desconecte-se! um pouco…

Não adianta negar! Você é um cara comum: tem perfis em algumas redes sociais, passa por sites e portais diariamente, participa de umas listas eletrônicas, tem mais de um endereço de e-mail e checa suas caixas postais com frequência. Vez ou outra deixa comentários em blogs, cutuca um amigo no Facebook, compartilha um arquivo de áudio, baixa o último episódio da sua série favorita, e retuíta uma mensagem engraçadinha que recebeu. Faz isso tudo ao mesmo tempo, no meio do ambiente do trabalho ou mesmo enquanto estuda para a prova de amanhã. Você não diz uma palavra, mas está em contato com dezenas de pessoas, “conversando” com elas simultaneamente. Não está fazendo uma, mas várias operações ao mesmo tempo, e isso te dá aquela sensação de onipresença, versatilidade e produtividade.

Não adianta negar! Se você fica mais de oito horas por dia plugado na web, sabe do que estou falando. Você faz isso também. “Todo o mundo faz!”, pode até argumentar. Isso não quer dizer que seja o certo, o normal, o natural, dirá o escritor William Powers, autor de “O BlackBerry de Hamlet”, um best-seller no ano passado nos Estados Unidos e lançado por aqui recentemente.

A tese central de Powers é que precisamos desconectar pelo menos um pouco. Jornalista aficionado por tecnologia e colunista da área em importantes veículos norte-americanos, ele teria razões de sobrar de dizer justamente o contrário. Já fez isso, mas alterou drasticamente seu comportamento e, neste livro, chama a atenção do leitor dos perigos da “ultraconexão”. Sim, Powers nada contra a corrente. Talvez sozinho…

A questão que ele coloca é que estamos muitíssimos mergulhados nas telas (do desktop, do notebook, do tablet, do smartphone…), que consumimos um tempo infinito administrando nossas vidas online e que isso tem repercussões negativas. Segundo Powers, é falsa, então, a sensação de que estamos mais produtivos, que o comportamento multi-tarefa é sinal de versatilidade e que somos tão populares e aceitos quanto nos mostram as redes sociais. O raciocínio é que, mediados pelas muitas telas, construímos e alimentamos relacionamentos breves, frágeis, superficiais; que nossa vida se apequena diante das telas (ao invés do contrário); que priorizamos a vida virtual compartilhada em detrimento de vivências interiores mais intensas e profundas.

Ainda está aí? Imagino que alguns leitores já torceram o nariz e abandonaram o post. Sim, você pode discordar totalmente de William Powers, mas não pode ignorar os argumentos ou os fatos que ele apresenta. De forma esperta, você pode até aproveitar para refletir sobre a sua situação particular à frente das telas, e – quem sabe? – mudar algum hábito (ou não). Você verá que ele tem razão em muitos aspectos…

Powers não pede nem espera que você se desconecte por completo. Nem ele fez isso! “O BlackBerry de Hamlet” não é desses livros que ditam-regras tão somente. O autor parte de sua experiência pessoal para pensar em voz alta sobre como as coisas podem não estar bem. A chave parece passar pela moderação, uso racional e equilíbrio.

Escrito com leveza e bom humor, o livro merece atenção em tempos de pensamento único e deslumbrado pela tecnologia. Sai da frente desta tela e se conecte no livro de Powers…

os três porquinhos no the guardian

Tem muita gente comentando o novo comercial do jornal britânico The Guardian, em que a história dos três porquinhos é revisitada. O embate entre os suínos e o lobo é contado nas diversas mídias em que o diário opera, com o detalhe da participação das audiências. O filme é bem produzido, bem humorado e não fica apenas na “venda” do produto; tenta fixar uma ideia que marca o jornal… Divirta-se!

Igualmente ótimo é este de O Globo

blogueiros catarinenses, uni-vos!

(reproduzido do site da UFSC)

Estão abertas as inscrições para o “I Encontro dos Blogueiros e Twiteiros de Santa Catarina”.
O evento acontecerá nos dias 9 e 10 de março de 2012, no hotel e Centro de Eventos Canto da Ilha, localizado na Avenida Luiz Boiteux Piazza, 4810 – Cachoeira do Bom Jesus, Florianópolis-SC.
O objetivo do evento é debater o novo marco regulatório das comunicações e as ações regionais dos blogueiros catarinenses, que lutam pela criação do conselho de comunicação estadual e organização dos meios independentes de informação, os blogs e redes sociais.

Os convidados para a mesa principal, “Comunicação e Oligopólio em Santa Catarina”, são  Venício Lima, Professor Titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de “Regulação das Comunicações – História, poder e direitos”, Editora Paulus, 2011; e Rosane Bertotti, atual coordenadora nacional do FNDC (Fórum Nacional pela Democratização das Comunicações).

O custo da inscrição é de R$ 100,00, incluídas a estadia e alimentação nos dois dias de evento.

Para os participantes que não precisarem de estadia a inscrição é gratuita, sem alimentação inclusa. Basta enviar os seguintes dados através do formulário de contato no rodapé do site ou para o email contato@blogueirossc.com.br – nome completo, RG, telefone e e-mail para contato.

O evento é organizado pela estudante de economia da UFSC, Binah Ire, com apoio do professor Márcio Vieira de Souza, do curso de Tecnologias da Informação e da Comunicação do Campus de Araranguá.

Informações: binahire@hotmail.com ou http://blogueirossc.com.br

jornalismo após wikileaks e news of the world

O World Press Freedom Committee e a Unesco promovem hoje e amanhã o seminário “A mídia mundial após o WikiLeaks e o News of the World”, evento que vai reunir jornalistas e experts de diversas partes do mundo para debaterem novos cenários para o jornalismo nos próximos anos. O seminário acontece nas dependências da Unesco em Paris, e é motivado pelos rebuliços provocados pelas ações do WikiLeaks e pelas escutas clandestinas que precipitaram o fechamento de um dos jornais mais tradicionais do Reino Unido.

Veja parte da programação:

Hoje, quinta, 16:
Painel 1 – Como os profissionais de mídia tratam o ambiente digital
Painel 2 – Profissionalismo e ética no ambiente de novas mídias depois do WikiLeaks e do News of the World
Painel 3 – Legislação internacional após WikiLeaks
Painel 4 – Relações entre governo e mídia depois do WikiLeaks

Amanhã, sexta, 17:
Painel 5 – Liberdade na internet após o WikiLeaks
Painel 6 – Jornalismo profissional e jornalismo cidadão trabalhando juntos após o WikiLeaks

Mais informações: http://www.unesco.org/new/en/communication-and-information/

Aaaahhhh!
Se você se interessa pelo tema, veja um livro sobre o WikiLeaks, um dossiê sobre o assunto e uma entrevista.

chamada de artigos na ciberlegenda

A equipe editorial da revista Ciberlegenda, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF), informa que recebe até 2 de abril artigos para a edição de julho de 2012.

Esse número terá como tema “Colisões entre o público e o privado em esfera midiática”, e a ementa é:

Os  embates entre as esferas pública e privada e a gradativa diluição de suas fronteiras, catalisados pela emergência das novas tecnologias de informação e comunicação. Os aspectos sociais, culturais, políticos, econômicos, tecnológicos e legais relativos às novas formas de construção de subjetividade, à exposição da intimidade e à “invasão” da privacidade. Utilização não autorizada de dados privados por agentes públicos ou empresas. Novas interfaces de construção e exposição de si no ciberespaço. Os processos de publicização e de tornar público o espaço privado. A visibilidade como reivindicação e como “armadilha”, nas diversas esferas midiáticas. Estratégias documentais e ficcionais que dialogam com os embates entre o público e o privado, em que tais colisões se manifestam como mediações entre a obra e os seus realizadores.

Mais informações em http://www.proppi.uff.br/ciberlegenda

vamos discutir direito à comunicação?

O Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF), junto com outras organizações, promove nesta semana o primeiro Encontro Nacional sobre o Direito à Comunicação.
O evento acontece nos dias 9, 10 e 11 de fevereiro na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), em Recife.

Confira o site do evento.

“compartilhar” é o verbo mais importante hoje

Houve um tempo em que “compartilhar” era uma ação muito mais ligada a motivações religiosas, na tentativa de igualar as pessoas, nivelar oportunidades, reduzir as distâncias entre as pessoas. Na igreja, era o momento de compartilhar o pão, de dividir uma metáfora do corpo do salvador. A eucaristia se resumia a um ato de compartilhar, uma expressão de afeto e desapego.

Atualmente, compartilhar vai além disso. É tornar comum, é comungar também para além das filiações religiosas. Compartilhamos fotos, textos, arquivos de áudio e de vídeo, experiências, gostos, opiniões, desagravos, conselhos, nossas vidas… Isso impactou nossos hábitos, nossas culturas, nossas formas de sociabilidade e nossa economia.
Somos todos, de alguma maneira, personagens desta nova conjugação do verbo.

“Sharing: culture and the economy in the internet age”, de Philippe Angrain, é um bom estudo sobre as transformações mais recentes que este hábito contagiante está provocando. Vale conhecer. Baixe aqui
(em inglês, em PDF, com 243 páginas e 2,5 mega de arquivo)

uma saída para a ética jornalística

Em tempos de transformações tão profundas nos modos de se fazer jornalismo, nos relacionamentos entre jornalistas, meios e audiências, e nas próprias regras éticas, há quem sinalize saídas igualmente drásticas. É o caso do professor Anton Harber, que dirige o Programa de Estudos de Jornalismo e Mídia da Wits University, na África do Sul.
Para ele, a saída está na adoção de uma transparência radical como valor para a prática jornalística. É de se pensar…

The way the media works has changed, and the way journalists operate has changed, but the ethical and professional rules have stayed largely the same. The old rules were based on building trust between journalists and their audience, on a notion that there was a single truth to be relayed; now it needs to be built on encouraging informed scepticism, so that an active, participatory audience can assess credibility and authority and choose which of many versions and viewpoints to follow and believe.

To cope with this, journalists need to do more than enforce ethical codes more strongly, but there is a need to update the rules and practices and make them appropriate to this new world of instant, constant and fragmented news.

Fortunately, new media also gives us the tools to do this, and encourage fairness, balance and accuracy in journalism. The way forward lies in a commitment to a radical transparency – giving the audience the tools to understand how news is processed and selected, and the information that empowers them to assess its validity and credibility.

Leia na íntegra, no blog do autor.

cibercultura e jornalismo: chamada para artigos

(reproduzindo do site da revista)

O volume 9 nº 1 da revista Estudos em Jornalismo e Mídia reserva seu Núcleo Temático às relações entre a cibercultura e as práticas jornalísticas.
Nos últimos anos, não foram apenas os avanços tecnológicos que afetaram o jornalismo, mas a emergência de novos papeis, hábitos e culturas de produção, difusão e consumo de bens simbólicos. Com isso, meios de comunicação, públicos e profissionais vêm se reposicionando rapidamente diante de uma nova ecologia comunicacional. Ajudam a compor este cenário o surgimento de redes sociais na internet e novos atores, apropriações de mídias pelas audiências, o fortalecimento dos processos de colaboração e participação, os esforços técnicos para novos empacotamentos de conteúdos por vias multimidiáticas e convergentes, e a explosão das linguagens e das narrativas, entre outros fatores.
Prioritariamente, o Comitê Editorial receberá artigos que tratem da temática Cibercultura e Jornalismo e de assuntos derivados.

Deadline: 20 de março de 2012
Aprovação de artigos: até 10 de maio de 2012
Publicação da edição: até 20 de junho de 2012
Instruções para os autores: http://bit.ly/qwSA8p
Mais informações: http://bit.ly/8kDtY7

A Estudos em Jornalismo e Mídia é uma publicação científica eletrônica do Mestrado em Jornalismo (Posjor/UFSC).
Semestral, a revista tem acesso totalmente gratuito, publica artigos em português, espanhol e inglês, e está classificada como um periódico B3 no Qualis/Capes.
A EJM está indexada em oito bases de dados nacionais e internacionais, e foi a primeira revista brasileira de Comunicação a ter o Digital Object Identifier (DOI).

vida digital, um estudo global

Foram apresentados publicamente os resultados de um amplo estudo sobre hábitos e apropriações de usuários digitais em 60 países, incluindo o Brasil. “Digital Life” é uma pesquisa que traz dados de 2011 a partir de entrevistas a 72 mil usuários de 16 a 65 anos, uma amostra de 93% da população mundial conectada. A pesquisa foi feita pela TNS, multinacional de pesquisa de mercado.

Alguns dados que chamam a atenção:

  • Dos 2,1 bilhões de internautas, 84% estão nas redes sociais e 33% elegem marcas como “amigas”
  • 80% deles usam o meio digital para conseguir informação e 78% levam em consideração comentários sobre marcas, produtos e serviços
  • No planeta, a média é que se destine 18 horas semanais à internet, quase um quinto disso nas redes sociais
  • O tempo conectado por dispositivos móveis vem crescendo e já ocupa 11% do total global
  • Esses dispositivos impulsionam o crescimento das redes sociais e dos comentários, e em países emergentes acaba sendo uma das únicas formas de estar conectado
  • Em junho de 2011, contava-se 200 milhões de tweets ao dia
  • 64% de quem posta comentários sobre uma marca, o faz para oferecer conselhos ou compartilhar uma experiência; 53% para criticar

O estudo interessa a empresas do setor de tecnologia e mídia, mas também a pesquisadores da área e a usuários comuns, que podem ter uma compreensão maior dos fenômenos atuais da comunicação.

Saiba mais sobre o estudo aqui

Veja a apresentação dos resultados dirigida à mídia!
(em formato PDF, em espanhol, 65 páginas e arquivo com 1,6 Mb)

dc impresso chama para o online

Assinantes e bancas de jornais receberam ontem no final da tarde a edição dominical do Diário Catarinense e os leitores mais desatentos chacoalharam a cabeça, incrédulos. É que o jornal impresso reproduzia a nova versão eletrônica da publicação. A ideia é boa, mas não é nova. Para se ter uma ideia, o Correio Lageano fez o mesmo quando o seu portal o CLMais completou um ano. O jornal da serra chegou às bancas como se tivesse sido arrancado da web…

 

o assunto mais falado da web hoje…

… não vai ser naufrágio, abuso sexual, escândalos políticos… será o confronto entre um modelo e outro de distribuição de conteúdos, de compartilhamento de experiências, de divisão de conhecimentos.
Conheça as iniciativas que podem acabar com a internet como a conhecemos.

Saiba mais ainda

imagine o mundo sem conhecimento livre…

Saiba mais aqui

Os Repórteres Sem Fronteiras também aderiram…

Entre na página da Wired e acompanhe a versão censurada…

como adolescentes se comunicam?

Surgiu um estudo recente da Ericson sobre como os adolescentes norte-americanos se apropriam de tecnologias para se comunicar. A pesquisa leva em conta 2 mil entrevistas online feitas com sujeitos de 13 a 17 anos. A amostra representa uma fatia de 20 milhões de pessoas nessa faixa etária, afirma o estudo. Alguns resultados:

  • Mandar textos pelo celular é legal, mas não substitui contato presencial
  • Videochat é uma tendência crescente
  • O telefone celular é uma ferramenta social
  • Adolescentes e adultos usam o Facebook de forma diferente

Quer ver o estudo na íntegra, clique aqui.
(em inglês, 12 páginas, em formato PDF e arquivo de 498 Kb)

hackerismo e jornalismo

A revista Comunicação & Sociedade acaba de lançar nova edição, onde publica uma resenha minha sobre “Hackear el periodismo”, livro do jornalista argentino Pablo Mancini.

A obra é instigante, cheia de insights e marcadamente preocupada com a busca de novos papeis para o jornalismo. Vale a leitura.

Reproduzo a resenha, mas a edição completa da revista pode ser acessada aqui.

Hackerismo e Jornalismo

Os meios de comunicação ajudam a cristalizar um equívoco quando usam o termo “hacker” para designar vândalos cibernéticos e criminosos digitais que violam sistemas, roubam dados, picham sites. Até veículos especializados cometem esse deslize, e isso ficou evidente mais uma vez com a onda de ataques a páginas eletrônicas do governo brasileiro em junho passado: as invasões foram atribuídas a “hackers”.

Teria sido uma derrapada não fosse o fato de que há quase três décadas um livro reposicionava os hackers como protagonistas na história da informática. Em 1984, Steven Levy já os chamava de “herois da revolução na computação”. Compreender esses personagens significa não apenas evitar jogá-los na vala comum dos marginais, mas entender aspectos importantes da lógica que orientou a busca pela excelência tecnológica e a emergência de uma cultura de colaboração no trabalho e de compartilhamento de arquivos e conhecimentos.

Em “Hackear el periodismo: manual de laboratório”, o jornalista argentino Pablo Mancini se vale do conceito por trás desses personagens para discutir os limites atuais para o jornalismo numa nova ecologia comunicacional. Gerente de Serviços Digitais do Clarín Global, Mancini está atento aos movimentos do setor para buscar a sustentabilidade de projetos midiáticos e o redesenho das práticas informativas. As ilustrações a que recorre são exemplares, e o livro é recentíssimo – chegou ao público em abril de 2011.

Evocando Levy (1984) e Himanen (2002), Mancini se apressa a aliviar a carga semântica negativa sobre o termo. Com os autores que sistematizaram uma ética hacker, lembra que existem hackers em todas as profissões e não apenas na computação, e o que os define é uma predisposição de buscar a excelência com métodos pouco ortodoxos, inexplorados e inovadores. São personagens que se apoiam em valores como paixão, liberdade, consciência social, verdade e integridade; e se orientam para o livre acesso à informação e ao conhecimento. Portanto, compartilham o que sabem, buscam soluções para sua comunidade, facilitam o acesso e contornam dificuldades. Hackers são naturalmente curiosos e criativos, e perseguem o aperfeiçoamento de práticas, procedimentos e sistemas. É neste aspecto que Pablo Mancini aproxima hackerismo de jornalismo. Essa indústria está atravessando um período intenso de transformações que ensejam soluções, reconfigurações e reprogramações. Daí que necessita de “profissionais com uma visão estratégica que estejam à altura do mercado: hackers que se apropriem dos desafios e possam desenhar as soluções que os meios e a profissão precisam para se reinventar” (2011: p.16).

Para Mancini, hackear o jornalismo é trabalhar para aperfeiçoá-lo tecnicamente, é conjugar esforços para apontar saídas para sua manutenção como negócio viável, é operar para melhorá-lo como prática socialmente útil.

O autor propõe quatro portas para se entrar no núcleo funcional e hackear o jornalismo: tempo, audiência, valor e organização. Mancini despe-se de pretensões totalizantes, advertindo que não se trata de lei ou teoria, mas de uma proposta de análise e ação. Para ele, esses quatro aspectos são chaves das mudanças nas fábricas de notícias. Podem ser analisados separadamente, mas articulá-los em pares ou em quadratura auxilia uma visão mais ampla das transformações sem precedentes sofridas por essa indústria.

O diagnóstico não parece exagerado, afinal, como descreve o autor o tempo de consumo das informações já não é mais o mesmo; a audiência tem novas práticas junto aos meios; o valor das informações é também agregado de fora das redações; e os fluxos corporativos estão sendo reformulados. Com isso, se todas as coordenadas foram alteradas, o jornalismo também precisa de um novo endereço.

Com uma superoferta de informações, os meios de comunicação acabaram dilatando o período de consumo de seus produtos. Se antes a audiência se encaixava em janelas de tempo – o horário nobre da televisão, as horas da manhã para a leitura dos jornais… -, agora, o público não fica mais confinado nesses intervalos. A audiência não está mais em nenhum lugar porque ela flui, atravessa os meios, é turista dos suportes. Aliás, Mancini critica a obsessão das empresas pelos suportes, o que as estaria arruinando. “Se o conteúdo é transmídia, os meios serão pós-suporte” (op.cit.: p.34). Por isso que “o tempo da audiência está hackeando a incapacidade e a resistência à mudança que reina e governa a maioria das organizações jornalísticas” (op.cit.: p.24). A saída, segundo Mancini, é produzir brevidades, informações em pílulas, sob o mantra do “menos é mais”, de forma a capturar as fluídas audiências.

Aliás, os públicos vêm dotados de outras potencialidades. Em tempos como os nossos, as audiências são agentes também da distribuição dos conteúdos dos meios, algo que antes era prerrogativa exclusiva dos jornalistas e veículos. Os amadores2 tomam a Bastilha, geram material, intrometem-se no processo produtivo dos meios de comunicação, clamam por mais espaço de participação/interação. Para Mancini, não se trata de falar de prosumers, de jornalismo cidadão ou seus arredores. Está nascendo um novo animal midiático, capaz de “mudar a cadeia alimentar de uma ecologia até então endogâmica e autorreferencial” (op.cit.: p.41). A audiência tem o controle do tempo agora, é “a medula e o motor da distribuição de conteúdos”, o que causa tremores nas redações. Sistemas de reputação e recomendação online e audiências desdobradas em algoritmos assumem papeis cada vez mais determinantes na equação comunicativa.

Se a audiência não é mais um rebanho, compara Mancini, os meios também não podem se comportar como cardumes. Buscar se destacar das muitas opções é essencial para sobreviver. A homogeneidade gera a invisibilidade. A superabundância das informações acaba esvaziando parte do valor das próprias informações, seguindo uma lei econômica. O valor não vem mais apenas dela mesma, mas de outras fontes. Está em outra parte. Outro fator problematizador é que os produtos e serviços jornalísticos não são mais apenas lidos, vistos ou ouvidos. São também utilizados, pontua Mancini, trazendo à tona uma dimensão ainda pouco avaliada no setor: o valor de uso da informação.

Se o tempo, a audiência e o valor já não são mais os mesmos, a empresa jornalística também não pode se manter como está, sentencia o autor. É preciso reorganizar-se, o que não se traduz em reposicionar o mobiliário nas redações. Estão em jogo a eficiência das equipes e o valor do que elas produzem. No debate sobre integração de redações, planejamento versus experimentação, ganham mais força os movimentos para a inovação e o redesenho do jornalismo. “Nunca esteve tão claro que o capital dos meios são sua marca e seus recursos humanos (…) O desafio é extremo: depois de décadas otimizando modelos de negócios, agora temos que pensar os modelos produtivos” (op.cit.: p. 109). Mancini se pergunta se é possível produzir novos produtos em velhas fábricas. A saída não é única, e os caminhos apontados pelo autor vão desde a curadoria de conteúdos ao modus operandi da indústria dos games, da prática do remix – ao estilo dos Djs – à combinação bem equilibrada de habilidades e atitudes individuais e coletivas. Interessa é rearranjar a maneira de trabalhar o jornalismo, atuar para romper com modelos engessantes.

À guisa de conclusão, Mancini cita três iniciativas que estão hackeando o jornalismo: o WikiLeaks – site de vazamentos informacionais de governos e corporações -, o Huffington Post – portal onde a audiência é crucial para a criação do valor da informação – e o Newser – que oferece um redesenho da notícia, tendo a brevidade como valor agregado sobre o conteúdo. O que têm em comum esses exemplos? Têm funcionalidades disruptivas, rompem padrões e ajudam a reprogramar o jornalismo. Seu DNA está contaminado por fluidez, flexibilidade e originalidade, elementos raros na espécie.

Então, Pablo Mancini tem todas as respostas? Claro que não. Aliás, seu “Hackear el periodismo” pode frustrar o leitor ao final, já que deixa uma grande quantidade de perguntas sem respostas. As lacunas podem ser atribuídas à despretensão, à impotência ou à impossibilidade de resolvê-las agora. Mancini não oferece um necrológio da crise do jornalismo, mas um manual de laboratório. Parece pouco, mas propor que se mexa os braços é um bom começo para não afundar.

Referências bibliográficas

HIMANEN, Pekka. La ética del hacker y el espíritu de la era da la información. Barcelona: Destino, 2002

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2008

KEEN, Andrew. O culto ao amador. Rio de Janeiro: Zahar, 2009

LEVY, Steven. Hackers, heroes of the computer revolution. New York: Delta, 1984

MANCINI, Pablo. Hackear el periodismo. Buenos Aires: La Crujía/Futuribles, 2011

jornalismo cidadão, em defesa

O jornalista Marcelo Barcelos defende hoje no Mestrado em Jornalismo da UFSC a dissertação “Jornalismo cidadão: profissionalidade e amadorismo nos jornais do Grupo RBS em Santa Catarina”. A banca é pública e acontece a partir das 14 horas na sala de videoconferência do CCE. A comissão examinadora do trabalho é formada pelas professoras Gislene Silva e Maria José Baldessar, além de mim, que atuei como orientador.

A transmissão online da defesa você pode conferir aqui.

Um resumo do trabalho:

O jornalista não está mais sozinho para apurar os acontecimentos, escrever as notícias e distribuí-las. Com a revolução tecnológica que reconfigura não só suas práticas, mas também a própria função social, ao lado do profissional, está o amador, o cidadão comum, aquele a quem se deu, por muito tempo, o nome de público/receptor. Hoje, o leitor pode ser um produtor de conteúdo noticioso e, para isso, apropria-se de competências antes exclusivas dos repórteres, como apurar, narrar fatos inéditos e produzir o noticiário, em um fenômeno conceituado “jornalismo cidadão”. É tentando entender os impactos provocados pela chegada desse personagem no jornal impresso e no âmago da cultura jornalística que este trabalho mergulha. Parte-se do princípio que legitimou a produção de conteúdo amador independente até o instante em que as mídias tradicionais passaram a adotá-la, elevando o cidadão à condição de leitor-repórter. Para compreender esse recente paradigma, analisamos um corpus de 27 edições – durante uma semana completa dos quatro jornais do Grupo RBS em Santa Catarina: Hora de Santa Catarina, Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina e A Notícia. A investigação, utilizando o método exploratório na análise de textos e fotografias, caracterizou a produção amadora publicada conforme os seguintes critérios jornalísticos: a) autoria; b) foco narrativo; c) atualidade; d) interesse público e) gênero f) hard news e g) soft news. A análise ainda inclui entrevistas presenciais com jornalistas das quatro redações, à procura de traços dessa nova forma de relacionamento com o público e das tensões provocadas em sua profissionalidade. Rodeado de enunciados intencionais que o convocam à colaboração, o público atende a um chamado e produz conteúdo de natureza informativa; muito desse conteúdo, no entanto, é carregado de um caráter pessoal. As produções aparecem em quase todas as editorias, ora na voz do cidadão, ora diluída na edição do jornalista, que a complementa. É possível identificar um elevado grau de dependência no qual o jornalista demonstra a necessidade do leitor para “fechar o jornal”. No outro lado do balcão, os jornalistas ainda se moldam à partilha, enquanto defendem seu conhecimento específico, conquistado entre a prática e a formação acadêmica, para tratar – com ética, veracidade e equilíbrio – o que vem de fora da redação, sob o risco da abertura de espaço à imprecisão e à narrativa falseada. Os jornalistas reconhecem, no entanto, a necessidade cada vez maior chamar o leitor à produção em uma “Coautoria Vigiada” e admitem terem aberto mão de algumas tarefas até então exclusivas.

a crítica da crítica de mídia no brasil

O Mídia & Política acaba de publicar um número especial em que junta artigos sobre a crítica de mídia no país e o futuro do jornalismo. O número tem ótimos artigos e merece ser conferido.
Veja o sumário e vá direto à fonte:

A CRÍTICA DA CRÍTICA DA MÍDIA NO BRASIL

Depoimento – Luiz Martins
“É difícil apresentar boas práticas de acerto no panorama da mídia atual”
Paulo Figueiredo, Fábio Pereira e Camilla Braga
A mesma mídia que veicula uma campanha educativa, mostra, na novela, condutas vis; faz campanha de educação no trânsito para, em seguida, exibir comerciais de automóvel mostrando a velocidade como diferencial.

Jornalismo e crítica: informar ou opinar?
Thaïs de Mendonça Jorge
Se atualmente proliferam torres de vigilância – tanto quanto câmeras de segurança na via pública –, observatórios existem porque a sociedade mesma indicou a necessidade de um pan-óptico para ver o que acontece na mídia.

Periscópio dá oportunidade a estudantes
Anderson David Gomes dos Santos
O espaço destinado à crítica da mídia é disponibilizado por uma rádio educativa, a Rádio Unisinos 103.3 FM, emissora da Fundação Urbano Thiesen, ligada à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Observatório da imprensa, um velho-jovem
Adriana Domingues Garcia
OI estimula a sociedade midiatizada a refletir em relação aos modos de observação sobre o que a mídia produz e faz circular, podendo fazer com que os sujeitos mudem de postura durante a assimilação dos produtos noticiosos.

As novas mídias e sua influência na crítica
Rogério Christofoletti
A crítica não significa a prática da demolição e da ofensa, nem do descrédito e do cinismo, muito menos o desprezo do trabalho alheio e a soberba ilimitada. Deve ser vista como forma de ação, reflexão direcionada à melhoria de qualidade dos produtos.

O FUTURO DO JORNALISMO

Periodismo en peligro de extinción
Carlos Soria
Hay más de un motivo para sospechar que el periodismo es una profesión en peligro de extinción, como el oso panda, el lince o el gorila; o al menos, para pensar que el periodismo sufre una verdadera crisis de identidad.

Ainda guardando o portão?
Célia Maria Ladeira Mota              
O gatekeeper é tarefa em extinção no mundo inteiro. O processo se inverteu e o leitor, telespectador ou ouvinte se transformou em gatewatcher da informação.

Olhar o que não está diante dos olhos
Antonio S. Silva
Mais comunicação exige mais mediadores, profissionais que ofereçam esclarecimento e competência para olhar aquilo que não está diante dos olhos, mas que se esconde estrategicamente, atendendo a interesses políticos, econômicos e culturais.

RESENHA
 11 de Setembro
Chomsky e a imprensa: verdades inconvenientes

mídia, educação e professores: um livro

Baixe o livro “Media and Information Literacy: curriculum for teachers”, organizado pela Unesco e que atualiza bastante a discussão internacional sobre como se deve fazer uma pedagogia dos meios de comunicação no contexto escolar.
(Em inglês, formato PDF, 191 páginas e arquivo de 1,73 mega)

googlejornalismo: um guia

Já pensou usar o Google para organizar suas fontes de informação, encontrar dados e fazer pesquisas pelo buscador e usar outros serviços e ferramentas para apurar, editar e publicar reportagens? Enfim, fazer jornalismo pelo Google?
Veja este guia produzido pela Medios Milenium, de Bogotá.
(documento em espanhol, em PDF, com 80 páginas e arquivo de 8,6 mega)

jornalismo em desenho animado

Se você admira o jornalismo feito em quadrinhos por Joe Sacco, vai gostar muito do que os salvadorenhos do El Faro fazem. É outra amostra de como o jornalismo pode se reinventar. Historias Urbanas é uma série de seis histórias colhidas nas ruas, reescritas e vertidas para animação. O trabalho é executado por sete jornalistas, um diretor de teatro, 25 músicos, um editor, dois animadores e sete ilustradores.

A ideia é simples e complexa ao mesmo tempo: narrar a cidade de San Salvador, a capital do país. Com isso em vista, durante um ano, jornalistas apuraram, artistas gráficos deram formas e cores a personagens e cenários, e músicos compuseram temas exclusivos para as histórias.

Resultado? Um jornalismo multimídia diferente, único, completo e bem arquitetado.

Confira!

 

câncer, mal-estar e sintomas na mídia

(publicado originalmente no objETHOS)

O anúncio da descoberta de um câncer na laringe do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou, ao longo do sábado, 29, uma correria nas redações brasileiras. Se geralmente o final de semana reserva a produção de matérias mais mornas no âmbito da política, desta vez, foi diferente. Não bastasse o plantão hospitalar por conta da internação do cantor Luciano, em Curitiba, após uma intercorrência por abuso de medicamentos, lá se foram mais repórteres para a frente do Sírio-Libanês, em São Paulo, para uma notícia também inesperada.

De forma geral, os telejornais brasileiros foram ágeis o suficiente para dar conta do primeiro boletim médico, para ouvir especialistas e repercutir o diagnóstico com personagens políticos. Também foram produzidas artes que pudessem ilustrar a doença para o público mais geral, e especulou-se um pouco em torno de possíveis causas do câncer de Lula. Consumo de álcool, tabagismo e poluição foram apontados como “fatores de risco”.

Os jornais também tiveram tempo e espaço para dedicar generosas páginas ao drama do ex-presidente. O assunto teve chamada de capa e disputou a manchete do domingo, conforme se pôde ver nas bancas pelo país:

  • Agora: “Lula está com câncer na garganta”

  • Folha de S.Paulo: “Lula tem câncer na laringe e vai passar por quimioterapia”

  • Notícia Agora: “Lula está com câncer”

  • O Dia: “Com câncer, Lula agora luta pela vida”

  • O Estado de S.Paulo: “Lula está com câncer na laringe e fará quimioterapia”

  • O Globo: “Com câncer, Lula inicia tratamento amanhã”

  • O Povo: “Uma nova batalha para Lula”

  • Zero Hora: “Exames detectam câncer em Lula”

  • Correio: “Ex-presidente Lula tem câncer na laringe”

  • Diário da Manhã: “Lula com câncer”

No exterior, os diários mais importantes da América do Sul também deram a notícia. Na Argentina, Clarín (“Conmoción em Brasil: Lula padece cáncer de laringe”) e La Nacion (“Lula, enfermo de cáncer”) fizeram o registro em suas primeiras páginas. O mesmo aconteceu com o chileno El Mercurio (“Cáncer de Lula remece a Brasil e impacta em el mundo político”), com o colombiano El Tiempo (“Lula tiene cáncer en la laringe”) e o venezuelano El Nacional (“Ex-presidente Lula da Silva tiene cáncer”).

As revistas semanais de informação não tiveram tempo para dar a notícia, já que chegam às bancas e aos assinantes justamente no final de semana. Os portais noticiosos alardearam como puderam o diagnóstico de Lula, mas nada que se descolasse do já esperado.

Reações extremas

A novidade mesmo pode ter vindo do lado de lá do balcão desse negócio chamado jornalismo. As redes sociais convulsionaram com o anúncio da doença do ex-presidente. O assunto dominou o Twitter, gerando diversas hashtags e provocando até mesmo uma “campanha” para que Lula fizesse seu tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Opositores do político fizeram piadas de gosto duvidoso, atacaram seus familiares e destilaram alguns litros de fel nas redes sociais. Partidários do líder petista reagiram, recomendando que se deixasse de seguir os “oportunistas” e “desumanos” que fizeram troça da doença de Lula.

Entre os jornalistas mais influentes, houve manifestações escassas. Talvez a mais contundente tenha sido a de Gilberto Dimenstein (Folha.com, no domingo, 30), que disse ter sentido “um misto de vergonha e enjoo” ao receber “uma enxurrada de ataques desrespeitosos, desumanos, raivosos, mostrando prazer com a tragédia de um ser humano”. Para Dimenstein, a interatividade democrática da internet é, um avanço do jornalismo e “uma porta direta com o esgoto de ressentimento e da ignorância”. Razão pela qual o colunista reforça que um dos papéis dos jornalistas na atualidade “é educar os e-leitores a se comportar com um mínimo de decência”. Dimenstein tem motivos realmente fortes para ter ojeriza do comportamento demonstrado por alguns internautas, que, protegidos atrás de seus teclados, revelam-se violentos e perversos. Difícil justificar tanta carga negativa e prazer pelo sofrimento alheio.

Recentemente, diversos casos de doentes célebres têm mostrado não apenas reações distintas dos públicos quanto dos próprios veículos de informação. A longa luta do ex-vice-presidente José Alencar contra um câncer foi acompanhada com apreensão e respeito pela serenidade do político diante da virtual morte. Alencar foi uma exceção, pois no terreno da política, a artilharia é mais pesada. Que o digam os presidentes Hugo Chávez (Venezuela) e Fernando Lugo (Paraguai), que batalham pelas próprias vidas e desviam de ataques e pragas. E mesmo a então candidata à presidência Dilma Rousseff, teve uma acompanhamento da imprensa ostensivo, apreensivo e ligeiramente especulativo.

Já com o empresário da tecnologia Steve Jobs, o desfecho fatal ganhou tons de idolatria na mídia e entre o público. Atualmente, o enfrentamento da doença pelo ator Reynaldo Gianecchini tem uma cobertura jornalística que não esconde a torcida nacional pelo restabelecimento do jovem astro.

Os ataques a Lula mostram mais uma vez que a internet permite uma polifonia pouco controlável, independentemente do bom senso, dos bons modos, das virtudes mais esperadas. Há quem se sinta seguro e confiante atrás de uma tela para julgar, ofender e caluniar. Há quem reaja também na mesma intensidade. Jornalistas ficam aturdidos no meio do tiroteio verbal. Compreensível.

Diagnóstico apressado

Como já disse, Dimenstein tem razões para sentir nojo do que viu. Mas particularmente penso que não se pode mais esperar que os jornalistas eduquem “os e-leitores a se comportar com um mínimo de decência”. Na atualidade, as redações têm se preocupado muito mais em aprender com seus públicos, não a ensiná-los, já que tutelas deste tipo estão esfarelando bem na frente de nossos olhos. Novos pactos entre audiências e veículos estão surgindo, bem como relações mais horizontalizadas, o que simplesmente dispensa o paternalismo e o didatismo sobre os quais o jornais do século XX se consolidaram.

O câncer de Lula gerou um mal-estar não apenas restrito ao seu círculo familiar. Outros brasileiros também se comovem com o estado de saúde do líder metalúrgico, dada a sua história pessoal, carisma incontestável e trajetória política. Lula é mesmo um fenômeno. Mas a enfermidade que o acomete revela sintomas que extrapolam seu organismo. O primeiro deles, me parece ser, é que a sociedade brasileira atual é mais complexa do que jamais foi e tem ânsias para se manifestar, qualquer que seja o assunto e a sua conveniência. Outro sintoma é que as novidades nem sempre vêm das redações, e tem se tornado comum que venham do lado de lá do balcão. Um terceiro sinal, neste diagnóstico, é que os jornalistas talvez não precisem mais educar seus públicos ou simplesmente não possam mais fazê-lo. Mais recomendável nesse caso é que o jornalismo revise seus hábitos, reencontrando os tons para fazer coberturas que fiquem na fronteira do público- privado, como as que relacionam saúde e poder. Prescreve-se, portanto, mudança de hábitos, mas nada de repouso.

quatro meses com um e-reader

Não é novidade nenhuma que eu adore livros. Gosto de ler, de comprar, de ganhar. Carrego sempre um comigo. Leio mais de um ao mesmo tempo. Me orgulho da biblioteca que tenho em casa. Amo o cheiro de livro novo, sofro com os ácaros e traças dos mais velhos. Tenho um amor táctil por eles. Mesmo assim, tenho experimentado a leitura por meio de um e-reader: o Alfa, da Positivo.

Ele é compacto, leve, e faz as vezes do Kindle, já que o modelo da Amazon Books não pegou pra valer no Brasil. Há quatro meses tenho usado o Alfa com bastante regularidade. Descarreguei mais de uma centena de livros em PDF nele e alguns em formato ePub. Usei todos os recursos dele, alterando tamanhos das letras, orientações de leitura (vertical/horizontal), explorando a legibilidade de figuras coloridas na tela em preto e branco.

E aí, vale?

O que eu mais gosto dele é o tamanho. Envolto numa charmosa capa preta de couro, o Alfa é gostoso de pegar e de carregar. É levíssimo, confortável de abrir e ler. É ergonômico, como dizem os especialistas. É prático, pois nele você pode carregar até 1,5 mil volumes, uma biblioteca!

Mas tem lá seus defeitinhos. Para mim, o principal é o pouco contraste na tela. Como o aparelhinho usa a tecnologia de tinta eletrônica e não emite luz a exemplo de um tablet ou netbook, o Alfa precisa ser lido em ambiente claro ou iluminado. Por isso, um bom contraste entre o preto das letrinhas e o fundo da página é super bem vindo, e este e-reader deixa a desejar…

Outro probleminha é a impossibilidade de se editar as propriedades dos arquivos em PDF. Se você descarrega nele um arquivo cujas propriedades não trazem título completo e autor, no índice das obras, o livro não se encaixa na lista alfabética e vai lá para o final. Isso chega a incomodar se você tem uma grande quantidade de documentos no e-reader.

Um leitor mais conservador e fanático por livros convencionais pode ter torcido o nariz até agora. Afinal, vale a pena trocar livros de papel por eletrônicos? Vou ser sincero: este é um falso dilema. Uma escolha não exclui a outra. Eu continuo idolatrando livros de papel, bem editados, caprichosamente produzidos, cuidadosamente impressos. Mas confesso que a facilidade de comprar livros pela internet, baixá-los em segundos e poder lê-los quase imediatamente é muito tentadora. A possibilidade de carregar um número grande de obras com um peso de menos de 250 gramas também é muito atraente.

Antes de testar o e-reader, pensei que me cansaria facilmente de ler em tela e isso não aconteceu. O recurso de ajustar o tamanho da letra conforme a conveniência do leitor e a facilidade no manuseio do equipamento tornam a experiência de leitura muito agradável. (Tenho um tablet da Orange – um TB002 -, onde é possível também ler livros eletrônicos, e não é nada cômodo. Após alguns minutos, os olhos ardem, a gente muda de posição um monte de vezes, enfim…)

Compensa?

No meu caso, continuo comprando mais livros em papel que os eletrônicos. Basicamente por dois motivos: as edições convencionais são produtos mais bem acabados e as eletrônicas ainda são CARÍSSIMAS. Um exemplo que pinço da Livraria Cultura:

Céu de origamis (Luiz Alfredo García-Roza) em papel = R$ 39,00
Céu de origamis (Luiz Alfredo García-Roza) eletrônico = R$ 27,00

A segunda opção custa 70% do livro convencional, mas não tem os mesmos custos de impressão, estocagem, transporte e distribuição. NADA JUSTIFICA ISSO, até porque o autor não ganha a mais sobre o valor…

Ler livros em bons aparelhos ajuda a popularizar o hábito e a quebrar preconceitos, mas é preciso popularizar as maquininhas e as obras. Isenções fiscais vêm a calhar, mas o mercado editorial nacional também despertar para o momento e as oportunidades que se apresentam. Se não reduzirem suas margens de lucro, se não redefinirem suas políticas de preço, se não alterarem seus modelos de negócio, as editoras podem terminar como a indústria fonográfica, a mais atingida com o processo avassalador da digitalização dos arquivos. Não é praga não. É o que está diante dos nossos olhos.

ATUALIZAÇÃO DE 13/08/2012: Infelizmente, todo o entusiasmo acima foi por água abaixo, quando após um ano de uso, o aparelho quebrou e não tive nenhuma resposta efetiva da empresa para consertá-lo. Veja mais detalhes aqui: http://wp.me/p4HHl-25c

ATUALIZAÇÃO DE 17/09/2012: Atendendo aos meus chamados, a empresa me enviou um novo aparelho, o que me deixou bastante satisfeito. Mais detalhes em: http://wp.me/p4HHl-26l

sobre transparência e a agenda das empresas de mídia

(publiquei primeiro no objETHOS, repito por aqui)

Duas rápidas notícias no ramo jornalístico sinalizam alguns dos movimentos no mercado internacional, em alto contraste com o comportamento brasileiro. No Reino Unido, The Guardian inovou com a criação de uma lista pública em que expõe quais reportagens o jornal vem desenvolvendo. O rol pode ser acessado pelos leitores e até pelos concorrentes. Nos Estados Unidos, The New York Times está sendo levado a aperfeiçoar suas políticas de tranasparência, principalmente no que concerne as coberturas de caráter econômico e financeiro. A ideia é que o jornal lidere um esforço no mercado para tornar mais evidentes possíveis conflitos de interesse dos jornalistas que cobrem certos assuntos. Os episódios nos Estados Unidos e no Reino Unido têm ao menos um ponto em comum: fortalecem o valor da transparência, um dos maiores tabus da mídia brasileira.

Enquanto a open newslist do Guardian desafia a lógica do furo de reportagem de um lado e estende a mão para o jornalismo de fonte aberta e com a colaboração dos leitores, os grupos de comunicação no país pressionam políticos no Legislativo e no Executivo para deixar a legislação e as práticas de mercado mais obscuras. Enquanto o jornal mais influente do mundo se preocupa com a credibilidade de sua equipe, as empresas locais rasgam as próprias diretrizes editoriais, atuando de forma juvenil e corporativa em detrimento do interesse do público. Não é o caso de dizer que os grupos internacionais sejam isentos de qualquer intencionalidade e que mereçam lugar cativo no paraíso por sua beatitude. Mas é histórico o descaso dos conglomerados diante de regras mais claras para o setor, de regulamentação ampla e de transparência. As brechas na legislação permitem propriedade cruzada e oligopólio; o marco legal desconsidera a internet e as novas formas de difusão de informação e entretenimento; e nem mesmo o Ministério das Comunicações sabe a composição acionária de muitas empresas do ramo. Resultado: o Estado não acompanha o setor, dispõe de instrumentos frágeis e não coíbe práticas que são lesivas não apenas para os concorrentes, mas para o consumidor final, o tal do cidadão, o tal do contribuinte. Se o Estado, que deveria atuar como xerife, desconhece a situação, imagine o público, alijado das decisões mais importantes…

De forma paulatina, a transparência vem se tornando um ativo intangível de destaque para empresas de vários setores. No caso da informação e do entretenimento, ser transparente é buscar uma aproximação com seu público e com demais partes interessadas; é mostrar-se também mais socialmente preocupado e mais aberto ao diálogo; é prestar contas e horizontalizar certos processos. Isto é, depende de maturidade, compreensão global do seu papel na sociedade e de convicção. Se o grupo não quer efetivamente ser mais transparente não vai conseguir simular isso, pois suas práticas demonstrarão o contrário.

A mudança do setor produtivo para uma atuação mais transparente pode se dar no interior das próprias empresas ou motivada por uma transformação cultural: líderes do mercado podem “arrastar” os demais players para esta atitude, ou o próprio público pode reivindicar isso. O que acontecerá primeiro no cenário midiático brasileiro? Alguém arrisca responder?

informação de papel x informação online

A Associación para la Investigación de Medios de Comunicación (AIMC), entidade espanhola, acaba de publicar resultados de uma pesquisa que pode interessar a muita gente: “La Prensa: digital vs papel” é o primeiro de uma série de estudos semelhantes, centrados nas particularidades de cada meio e nas formas de como se relacionam com seus públicos.

Conforme esclarece a associação, a pesquisa “está focalizado en prensa diaria e indaga en los comportamientos, actitudes y preferencias ante los dos sistemas de distribución de los contenidos, tanto “tradicional” (papel) como en online”. A coleta de dados se deu entre 20 de maio e 16 de junho de 2011.

Acesse a pesquisa aqui.

presentinho 3: guia para gerir marcas na web

A Lewis PR, empresa espanhola de relações públicas e de consultoria em comunicação, lançou um guia para administrar marcas na web “sem barreiras”. O manual pode ser útil para empresas e organizações, mesmo que elas estejam em outras partes do globo.

O arquivo tem 6 Megabytes, está em espanhol, em PDF e tem 28 páginas.

Baixe aqui.

presentinho 2: o portal de jornalismo da bbc

Vin Ray, o primeiro diretor do BBC College of Journalism, produziu um documento bem interessante sobre o portal do conglomerado, sua estrutura, funcionamento, futuro imediato, ferramentas e o atendimento às demandas do seu público.

É claro que este white paper é bastante restrito, mas ajuda a pensar casos semelhantes de portais jornalísticos em grupos de comunicação com preocupações semelhantes às da BBC.

O arquivo tem 22 páginas, está em inglês, e tem tamanho de 597 kbytes. Baixe aqui.

presentinho 1: manual google+ para jornalistas

Esther Vargas, Sofia Pichihua e María Cecilia Rodríguez Medina produziram um guia do Google+ para jornalistas. A versão está em espanhol, tem 45 páginas e seu arquivo alcança 5,3 Megabytes.

Claro, útil e funcional.

Baixe aqui.

uso de mídia define gerações: será mesmo?

O Link, caderno de tecnologia de O Estado de S.Paulo, trouxe matéria sobre estudo da agência Adge/Magid Generational Strategies que apontaria uma ligação direta entre consumo de certas mídias por grupos etários em faixas de horário do dia. Quer dizer: o uso do meio ajuda a definir a sua geração. Típico caso de determinismo biotecnológico, fácil da gente “comprar” mas igualmente fácil de desbancar.

Veja a matéria aqui, o estudo aqui e um infográfico aqui.

Digo que a gente embarca nessa história com facilidade porque estudos deste tipo nos “ajudariam a explicar as mudanças pelas quais estamos passando nos últimos anos”, separando em gavetinhas as espécies de usuários e organizando a bagunça em que vivemos. Mas a coisa não é assim tão tranquila.

Se as gerações funcionam assim, como explicar os casos de velhinhos que estão nas redes sociais, que blogam, que se comunicam com seus netinhos pelo Skype, que postam suas fotos familiares no Flickr ou coisas do tipo? Como explicar que existem jovens usuários que não são necessariamente heavy users ou nerds de plantão, apesar de seus colegas serem? Eles são desvios da norma? São exceções à regra? Não se pode afirmar porque não há dados científicos que o coloquem dessa maneira…

Isto é, embora gostemos da piadinha que elogia as novas gerações por estas “virem software embarcado atualizado”, as formas de apropriação dos meios seguem regras que transcendem as biológicas: são culturais, sociais, contextuais, históricas. Quem dá bons argumentos nessa direção é o sagaz Clay Shirky, professor da Universidade de New York e autor de um livro inspiradíssimo: Cultura da Participação. Segundo Shirky, as gerações podem se diferenciar no uso dos meios não por aspectos inatos, ligados a sua genética ou coisa do tipo. Hiatos podem surgir entre elas por conta das oportunidades diferentes que elas têm de se apropriar de algo, de trazer isso para suas vidas e de transformar suas existências com essas novas chances.

O raciocínio de Shirky ajuda a explicar porque hoje milhões de pessoas – de todas as gerações – compartilham mais suas experiências nas novas mídias, articulam-se mais em torno de causas cívicas (ou não), buscam se organizar pela web e forçam a porta da participação nos meios convencionais. Temos atualmente mais oportunidades de fazer coisas que antes ficavam relegadas a grupos mais restritos. Temos capacidade de nos conectar mais rapidamente e mais facilmente a grupos de semelhantes, o que facilitaria trabalhar de forma coletiva. Não é, portanto, um fenômeno geracional; é histórico; é o momento. Segundo Shirky, temos os meios, os motivos intrínsecos para fazer isso e as oportunidades. Junte tudo, bata e coloque no forno. O resultado é o que o autor chama de “excedente cognitivo”.

Não disse que essa coisa do determinismo geracional era fácil de contrariar?

Não disse que as ideias do Shirky são interessantes?

saiu a segunda edição da revista “tinta electrónica”

A publicação é editada pelos jornalistas Sandro Medina Tovar (do Peru) e Emiliano Cosenza (da Argentina), e se quiser saber mais clique aqui.

Para baixar, clique aqui.