo. Ouvi dizer que o Estadão havia se posicionado, tomado partido, explicitamente, pelo PSDB. Não sei se é verdade. Se eles conseguirem tomar partido e ainda assim se mostrarem tolerantes, então eles terão conseguido o “balance” necessário para a despolarização.

  2. rogério christofoletti

    Abraço também Jeff!

    d’Andrea, talvez esses avanços recuem, talvez seja o momento da onda se encolher… quem vai saber?

    Rodrigo, meu amigo, de você eu não poderia esperar outro comentário se não este, defendendo a controvérsia, o debate, a reflexão. Desde que te conheço, há 13 anos, vejo seu empenho pessoal de colocar questões, de abrir o diálogo, e às vezes, até sacrificando o próprio pescoço em algumas brigas alheias. Esta é uma característica sua indisfarçável, uma qualidade.
    E contigo eu sou sempre franco, porque é este o respeito que você merece, meu querido amigo. Por isso, concordo e discordo de você. Sempre. Às vezes, I must confess, até para tentar te irritar, o que nunca consigo…
    Discordo que a Marina é excluída. A regra do jogo é clara: vão pra segunda etapa os dois mais votados se nenhum deles conseguir 50% mais um dos votos.
    Discordo também que ela quis despolarizar. Isso é mera estratégia de sobrevivência política para se descolar dos demais e cavar um lugar para si. Legítimo, mas não se trata de benevolência, bom-mocismo, etc… Eu pessoalmente achei que ela errou ao não tomar partido no segundo turno, pois perdeu uma oportunidade histórica de interferir positivamente no resultado, de implementar temas importantes para a discussão e de se manter visível. Apequenou-se após o extraordinário resultado que conseguiu nas urnas. Mas é apenas um palpite meu.
    Mas concordo que a dissimulação é pior. Sim, o Estadão manifestou e incentivou voto em Serra. Bem como a Folha. Carta Capital indicou preferência por Dilma. Isso ficou evidente em manifestações públicas dos meios. Eu acho saudável e interessante. Pior é ver meios como a Veja atuando de maneira mesquinha, dissimulada, arrotando imparcialidade e “editorializando” suas matérias. Mas as coisas devem ser melhor ponderadas. Há pesos diferentes entre um meio como esses grandes explicitarem suas preferências e este modesto blog fazê-lo.
    Este blog não é imparcial, mas também não é partidário. Pessoalmente tenho preferências. Só não quis engrossar, este ano, o coro e acirrar mais a gritaria. Não foi medo, foi a tentativa de se buscar um outro foco. Foi uma experiência pessoal de posicionamento público. Foi o mais acertado? Sei lá.
    Tenho posição e posso declarar voto, sem problemas. Só não quis tornar isso um post. Posso fazê-lo agora na forma deste comentário.
    Votei em Dilma no primeiro turno. Vou repetir no domingo. Vejo dois projetos distintos de país entre as candidaturas. Elas se repetem em muitos pontos, mas se distanciam em outros tantos. Voto em Dilma com uma carga benéfica de dúvida. Acho que o projeto iniciado com Lula foi mais bem sucedido que o realizado pelo PSDB nos 8 anos de FHC. Mas não sou petista, sou de esquerda. Em 1989, votei em Roberto Freire (anos depois, me arrependi) e Lula. Em 1994, 1998 e 2002, repeti a preferência por Lula. Vibrei com a sua eleição, mas me decepcionei muito com o Mensalão. Coloquei-o de castigo e não votei nele para sua reeleição. Anulei. Como seu segundo mandato me surpreendeu muito positivamente estou dando novo voto de confiança a este grupo político. Mas estou alerta. Alerta como fiquei nos anos 1990, após ter contribuído para a eleição de Serra como senador por São Paulo e me decepcionar fragorosamente quando ele renunciou para buscar outros planos políticos. Me senti vítima de um estelionato eleitoral, não esqueci isso, e como o grupo político ao qual ele faz parte está ligado a setores muito nojetos da direita, não voto em Serra…
    Pombas, Rodrigo! Caí de novo nas suas armadilhas retóricas e pus-me a discutir o que queria evitar… Pra quem não queria falar sobre eleição, hein??? Abraço

  3. Luciene Tófoli

    Rogério, impressionante como você conseguiu dizer tudo o que pensei, principalmente nesse segundo turno. Para ter uma ideia, me recusei a assistir à propaganda política e os debates. Estava me sentindo pessoalmente ofendida, abusada por tantos impropérios, agressões, por tanta agressão, desfaçatez.
    Tomara chegue o domingo. Tomara os próximos quatro anos sejam bons para todos nós.
    Um abraço,
    Luciene.

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