polêmica do livro do mec é tempestade em copo d’água

Tenho acompanhado de perto o debate em torno do livro adotado pelo MEC e que estaria “ensinando errado” a língua portuguesa, ao reproduzir erros de concordância. E o que se vê nos meios de comunicação é bastante discutível não apenas do ponto de vista linguístico, mas também jornalístico.

De maneira ampla, os meios de comunicação têm engrossado as críticas ao Ministério e ao livro, formando uma verdadeira tropa de choque a favor da língua pátria. Jornalistas gesticulam, esbravejam, tecem discursos moralizantes em torno do idioma, como se viu, por exemplo, na edição de hoje cedo no Bom Dia Brasil, da Rede Globo. O jornalista Alexandre Garcia disparou contra o livro e o MEC, criticando uma certa cultura que fraqueja diante dos insucessos escolares, que flexibiliza demais o ensino e permite o caos que hoje colhemos na educação. Ele lembrou os exemplos da Coreia do Sul e da China, que há décadas investem pesado em seus sistemas educacionais e hoje prosperam, assumem a dianteira de alguns setores. Só se esqueceu de dizer que esses países investem nas ciências exatas e duras e não nas humanísticas, no ensino de língua materna, etc…

Não satisfeito, o Bom Dia convocou o professor Sérgio Nogueira, guardião da língua nacional e jurado do quadro Soletrando, do Caldeirão do Huck, este bastião da cultura brasileira. Nogueira também bateu forte, e quase pediu a cabeça do ministro Fernando Haddad, citando casos recentes (e graves) que chacoalharam o MEC. Só não “demitiu” Haddad por falta de tempo em sua intervenção…

Mas o caso do Bom Dia Brasil não é único. Alguém aí viu ou ouviu a autora do livro em alguma entrevista? Ela pôde dar sua versão? Alguém aí viu ou ouviu linguistas como Marcos Bagno e Ataliba T. Castilho, que pesquisam e trabalham há décadas em torno da discussão de uma gramática para o português falado e da singularidade idiomática do português brasileiro? Alguém aí viu alguma matéria sobre preconceito linguístico? Pois é, pois é…

Marcos Bagno tem um livro simples sobre o tema do preconceito linguístico, derivado de sua tese de doutorado e de anos de pesquisa. O professor Ataliba escreveu três volumes de uma gramática voltado ao português falado. Isso não é suficiente para se perceber que existem abismos entre o que se escreve e o que se fala? Que a língua falada é mais dinâmica, mais porosa que o padrão culto da língua, a ser aplicado na sua dimensão escrita? Alguém aí já ouviu falar de um genebrino chamado Ferdinand de Saussure, por acaso pai da Linguística, cujo livro póstumo de 1916 já tratava de separar língua (langue) e fala (parole)?

O fato é que sobra opinião apressada e ignorância na cobertura da imprensa sobre o caso. Sobra também prescritivismo, conservadorismo e elitismo no ensino de línguas. E justo nos meios de comunicação, ao mesmo tempo ator e ambiente fundamentais para difundir, disseminar e consolidar gestos de linguagem, fatos da língua…

inscrições encerradas no seminário brasil-argentina

Mal passaram 48 horas da abertura das inscrições e as 150 vagas para o 1º Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor) já foram todas ocupadas. Os organizadores abriram uma lista de espera – para 20 nomes -, que deve ser fechada rapidamente. Todos os inscritos estão recebendo mensagens de confirmação do Bapijor, e os candidatos em lista de espera devem ter respostas até a próxima quinta-feira, 19.

O 1º Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor) acontece em 9 e 10 de junho no Auditório Henrique da Silva Fontes, no Centro de Comunicação e Expressão da UFSC (Florianópolis). A programação prevê mesas com renomados jornalistas e pesquisadores brasileiros e argentinos, e haverá cobertura ao vivo pelo Twitter. Para acompanhar as atividades, basta seguir a conta do Observatório da Ética Jornalística (@objETHOS) e a hashtag #bapijor

O Seminário Brasil-Argentina é uma realização do objETHOS, promoção do Posjor/UFSC, com patrocínio da Fapesc e apoio da Abraji, PRAE/UFSC, Associação Catarinense de Imprensa (ACI) e Fapeu.

jornalismo e inovação: evento na califórnia

Clique abaixo e acesse para mais informações:

diário catarinense, 25 anos

O jornal de maior circulação em Santa Catarina completou hoje 25 anos.
Numa época em que diversos abutres sobrevoam os jornais impressos, o jubileu do Diário Catarinense é uma notícia que exibe parte do vigor dessa indústria.
A exemplo de outros casos, o DC produziu um vídeo para celebrar a data, mostrando um pouco do seu processo produtivo. Marketing à parte, vale “visitar” a rotina de um jornal diário nesses tempos de notícia full time.

liberdade de imprensa: 5 links

A liberdade de imprensa é um conceito caro e raro. Polêmico e ansiosamente buscado.
Como hoje se celebra mundialmente o dia dela, sugiro cinco links:

viu a capa da time?

A revista mais influente do mundo oferece aos seus leitores mais um pôster de caráter duvidoso.
Os norte-americanos devem ter adorado… já os do lado de lá…

bin laden morto nos jornais

Uma manchete que os americanos fantasiaram por anos…
(As edições a seguir são de hoje, dia 2 de maio de 2011)

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jornalistas e redes sociais: uma pesquisa

O escritório da UNESCO no Brasil, o Portal Imprensa e a ONG Artigo 19 estão aplicando uma pesquisa online sobre jornalismo e mídias sociais. Segundo os promotores, a divulgação dos resultados da pesquisa vai fazer parte das atividades de celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa no Brasil, em 3 de maio.

“O objetivo da pesquisa é identificar desafios e possibilidades do uso de redes sociais para o exercício do jornalismo”, informam os realizadores. A pesquisa é aplicada por meio de um formulário eletrônico, com 32 questões bem diretas, e que não duram muito para serem concluídas. As respostas podem ser anônimas.

Para participar, acesse http://artigo19.org/midiassociais/pesquisa

nova revista sobre comunicação e tecnologias

   Já está circulando na rede o primeiro número da revista Tinta Electrónica, voltada para temas da comunicação e das novas possibilidades tecnológicas. A publicação é editada pelos jornalistas Sandro Medina Tovar (do Peru) e Emiliano Cosenza (da Argentina), e na edição de estreia traz textos de Mario Tascón (Espanha), Pedro Jerónimo (Portugal), Anderson Paredes (Venezuela), María Pastora Sandoval (Chile), Martín Fernández (Argentina), Rolly Valdivia Chávez (Peru), Susana Morán (Equador), Lina Ceballos (Colômbia) e Gerardo Albarrán de Alba (México).

A publicação está no formato PDF, é fácil de baixar, e deve sair sempre em abril, agosto e dezembro. O número 1 tem 28 páginas e o layout é bem modesto, talhado para facilitar a leitura do conteúdo. O tema de abertura da nova revista eletrônica é “Fazer jornalismo num novo ecossistema informativo”.

Para saber mais sobre a revista, leia a entrevista que a jornalista Esther Vargas fez com Sandro Medina. Para baixar, clique aqui.

erro na capa… do livro

“O apressado come cru”. É o que diz o velho ditado. E ditados são como o azar: não costumam poupar ninguém.

A célebre editora argentina La Crujía, especializada em livros de comunicação, correu com alguns de seus títulos para lançá-los a tempo da 37ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, que acontece de 20 de abril a 9 de maio. A toque de caixa, colocou na gráfica uma série de novos livros, mas em ao menos um deles o editor seguiu a lei de Murphy: “Javier Darío Restrepo: periodismo y pasión”, coletânea de textos do jornalista colombiano que é um dos maiores especialistas em ética jornalística do continente.

Atendendo à pressa dos editores, os funcionários da gráfica conseguiram terminar a impressão a tempo de ser lançado nos primeiros dias da feira. Mas um único detalhe embarcou toda a edição: um “s” a mais no nome do veterano jornalista obrigou uma segunda impressão. Restrepo aparece como “Restrespo” na capa e nas folhas de rosto.

Erros acontecem, é verdade. A ironia é Restrepo ser um dos mais evidentes defensores da qualidade no jornalismo…

jornalismo de guerra, vivência e sobrevivência

De repente, por uma série de fatores, estou mergulhado em pensamentos sobre as coberturas jornalísticas de guerra. As mortes recentes do jornalista e ativista italiano Vittorio Arrigoni e do fotógrafo e documentarista Tim Hetherington, ambos em zonas de conflito, repercutem ainda nos meios profissionais e políticos, e chamam a atenção para a vida desses profissionais e seus cotidianos.

Aliás, ontem mesmo, a edição online do The Guardian trouxe dois artigos que se preocupam em abordar o assunto com naturalidade, crueza e realismo. O fotojornalista Sean Smith diz que não se surpreendeu ao saber que Tim estava em Misrata, no meio do fervo, afinal, este era o trabalho dele. “Precisamos mandar nossos repórteres para relatar os conflitos”, diz, afastando o senso comum de que fotógrafos de guerra são viciados em perigo.

Roger Tooth, que responde pelo setor de foto do The Guardian, lembra que fotojornalistas precisam estar perto da ação. Às vezes, perto demais. Seu pensamento ecoa a célebre frase do mítico jornalista de guerra Robert Capa: “Se as suas fotos não estão suficientemente boas, é porque você não está suficientemente perto do fato”. Mas como diz Tooth, a guerra está mudando e cada vez é mais difícil cobri-la. Um conterrâneo seu, Peter Beaumont, repete isso com frequência em seu “A vida secreta da guerra”, que estou devorando nos últimos dias.

Beaumont cobriu (e cobre) diversos conflitos para o jornal The Observer, também do grupo do The Guardian. Beaumont também cita Capa, mas esparrama os próprios sentimentos e memórias no livro, mostrando como é cada vez mais complexo estar próximo do fato, desviar-se das balas e morteiros, captar o que deve ser relatado e voltar vivo para transmitir o que foi apurado. O drama das ruas, a violência contra os civis, a miséria e a fome, a indigência moral, tudo isso vem em bando; e como uma sucessão de pestes que se abate sobre quem está em guerra.

Por isso que não consigo parar de refletir sobre essas questões todas. O jornalismo é necessário sim. E a vida, mais ainda. O dilema do que cobrir, os limites próprios de ação, e outras questões colaterais tornam a reportagem de guerra o maior desafio para o jornalista em ação. Na maioria das vezes, ele é o único ali, no meio da troca de tiros, desarmado, sem condições de revide, e tendo que retornar vivo…

lei de acesso à informação avança

(Reproduzido de Artigo 19)

Brasília, 20.04.2011. Ontem, em sessão conjunta de duas comissões, senadores aprovaram pareceres favoráveis ao projeto de lei que regulamenta o direito à informação no Brasil. A proposta ainda precisa passar por mais uma comissão, mas o governo trabalha para que ela seja enviada rapidamente ao Plenário para aprovação.

“O projeto é um marco positivo para o desenvolvimento do direito à informação no Brasil”, afirma Agnès Callamard, diretora executiva da ARTIGO 19. “Nós saudamos os esforços do governo brasileiro de buscar acelerar a tramitação do projeto. O país enviaria uma mensagem muito positiva ao mundo se a proposta fosse aprovada antes do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, em 3 de maio.”

Originalmente, a sessão conjunta entre a Comissão de Direitos Humanos e a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado previa a participação da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. Mas as articulações com a comissão presidida por Fernando Collor de Mello (PTB-AL) não avançaram, e o projeto (PLC 41/2010) ainda precisará passar por sua revisão.

O projeto de lei em tramitação no Senado é um substitutivo do texto enviado pela Casa Civil à Câmara dos Deputados em 2009, quando foi discutido e emendado pela sociedade civil e deputados. A presidente Dilma Rousseff esteve diretamente envolvida na elaboração do texto original e já manifestou seu apoio a uma aprovação célere do projeto pelo Senado.

O projeto de lei prevê a criação de procedimentos para facilitar e garantir o acesso a informações públicas mantidas por autoridades públicas. Ele inclui o treinamento de servidores públicos, sanções ao desrespeito à lei, obrigações de divulgação pró-ativa de informações de interesse publico e campanhas de conscientização. A regulamentação do direito de acesso à informação pública é uma tendência mundial, com mais de 90 países tendo aprovado leis de liberdade de informação.

simpósio de jornalismo online: a revista

Há doze anos o Knight Center for Journalism in the Americas (da Universidade do Texas, em Austin) promove o seu Simpósio Internacional de Jornalismo Online, um evento que já é referência mundial para as dicussões da área. Em 2011, vinte pesquisas foram apresentadas, selecionadas de um total de cinquenta enviadas. Mais de duzentas pessoas acompanharam o simpósio no início de abril e uma síntese pode ser lida aqui.

Entre as novidades, houve o lançamento do primeiro número de uma revista científica que estará vinculada ao simpósio, a #ISOJ. A publicação pode ser acessada em formato ePub e PDF.

No sumário deste número inaugural,

Setting Guidelines on How to Design the News Online. Portuguese Online Newspapers and their Spanish, Argentinian and Brazilian CounterpartsNuno A.Vargas (Universidade de Barcelona, Espanha)

Citizen Journalism, Citizen Activism, and Technology: Positioning Technology as a ‘Second Superpower’ in Times of Disasters and TerrorismSharon Meraz (Universidade de Illinois, EUA)

Web Production, News Judgment, and Emerging Categories of Online Newswork in Metropolitan JournalismChris Anderson (College of Staten Island, EUA)

Methods for Mapping Hyperlink Networks: Examining the Environment of Belgian News WebsitesJuliette De Maeyer (Universidade Livre de Bruxelas, Bélgica)

Hypertext Newswriting Effects on Satisfaction, Comprehension and AttitudesJoão Canavilhas (Universidade da Beira Interior, Portugal)

saíram os vencedores do pulitzer

O mais conhecido e invejado prêmio jornalístico do mundo já tem seus vencedores neste ano. Os organizadores do Pulitzer Prize anunciaram os laureados e suas categorias. Conheça!

PUBLIC SERVICELos Angeles Times

BREAKING NEWS REPORTINGNo Award

INVESTIGATIVE REPORTINGPaige St. John, do Sarasota Herald-Tribune

EXPLANATORY REPORTINGMark Johnson, Kathleen, Gallagher, Gary Porter, Lou Saldivar e Alison Sherwood, do Milwaukee Journal Sentinel

LOCAL REPORTINGFrank Main, Mark Konkol e John J. Kim, do Chicago Sun-Times

NATIONAL REPORTINGJesse Eisinger e Jake Bernstein, do ProPublica – aliás, em dois anos, este site ganhou dois Pulitzers. Não perca de vista!

INTERNATIONAL REPORTINGClifford J. Levy e Ellen Barry, do The New York Times

FEATURE WRITINGAmy Ellis Nutt, da The Star-Ledger, Newark, N.J.

COMMENTARYDavid Leonhardt, do The New York Times

CRITICISMSebastian Smee, do The Boston Globe

EDITORIAL WRITINGJoseph Rago, do The Wall Street Journal

EDITORIAL CARTOONINGMike Keefe, do The Denver Post

BREAKING NEWS PHOTOGRAPHYCarol Guzy, Nikki Kahn e Ricky Carioti, do The Washington Post

FEATURE PHOTOGRAPHYBarbara Davidson, do Los Angeles Times

é a independência jornalística uma ilusão?

Terra arrasada?Um dos aspectos que mais me chamou a atenção quando tive acesso às entrevistas com os principais gestores de mídia do país é que era consensual a necessidade da independência editorial para a sobrevivência do jornalismo e das empresas que disso vivem. Foi em 2009 e eram entrevistas com 22 editores-chefes, diretores e publishers de todas as regiões, e eu estava – junto com outros colegas – concluindo uma pesquisa sobre indicadores de qualidade de informação para a Unesco.

O argumento repetido é que as empresas precisam construir condições para se fortalecer financeiramente de maneira a não depender de verbas publicitárias dos governos. A independência editorial é, então, um resultado da independência comercial. O raciocínio é lógico, linear e de fácil convencimento.

Pois esta semana voltei a ouvir interessantes declarações sobre a independência jornalística. Eu participava, no Rio, do encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica), e acompanhei a mesa redonda “Mídia e democracia: questões teóricas”. Na sessão de perguntas finais, alguém da plateia questionou os palestrantes sobre a hipótese de que alguns veículos de imprensa chantageariam o governo federal com a ameaça de publicação de escândalos políticos, tentando atrair para si mais verbas publicitárias. Mesmo sem mencionar explicitamente, o indagador colocou o problema da independência da imprensa nacional.

Bem humorado, o presidente da Compolitica, Afonso de Albuquerque (UFF), disse que todas as relações humanas de alguma forma são baseadas em chantagem. “As relações sentimentais, mais ainda”, brincou, completando que a hipótese pode acontecer com alguma frequência e por parte de alguns veículos e governos. Quer dizer, é da regra do jogo, pertence à lógica que tensiona esses atores. Tentando desviar de um “cinismo” de seu colega de mesa, Fernando Lattman-Weltman (FGV) também deu de ombros diante da chantagem. “Olha, ninguém é independente. Ninguém. Nem mesmo os mortos, afinal, eles dependem da gente para serem enterrados! Por isso, nem vale a pena lutar por esse valor, pela independência”, afirmou.

Confesso que uma fala tão convicta ficou martelando a minha cabeça. Não porque me apegue tanto a certos valores, mas porque venho assistindo nos últimos anos à franca demolição de uma série deles no campo do jornalismo. Não mais se acredita em objetividade; a imparcialidade é questionada a todo momento; a verdade é relativizada; a ética é flexibilizada; a independência editorial não merece ser cultivada… Com isso, parece que daqui a pouco não vai sobrar pedra sobre pedra…

Afinal, esses valores, por décadas, serviram de alicerces para o jornalismo, tanto do ponto de vista ético quanto para garantir padrões mínimos para a sua execução técnica. É verdade que o jornalismo já não é mais o que foi; que a sociedade mudou; nossas percepções de espaço e tempo também foram transformadas; e o mundo e a vida são outros. Entretanto, temo que, no afã de se reformar o jornalismo, jogue-se a criança junto com a água do banho.

A pergunta que agora assalta a minha consciência é: se estamos em busca de uma nova ética para este novo jornalismo, em que mesmo ela estaria apoiada?

Alguém aí se arrisca a responder?

crise nuclear, segredos e o direito à informação

Não sei nada de japonês, o idioma. Chego a trocar “arikatô” por “saionará”. Mas gostaria muito de saber a língua japonesa para acompanhar a cobertura da crise nuclear. Fico intrigado com o que vem sendo noticiado pelas agências internacionais e curiosíssimo para saber se o povo de lá anda satisfeito com o nível de informação.

A impressão que tenho daqui é que tem muita coisa debaixo do tapete. E, para administrar a crise, o governo vai soltando informes em doses homeopáticas, de maneira a saciar provisoriamente a sanha dos cidadãos e a histeria da comunidade internacional. Mas algo me diz que a coisa pode ser pior do que se aventa. Posso estar errado, devo estar, quero estar.

Veja abaixo a primeira página do Asahi Shimbun de ontem, 13. Nem sei dizer se ela é alarmante ou não. Por isso, recorri ao The Japan Times e ao Stars & Stripes, também editados em Tóquio. Em ambos, a tentativa é de oferecer alguma tranquilidade ao leitor, na medida em que deixa em aberto que o acidente na usina de Fusushima não é brincadeira. A equiparação com o caso Chernobyl já deveria ter provocado uma gritaria maior na comunidade global ou mesmo em organismos multilaterais. Mas até agora, nada.

Estará a mídia nipônica tendo acesso a todas as informações que seus públicos anseiam e necessitam? O governo tem sido transparente? Quanto do noticiário oferecido é confiável e suficiente?

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afinal, como se narra a dor?

Os tiros da manhã de quinta-feira na zona oeste do Rio de Janeiro sacudiram as atenções da maioria dos brasileiros. Como se estivéssemos em um sono profundo, fomos atirados da cama para perceber uma realidade assustadora e terrível. O resultado aterrador do massacre na escola de Realengo era algo que sempre imputamos aos norte-americanos, um povo tão beligerante que se arma até em supermercados. O resultado do massacre é uma fila de corpos de quem cultivava seu futuro ainda de forma muito adolescente. O resultado é o aparecimento de personagens como o atirador, movido por razões ainda desconhecidas, moldado pela solidão, frustração e pensamentos doentios.

Infelizmente, o país já havia visto adolescentes vitimados pela violência urbana. Desconhecido ainda era o anônimo que encarna o mal e dispara o gatilho não mais a esmo, mas escolhendo suas vítimas, alvejando órgãos vitais, recarregando reiteradamente as armas, disposto a acabar com tudo.

(Trecho do Comentário da Semana, que assino hoje no objETHOS. Na íntegra, aqui)

 

 

adeus, gutenberg… ou não!

Anthony Smith, Philip Meyer, Ramón Salaverria, Mario Tascón, entre outros, abordam o futuro do jornalismo, a crise dos impressos, a emergência dos tabletes e de outras formas de difundir o jornalismo. Tudo na mais recente edição da revista Periodistas, da Federação das Associações de Jornalistas da Espanha (FAPE).

Baixe e confira.

observando o observador…

Qual é o assunto mais comentado da semana?

Isso mesmo! O massacre na escola de Realengo, no Rio. Foi na quinta, mas de lá pra cá, ele quase absorveu todo o tempo e o espaço de cobertura dos meios de comunicação.

Na Folha de S.Paulo de hoje, qual é o assunto tratado pela ombudsman do maior jornal do país?

Não, não é o massacre de Realengo. Em vez disso, Suzana Singer aborda o noticiário sobre a troca de comando na Vale do Rio Doce e a distância desinteressada que deveriam ter os colunistas da Folha, que na última semana foram cobrados por leitores por olhar para os próprios umbigos…

Uma pena. Eu gostaria de saber como a ombudsman está observando a cobertura do tema mais comentado da semana…

o massacre nos jornais do mundo

A repercussão internacional da tragédia em Realengo…

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o massacre de realengo nos jornais

É triste, terrível, inexplicável. Sem nome o que aconteceu no Rio…

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jornalismo, política e negócios

A edição de janeiro-março da revista Jornalismo & Jornalistas, editada pelo Clube dos Jornalistas português, aborda ao menos dois aspectos delicados das relações da atividade profissional com seus entornos sociais: o político e o econômico. No primeiro, faz um relato do seminário Media, Jornalismo e Democracia, promovido em novembro em Lisboa. O evento foi realizado pelo Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ). Depois, a J&J volta fazer uma pergunta incômoda mas necessária: que modelo de negócio se deve adotar para sobreviver? A questão ecoa os movimentos do 2º Congresso Internacional de Ciberjornalismo, que aconteceu no Porto em dezembro passado.
Ficou interessado? Então, baixe a revista aqui e confira.

transparência na alesc e jornalismo watchdog

Reportagem do Diário Catarinense desta semana, assinada por Upiara Boschi, apontou que a Assembleia Legislativa do estado é das menos transparentes do país. A matéria, com chamada na capa da edição de domingo, 27, denuncia que no site da Alesc não estão disponíveis dados como assiduidade dos deputados, gastos em viagens e outras informações de interesse dos cidadãos.

Pois a reportagem teve efeito imediato. No início da semana, o presidente da Alesc, Gelson Merísio, apressou-se a anunciar numa coletiva que o Legislativo estava trabalhando num novo site, mais informativo. Quem acompanha o caso sabe que não foi apenas a matéria dominical que provocou essa reação. Na semana passada, outras matérias já questionavam viagens de parlamentares à China, sendo que mal se sabia dos motivos, dos custos, dos resultados e pior: um dos deputados viajantes é diretamente interessado na prosperidade dos negócios com aquele país, já que atua no setor de comércio exterior…

Esse quase cerco à Alesc traz à tona duas questões: deveres dos órgãos públicos e funções da imprensa. Nas democracias recentes, é cada vez mais invocado o princípio da transparência, e por isso gestores públicos e representantes da população precisam prestar contas do que fazem e do que deixaram de fazer. É um princípio constitucional, democrático, moderno, republicano, e que tende a se universalizar. Os norte-americanos têm uma palavra para isso: accountability. Nas palavras de um velho ditado: não basta que a mulher de César seja honesta; ela precisa também parecer honesta.

Diretamente ligado ao dever dos órgãos públicos está uma função do jornalismo: fiscalizar os poderes, acompanhar seus passos e informar à população o que está certo e o que não está. Os norte-americanos também um nome para esse tipo de prática: watchdog journalism. Numa tradução aproximada: jornalismo cão-de-guarda. Não se trata de um jornalismo pittbul que ataca a todos, mas de um jornalismo que resguarda, assegura, vigia os interesses da coletividade.

Por isso, o novo site da Alesc é bem vindo, sim. Assim como são bem recebidas as reportagens que seguem as sombras dos poderes. Jornalistas e políticos, mesmo que muito diferentes, deveriam se guiar por valores semelhantes: o bem comum, a vontade coletiva, o interesse público. Seria muito bom se fosse sempre assim. Seria…

congresso internacional de ética

Acontece hoje, amanhã e quarta na Universidade de Sevilha, Espanha, o 1º Congresso Internacional de Ética da Comunicação.
Veja a programação aqui.

 

resenha de “vitrine e vidraça”

Carlos Tourinho, jornalista e professor brasileiro que faz doutorado em Portugal, assina resenha sobre o livro “Vitrine e Vidraça: Crítica de Mídia e Qualidade no Jornalismo”, que reúne artigos de pesquisadores da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi).

A resenha saiu hoje no Observatório de Imprensa, leia aqui.
O livro pode ser baixado aqui.

empresa jr na ufsc

Diversos cursos de Comunicação no país já contam com suas agências júniores, que são iniciativas com o claro propósito de aproximar ainda mais as atividades de formação acadêmica com as rotinas do mercado de trabalho. A partir de agora, o curso de Jornalismo da UFSC também terá sua agência: é a Comunica!, autointitulada “a primeira agência júnior de jornalismo de Santa Catarina”.

O evento de inauguração acontece hoje à noite, a partir das 18h30, no auditório do Centro Socio-Econômico (CSE-UFSC). Palestra com Mario Motta, que atua em rádio, TV, jornal e web no Grupo RBS.

Sucesso!
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e se tivéssemos um sistema deontológico?

Hoje, no Observatório da Ética Jornalística, assino um artigo em que defendo a concepção e implementação de um sistema deontológico para o jornalismo brasileiro. Esse tal sistema nada mais seria do que um conjunto de ferramentas e ações para fortalecer uma ética que ajude a redefinir nossa profissão. Mas por quê?, você pode perguntar. Eu respondo: acho que hoje em dia a definição dos contornos dessa atividade passa antes por vias deontológicas do que por jurídicas.

Quer saber mais? Vai lá no objETHOS!

 

 

 

reflexões sobre jornalismo: ebook

Em internet, um lançamento de três meses se torna um evento jurássico. Mas mesmo correndo o risco de ser cobrado por isso, indico a leitura de Reflexiones sobre Periodismo, livro organizado pela sempre atenta Esther Vargas e por Sofía Pichihua. O livro eletrônico  foi lançado no penúltimo dia de dezembro, mal completou cem dias de vida, mas se mantém fresco e pulsante.

O ebook tem 23 páginas e reúne curtos textos de jornalistas e especialistas em comunicação sobre aspectos que são essenciais para se compreender o jornalismo atual e o que está por vir. Bem editado, é fartamente ilustrado, e merece a atenção de quem pensa e se interessa pelo turbilhão de coisas que chacoalha as nossas certezas.

por aqui!

a andi se renova

Um dos projetos que mais admiro no Brasil na área do jornalismo é o da ANDI, uma organização não-governamental que desde o começo dos anos 1990 tem canalizado esforços para colocar em pauta na mídia os direitos da infância e da adolescência. De lá pra cá, a ANDI ajudou a modificar a cabeça das redações brasileiras quando o assunto é esse. E isso não é exagero.

As ações da ANDI qualificaram jornalistas para esse tipo de cobertura, criaram prêmios e incentivos de formação, aproximaram fontes especializadas de repórteres, produziram estudos e fizeram um monitoramento dos meios únicos do país, apontando falhas de reportagem e enaltecendo aspectos positivos. A agência também foi grande fomentadora de redes de cooperação, tanto no Brasil quanto na América Latina…

Pois desde ontem a ANDI já não é mais a mesma. É maior!
A organização colocou na rede um novo portal – mais dinâmico e funcional – e comunicou a ampliação de seu horizontes de preocupação. Se antes ANDI significava Agência de Notícias dos Direitos da infância, agora a sigla vira a marca ANDI Comunicação e Direitos. Mas não só: além da prevalência do assunto Infância e Juventude, outras duas bandeiras se colocam como prioritárias: Inclusão e Sustentabilidade; Políticas de Comunicação.

Para quem acompanha a ANDI, não se trata de uma novidade, mas de uma consequência natural do trabalho que já vinha se ampliando nos últimos anos, com a aproximação desses novos temas. Na verdade, como diz a cúpula diretiva, a ANDI amplia sua agenda em função de avanços da sociedade brasileira. Não é pouca coisa nesses poucos anos de redemocratização…

 

 

liberdade de expressão e autorregulação: novos livros

A representação da Unesco no Brasil lançou hoje três novas publicações sobre o sistema midiático brasileiro. Os textos foram produzidos em parceria com a Fundação Ford, e fazem parte da série Debates em Comunicação e Informação.

O Ambiente Regulatório para a Radiodifusão: uma Pesquisa de Melhores Práticas para os Atores-Chave Brasileiros, assinado por Toby Mendel e Eve Salomon, é uma análise da situação regulatória do sistema nacional em comparação com África do Sul, Alemanha, Canadá, Chile, França, Estados Unidos, Jamaica, Malásia, Reino Unido e Tailândia.

Liberdade de Expressão e Regulação da Radiodifusão, dos mesmos autores, reflete sobre “a centralidade da regulação para a proteção, a promoção e a garantia do direito de receber, buscar e transmitir informações, ideias e opiniões.

Andrew Puddephatt é o responsável por A importância da autorregulação da mídia para a defesa da liberdade de expressão que sintetiza as intersecções do tema com a prática do jornalismo, com os princípios editoriais e com as estratégias de Responsabilidade Social Empresarial.