é a independência jornalística uma ilusão?

Terra arrasada?Um dos aspectos que mais me chamou a atenção quando tive acesso às entrevistas com os principais gestores de mídia do país é que era consensual a necessidade da independência editorial para a sobrevivência do jornalismo e das empresas que disso vivem. Foi em 2009 e eram entrevistas com 22 editores-chefes, diretores e publishers de todas as regiões, e eu estava – junto com outros colegas – concluindo uma pesquisa sobre indicadores de qualidade de informação para a Unesco.

O argumento repetido é que as empresas precisam construir condições para se fortalecer financeiramente de maneira a não depender de verbas publicitárias dos governos. A independência editorial é, então, um resultado da independência comercial. O raciocínio é lógico, linear e de fácil convencimento.

Pois esta semana voltei a ouvir interessantes declarações sobre a independência jornalística. Eu participava, no Rio, do encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica), e acompanhei a mesa redonda “Mídia e democracia: questões teóricas”. Na sessão de perguntas finais, alguém da plateia questionou os palestrantes sobre a hipótese de que alguns veículos de imprensa chantageariam o governo federal com a ameaça de publicação de escândalos políticos, tentando atrair para si mais verbas publicitárias. Mesmo sem mencionar explicitamente, o indagador colocou o problema da independência da imprensa nacional.

Bem humorado, o presidente da Compolitica, Afonso de Albuquerque (UFF), disse que todas as relações humanas de alguma forma são baseadas em chantagem. “As relações sentimentais, mais ainda”, brincou, completando que a hipótese pode acontecer com alguma frequência e por parte de alguns veículos e governos. Quer dizer, é da regra do jogo, pertence à lógica que tensiona esses atores. Tentando desviar de um “cinismo” de seu colega de mesa, Fernando Lattman-Weltman (FGV) também deu de ombros diante da chantagem. “Olha, ninguém é independente. Ninguém. Nem mesmo os mortos, afinal, eles dependem da gente para serem enterrados! Por isso, nem vale a pena lutar por esse valor, pela independência”, afirmou.

Confesso que uma fala tão convicta ficou martelando a minha cabeça. Não porque me apegue tanto a certos valores, mas porque venho assistindo nos últimos anos à franca demolição de uma série deles no campo do jornalismo. Não mais se acredita em objetividade; a imparcialidade é questionada a todo momento; a verdade é relativizada; a ética é flexibilizada; a independência editorial não merece ser cultivada… Com isso, parece que daqui a pouco não vai sobrar pedra sobre pedra…

Afinal, esses valores, por décadas, serviram de alicerces para o jornalismo, tanto do ponto de vista ético quanto para garantir padrões mínimos para a sua execução técnica. É verdade que o jornalismo já não é mais o que foi; que a sociedade mudou; nossas percepções de espaço e tempo também foram transformadas; e o mundo e a vida são outros. Entretanto, temo que, no afã de se reformar o jornalismo, jogue-se a criança junto com a água do banho.

A pergunta que agora assalta a minha consciência é: se estamos em busca de uma nova ética para este novo jornalismo, em que mesmo ela estaria apoiada?

Alguém aí se arrisca a responder?

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  1. Träsel

    O problema parece ser a maneira como as pessoas compreendem a dinâmica dos valores na sociedade. Valores são idéias abstratas (como teorias, aliás), o que significa que, ao descerem ao nível concreto do dia-a-dia, sofrem algum tipo de defasagem. Por isso não é fácil aplicar preceitos éticos.

    Na modernidade, os valores serviam de faróis que facilitavam a navegação. Isso não impedia algum navio de afundar volta e meia, mas todo mundo entendia que era do jogo, suponho. Com a onda de denúncia contra a falta de substância dos valores (Nietzsche, Foucault etc.), passou-se a dar mais importância aos poucos naufragados do que à maioria dos que usavam esses faróis para chegar com segurança ao porto. E aí, começa esse papo de que os valores não valem mais nada.

    Valores só funcionam se todo mundo concordar que eles funcionam. É como se houvéssemos perdido o padrão-ouro no Jornalismo.

  2. caysasilva

    Bom dia a todos!

    Essas questões são complexas demais. Tenho 28 anos e estudo jornalismo na Espanha, nos seminários e conferências realizadas na Universidad Complutense de Madrid são sempre amplamente debatido temas como ética no periodismo, objetividade, parcialidade. É verdade que a conta resultado, muitos vezes, vale mais que a informação rigorosa e honesta, o mercado e a guerra de audiencias pressionam e o que vale é ter 5 mil seguidores no twitter e um milhão de entradas no jornal online. Mas estamos vivendo um momento de cambio na profissão, tanto na forma como na materia. Surgem plataformas novas, novas formas de fazer jornalismo, espaços livres de pressão estatal, canais de comunicação diretos onde o jornalista passa a ser uma ferramenta de codificação e descodificação entre a fonte e o público. Por outro lado começa a desaparecer o jornalista contra-cheque, aquele que passa a vida inteira com um contrato em um meio de comunicação. O que quero dizer é que há, em minha opinião, muitas mudanças atualmente, algumas no momento são ruins e outras boas. Acredito que dentro do debate existe um execeso de alarmismo dos “opocalípticos” (Já mencionado por Humberto Eco em 1964) e de alguns jornalistas nostálgicos ao tempo da pena e papel.
    Tem que debater, existem problemas sérios. Porém a deontologia jornalística não desapareceu e nem vai desaparecer, se isto acontecer ja não estaremos falando de jornalismo.
    Abraço
    Caysa (http://sambaconflamenco.wordpress.com/)

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