jornalismo, jornalistas e uma lembrança importante

Duas dicas telegráficas de leitura:

Pedro Doria esquadrinha uma redação genérica, apresentando os personagens desse ofício

Luís Weiss alerta para não repetirmos a Escola Base

timtim.jpg

um manual que deixa a desejar

A Fenaj deixou em sua página a versão eletrônica para download do seu Manual de Assessoria de Comunicação Imprensa 2007. Esta é a quarta edição “revista e ampliada” e conta com 45 páginas. Para baixar, clique aqui. Mas não se anime tanto: o manual poderia ser bem melhor. Rapidamente, aponto seis problemas:

  • A contextualização histórica do exercício profissional em assessoria “no mundo” e “no Brasil” é apressada e até primária. Penso até que um manual como esse poderia prescindir disso, mas como ele inicia com isso…
  • A seção “O que o futuro reserva” é limitada, e não traça perspectivas tão claras e confiáveis.
  • No trecho do perfil do profissional, acho que a Fenaj poderia trazer dados de pesquisas que mostrem como é esse assessor no Brasil, por regiões, quem sabe por setores de atuação, etc… Além do que, esses dados permitiria pensarmos em públicos e mercados nesse segmento…
  • Na parte em que o manual afirma que “assessoria de imprensa é função de jornalista”, a Fenaj relaciona trechos da legislação que regulamenta a profissão de jornalista, pinçando frases que podem sustentar uma defesa nesse sentido. Ok, mas há um problema. A Fenaj nem menciona que os relações públicas têm uma regulamentação profissional mais atual que a nossa e que eles, sim, estão tecnicamente habilitados (isto é, regulares diante da lei) para atuar na área.
  • A bibliografia no final do volume não é atual, e conta com títulos que há muito deixaram as estantes das livrarias, pois estão esgotados ou superados;
  • O manual traz a composição da Comissão de Jornalistas em Assessoria de Comunicação da Fenaj desde 1990. A quem interessa isso?

Pra não dizer que só falei mal, destaco dois pontos positivos no manual:

  • Ele traz o novo código de ética dos jornalistas, aprovado há poucos meses;
  • O manual traz um modelo de contrato de prestação de serviços que os jornalistas – enquanto assessores – podem usar.

uma série para não perder de vista

obssssss.gif

O Observatório da Imprensa está publicando uma série de quatro artigos de Eugenio Bucci sobre jornalismo, liberdade e responsabilidade social. O conjunto tem o título geral “A imprensa e o dever da liberdade – a responsabilidade social do jornalismo em nossos dias”. Alguns dos textos vão compor um livro que a ANDI deve lançar ainda este ano, articulando conceitos como desenvolvimento humano, políticas públicas e jornalismo responsável.

  • O primeiro artigo do jornalista foi “A missão de servir ao cidadão e vigiar o poder” e pode ser lido aqui.
  • O segundo artigo, publicado esta semana no OI, é “A liberdade de imprensa entendida como um dever”, e pode ser conferido aqui.

Esta é uma série que não pode ser ignorada por aqueles que se interessam por pensar o jornalismo na sua dimensão ética e prática com a sociedade.

a crise dos jornais e o lugar certo na prateleira

jornais189.jpg

 Gente mais esperta já disse que quando o autor escreve, ele perde a obra para o leitor. Não tem mais domínio, e a leitura é uma outra forma de escritura, de colocação de sentido, de produção de entendimento. Ok, ok. Concordo, mas às vezes o autor perde o “controle da coisa” antes mesmo de o leitor folhear a obra.

Foi o que percebi dia desses lendo o imperdível “Os jornais podem desaparecer?”, de Philip Meyer.

O livro trata da já gritada crise dos jornais impressos e tenta avaliar – com base na evolução da indústria norte-americana – possíveis tendências e saídas para o mercado. Para quem não se lembra, Meyer é um dos nomes mais respeitados das escolas norte-americanas de Jornalismo e foi um experiente profissional naquelas bandas. O “pretexto” do autor para o livro é o seguinte: precisamos entender o problema para tentarmos resolvê-lo. Isto é, o autor nos convida a conhecer o que é “jornalismo enquanto negócio” para que nos mantenhamos em “nossas plataformas”. Assim, o livro tem como público os jornalistas, e tenta estimulá-los a saber um pouco mais do que as técnicas jornalísticas, e se comprometam também com a “salvação” da lavoura.

Até aí tudo bem.

Acontece que em duas livrarias que visitei o livro de Meyer não estava na estante de Jornalismo ou Comunicação. Estava na de Administração e Negócios. Numa terceira loja, o livro não estava à venda, pois a moça argumentou que eles apenas comercializavam obras de ciências humanas. Sei…

Olhei a ficha catalográfica do livro e lá consta na ordem: Jornais. Jornalismo. Jornalismo – aspectos econômicos.

Mesmo assim, quem colocou os livros na prateleira “errada”? Não foi um acidente, afinal vi isso em duas lojas diferentes e concorrentes. Quem?

Parece uma discussão boba essa, mas não. Se há uma corrida para buscar soluções para jornalismo, se as empresas jornalísticas enfrentam quedas constantes de tiragem, se os gestores tentam buscar novas receitas para uma sobrevivência dos jornais, qualquer sinalização de saída  da crise – mesmo que num modesto livro – é bem vinda e deve ser levada adiante. Colocar o livro no lugar errado é como deixar a chave do apartamento em chamas trancada do lado de fora. E com o proprietário dentro…

record news, o começo

Assisti pela TV a abertura oficial do Record News, o auto-alardeado primeiro canal 24 horas de notícias de sinal aberto. A “cerimônia” foi rapidinha, meia hora. Mas foi entre o brega e o paroquial. Explico.

  • Celso Freitas adotou um tom cerimonioso, usando formas de tratamento não usuais na TV, como “excelentíssimo senhor”, “ilustríssimo”, etc.
  • Lula, Serra, Kassab prestigiaram o evento. Ficaram sentadinhos e bonitinhos. Os dois primeiros falaram, o prefeito não. Acho que houve um certo temor de que ele enxotasse alguém aos berros…
  • Celso Freitas confidenciou que em 1989 a Record quase faliu, mas “um projeto inovador” salvou a emissora. Ele tava se referindo à Igreja Universal
  • Celso Freitas anunciou a palavra do “proprietário”, isso mesmo, proprietário da Rede Record, o bispo Macedo. E ele falou. Claro que terminou falando de deus…
  • Lula terminou seu discurso recitando versos do Hino à República: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós…”
  • Lula e Edir Macedo – no maior estilo inauguração de hidrelétrica ou início de pregão na bolsa – deram início às operações do canal, apertando o botão NO AR.
  • Fafá de Belém, isso mesmo, cantou o hino nacional.
  • Em rápidos takes na platéia, deu pra perceber que havia lugares vazios. Mas não dá pra reclamar: tinha o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, e ministros como o dos Esportes (Orlando Silva) e do Turismo (Marta Suplicy)…
  • Terminou rápido porque os salgadinhos estavam esfriando.

Pode parecer brincadeira, mas foi assim mesmo que aconteceu.

Pessoalmente, torço para que o canal dê certo e que seja mesmo aberto. Eu tenho TV a cabo, mas o sinal da ex-Rede Mulher não chega aqui. Então, de 24 horas de jornalismo em sinal aberto, o “aberto” é só um adjetivo vazio pra mim.

Mas torço pra dar certo, sim. Só que eles podiam me poupar as risadas na abertura…

novo código de ética dos jornalistas

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgou o texto final do novo Código de Ética do Jornalista Brasileiro. O processo de modernização do instrumento começou em 2004 e se estendeu até julho deste ano, com democrático debate nacional.

  • Para saber mais sobre esse andamento, leia aqui.
  • Para saber como especialistas avaliam o novo código, veja aqui.
  • Se você tem fôlego e interesse, leia o que já comentei desse tema aqui. Ou navegue pelas tags (aí ao lado) e busque “Ética Jornalística”

Veja a íntegra do documento:

Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros

Capítulo I – Do direito à informação

Art. 1º O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange seu o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação.
Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I – a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente de sua natureza jurídica – se pública, estatal ou privada – e da linha política de seus proprietários e/ou diretores.
II – a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público;
III – a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
IV – a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não-governamentais, é uma obrigação social.
V – a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante.
Capítulo II – Da conduta profissional do jornalista

Art. 3º O exercício da profissão de jornalista é uma atividade de natureza social, estando sempre subordinado ao presente Código de Ética.
Art. 4º O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação.
Art. 5º É direito do jornalista resguardar o sigilo da fonte.
Art. 6º É dever do jornalista:
I – opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;
II – divulgar os fatos e as informações de interesse público;
III – lutar pela liberdade de pensamento e de expressão;
IV – defender o livre exercício da profissão;
V – valorizar, honrar e dignificar a profissão;
VI – não colocar em risco a integridade das fontes e dos profissionais com quem trabalha;
VII – combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação;
VIII – respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;
IX – respeitar o direito autoral e intelectual do jornalista em todas as suas formas;
X – defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito;
XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias;
XII – respeitar as entidades representativas e democráticas da categoria;
XIII – denunciar as práticas de assédio moral no trabalho às autoridades e, quando for o caso, à comissão de ética competente;
XIV – combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza.
Art. 7º O jornalista não pode:
I – aceitar ou oferecer trabalho remunerado em desacordo com o piso salarial, a carga horária legal ou tabela fixada por sua entidade de classe, nem contribuir ativa ou passivamente para a precarização das condições de trabalho;
II – submeter-se a diretrizes contrárias à precisa apuração dos acontecimentos e à correta divulgação da informação;
III – impedir a manifestação de opiniões divergentes ou o livre debate de idéias;
IV – expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais;
V – usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime;
VI – realizar cobertura jornalística para o meio de comunicação em que trabalha sobre organizações públicas, privadas ou não-governamentais, da qual seja assessor, empregado, prestador de serviço ou proprietário, nem utilizar o referido veículo para defender os interesses dessas instituições ou de autoridades a elas relacionadas;
VII – permitir o exercício da profissão por pessoas não-habilitadas;
VIII – assumir a responsabilidade por publicações, imagens e textos de cuja produção não tenha participado;
IX – valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais.

Capítulo III – Da responsabilidade profissional do jornalista

Art. 8º O jornalista é responsável por toda a informação que divulga, desde que seu trabalho não tenha sido alterado por terceiros, caso em que a responsabilidade pela alteração será de seu autor.
Art 9º A presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.
Art. 10. A opinião manifestada em meios de informação deve ser exercida com responsabilidade.
Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações:
I – visando o interesse pessoal ou buscando vantagem econômica;
II – de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes;
III – obtidas de maneira inadequada, por exemplo, com o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo em casos de incontestável interesse público e quando esgotadas todas as outras possibilidades de apuração;
Art. 12. O jornalista deve:
I – ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas;
II – buscar provas que fundamentem as informações de interesse público;
III – tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar;
IV – informar claramente à sociedade quando suas matérias tiverem caráter publicitário ou decorrerem de patrocínios ou promoções;
V – rejeitar alterações nas imagens captadas que deturpem a realidade, sempre informando ao público o eventual uso de recursos de fotomontagem, edição de imagem, reconstituição de áudio ou quaisquer outras manipulações;
VI – promover a retificação das informações que se revelem falsas ou inexatas e defender o direito de resposta às pessoas ou organizações envolvidas ou mencionadas em matérias de sua autoria ou por cuja publicação foi o responsável;
VII – defender a soberania nacional em seus aspectos político, econômico, social e cultural;
VIII – preservar a língua e a cultura do Brasil, respeitando a diversidade e as identidades culturais;
IX – manter relações de respeito e solidariedade no ambiente de trabalho;
X – prestar solidariedade aos colegas que sofrem perseguição ou agressão em conseqüência de sua atividade profissional.

Capítulo IV – Das relações profissionais

Art. 13. A cláusula de consciência é um direito do jornalista, podendo o profissional se recusar a executar quaisquer tarefas em desacordo com os princípios deste Código de Ética ou que agridam as suas convicções.
Parágrafo único. Esta disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para que o jornalista deixe de ouvir pessoas com opiniões divergentes das suas.
Art. 14. O jornalista não deve:
I – acumular funções jornalísticas ou obrigar outro profissional a fazê-lo, quando isso implicar substituição ou supressão de cargos na mesma empresa. Quando, por razões justificadas, vier a exercer mais de uma função na mesma empresa, o jornalista deve receber a remuneração correspondente ao trabalho extra;
II – ameaçar, intimidar ou praticar assédio moral e/ou sexual contra outro profissional, devendo denunciar tais práticas à comissão de ética competente;
III – criar empecilho à legítima e democrática organização da categoria.

Capítulo V – Da aplicação do Código de Ética e disposições finais

Art. 15. As transgressões ao presente Código de Ética serão apuradas, apreciadas e julgadas pelas comissões de ética dos sindicatos e, em segunda instância, pela Comissão Nacional de Ética.
§ 1º As referidas comissões serão constituídas por cinco membros.
§ 2º As comissões de ética são órgãos independentes, eleitas por voto direto, secreto e universal dos jornalistas. Serão escolhidas junto com as direções dos sindicatos e da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), respectivamente. Terão mandatos coincidentes, porém serão votadas em processo separado e não possuirão vínculo com os cargos daquelas diretorias.
§ 3º A Comissão Nacional de Ética será responsável pela elaboração de seu regimento interno e, ouvidos os sindicatos, do regimento interno das comissões de ética dos sindicatos.
Art. 16. Compete à Comissão Nacional de Ética:
I – julgar, em segunda e última instância, os recursos contra decisões de competência das comissões de ética dos sindicatos;
II – tomar iniciativa referente a questões de âmbito nacional que firam a ética jornalística;
III – fazer denúncias públicas sobre casos de desrespeito aos princípios deste Código;
IV – receber representação de competência da primeira instância quando ali houver incompatibilidade ou impedimento legal e em casos especiais definidos no Regimento Interno;
V – processar e julgar, originariamente, denúncias de transgressão ao Código de Ética cometidas por jornalistas integrantes da diretoria e do Conselho Fiscal da FENAJ, da Comissão Nacional de Ética e das comissões de ética dos sindicatos;
VI – recomendar à diretoria da FENAJ o encaminhamento ao Ministério Público dos casos em que a violação ao Código de Ética também possa configurar crime, contravenção ou dano à categoria ou à coletividade.
Art. 17. Os jornalistas que descumprirem o presente Código de Ética estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, suspensão e exclusão do quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.
Parágrafo único – Os não-filiados aos sindicatos de jornalistas estão sujeitos às penalidades de observação, advertência, impedimento temporário e impedimento definitivo de ingresso no quadro social do sindicato e à publicação da decisão da comissão de ética em veículo de ampla circulação.
Art. 18. O exercício da representação de modo abusivo, temerário, de má-fé, com notória intenção de prejudicar o representado, sujeita o autor à advertência pública e às punições previstas neste Código, sem prejuízo da remessa do caso ao Ministério Público.
Art. 19. Qualquer modificação neste Código só poderá ser feita em congresso nacional de jornalistas mediante proposta subscrita por, no mínimo, dez delegações representantes de sindicatos de jornalistas.

Vitória, 04 de agosto de 2007.
Federação Nacional dos Jornalistas

diploma em jornalismo: mais um lance

O site da Fenaj divulgou hoje uma sentença do Tribunal Superior do Trabalho (TST) que surte como um reforço à tese de que é necessário sim portar diploma para exercer o jornalismo. Como sabem, a guerra do diploma começou em outubro de 2001 com um despacho da juíza Carla Rister desobrigando qualquer cidadão a ter diploma de nível superior para requerer o registro de jornalista.

Pois o episódio mais recente – este do TST – pode ser lido aqui. Não se trata de entrar no mérito da questão, mas a decisão do TST traz mais um elemento para convencer os poderosos do Supremo Tribunal Federal sobre o caso. São eles que decidirão.

A notícia é boa, mas é cedo demais para comemorar, já que ela nem mesmo muda o panorama atual.

(Para saber mais, acesse aqui)

mais um lançamento

Claudia Lago e Richard Romancini estão lançando “História do Jornalismo no Brasil”, pela Insular.

A capinha é esta aí embaixo

histjor.jpg 

 

Mas se quiser uma prévia, vá ao site que o Richard construiu.

10 anos de periodismo.com

tapa.jpg

O site Periodismo.com completa 10 anos na próxima terça, dia 11.
Para celebrar, lança e-book com textos de muitos colunistas e colaboradores do portal argentino que atende a comunidade de língua hispânica na Europa e nas Américas. Para baixar o livro, clique aqui. O volume em formato PDF tem 206 páginas, está todo em espanhol, e muita coisa ali não interessa ao leitor brasileiro. Entretanto, para quem estuda, pesquisa, pensa ou faz jornalismo online, há sempre o que aprender nesses materiais.

liberdade de expressão: brasil

artigo19.gif

A Artigo 19, uma ONG que sustenta uma campanha mundial pela livre expressão, acaba de emitir um parecer de 13 páginas sobre a liberdade de expressão no Brasil. Você pega o arquivo em PDF aqui.

As conclusões? Deixa de ser preguiçoso e vai ler…

a câmera e as mensagens dos togados

Fernanda Bruno comenta o caso do fotógrafo que flagrou ministros do STF trocando mensagens pela intranet em meio ao “julgamento” de possíveis réus no escândalo do Mensalão. Veja o que ela diz aqui.

Para completar, veja a seleção que Luiz Antonio Magalhães fez sobre o caso no Observatório da Imprensa.

(Perguntinha para meus alunos de Legislação e Ética em Jornalismo: E aí, meninos e meninas?)

jornalismo, educação e TICs

Outro dia, repliquei provocações aos professores e às escolas de jornalismo. Tive pouca reação, o que – pra ser sincero – não esperava. Claro que tem muita gente que passa pelo blog e não deixa comentários, o que é natural. Mas o baixo retorno em termos de manifestação me faz pensar que: ou não temos respostas às questões ou não nos preocupamos com elas.

Sendo uma ou outra, já são sintomas de uma crise. Ou de soluções ou de apatia.

Porque sou teimoso e não paro quieto, enfio mais o dedo na ferida aberta dando links:

1. A relação controversa entre jornalistas e blogueiros: ainda se discute muito até onde se vai uma coisa e se começa outra. Três links (todos de Alessandro Martins) me pulsam por aqui:

O futuro próximo das escolas de comunicação e o aperfeiçoamento dos cursos de jornalismo passam por essa discussão, pela revisão desses parâmetros. Isto é, precisamos discutir a relação.

2. A relação controversa entre educação e novas tecnologias: ainda batemos cabeça e boca por isso. Quatro links variados me fazem pensar.

O futuro e o presente da educação não podem prescindir da superação de alguns impasses e mitos.

E aí, senhores? Provoquei?

provocações aos professores de jornalismo

Venho discutindo há tempos com amigos e alunos os caminhos que nos restam quando o assunto é escolas de Jornalismo, cursos de formação de jornalistas. Há tanto a pensar! Como já aconteceu historicamente, é necessário abrir picadas na mata, desbravando não só o mercado da educação, mas a própria mentalidade de jornalistas e professores da área.

Por isso, linco aqui provocações às escolas e aos professores.
As provocações vêm de fora, mas não se pode ignorá-las, compadres!

Dan Gilmor – sim! aquele do Jornalismo Cidadão – sugere uma atualização urgente para a área. Veja como ele termina seu rápido artigo: “We’re collectively reinventing journalism over the next decade or two. Journalism schools can lead, or follow. Leading strikes me as a better idea”. Leia na íntegra aqui.

Joe Murray, da Ken State University, indica dez passos para a sobrevivência das escolas. Se você preferir ler o texto na íntegra – em PDF e com 21 páginas -, clique aqui. Se quer uma visão panorâmica, veja os passos abaixo:
1. Faculty, Know Thy Students
2. Faculty, Know Thyself
3. Compromise Writing Skills At Our Peril
4. Teach Students To Think And Use Technology
5. Introduce Convergence Early
6. Design And Usability Matter
7. Plant Generalists Now To Grow Specialists Later
8. ETWIAD (Embrace The Web In All You Do)
9. Multitasking Is A Waste Of Time
10. Rinse and Repeat

E aí, senhores? Alguma idéia brilhante?

mais lançamento de jornalismo

Marialva Barbosa manda avisar que dia 18 de setembro lança o seu “História Cultural da Imprensa – Brasil (1900-2000)”. Vai ser na Livraria Travessa do Leblon, no Rio.

marialva.gif

novos títulos em jornalismo: do sul ao nordeste

Roseli Araújo Batista chama para o lançamento de seu “Mídia e Educação – Teorias do Jornalismo em sala de aula”, que acontece no Café Martinica, em Brasília, dia 30 de agosto.

midiaaaa.jpg

Marcos Palacios e Elias Machado convidam para o lançamento de “O ensino de jornalismo em redes de alta velocidade – metodologias e softwares”, que acontece dia 3 de setembro na Livraria Tom do Saber, em Salvador (BA).

palaciossss.jpg

 

(Clique na figura para ver o convite)

Demétrio Soster, Ângela Filippi e Fabiana Picininin anunciam que, em outubro, chega às livrarias “Metamorfoses Jornalísticas: formas, processos e sistemas”, título que organizaram.

demetrio.jpg

 

(Clique na figura para ver o convite)

Parabéns aos autores!!!

lista de professores

Foi criada uma lista de professores de Jornalismo de Santa Catarina.
A idéia é que os docentes se cadastrem e passem a trocar mais informações, principalmente sobre o primeiro encontro deles que acontece junto com o dos paranaenses, em outubro.

A lista fica aqui. Sobre o evento, saiba mais aqui.

pau na moleira

Rogerio Kreidlow postou comentário ácido e borbulhante sobre meu post dos fundamentos da nova ordem mundial digital. Adorei.

Se você concorda com os manda-chuvas do universo, tem que ler. Até para saber o que pensa a oposição. Se quer combater a nova ordem, Kreidlow oferece munição pra isso…

sobre entrevistas e jornalistas 2

Los Hermanos têm um karma com repórteres “bem preparados” para entrevistas.

Veja como a repórter da Globo de Brasília troca o nome do vocalista (Marcelo Camelo vira Marcelo Campelo) e veja como não sabe nada de música (para ela, o grupo fez parcerias com Elis Regina!!).
Por fim, note que Rodrigo Amarante sacaneia com a moça, repetindo o “Campelo”…

Nesta, a performance dos repórteres do Ceará é aterradora. Trocam o nome do entrevistado, confundem “boca a boca” com “bate boca”, não sabem quem compôs o quê…

Isso que é profissionalismo!!

sobre entrevistas e jornalistas

António Fidalgo deu antes; Marcos Palacios repetiu; e toco de novo…

Sabe o que acontece quando o repórter não se prepara para a entrevista?

Acontece isso… assista!

carta de vitória

Falei ontem da Carta de Vitória, o documento resultante do Congresso Nacional Extraordinário de Jornalistas que redefiniu o Código de Ética da categoria.

Reproduzo o documento abaixo:

Os jornalistas brasileiros, reunidos em Vitória, de 3 a 5 de agosto de 2007, para o Congresso Nacional Extraordinário de atualização do seu Código de Ética, reafirmam sua função social de oferecer à sociedade um jornalismo de qualidade, plural, responsável, ético e voltado ao interesse público. Em seu novo Código, ratificam como primeiro e essencial o compromisso com a informação como direito fundamental do cidadão, que em hipótese alguma pode ser ameaçado.

A divulgação da informação correta e precisa é direito e dever dos meios de comunicação e dos jornalistas. A manipulação, a distorção e a deturpação devem ser denunciadas como atentados à cidadania. Ao mesmo tempo, o Congresso Extraordinário dos Jornalistas condena o abuso do poder econômico, a imensa concentração da mídia, a censura por pressões política e econômica e a violência – ameaças ao interesse público, à liberdade de imprensa e à democracia.

Os jornalistas brasileiros reafirmam como fundamental a exigência da formação profissional universitária qualificada para o exercício do jornalismo e se dispõem a avançar na regulamentação da profissão e na luta pela criação do Conselho Federal dos Jornalistas. Em nome da valorização profissional, a categoria deve se manter vigilante contra as iniciativas de precarização das relações de trabalho, defendendo as conquistas dos trabalhadores brasileiros e a manutenção do veto à emenda 3.

A defesa de um novo marco regulatório para as comunicações, que contemple os avanços tecnológicos e supere os métodos injustos e concentradores de concessões de canais de radiodifusão, deve contar com o apoio militante dos jornalistas. Apreensivos com a falta de transparência na elaboração das regras para a radiodifusão digital e a TV Pública, os jornalistas sustentam que a conferencia nacional de comunicação, construída num processo de ampla consulta nacional, deve cumprir seu objetivo histórico de elaborar novas políticas baseadas no aprofundamento da democracia e na riqueza da diversidade cultural brasileira. Exigem ainda a imediata nomeação do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, desativado desde o final de 2006.

Conscientes de seu papel fundamental na construção de um Brasil mais justo, os jornalistas apresentam à sociedade brasileira seu novo Código de Ética, no qual reiteram o compromisso indissolúvel de nossa profissão com o direito à informação pública de qualidade.

Vitória, 05 de agosto de 2007.

mais código de ética

A Carta de Vitória, documento resultante da Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, não foi divulgada ainda porque passa por revisões e formatação. Mas Fernando Paulino, da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas de Brasília, me repassa texto do vice-presidente da entidade, Antonio Carlos Queiroz, dando uma geral no novo Código de Ética, aprovado no final de semana.

Reproduzo…

 

Aprovado o novo Código de Ética dos Jornalistas

Reunido nesse final de semana em Vitória, Espírito Santo, o Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas reformou o Código de Ética da categoria, em vigor há 22 anos.

O novo texto incorpora princípios da Constituição de 1988 e obrigações definidas em estatutos e códigos de direitos especiais, como o dos consumidores, dos idosos, das crianças e dos adolescentes, e de minorias.

O novo Código de Ética também leva em conta os avanços das novas tecnologias.

Um exemplo de mudança foi a inserção no documento do artigo segundo o qual “a presunção da inocência é um dos fundamentos básicos da atividade jornalística”. Como este é um princípio constitucional, sua incorporação pode parecer redundante à primeira vista. Na verdade, reflete a preocupação política de lembrar aos jornalistas que eles não são cidadãos melhores do que os outros, nem estão acima da lei. O desafio é combater a atual disposição de certos meios de comunicação que se arvoram em polícia, promotoria e juizado ao mesmo tempo, denunciando, julgando e punindo pessoas com a execração pública, muitas vezes sem elementos de prova e sem conceder-lhes o direito de resposta.

Outro avanço foi a adoção da cláusula de consciência, prevista em códigos de ética de jornalistas de vários países, e já reconhecida, por exemplo, pela Justiça de São Paulo. De acordo com a cláusula, o jornalista poderá se recusar a executar pauta que se choquem com os princípios do Código ou que agridam as suas convicções. Para evitar distorções ou abusos, ressalvou-se que essa disposição não pode ser usada como argumento, motivo ou desculpa para o profissional deixar de ouvir pessoas com opiniões contrárias às suas.

Entre outras disposições, o novo Código de Ética prescreve a obrigação do jornalista de informar claramente à sociedade quando seu trabalho tiver caráter publicitário ou quando utiliza recursos que modifiquem as imagens originais, como a fotomontagem. E determina que o profissional não pode divulgar informações obtidas de maneira inadequada, como o uso de identidades falsas, câmeras escondidas ou microfones ocultos, salvo se houver a exigência de esclarecimento de informações de relevante interesse público, e desde que esgotadas todas as possibilidades convencionais.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) deverá divulgar massivamente o novo Código de Ética dos Jornalistas nas próximas semanas, assim que a comissão de redação final, eleita pelo Congresso Extraordinário de Vitória, terminar seu trabalho. Da comissão participam dois representantes do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal: o vice-presidente, Antônio Carlos Queiroz, e o membro da Comissão de Ética, Fernando Paulino.

(do NR-Internet)

fenaj e o novo código

Neste final de semana, a nova diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas tomou posse.
Na mesma ocasião, durante o Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas, a categoria discutiu e revisou o seu Código de Ética. O texto final ainda não está disponível na página da Comissão Nacional de Ética e Liberdade de Imprensa da Fenaj.

casa de ferreiro…

Sou chato para algumas coisas. (A oposição diria: para muitas coisas)

Mas acho que, às vezes, as contradições são tão visíveis que incomodam mesmo. E aí, motivam blogueiros – numa manhã carrancuda de domingo – a esbravejar em seus posts. É o caso.

Desde sexta, delegações de pelo menos vinte estados brasileiros discutem um novo texto para o Código de Ética do Jornalista. Eles estão reunidos em Vitória e não encontro ninguém fazendo cobertura do evento pela blogosfera. Quiçá nos sites da Fenaj, dos sindicatos dos jornalistas e por aí vai. Pô! Trata-se de um Congresso Extraordinário dos Jornalistas! Não era o caso de alguém estar postando uma coisinha aqui ou acolá? Dando o clima do encontro, como foi a posse da nova diretoria da entidade, se as discussões estão acirradas ou não…

Nada, meu filho. Nada!

vitória, hoje: congresso e posse

Toma posse hoje à noite a nova diretoria da Fenaj. Isso acontece na abertura do Congresso Extraordinário de Jornalistas, em Vitória (ES), onde será definido um novo código para a categoria. O evento vai até domingo. Já tratei disso aqui, mas voltarei. Deixa só eu respirar.

assim falou pedro dória

Julio Daio Borges entrevista longamente um dos mais conhecidos e respeitados jornalistas da internet e da blogosfera brasileira: Pedro Dória. A entrevista está no Digestivo Cultural. Em pauta, a web, o futuro das mídias, a formação dos jornalistas, a internet como negócio, blogs e seus leitores com comentários violentos e por aí vai.

Eu recomendo.

um novo código de ética

Começa depois de amanhã, dia 3, o Congresso Extraordinário dos Jornalistas, evento que vai discutir e definir um novo Código de Ética para a profissão. O encontro vai até o dia 5, e acontece no Hotel Bristol, bem em frente à Praia de Camburi, em Vitória. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) anuncia que delegações de vinte estados brasileiros estarão presentes, e esse alarde não é mera propaganda. O próprio Código de Ética em vigência estabelece que reformas ao documento só podem acontecer em congressos nacionais da categoria, na presença de ao menos dez delegações (art. 27).

Participei menos do que gostaria do processo de discussão do novo Código. Como leciono a matéria e como pesquiso na área, sempre me dispus a discutir a questão. Em fevereiro do ano passado, elaborei uma proposta de novo código e enviei à comissão que sistematizava as sugestões. Em maio, fui a Londrina para o 1º Seminário de Ética no Jornalismo, mas me frustrei á época porque pensei que discutiríamos a coisa por lá. Qual nada. Foi tirada uma comissão para ordenar o material e encaminhar as mudanças, apresentando as minutas do código à categoria.

Dei uma olhada na proposta e não vejo muitas mudanças. Veja você também.

Me organizei para ir a Vitória para o Congresso Extraordinário, mas as aulas e os compromissos me impedem. Vou passar.

De qualquer forma, acredito que um novo código de ética para o jornalista brasileiro é uma questão imperativa. Mas é preciso ter em conta uma coisa. Não basta que se tenha um excelente código se não forem fortalecidas as comissões de ética da Fenaj e dos sindicatos, pois são elas que recebem as denúncias, que encaminham os processos e aplicam possíveis sanções. Já escrevi isso em Jornalismo em Perspectiva (Ed. UFSC, 2005), e em Monitores de Mídia (Ed.UFSC-Univali, 2003). Então, é um processo lento, de educação da categoria, de convencimento da sociedade de que se pode ter um bom código e de que ele é eficaz, eficiente e serve à coletividade e não apenas aos profissionais.

Volto a esse assunto depois.

ética antes e depois da rede

Em Infotendências, Pere Masip cita Jane Singer, da Universidade de Iowa, que reafirma os mesmos preceitos da ética jornalística antes da web para a conduta em rede. Isto é, nada muda. Os valores se mantêm. Muda apenas o suporte, mas não a relação humana.

Este assunto me interessa por completo, já que é muito fácil cair na tentação de se querer inventar a roda a cada atualização do Windows, por exemplo, ou a cada traquitana da moda na web.

Para discutir mais sobre o tema, dou outros dois links:

http://www.mediachannel.org/wordpress/2007/04/20/new-media-culture-challenges-limits-of-journalism-ethics

http://www.ojr.org/ojr/wiki/ethics

sobre o top-top e o direito de imagem (2)

Outro leitor deste blog, Celio Penteado, discorda do que escrevi sobre o fato de jornalistas terem desrespeitado o direito de imagem dos assessores do governo ao gravarem suas reações. Ele escreve: “Que bobagem essa história de autorização do uso da imagem. Se for assim não se poderia documentar um seqüestro. Deveríamos pedir primeiro, e por escrito, a autorização do seqüestrador. Se quisesse manter a privacidade, deixasse a cortina fechada”.

Também concordo em partes. Começo pelo final. Claro! Se o governo quer privacidade, que construa as condições para tal. No episódio, era fácil. Basta fechar as cortinas. Basta zelar pela confidencialidade. Não se expor. Como fez o presidente: não apareceu. Só o fez 72 horas depois. (Que agilidade! Onde estava Franklin Martins, que poderia aconselhar melhor o presidente?) Já disse aqui: quem faz a foto é o modelo, quem zela pela pose é o fotografado. E em tempos de regime das imagens, todo cuidado é mínimo.

Entretanto, a questão do direito de imagem vai mais além. Segundo o direito, a coisa é assim: todas as pessoas têm direito sobre as suas imagens e não podem abdicar delas. O que podem é autorizar a exploração e o uso delas. Todas as pessoas, inclusive os famosos, têm esse direito.

Neste sentido, a Justiça entende que há dois tipos de imagem: imagem-retrato e imagem-atributo. A primeira se refere ao físico, ao visual, à projeção visível e apreensível de alguém, como um retrato da pessoa. A segunda tem relação com sua reputação, decoro, imagem pública, honra, etc. Por que os juristas dividem? Porque, na verdade, a exposição de alguém fazendo algo pode não constituir em danos para essa mesma pessoa e só o fará quando for violada a imagem-atributo. Explico: se sou fotografado numa praia da Espanha conversando com a Daniella Cicarelli, não posso argumentar que sofri algum dano com essa exposição. Agora, se estiver na mesma praia me esfregando em Marco Aurélio Garcia (em pleno ato de traição à minha esposa e em flagrante atentado ao pudor), posso argumentar que a veiculação das imagens foi nociva a minha pessoa. Foi nociva porque constrangeu a mim e aos que me cercam, e porque me vinculou a alguém com quem eu não gostaria de ser visto.

Nesse episódio, eu poderia processar o fotógrafo? Sim. Mas eu teria legitimidade? Aí, já são outros quinhentos. Primeiro, a coisa aconteceu fora do país e lá as leis são outras. É necessário observar se a coisa se aplica. Segundo, podem argumentar que eu estava fazendo duas coisas erradas (adultério e atentado ao pudor, tipificados em nosso Código Penal) e meus delitos são maiores que os danos que sofri com a violação de minha imagem. E é justamente aí que as coisas emperram no escritório do advogado: quando o causídico vê a coisa nesse impasse, orienta – na maioria dos casos – a não entrar na Justiça para não fazer mais alarde ao caso, e porque a causa tem altos riscos de ser perdida.

É claro que o meu exemplo é canhestro. Mas as condições de análise podem ser plenamente transpostas ao episódio do top-top. Marco Aurélio e seu assessor tiveram sim seu direito à imagem desrespeitado pelos jornalistas que os flagraram vendo o Jornal Nacional. Mas não têm força, legitimidade ou – no popular – moral para contestarem as imagens veiculadas, cujo significado simbólico é mais arrasador que a gravação das cenas. 

sobre o top-top e o direito de imagem (1)

No momento em que você lê este post, é muito provável que este assunto nem mais seja pauta na mídia, que os meios de comunicação tenham voltado suas cabeças para outro “Ouro do Brasil” ou ao “deslizamento de parte da encosta de Congonhas”. Mas quero retomar o tema, até motivado por alguns dos comentários que recebi neste blog.

De Portugal, Cadeiradopoder releva os gestos dos assessores do governo brasileiro que trouxeram indignação em meio ao acidente aéreo de Congonhas na semana que passou. Para quem não se lembra, basta voltar ao meu post anterior. “Penso que os gestos dos assessores não têm assunto nenhum. Pode-se criticar outras acções ou falta delas por parte do Governo, agora dar importância a um gesto (igual ou menos mau do que o que o jornalista que captou as imagens deve ter feito) não acrescenta nada à informação”, diz Cadeiradopoder.

Concordo em partes. As imagens do top-top não trazem informação adicional às causas do acidente ou às condições dos aeroportos brasileiros, ou à crise aérea como um todo. Mas, por outro lado, revelam de forma clara e acintosa o que muitos de nós não sabia. Se foi um gesto de “alívio” – como se defendeu Marco Aurélio Garcia – ou de “comemoração indevida” – como alfinetou a oposição -, pouco importa. O que importa é que nenhum de nós esperava AQUELA REAÇÃO, que em nenhum contexto é respeitosa, serena ou preocupada diante das novas informações que traziam a reportagem do Jornal Nacional, assistida pelos assessores, cuja reação foi flagrada pela própria Globo.

Marcia Benetti Machado rechaça a resposta de Marco Aurélio Garcia, e reconhece na sua fala uma contradição dilacerante: ele disse ter tido aquela reação em um momento privado. Ora, ele tem uma ética privada e outra pública, indaga sagazmente Marcia. E é neste ponto que a coisa me interessa primeiro: quem está no governo, quem representa outrem, quem ocupa um cargo de representação não pode argumentar condutas personais quando está no exercício destas qualidades. Como aconteceu com Rubens Ricupero em 1994, lembra? Não dá. Não pode, porque a massa – no caso, os patrões, aqueles que pagam impostos e alimentam o Leviatã – porque a massa não tolera, indigna-se, cobra postura.

E faltou isso mesmo: postura, pudicícia, humildade, respeito aos fatos. Se foi um desabafo ou não, o fato é que Marco Aurélio e o outro assessor deixaram escapar que o governo tratava do assunto na arena da disputa, da política, da atribuição de culpas e responsabilidades. Não era o caso. Não deveria ser assim. Não poderia… O governo não tratou como um problema que fere a Nação, que vitima os nossos, que ceifa vidas de brasileiros, como Rudolph Giuliani e o governo Bush fizeram em setembro de 2001. Tanto que o governo não apareceu em pessoa nas determinantes horas seguintes à tragédia.

Resumindo. Pensando em ética pública, em ética geral, num ambiente democrático, numa atmosfera republicana – não é assim que Tarso Genro gosta de dizer? -, o governo agiu mal de cima a baixo. A indignação nos meios de comunicação e do público expõem esse descolamento moral que assistimos.