uma saga para chegar a araxá

Saí de casa ontem no final de tarde rumo a Minas Gerais para um evento. Como meu avião particular ainda não voltou do mecânico, tive que aturar a Gol e a Trip, e está sendo uma saga. Só pode ser praga!!!

Veja:

  • 55 minutos de vôo de Florianópolis para São Paulo
  • 3 horas de espera no aeroporto para o vôo para Belo Horizonte
  • 50 minutos de vôo Guarulhos-Confins
  • 40 minutos de táxi do aeroporto de Confins para o Hotel
  • 5 horas de sono
  • 30 minutos de ônibus para o aeroporto da Pampulha
  • já são 3h40 de espera no aeroporto para o vôo para Araxá

Nem quero imaginar como será o retorno amanhã…

sbpjor já recebe trabalhos para o prêmio adelmo genro

Já estão abertas as inscrições para a quinta edição do Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo. O PAGF 2010 é uma promoção da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). A premiação é voltada a trabalhos que tenham sido elaborados durante o ano de 2009 em três categorias: Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado. Uma quarta categoria – Sênior – é atribuída a pesquisadores com reconhecida trajetória no campo do Jornalismo.

Os trabalhos devem ser enviados para o email premiosbpjor@yahoo.com.br

As inscrições vão até 30 de julho, e os resultados têm anúncio previsto para outubro. Os vencedores de cada categoria e seus respectivos orientadores recebem seus diplomas de mérito durante o 8º Encontro Nacional de Pesquisadores de Jornalismo, em novembro em São Luís, Maranhão.

Conheça o Regulamento do PAGF 2010

saramago na 1ª página

Um rápido panorama das edições de hoje nos principais jornais portugueses:

O Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias


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dois momentos com saramago

Saramago está morto. Saramago está vivo.

No final dos anos 90, o escritor veio ao Brasil – como tantas outras vezes – para lançar livros e receber homenagens. Eu fazia Mestrado em Linguística na Universidade Federal de Santa Catarina, e o Conselho Universitário aprovou a concessão do título de doutor honoris causa à eminente figura. Saramago veio a Florianópolis, e a honraria seria acompanhada por uma conferência sua.

O auditório da Reitoria estava lotado de autoridades – leitoras ou não do velho escritor. O hall da Reitoria também estava apinhado de gente, todos ávidos para ouvir aquela voz calma. Foi necessário colocar telão para que as pessoas que transbordaram o prédio acompanhassem a cerimônia. Saramago esbanjou elegância, humildade, lucidez. Foi emocionante ouvi-lo, mesmo envolto àquela pompa toda e eu tendo que me acotovelar para poder ver os melhores momentos.

Com Saramago, aprendi que a glória é irmã da discrição.

***

Nos mesmos dias, um amigo próximo participou de uma atividade que envolvia o escritor. Em sua estada na cidade, alunos e professores do curso de Letras encontraram uma brecha na agenda do homenageado para um encontro numa sala, pretexto para debates e troca de ideias. Eu não estava lá, mas confio no que me foi contado.

A sessão – que deveria ser informal – insinuou-se para lá de circunstanciosa. Teve abertura e tudo. Saramago, todo sem graça. O que é que estou a fazer aqui, murmurou, passando a mão pelos longos cabelos na nuca. Alguém fez uma pergunta ordinária, e o escritor emendou com resposta igualmente comum. A plateia, digo os convivas, aplaudiram entusiasticamente. Saramago perdeu a paciência, conta o meu amigo que aquilo testemunhou. Se vamos começar assim, melhor que terminemos. Todos ficaram estupefatos, baixaram suas bolas e a sessão passou a ser mais palatável.

Com Saramago, aprende-se que a pompa é uma falsa sombra do reconhecimento.

a solução para tudo

Para mim, esta semana é daquelas que termina mas não acaba.
Tenho tantas tarefas pra cumprir que mal consigo passar por este blog, mal tenho tempo de colocar as leituras em dia, e estou em dívida com um monte de gente que espera algo de mim.

Por isso, me lembrei do esquema abaixo. Ele me foi passado por um ex-aluno, treinado pelos Jedis e por ninjas assassinos. Sagaz, ele descobriu/desenvolveu o solucionador cósmico de problemas. Gostaria muito de usá-lo nesta semana, mas não sou muito corajoso… Quem sabe você usa?

esse aí sou eu…

Nos últimos dias, não tenho parado muito quieto, sabe…

minhas copas do mundo

Como ninguém está falando desse assunto, vou tocar nele: a Copa do Mundo. Mas não apenas desta que está em curso na África do Sul, mas de todas as que já acompanhei. Foram muitas. E milhares de leitores vêm mandando emails e cartas, e acotovelam-se na frente da minha sacada em hordas pedindo que eu conte como foram as minhas Copas do Mundo. Sendo assim…

1970: eu era apenas um pensamento furtivo na mente de minha mãe, que vinha sendo enrolada por papai há uns cinco anos já. Na época, namorava-se um tempão e havia ainda uma segunda chance para alguém retomar o juízo, o noivado. Acompanhei a disputa no México num cantinho do coração da minha mãe. Como eu disse, eu era apenas um desejo…

1974: vi poucos jogos. Aos dois anos, dormia mais do que deveria. E o meu ponto de vista sempre era atrapalhado: eu olhava para cima, para a TV, tentando entender aquela correria toda. Não entendia também porque as pessoas gritavam com aquele aparelho em cima da estante…

1978: fiquei levemente confuso. Por que só a Argentina podia colocar mulheres jogando? Anos depois, descobri que eram apenas hermanos cabeludos.

1982: vibrei e colecionei figurinhas que vinham com os chicletes Ping Pong. Depois da partida contra a Itália, pus a gordinha debaixo do braço e desci a rua até o rapadão que tínhamos na esquina. Foi lá que vinguei os 3 a 2. Foi lá que eliminei a Itália, avancei na competição e sagrei-me campeão mundial na Espanha. No começo da noite, minha mãe berrou meu nome e fui jantar.

1986: comemorei antecipado quando marcaram o pênalti para o Brasil contra França. Quando Zico errou, lembrei-me da mãe dele. Não fechei o álbum da Copa.

1990: sofri porque acreditei. Foi a última Copa do meu pai. Ele desistira de ver o Tetra…

1994: foi uma farra. A Copa de minha época de universitário: bebemorava até a vitória de países cuja capital desconhecia. Sofri na final. Me peguei chorando após Baggio errar o pênalti. Eu era Pelé, em 1958, desabando diante da glória.

1998: sortudo, fui escalado para trabalhar em todos os jogos da seleção no jornal. Não levei muita fé. Acabei assistindo apenas uma partida em casa: a final. Ainda bem que estava deitado.

2002: joguei muita bola com a patroa nas madrugadas daquela competição. Vi a final num boteco perdido em Balneário Camboriú, e estendi a farra desfilando e dançando na avenida Beira-Mar em Florianópolis. Comecei a pensar que seria legal ver os jogos da Copa com um filho.

2006: torci pra França. Gostei da cabeçada de Zidane. Aos dois anos, meu filho dormiu mais do que deveria. Às vezes, ele olhava para a TV, tentando entender aquela correria toda. Intrigou-se com a gritaria e o foguetório.

2010: para mim, esta Copa começa amanhã. Espero não ver meu filho tendo que vingar a seleção no campo da pracinha da esquina…

na metade da metade

Bem no comecinho deste mês, eu me lamentava num post sobre os muitos afazeres que me soterravam.

Duas semanas depois, a montanha de escombros que me encobre já permite ver a luz, mas as próximas semanas são decisivas para fechar dignamente o semestre…

… ainda tenho três turmas na graduação pra fechar;

… um jornal-laboratório para produzir, editar e lançar;

… quatro bancas de graduação e um exame de qualificação em duas semanas;

… tenho que avaliar artigos para um periódico;

… dois artigos para escrever, uma comunicação científica para produzir, e um seminário de pós-graduação para preparar!

Para o alto e avante!

PS – Aproveite e confira o blog do meu amigo Jorge Rocha, o popular Exu Caveira Cover, que ressuscitou!

e se jesus fosse professor?

Tudo bem, Cristo era o Mestre. Mas o que teria acontecido se ele também fosse educador?

Alguém pensou nisso e escreveu uma versão do Sermão da Montanha. É hilariante. Recebi da amiga Sonia Padilha, e reproduzo:

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre
uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem.
Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens.
Tomando a palavra, disse-lhes:

– “Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão ssciados. Felizes os misericordiosos, porque eles…”

Pedro o interrompeu:
– Mestre, vamos ter que saber isso de cor?

André perguntou:
– É pra copiar no caderno?

Filipe lamentou-se:
– Esqueci meu papiro!

Bartolomeu quis saber:
– Vai cair na prova?

João levantou a mão:
– Posso ir ao banheiro?

Judas Iscariotes resmungou:
– O que é que a gente vai ganhar com isso?

Judas Tadeu defendeu-se:
– Foi o outro Judas que perguntou!

Tomé questionou:
– Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?

Tiago Maior indagou:
– Vai valer nota?

Tiago Menor reclamou:
– Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.

Simão Zelote gritou, nervoso:
– Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?

Mateus queixou-se:
– Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
– Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos?
Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?

Caifás emendou:
– Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros
curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?

Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:
– Quero ver as avaliações da Provinha Brasil, da Prova Brasil e demais testes e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto.
E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor efetivo…

Jesus deu um suspiro profundo, pensou em ir à sinagoga e pedir aposentadoria proporcional aos trinta e três anos. Mas, tendo em vista o fator previdenciário e a regra dos 95, desistiu. Pensou em pegar um empréstimo consignado com Zaqueu, voltar pra Nazaré e montar uma padaria…
Mas olhou de novo a multidão. Eram como ovelhas sem pastor… Seu coração de educador se enterneceu e Ele continuou…

minha mãe agora tem um 38

Quando eu era apenas um garoto, minha mãe era uma mulher enérgica. Dessas que distribuem broncas e que colocam os filhos na linha. Era nervosa, mas também carinhosa. Sempre teve um senso de justiça e de compromisso muito evidentes, e tinha uma preocupação quase maníaca de passar aos filhos um valor: a honestidade. Parecia não se conformar que esses atributos não fossem herdados geneticamente.

Passados tantos anos, me parece cristalino que ela tenha conseguido tudo o que desejou. Com alguma ajuda de meu pai, criou quatro meninos e os encaminhou para suas próprias vidas.

Hoje, está bem mais serena, e nem é sombra da ira santa que destilava antes. É uma outra mulher, e o irônico é que só agora ela tem o seu primeiro 38. Não me refiro a um par de sapatos nem a uma arma de fogo. É que hoje o seu primogênito cumpre anos, e o que ele vai dizer a ela num telefonema daqui a poucos minutos é que todos os acertos foram delas, e os erros são obras do filho desobediente e teimoso.

38 não é nenhum número especial. Nem a data em si, hoje, é. Mas faz pensar…

Noel Rosa durou só 27 anos e ajudou a mudar a música brasileira. Glauber Rocha não chegou a completar 42, mas fez algo parecido com o nosso cinema. Pelé encerrou a carreira com 37, e já tinha marcado 1284 gols. Madonna, aos 38, já era a rainha do pop, tinha gravado seis álbuns e estava prestes a ganhar a primeira filha.

Bruce Lee e Cazuza morreram com 32 anos. Jesus Cristo com 33. Charlie Parker, 34. Renato Russo interrompeu a carreira aos 36, e Elis Regina com quase 37. Definitivamente, furaram a fila.

Mas 38 faz pensar. Aos 38, Gandhi já era preso por causa de sua desobediência civil pacífica. Com a mesma idade, Hitler respondia pela ideologia e pelas políticas internas do partido nazista, e Gretchen já tinha vinte anos de rebolado.

Aos 38, Carlos Drummond de Andrade publicava Sentimento do Mundo, mas depois ainda viria Claro Enigma, A Rosa do Povo e tantos mais. O poeta estava verde ainda. Aos 38, Freddy Mercury nem imaginava que faria um show como o que fez no Brasil em 1985 no Rock in Rio, meses depois, regendo multidões. Aos 38, Clint Eastwood começava a ser o famoso cauboi dos filmes de Don Siegel, e era só o início. Machado de Assis só publicaria Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas aos 40 anos. Aliás, os melhores filmes de Fellini só viriam mesmo depois dessa idade. A tal da idade da razão.

Chegar, então, a este degrau pode ser apenas alcançar um certo patamar na escada. António Lobo Antunes começou sua carreira de escritor aos 37, por exemplo. Guimarães Rosa só viria a escrever sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas, aos 48 anos. E Leonardo Da Vinci só começou a pintar a sua Santa Ceia aos 43. O grande Cartola gravou o primeiro disco aos 66, e a doce Cora Coralina só publicou o primeiro livro aos 75.

Tudo bem que George Clooney já era George Clooney aos 38, mas só passou a ganhar prêmios importantes e ser respeitado depois dos 40. Por essas e outras é que 38 pode ser uma boa marca, um bom momento, um jeito de começar coisas, de rever caminhos e se refazer por inteiro. Afinal, o mundo não é pequeno, e a vida não é um fato consumado.

inovações no jornalismo

Acabamos de publicar mais uma edição da revista Estudos em Jornalismo e Mídia, do PosJor/UFSC. “Inovações no Jornalismo” é o tema deste número, que pode ser acessado integralmente aqui.

Com novo projeto gráfico e indexada em seis importantes bases de dados, a Estudos em Jornalismo e Mídia é um periódico B3 no Qualis/Capes e circula semestralmente. O próximo número tem como núcleo temático as relações entre Jornalismo e Políticas Públicas (leia a chamada de textos), e já recebe colaborações.

Ficou curioso? Quer ver o sumário? Então, veja a seguir:

Núcleo Temático

Uma proposta de incorporação dos estudos sobre inovação nas pesquisas em jornalismo
Carlos Eduardo Franciscato

Telejornalismo: em busca de um novo paradigma
Carlos Alberto Moreira Tourinho

O potencial das ferramentas multimídia em ambiente de convergência: um estudo de caso do site da Rádio BandNews FM
Debora Cristina Lopez, Marcelo Freire

Rastros do Blog Fatos e Dados nas redes sociais
Andressa Pacheco Moschetta

Jornal Impresso.com – O desafio da participação on-line no fazer jornalístico em tempos de convergência
Adriana Santiago Araujo

What are you doing? Uma reflexão sobre o twitter
Aglair Bernardo, Filipe Speck

Infografia jornalística: substituta progressiva do fotojornalismo?
Ricardo Jorge de Lucena Lucas

Processualidades da Pesquisa Empírica no Portal ClicRBS e as Experiências em Jornalismo 3G
Grace Kelly Bender Azambuja

Discursos sobre leitura e interatividade em reformas gráfico-editoriais de jornais impressos em tempos de tecnologias digitais
Ana Elisa Ferreira Ribeiro

Temas Livres

Jornalismo e imagem de si: o discurso institucional das revistas semanais
Marcia Benetti, Sean Hagen

Sentidos e sujeitos em cena na notícia em TV: a incorporação da análise de discurso nos estudos de telejornalismo
Iluska Maria da Silva Coutinho, Jhonatan Alves Pereira Mata

A Morte no Jornal Nacional
Michele Negrini

O papel do jornalismo nas controvérsias
Liriam Sponholz

Como os acontecimentos se tornam notícia: uma revisão do conceito de noticiabilidade a partir das contribuições discursivas
Marcos Paulo da Silva

A produção de sentidos na construção do imaginário através da experiência estética do rádio
Adriano Lopes Gomes, Daniel Dantas

Pesquisa em Jornalismo: produção e uso de informação nos artigos apresentados em congressos
Anelise Rublescki

Resenhas

Gêneros jornalísticos e o desafio da classificação
Frederico de Mello Brandão Tavares

Na contramão de uma morte anunciada
Alexandre Lenzi

mídia e qualidade: indicadores

Acaba de sair há pouco a tradução para o português de um importante documento internacional sobre comunicação e qualidade. Trata-se dos Indicadores de Desenvolvimento da Mídia, publicação produzida e organizada no âmbito da Unesco, reunindo a expertise de profissionais e estudiosos do mundo inteiro.

Vale a leitura do documento. Merece o debate que ele enseja…

Baixe: http://unesdoc.unesco.org/images/0016/001631/163102por.pdf

era uma vez um verão

Você pode não gostar de jazz. Pode nem saber quem foi Chet Baker. Mas se tem dois dedos de sensibilidade e nove minutinhos de tempo livre, feche os olhos e ouça “Once upon a summertime”, em interpretação soberba do trompetista que despencou do quarto andar de um hotel em Amsterdã. Era a madrugada de uma sexta-feira 13. 13 de maio de 1988.

Vale a nota, mas vale mais a vida e a música.

a morte no jornal e o jornalismo ferido

Uma reportagem cotidiana sobre um crime banal vem causando algum alvoroço nas redes sociais e em listas eletrônicas por aí. Assinada por Afonso Benites e publicada em 28 de maio passado na Folha, a matéria provoca mal estar por conta de dois trechos que, de jornalísticos, nada têm. Leia, com meus grifos:

José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90). Era dia de promoção —a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.

As queixas que colhi por aí são de duas naturezas: técnicas e éticas. Em alguns comentários, elas se fundem. Mas de maneira geral, as reclamações se resumem a três:

  • A Folha de S.Paulo estaria fazendo merchandising no meio de uma peça jornalística, contrariando uma antiga divisão de territórios no terreno da comunicação e no interior do próprio negócio das notícias: jornalismo de um lado e publicidade de outro. É a velha separação Igreja-Estado, dois poderes na sociedade que devem se respeitar, conviver em relativa harmonia e preservar suas autonomias, sem mútua intervenção.
  • A Folha de S.Paulo estaria banalizando a violência urbana na medida em que notícias policiais estariam se prestando a veicular informações de cunho publicitário. Pouco importam as três vítimas esfaqueadas no hipermercado. Interessa mais é aproveitar a situação para evidenciar produtos e promoções.
  • A Folha de S.Paulo teria ultrapassado o limite do mau gosto, do respeito à vida alheia, tripudiando com perigosa ironia o fato noticiado e suas circunstâncias.

Confesso que a leitura da matéria me causou um tremendo estranhamento. Não me soou bem, me pareceu sarcástica, oportunista (no sentido mais arrivista), infeliz. Quis me manifestar nas listas eletrônicas, mas me contive. Optei por sentir as reações e em todos os casos foram críticas, quando não raivosas.

Um dos poucos a escrever um pouco mais serenamente sobre o caso foi Marcelo Träsel, que oferece uma interpretação do caso. Entre outros aspectos, ele não vê publicidade descarada na matéria e o crime maior está em como o jornalismo se alimenta de assassinatos e outros delitos para se prevalecer. “A meu ver, a sociedade não perderia nada se as histórias policiais fossem simplesmente banidas dos noticiários”, escreve Träsel. Pelo que pude entender, o autor exime o repórter da responsabilidade sobre o produto final, concede-lhe o benefício da dúvida, mas não poupa a indústria que se nutre do sangue.

Penso ligeiramente diferente. A indústria é implacável e muitas vezes se alimenta de crimes, de escândalos, de polêmicas para engordar seu noticiário, hipertrofiar sua audiência. Mas repórteres, redatores e editores também têm lá suas responsabilidades. No processo de produção jornalística, muitas mãos moldam, alteram e às vezes descaracterizam o texto original. O produto final pode ser muito diferente do que saiu do teclado do repórter, e responsabilidade se dilui. Mas não evapora. Dar o benefício da dúvida ao repórter é sensato pois faz prevalecer o princípio da presunção da inocência.

Mas o fato é que os elementos que causam estranhamento no texto de Afonso Benites poderiam ter sido simplesmente suprimidos. Por uma razão mais do que simples: não são jornalisticamente informativos. Basta voltar ao parágrafo e lê-lo sem os trechos grifados. Algo essencial fica de fora? Não, não fica. Essas sobras não têm estatuto jornalístico, mas contém informações que realçam características comerciais do produto – a faca – e da situação – um dia de uma promoção específica no hipermercado.

Por isso que o episódio inspira debates em torno da ética jornalística. A inserção na reportagem dos trechos grifados adiciona também elementos que contrariam o que convencionamos esperar do jornalismo. Ele é composto por informações que se orientam por interesses coletivos e públicos, e não por interesses de grupos e motivações primordialmente mercantis. Não porque o jornalismo seja melhor que a publicidade ou porque esteja acima do capitalismo. Mas porque o jornalismo se balize por valores que o aproximem mais da democracia do que do mercado. Historicamente, o jornalismo se desenvolveu como uma tecnologia social para as comunidades que servia. Na medida em que se aprimorava, a imprensa construiu em torno de si um conjunto de práticas que a credenciava como fiscal dos poderes, denunciadora de abusos, defensora da livre expressão e do pluralismo no pensamento. A sociedade foi delegando tais funções ao jornalismo, e este foi tecendo para si uma frágil, mas importante teia de sustentação: finalidade pública, função social.

O mal estar que senti ao ler a matéria de Afonso Benites – e pelo jeito não fui o único – é o sintoma do descolamento entre o que se vê no jornalismo e o que dele se espera. É o desvio de função que nos faz torcer o nariz. É uma indisfarçável sensação de estar sendo traído que nos preocupa, que nos indispõe.

O ruidoso episódio na Folha não mata o jornalismo, mas provoca uma incômoda ferida. Ela pode evoluir, arder, infeccionar. Mas também pode secar e cicatrizar. Qualquer diagnóstico é apressado… Irônico é perceber que não foi a faca quem feriu o jornalismo, mas o seu preço estampado na matéria.

um blues para o harlem

De repente me lembrei que existem lugares cujas geografias são altamente musicais. É assim no Beco das Garrafas, no Rio, nas ladeiras do Pelourinho, em New Orleans, em alguns becos do Harlem. No clipezinho a seguir, Cynda Williams canta Harlem Blues, belíssimo número que tem um Wesley Snipes fingindo tocar no palco, mas que tem na retaguarda mesmo dois gigantes do jazz: Terence Blanchard (no trompete) e Brandford Marsallis (nos saxofones soprano e tenor). Transporte-se para um clube no meio do Harlem, no meio de um filme de Spike Lee… Boa viagem!

príncipe da pérsia vale a pena

A aventura que chegou hoje às telas de cinema brasileiras é uma daquelas produções que exalam os aromas do sucesso. “Príncipe da Pérsia – As areias do tempo” desembarca montado não num resistente camelo ou num rangedor cavalo do deserto, mas num conjunto de estratégias comerciais que surpreenderia tanto quanto uma tempestade no deserto. O filme da Disney chega em versões dublada e legendada, em dezenas de salas e acompanhada de promoções na internet (numa delas o prêmio é uma viagem a Marrocos) e em canais pagos (na ESPN Brasil, por exemplo, vinculou-se belos gols com a magia da história).

Mas para além disso, o filme é uma produção muito bem acabada. A trilha sonora é adequada, as locações bem escolhidas, o elenco convence, os efeitos visuais são deslumbrantes. A versão dublada é caprichosa, como é uma tradição da Disney por aqui. Há atores com A maiúsculo, como Ben Kingsley e Alfred Molina, amparados por bons diálogos e personagens marcantes. Jake Gyllenhall está bem como o personagem título, e Gemma Artenton lembra uma Monica Belucci mais jovem, com rosto levemente mais forte. Um conselho: não olhe diretamente para os olhos dela. Você vai ficar paralisado.

Se você já enfrentou o game que deu origem ao filme, vá igualmente avisado. Não é a mesma trama, mas uma variante. Não temos a princesa Farrah, mas Tamina. Não temos zumbis com cimitarras, mas assassinos implacáveis, hordas enlouquecidas, víboras que saltam. Mas temos alguns elementos que se repetem: traição, um vilão ganancioso, a tensão permanente entre ser predestinado ou fazer seu próprio destino. Há romance, aventura, adrenalina, e a adaga do tempo, peça-chave no game. Como nos consoles, o Príncipe é um ótimo saltador e maneja com muita habilidade a espada. No cinema, ele é mais bem-humorado que no joystick.

O beijo demora pra sair. O desfecho do filme segue as trilhas do game, mas essa previsibilidade não detona a diversão. Ela é garantida. E vale pra família toda. Aqui em casa, mesmo quem não ficou hipnotizado com o controle na mão gostou. Então, vale a pena. Até pelas pequenas ironias que escapam da tela, como finos grãos de areia. A que mais gostei foi a história da guerra motivada por uma denúncia falsa de fabricação e tráfico de armas. Pérsia, Iraque, tanto faz…Definitivamente, os roteiristas não dormem de toca.

sua pesquisa pode valer um prêmio

Já estão abertas as inscrições para a quinta edição do Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo. O PAGF 2010 é uma promoção da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). A premiação é voltada a trabalhos que tenham sido elaborados durante o ano de 2009 em três categorias: Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado. Uma quarta categoria – Sênior – é atribuída a pesquisadores com reconhecida trajetória no campo do Jornalismo.

Os trabalhos devem ser enviados para o email premiosbpjor@yahoo.com.br

As inscrições vão até 30 de julho, e os resultados têm anúncio previsto para outubro. Os vencedores de cada categoria e seus respectivos orientadores recebem seus diplomas de mérito durante o 8º Encontro Nacional de Pesquisadores de Jornalismo, em novembro em São Luís, Maranhão.

Conheça o Regulamento do PAGF 2010

nem chegamos à metade…

De repente, pisquei um olho e já estamos em junho!!!

O tempo escorre feito areia. Daqui até a metade de julho, todas as semanas me são decisivas em uma ou outra atividade. O semestre letivo se encaminha pro final, tenho três turmas na graduação e um jornal-laboratório para produzir, editar e lançar em 20 e poucos dias; minhas três orientandas estão enlouquecidas e entusiasmadas com seus TCCs; preciso dar uns empurrõezinhos no meu mestrando; há um montanha de projetos de pesquisa para dar pareceres; tenho que avaliar artigos prum periódico; há relatórios para escrever e concluir; uma revista científica para editar; dois artigos para escrever; uma comunicação científica para produzir; um livro para organizar; um seminário de pós-graduação para preparar…

Isso sem contar nas demandas domésticas, como aniversário do filho, atenção à esposa (quem não dá assistência, dá espaço para a concorrência), um regime para começar, mandar o carro pra revisar, colocar as contas em dia, manter este blog, enfim, a vida é curta demais para ser pequena. Apertem os cintos!

o futuro do jornalismo na visão dos jornalistas

A Federação Internacional de Jornalistas (IFJ) promoveu de 25 a 28 de maio seu congresso mundial, cujo tema foi “Empregos, Ética e Democracia”. Se você, como eu, não estava em Cádiz (Espanha) nesses dias e se interessa pelo assunto, vá ao hotsite do evento, acompanhe as (raras) postagens no Twitter ou ainda assista aos vídeos no Canal Vimeo.

Interessante também é conferir o documento “Informe sobre o futuro do jornalismo”, onde são reunidas ideias em torno das muitas mudanças na profissão, no mercado e na própria organização classista dos jornalistas. Para sindicalistas ou não.

dez cantoras para um domingo sem sol

Toda lista é pessoal; toda lista é imperfeita; toda lista é ordenada ao bel prazer…

Para você, que passou por aqui, ofereço uma listinha de dez cantoras para hoje…

Conte até 10. Ouça mais ainda…

Marisa Monte apresenta uma utopia na geografia: Vilarejo

Billie Holiday canta o seu amor: My man

Sarah Vaughan também fala do amor: My funny Valentine

Diana Krall embala The look of love

Ella Fitzgerald canta Summertime

Elis Regina interpreta Águas de Março (tente não chorar…)

Amy Winehouse brilha com Tears dry on their own

Bruna Caram mostra uma versão muito pessoal de Feira moderna

Sade me fala de uma tal Jezebel

Ana Laux me presenteia com Ballad of strings

mestrado em jornalismo: os selecionados

Acaba de sair o edital com os selecionados para a próxima turma do Mestrado em Jornalismo da UFSC.

Inicialmente, eram 56 candidatos às vagas, e as etapas de seleção aprovaram 18 nomes. Os candidatos apresentaram propostas de pesquisa, fizeram provas de conhecimentos específicos e de língua inglesa e ainda foram entrevistados pelos professores do programa.

Os felizardos e as instruções para as matrículas podem ser conferidos aqui.

Parabéns!!!

dicionário do cansaço: maio

Maio é mês de inferno astral e o começo do fim… do semestre…

Ofereço um instantâneo de minha mesa de trabalho. O que está em cima da mesa sou eu…

nova edição de prêmio para pesquisa em jornalismo

Estão abertas a partir de 1º de junho as inscrições para a quinta edição do Prêmio Adelmo Genro Filho de Pesquisa em Jornalismo. O PAGF 2010 é uma promoção da Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). A premiação é voltada a trabalhos que tenham sido elaborados durante o ano de 2009 em três categorias: Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado. Uma quarta categoria – Sênior – é atribuída a pesquisadores com reconhecida trajetória no campo do Jornalismo.

Os trabalhos devem ser enviados para o email premiosbpjor@yahoo.com.br

As inscrições vão de 1º de junho a 30 de julho, e os resultados têm anúncio previsto para outubro. Os vencedores de cada categoria e seus respectivos orientadores recebem seus diplomas de mérito durante o 8º Encontro Nacional de Pesquisadores de Jornalismo, em novembro em São Luís, Maranhão.

Conheça o Regulamento do PAGF 2010

ainda perdido em lost

Se você ainda não viu o último episódio de Lost, aquele que encerra as seis temporadas, aconselho a não ir adiante na leitura aqui. Se já assistiu, siga. Se não é fã de Lost, não tem problema, talvez interesse assim mesmo…

Tenho impressões muito pessoais sobre o episódio final de encerramento da série. Foi um longo capítulo com o seguinte dilema: dar desfecho à trama ou responder aos muitos mistérios que ela suscitou? Os produtores preferiram a primeira opção. Por isso, quem esperava ter todas as respostas pode ter ficado frustrado. Não foi o meu caso. Gostei bastante do que vi. Não totalmente, mas já esperava que qualquer desfecho poderia levar à decepção.

Penso que foi um final voltado para os verdadeiros fãs da série, aqueles que acompanharam os Losties durante os últimos seis anos. Daí ser um episódio concentrado no encontro, no reencontro. O desfecho das tramas paralelas, o realinhamento dos casais, o perdão e alguma redenção. Os miniclipes que recuperam as trajetórias dos personagens trazem uma carga extra de emoção. Lost acabou se revelando uma série muito mais sobre relacionamentos do que sobre mistérios. A Ilha se coloca como uma arena onde os atritos, as aproximações, a colisão de interesses, tudo isso e mais fermentam as ações humanas. Com isso, a Ilha se consolida como a metáfora transcendental da vida. Os mistérios funcionam com as pistas falsas que encontramos durante a trajetória.

A imperfeição dos personagens, seus sentimentos contraditórios, as escolhas pragmáticas, a moral conveniente, tudo isso tempera a série, dando a ela contornos mais difusos e camadas de profundidade diversas. E sejamos francos, não estávamos acostumados a ver isso numa série de TV.

Foi muito bom acompanhar tudo isso. Espero a próxima jornada…

lost NÃO termina hoje

Ao contrário do que possa parecer, a série mais comentada da TV dos últimos anos não termina hoje. E tenho lá minhas razões pra acreditar nisso. Não se trata de nenhum golpe de marketing ou manipulação de Benjamin Linus. Acho que o evento televisivo mais esperado do ano nos Estados Unidos (e fora) vá funcionar hoje muito mais como um desfecho formal, e menos como um final.

O aparato montado para a transmissão de hoje à noite dá contornos épicos. Espetaculares. Me lembro do burburinho para o episódio final de Friends – que ficou dez anos no ar – e para E.R. – que ficou 18, e aqui no Brasil foi veiculado como Plantão Médico. E nada se compara. Para se ter uma ideia, a ABC estará cobrando US$ 900 mil para cada 30 segundos de intervalo comercial durante a transmissão. Serão dedicadas cinco horas da programação para o final de Lost. Primeiro, a emissora exibirá um resumo de duas horas das seis temporadas. Depois, virá o Series Finale, com hora e meia de duração. O resto será preenchido com anúncios, e só com essa transmissão, a ABC deve faturar U$ 45 milhões, informa o ótimo Dude We are Lost. É um acontecimento televisivo, semelhante ao Super Bowl, quando dezenas de milhões de americanos param tudo para ver a final do futebol deles…

Mas como eu dizia, Lost não termina hoje.

Depois de seis temporadas e um punhado generoso de mistérios, a série estabeleceu um novo patamar nas produções televisivas. Não apenas porque os gastos por episódio se aproximem dos consumidos por produções cinematográficas modestas, mas porque a qualidade narrativa e a capacidade de envolvimento do público superou o cinema. Sim, sejamos francos. Nos últimos anos, é a TV quem manda. As produções televisivas têm sido muito mais ousadas, exitosas e influentes que os arrasa-quarteirões dos estúdios. Compare-se a geração de filmes e séries/seriados desde o ano 2000… E Lost ajudou a puxar o sarrafo pra cima.

Lost é um fenômeno desses tempos. É um produto da cultura de fã, que já existia bem antes, mas que foi hipertrofiada pelas potencialidades da internet e das redes sociais. Lost é crossmedia, é narrativa transmídia. Não termina no desfecho do episódio, pois continua nos fóruns, nos podcasts e chats. Um personagem pode até bater as botas num momento, mas ressurge nas listas eletrônicas, nas conversas de corredores, nos blogues que reescrevem a trajetória do finado, nas fanfictions

Como eu dizia, Lost não termina hoje. Esta é a minha primeira certeza.

A segunda é que ficaremos todos decepcionados com o que iremos assistir. Sim, ficaremos. Passados seis anos, catalisada toda a ansiedade e expectativa, nenhum desfecho possível (ou impossível) irá nos satisfazer. Mesmo que todos os mistérios sejam competentemente solucionados. Mesmo que nossos prediletos se salvem, deixem a Ilha e refaçam suas vidas da melhor maneira. Nada disso vai aplacar a nossa ânsia pelo capítulo final.

E quer saber? Pouco importa. Ao menos para mim. Isso porque eu tenho uma terceira certeza. Em Lost, mais importante que o desfecho é a viagem. Qualquer que seja o final, o que fica é o acumulado ao longo desses anos: a mitologia, a galeria de personagens, a Ilha, as loucuras que desafiam a ciência e os sentidos, a Iniciativa Dharma, Os outros… Como diz Jorge Drexler, “amar la trama más que al desenlace”… O que fica é a história, a narrativa, a contação. Adultos e crianças se comportam da mesma forma: adoram ouvir histórias, se fascinam por elas, e embarcam nos seus ritos. As crianças, sem vergonha e sem cansaço, pedem que as mesmas histórias sejam contadas, que os trechos tenham os mesmos acentos, as mesmas pausas, os mesmos diálogos. O prazer não está no final, está no meio, no percurso, no curso da ação. Os adultos também fazem assim, mas de forma escamoteada, alugando filmes que já assistiram, assistindo à reprise do final da novela no sábado, revendo jogos, que chamamos de clássicos. Adoramos replay de gols. Adoramos remakes de filmes… Mais uma vez, o que conta é a história, o meio, a trama, o enredo, e não o seu fecho.

E mesmo sem ter ainda assistido ao Series Finale – e o farei na segunda ou terça -, a impressão que tenho é a mesma que tive quando estava prestes a zerar Grim Fandango, delicioso game de PC dos anos 90. Na cena final, um personagem nos lembra que, nas melhores viagens, o que menos importa é o destino e mais percurso, o trajeto. Por isso, Lost não termina hoje. Não termina mais…

domingo: venegas y drexler

Uma mulher toca acordeon. Um homem toca serrote.

É domingo. Divirta-se com Julieta Venegas; depois, com Jorge Drexler…

o globo: uma campanha demais!

Você pode achar que O Globo não é lá um grande jornal.

Você pode torcer o nariz para a TV Globo.

Você pode nem passar por perto do G1.

Não importa. Este anúncio não é novo, mas é demais!

folha muda. veja como

A Folha de S.Paulo está fazendo um estardalhaço para as mudanças editoriais e gráficas que inaugura amanhã. Cadernos mudam de nome e de tamanho. Brasil vira Poder. Dinheiro vira Mercado. Mais! vira Ilustríssima. Informática vira Tec. O caderno Esportes vira tabloide, e por aí a coisa vai… Tem mudança de fontes e cores. Tem integração das redações das versões impressa e online… Tem redefinições editoriais e adoção de manuais específicos para cada editoria…

Ana Estela de Sousa Pinto reuniu sete vídeos que contam as mudanças que vêm sendo estudadas por mais de vinte pessoas desde setembro do ano passado. Vale ver!

A reforma da Folha vem logo depois da do concorrente direto, o Estado de S.Paulo, e vem numa onda de novos redesenhos na mídia impressa nacional. Transições, mudanças, transformações…

final de lost: get lost!

A série mais interessante da televisão termina daqui a dois dias nos Estados Unidos. Por seis anos, milhões de pessoas no mundo inteiro se deixaram perder pelos mistérios que cercavam uma ilha secreta e um punhado de sobreviventes de um acidente aéreo. E mesmo quem pouco ou nada se interessou pela produção não pode ignorar o sucesso que tem sido Lost.

Existem muitas maneiras para tentar explicar, mas Lost intriga não apenas pela trama mas também pela forma como se converteu num objeto de verdadeira devoção. Há quem venere os atores, se identifique com os personagens, sonhe em conhecer os sets de filmagem, colecione camisetas e brindes alusivos à produção. Há os que produzem blogs e paródias, que alimentem fóruns de discussão na tentativa de explicar os mistérios da ilha. Existem também os que – de forma diletante – capturam os episódios, traduzem os diálogos, legendam os episódios e disponibilizam gratuitamente os capítulos para os internautas. E existem os que bombardeiam as caixas postais dos produtores, sugerindo cenas, indicando referências e participando ativamente – mesmo que à distância – do processo de produção da série.

Sim, Lost é um fenômeno. Não é algo comum, ordinário. É sim extraordinário.

Lost é uma festa narrativa. Roteiristas usaram flashbacks para adicionar elementos decisivos, recorreram a flashforwards para ampliar a geografia limitada da ilha e inventaram flashsideways para multiplicar as realidades dos personagens. A linearidade do tempo foi definitivamente sepultada nos primeiros episódios, e a monocromia moral – que teimava em chapar os caráteres nos seriados – foi estilhaçada.

Lost é uma vivência coletiva de entretenimento. Como muitos outros produtos anteriores, Lost funciona como uma forma de integração social. Pessoas conversam sobre a série, discutem seus rumos, aproximam-se por afinidades de seus detalhes, distanciam-se por razões semelhantes. Lost é o assunto do dia; a queixa da rodinha de amigos… Nos últimos seis anos, convivemos com os sobreviventes. Mesmo estando a milhares de quilômetros de distância ou a distância de uma tela que nos separa. Também ficamos presos à ilha. Também sofremos e nos angustiamos com os Outros, com as manipulações de Ben Linus, com a fumaça negra… A cada temporada, escolhemos nossos personagens prediletos, nossos episódios, os temas. Jack, Kate, Sawyer, Locke, Hurley, Sun, Jin, Desmond, Ben e tantos mais se tornaram familiares, nos apegamos a eles. Alimentamos laços com essa poderosa narrativa, por isso nos envolvemos tanto, por isso cultivamos um sentimento de que aquilo também nos pertencia.

Lost é um objeto de colecionador. É um produto bem acabado de uma cultura de fãs, de um consumo que não se quer apenas passivo. Com Lost, queremos assistir, mas ansiamos conhecer os alicerces da narrativa. Queremos saber que destinos aguardam os heróis, mas também desejamos escrever tais destinos. Nos afetamos por Lost e queremos afetá-lo.

Lost é só uma série televisiva. A mais interessante em muitos anos. É também um conjunto de metáforas sobre a vida, sobre segundas chances, sobre redenção e arrependimento. É ainda um punhado de mitologias, de sonhos coletivos, de esperanças. Lost é só uma história… mas desde tempos imemoriais, não é isso que alimenta os nossos espíritos todos os dias? Histórias, narrativas, contos?

Em Lost, melhor do que encontrar a saída da ilha é perder-se.

5 anos monitorando

Hoje, este blog faz cinco anos de postagens ininterruptas. Criado no UOL, migrou há exatos três anos para o WordPress, e como estamos sendo muito bem tratados, por aqui devemos ficar por mais um bom tempo.

Em cinco anos, muitas coisas mudam, outras amadurecem. Para falar das mudanças, um post só não daria conta. Mas do lado de cá do teclado, permanecem dois sentimentos:

  • o entusiasmo pelo gesto e pelo estilo de vida blogueiro
  • e a imensa gratidão pela sua leitura

Beijos, queijos e caranguejos!