o objethos voltou

O projeto Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) está retornando do recesso de final de ano. Atualizado semanalmente com comentários, artigos e materiais didáticos, o site volta à carga com um artigo meu sobre a “Pesquisa Brasileira de Mídia”, elaborada pelo Ibope/Inteligência e encomendada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. O estudo apresenta um detalhado retrato dos hábitos de consumo de mídia pela população nacional. Você pode ler meu artigo na íntegra aqui.

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facebook, whatsapp e você com isso…

A semana passou e cansei de ver jornalistas na TV anunciarem com um indisfarçável sorriso a compra do WhatsApp pelo Facebook por US$ 16 bilhões. Fiquei intrigado: por que tanta alegria? Quem ganha com um negócio desses?

Os mais entusiastas dirão: os usuários porque agora o WhatsApp vai bombar. Besteira. Nada garante isso.

Pergunto de novo: quem ganha com isso? Só o Facebook. Tenta conter a já alardeada e preocupante sangria de usuários, dá um passo na direção dos mais jovens que uatsapam e concentra mais o mercado da internet.

A concentração de mercado só é uma boa jogada para os peixes grandes que devoram os pequenos. Só.

governo deu pra trás!

As coisas azedaram definitivamente entre o governo federal e as entidades da sociedade que lutam pela democratização dos meios de comunicação. Veja a nota oficial lançada pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, o FNDC:

A declaração do secretário-executivo do Ministério das Comunicações, no último dia 20, de que este governo não vai tratar da reforma do marco regulatório das comunicações, explicita de forma definitiva uma posição que já vinha sendo expressa pelo governo federal, seja nas entrelinhas, seja pelo silêncio diante do tema.

A justificativa utilizada – a de que não haveria tempo suficiente para amadurecer o debate em ano pré-eleitoral – é patética. Apesar dos insistentes esforços da sociedade civil por construir diálogos e formas de participação, o governo Dilma e o governo do ex-presidente Lula optaram deliberadamente por não encaminhar um projeto efetivo de atualização democratizante do marco regulatório. Mas o atual governo foi ainda mais omisso ao sequer considerar a proposta deixada no final do governo do seu antecessor e por não encaminhar quaisquer deliberações aprovadas na I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada em 2009. O que fica claro é a ausência de vontade política e visão estratégica sobre a relevância do tema para o avanço de um projeto de desenvolvimento nacional e a consolidação da democracia brasileira.

A opção do governo significa, na prática, o alinhamento aos setores mais conservadores e o apoio à manutenção do status quo da comunicação, nada plural, nada diverso e nada democrático. Enquanto países com marcos regulatórios consistentes discutem como atualizá-los frente ao cenário da convergência e países latino-americanos estabelecem novas leis para o setor, o Brasil opta por ficar com a sua, de 1962, ultrapassada e em total desrespeito à Constituição, para proteger os interesses comerciais das grandes empresas.

Ao mesmo tempo em que descumpre o compromisso reiterado de abrir um debate público sobre o tema, o governo federal mantém iniciativas tomadas em estreito diálogo com o setor empresarial, acomodando interesses do mercado e deixando de lado o interesse público.

No setor de telecomunicações, na mesma data, foi anunciado um pacote de isenção fiscal de 60 bilhões para as empresas de Telecom para o novo Plano Nacional de Banda Larga em sintonia com as demandas das empresas, desmontando a importante iniciativa do governo anterior de recuperar a Telebrás, e encerrando o único espaço de participação da sociedade no debate desta política – o Fórum Brasil Conectado. Somando-se ao pacote anunciado de benesses fiscais, o governo declara publicamente a necessidade de rever o texto do Marco Civil da Internet que trata da neutralidade de rede, numa postura totalmente subserviente aos interesses econômicos.

Na radiodifusão, faz vistas grossas para arrendamentos de rádio e TVs, mantém punições pífias para violações graves que marcam o setor, conduz a portas fechadas a discussão sobre o apagão analógico da televisão, enquanto conduz de forma tímida e errática a discussão sobre o rádio digital em nosso país. Segue tratando as rádios comunitárias de forma discriminatória, sem encaminhar nenhuma das modificações que lhes permitiriam operar em condições isonômicas com o setor comercial.

Diante desta conjuntura política e do anúncio de que o governo federal não vai dar sequência ao debate de um novo marco regulatório das comunicações, ignorando as resoluções aprovadas na 1ª Conferência Nacional de Comunicação, manifestamos nossa indignação, ao mesmo tempo em que reiteramos o nosso compromisso com este debate fundamental para o avanço da democracia.

De nossa parte, seguiremos lutando. A sociedade brasileira reforçará sua mobilização e sua unidade para construir um Projeto de Lei de Iniciativa Popular para um novo marco regulatório das comunicações.

Coordenação executiva do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação – FNDC:

Associação das Rádios Públicas do Brasil – Arpub
Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária – Abraço
Associação Nacional das Entidades de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões – Aneate
Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
Conselho Federal de Psicologia – CFP
Central Única dos Trabalhadores – CUT
Federação Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunicações – FITTEL
Federação Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão – Fitert
Intervozes – – Coletivo Brasil de Comunicação Social

Xiiiiii…

crise mundial, oriente médio e comunicação pública, por kucinski

(reproduzido do POSJOR)

O Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC promove a partir deste mês o ciclo “Leituras Contemporâneas com Bernardo Kucinski”, um conjunto de conferências para discutir alguns dos principais temas da atualidade.

Nos mesmos moldes das lectures norte-americanas, as conferências do Leituras Contemporâneas são abertas ao grande público, gratuitas e voltadas à discussão e reflexão. A primeira delas aborda “A crise financeira mundial” e acontece no próximo dia 16 de outubro, terça-feira, às 10 horas no Auditório Henrique da Silva Fontes no CCE-UFSC. O evento é dirigido a professores, pesquisadores e estudantes de diversas áreas e a interessados em geral.

Em novembro, no dia 14, as Leituras Contemporâneas enfocam o “Oriente Médio e a Crise de Narrativas”, e em dezembro, no dia 5, a “Comunicação Pública Democrática”, ambos às 10 horas no Auditório Elke Hering, na Biblioteca Universitária da UFSC.

O ciclo é uma realização do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (POSJOR), com apoio do Departamento de Jornalismo da UFSC e Observatório da Ética Jornalística (objETHOS).

Entrada gratuita, com direito a certificados. Inscrições no local.

Quem é Bernardo Kucinski: graduado em Física, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, livre-docente pela mesma universidade e pós-doutor pela University of London. Como jornalista, atuou no serviço brasileiro da BBC de Londres, e, ainda na capital inglesa, foi correspondente da Gazeta Mercantil e dos jornais Bondinho e OPINIÃO. De volta ao Brasil, foi correspondente do The Guardian, e editor dos cadernos especiais da revista Exame, além de trabalhar na Veja e outros veículos. Entre 2003 e 2006 foi assessor Especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Aposentou-se como titular da USP e é professor visitante junto ao POSJOR da UFSC. É autor de vários livros, entre eles “A ditadura da dívida: a crise do endividamento da América Latina”, “Jornalismo Econômico”, “Jornalismo na era virtual: ensaios sobre o colapso da razão ética”. Em 2011, estreou na ficção com o romance “K”, finalista do Prêmio Jabuti.

ponto negativo para o alfa positivo

Se você tem um Alfa, o leitor de livros eletrônicos da Positivo, e ele der problema, esqueça de tentar resolver com a própria empresa. Você vai se incomodar, como eu, e não terá a solução esperada.

Em junho de 2011, ganhei um Alfa de presente e passei a usar com bastante frequência no trabalho e nas horas de lazer. Na verdade, cheguei a alterar alguns hábitos de consumo de livros por conta da comodidade, da praticidade e do conforto do aparelho. Embora tivesse algumas limitações – sobretudo no contraste entre o texto e a tela -, o meu Alfa funcionava não só como meu livro de ocasião – aquele que a gente leva para todo lugar -, mas também como biblioteca – eu tinha mais de 150 títulos ali armazenados.

Tudo ia bem até que, no final de junho passado, de repente, meu aparelho não respondia aos toques na tela sensível e meus livros não estavam mais visíveis. Entrei em contato imediatamente com a Positivo Informática, solicitando assistências autorizadas. Eu queria que um técnico especializado fizesse um diagnóstico e um orçamento para o reparo. Todos os meus contatos foram por e-mail, e minhas mensagens eram respondidas logo nos dias seguintes aos meus chamados.

Em 24/06, a Central de Relacionamento Positivo me indicou uma assistência técnica no centro de Florianópolis. Fui atrás e deixei meu aparelho para uma análise. Dias depois, o diagnóstico foi econômico e impreciso: “não compensa fazer o conserto”. Em 13 de julho, solicitei novamente à Positivo o endereço de uma autorizada, eu queria uma segunda opinião, afinal não me conformava em ter um aparelho que só durasse um ano!. No dia 24, tive o novo endereço, e novamente fui atrás. Qual não foi minha surpresa quando lá fui informado que a assistência estava deixando a Positivo: “Estou surpreso que eles tenham nos indicado. Estamos nos descredenciando da empresa, não ficamos com mais nenhum produto da Positivo”, me disse o atendente.

No dia 25, acionei mais uma vez a empresa, pedindo instruções de como agir. No dia 26, a Central de Relacionamento Positivo me deu duas novas referências, mas numa outra cidade, ao lado da minha. Eu precisaria me deslocar algumas dezenas de quilômetros para fazer um diagnóstico de meu aparelho. Fui à primeira autorizada e lá me informaram que o atendimento era exclusivamente corporativo, isto é, só atendiam a empresas e não pessoas físicas. Na segunda assistência, a atendente me respondeu: “Ah, esse aparelho aqui a gente não pega não. Ele é recolhido pelo próprio fabricante para eventuais consertos…”.

No dia 8 de agosto, cansado, decepcionado e indignado, escrevi à Central de Relacionamento Positivo que estava desistindo de tentar consertar um aparelho que só funcionara por treze meses e cujo fabricante não me garante ao menos uma rede confiável de assistência técnica. Até agora não tive uma linha de resposta, nenhuma justificativa, nada.

Se eu tivesse importado um Kindle, teria tido tantos problemas? O senso comum nos faz crer que investir em produtos nacionais facilitaria o conserto, uma orientação ou algo do tipo. Que nada! Com o meu Alfa Positivo, não foi assim. Se alguém me pedisse uma recomendação do produto ou da empresa, claro que eu não recomendaria!

ATUALIZAÇÃO DE 17/09/2012: Felizmente, a situação foi bem resolvida pela empresa, conforme você pode conferir aqui: http://wp.me/p4HHl-26l

quem está a fim de pagar?

Em meus tempos de universitário, no final das festas, quase sempre havia um coro de canções de Raul Seixas. A maior parte delas era bem deprê, mas bastava uma para espantar a tristeza que anunciava a dosagem alcoólica geral e previa o final da farra: “Aluga-se!”. O refrão é contagiante: “Nós não vamo pagar nada. Nós não vamo pagar nada. Agora é free! Tá na hora, agora é free!…”

Passadas décadas daquilo tudo, nesta manhã preguiçosa de domingo, tropeço numa entrevista na versão online da Folha de S.Paulo que me fez cantarolar novamente a canção. Na matéria, Raul Juste Lores dá voz a um “guru da indústria jornalística”, o norte-americano Ken Doctor, para quem o público está disposto a pagar por conteúdos online. É claro que a fala de Doctor é muitíssimo conveniente para a Folha, que defende a cobrança. É claro também que essa discussão não é nova, já que nasceum um segundo após o nascimento da internet, antes mesmo de cortarem o seu cordão umbilical. Afinal, quem vai pagar pelos custos de se produzir notícia e entretenimento de qualidade?

Não vou entrar nessa discussão agora. Só quero chamar a atenção para o lugar de fala desses personagens. Doctor dá consultoria a grupos de mídia, e um papel importante nesse trabalho é fomentar opiniões que ajudem a aumentar o entusiasmo (e os lucros) dessa indústria. A Folha de S.Paulo está diretamente interessada que o público se convença de que quer pagar mesmo para acessar textos e outros conteúdos. Chris Anderson, conhecido por livros como “The Long Tail” e “Free!”, colocou mais lenha na fogueira, anos atrás, falando sobre gratuidade e conteúdos premium. Curioso é que seu livro sobre o fenômeno do grátis não foi oferecido ao leitor na faixa…

Parte do prestígio de Doctor é o seu “Newsonomics”, em que dita tendências da indústria da mídia. São elas:

  • Diante de tanto conteúdo oferecido e em disputa por atenção, você é o seu próprio editor
  • Cerca de uma dúzia de grandes conglomerados de mídia dominará o mercado
  • O aspecto local conta cada vez mais
  • “O Velho Mundo das notícias acabou – vamos aceitar isso”
  • Uma grande quantidade de intermediários foi eliminada, e quem hoje reúne e oferece os melhores conteúdos, sai na frente
  • As empresas de notícias estão, cada vez mais, usando conteúdos de amadores, e os misturando aos produzidos por profissionais
  • Repórteres se tornam blogueiros, e vice-versa
  • Empresas da mídia estão investindo mais e mais em especialização e nos nichos de consumo
  • Não existe mais a disputa homem versus máquina. Cada um desses elementos auxilia na equação. É preciso tirar o melhor deles para fazer os negócios prosperarem
  • Jornalismo se aproxima e se aproveita do marketing, e vice-versa
  • Jornalistas precisam se esforçar mais ainda (se especializar, se reinventar) para manter seus empregos
  • Não se deve apenas olhar para o cenário de crise. Este mesmo cenário mostra lacunas que podem ser exploradas e se tornar grandes oportunidades

Algumas dessas tendências parecem se aplicar a muitos mercados e realidades, inclusive o brasileiro. Outras, nem tanto.

A posição de Doctor na entrevista à Folha, essa de pagar por conteúdos, carece de mais pesquisa e comprovação nas praças brasileiras. Nos fóruns por onde passo, não vejo essa disponibilidade toda apontada por Ken Doctor. Nos blogs, isso não está evidente. Nem nas redes sociais, vigora tanto entusiasmo.

Estarei exagerando ou falando alguma besteira de graça? Toca Raul!