um mês depois, ficam algumas perguntas

As enchentes que arrasaram dezenas de cidades no Vale do Itajaí completaram um mês. Os números impressionam, as imagens chocam, as histórias pessoais comovem. Mais de um milhão e meio de pessoas foram afetadas, quase 80 mil deixaram suas casas, outras 133 deixaram de existir… Prejuízos na casa de bilhão de reais, mais de mil e quinhentos animais mortos recolhidos, milhares de casas arrasadas, e diversas geografias totalmente transformadas.

Passados trinta dias da tragédia, algumas questões ainda martelam:

  • Poderíamos ter evitado?
  • Falharam os governos, errou quem se dispôs a morar em áreas de risco ou tanto faz diante de tanta água?
  • A partir do que vivemos, levaremos mais a sério afinal isso que chamamos de Defesa Civil?
  • Aliás, que papel deve assumir os órgãos municipais de Defesa Civil dentro do arranjo das comunidades locais?
  • Como podemos nos organizar de forma a construir um plano B para enfrentar melhor situações como esta?
  • É possível que sejamos mais articulados e possamos agir de forma mais coordenada em momentos tão atordoantes e imprevisíveis?
  • O que fica de essencial após as águas baixarem?
  • Vamos nos preparar mesmo para enfrentar novas hecatombes como essa?
  • Quando vai nos abandonar o medo toda vez que começa a chover mais forte?

o filho eterno

Acabo de ler o romance brasileiro mais premiado do ano, “O filho eterno”, de Cristovão Tezza. Para se ter uma idéia, o livro levou o Jabuti, o Portugal Telecom, o APCA e mais outros prêmios neste ano. Para além dessas credenciais, o livro crava – se alguém tinha alguma dúvida, ela foi dissipada -, crava o nome do seu autor entre os mais importantes na literatura contemporânea.

Em seu lançamento anterior, “O fotógrafo”, Tezza já havia amealhado prêmios importantes, mas com “O filho eterno”, o catarinense radicado em Curitiba lavou a égua. Despontou já um pouco depois da metade do ano como o lançamento de 2008, causando impacto entre críticos e leitores.

Muitos motivos devem ter levado a isso. A qualidade da escrita de Tezza, a pungente história que conta naquelas páginas, a zona porosa que sedimenta entre literatura e realidade… Os críticos, os entendidos podem explicar melhor, eu nem ousaria. Mas eu queria só dividir algumas impressões e sensações que tive ao ler esse belíssimo livro.

o-filho-eternoUma resenhinha de duas linhas diria que “O filho eterno” conta como um escritor reage e reconstrói sua própria vida ao saber que seu tão esperado primeiro filho nasce com Síndrome de Down. Sem pieguice, sem superficialidade e contra qualquer hipocrisia, Tezza constrói um romance-espelho que incomoda pela sinceridade do mal-estar causado, pela vergonha honestamente exposta. Narrado em terceira pessoa, a história esmiuça os sentimentos do jovem escritor que se vê diante de uma espécie de trapaça do destino, um acidente genético que lhe impõe um filho diferente de suas projeções.

Deixa explicar um detalhe: o próprio Tezza tem um filho com trissomia no cromossomo 21, isto é, a anomalia genética dos antigamente chamados “mongolóides”. Esse detalhe do autor contagia inevitavelmente nossa leitura, provocando a pantanosa zona que mescla testemunho e literatura, memória e invenção, relato e construção. E é entre a nossa dúvida e a página seguinte que se avança conhecendo os sentimentos do pai diante do filho cujo mundo tem um diâmetro de dez metros, não mais que isso. O filho preso no próprio mundo, a corrida de cavalos a que o pai se induz para estimular o desenvolvimento do menino, a confusão de sentimentos que demole e reergue o pai todos os dias. “O filho eterno”, na minha leitura, me conta muito mais do pai do que do filho.

Um filho dependente de quase tudo, sem autonomia, ignorante das abstrações mais básicas como as noções de presente, passado e futuro. Um pai espremido entre o desejo de normalidade, a sobrevivência difícil de quem escolhe as letras para fazer os seus passos e a tentativa de compreender a vida e de como ela nos faz ser o que somos.

Por quase duzentas páginas, eu me perguntei se aquele pai amava seu filho. Ficava revirando as linhas na tentativa de algum sentimento que não fosse a compaixão, o remorso, a irritação… mas talvez o ato de escrever seja – mais do que o de ler – uma maneira de entender o que se passa em nossa cabeça, em nosso coração. E talvez, então, Tezza ou o escritor do livro – não importa! – se disponham a escrever para tentar exorcizar as sombras de algum ressentimento e vislumbrar os contornos mais nítidos do que ficou diante daquela experiência. Se foi assim, a viagem é melhor que a chegada ao destino, como sempre.

A afetividade como compreensão do mundo e das coisas, a literatura como a revelação das essências que ajudam a nos constituir, a literatura como resultado do borramento entre a ficção e a realidade… se assim é, assim me ficou. A autoria é uma paternidade. A escritura é uma forma de romper o ciclo de vida e morte. A literatura é uma maneira de eternizar as coisas e as gentes. Ao escrever sobre o filho daquele escritor, Tezza imortaliza aquela filiação, mas eterniza também o pai que é um substrato de sua relação com o menino. O pai aprende a ser pai com o filho. O menino é o pai do homem. Nessa deliberada confusão entre paternidade e literatura, entre o dever de ser pai e o ofício de ser escritor, Cristovão Tezza oferece uma nova dimensão dos retratos paternos que temos na literatura. Kafka pintou o velho Hermann como um déspota maldito em “Cartas ao Pai”; Paul Auster assumiu escrever para não esquecer em “A invenção da solidão”; Carlos Heitor Cony romantiza, idealiza e mitifica um pai a ser idolatrado em “Quase memória”… Cristovão Tezza exibe a fragilidade, a incerteza, a solidão e o aprendizado que é ser pai.

sapatada: jornalista não pode!

Eu sei que a cena ajuda a fechar com chave de ouro oito anos de um governo desastrado e desastroso. Eu sei que foi por pouco que Bush não leva uma (com um pouco mais de mira, duas) sapatadas. Sei também que o ato protagonizado pelo jornalista Muntazer al Zaidi foi comemorado por meio mundo porque ilustra com grandiloqüência a desaprovação à administração Bush.

Mas não foi certo.

Não quero polemizar à toa, mas não foi certo.

Jornalista nenhum poderia ter feito aquilo. Por questões óbvias profissionais. Al Zaidi não estava lá para atentar contra Bush, para contradizê-lo, para protestar contra a ofensiva ao seu país. Credenciou-se para a ocasião de participar de uma entrevista coletiva e deveria, isso sim, ter brigado para questionar o presidente norte-americano, para colocá-lo na parede com perguntas indigestas e até mesmo constrangedoras. Al Zaidi não estava lá como um cidadão iraquiano ou de qualquer nacionalidade. Estava numa espécie de pessoa jurídica, na condição de jornalista, de representante de um determinado veículo de comunicação, e como tal, deveria atuar dentro das quatro linhas desse jogo.

Sei que a quase-sapatada gerou um estado de euforia em muita gente. Claro que ele em si já é uma piada, e ocasionou até jogos online, onde as pessoas se desestressam acertando o presidente. Al Zaidi traz à tona uma vontade nem tão secreta de milhões, quem sabe, bilhões de pessoas de punir um governante tão despreparado, inábil e irresponsável. Mas o papel dos jornalistas está em fiscalizar os poderes, denunciar abusos, investigar, perfilar personagens, contar histórias. Ao perder a paciência ou o controle, Al Zaidi deixou seu posto de jornalista, pulou o balcão e juntou-se aos cidadãos anônimos que não têm as obrigações e deveres que o jornalismo nos impõe. Não é um lugar ruim, mas o ethos é outro.

Al Zaidi deixou de contar a história para tornar-se personagem dela. Do ponto de vista da catarse coletiva de ferrar Bush, valeu. Do ponto de vista da ética profissional dos jornalistas, não vale. Com isso, foi preso, espancado e deve responder por processo que deve lhe render prisão. As entidades que lutam pelo direito de expressão fazem protestos contra as agressões por ele sofridas, o que é natural e esperado.

Fico pensando se ele tivesse acertado o alvo. De uma certa forma, acertou: deu ao mundo a última cena de um governo ruim para os Estados Unidos, para o mundo e para a nossa história.

virou uma questão moral

A denúncia pela TV de que voluntários estariam furtando donativos dos flagelados das enchentes em Blumenau foi aterradora. Um escândalo mesmo. Vergonhoso, indignante, preocupante. Repercute em tudo o que é lugar e o constrangimento é indisfarçável.

O que era um fato coberto por números expressivos e histórias trágicas e comoventes tornou-se um episódio coberto por questões morais. O que está mais aflorado agora é a discussão sobre a conduta das pessoas, sua honestidade, a sinceridade com a qual se disponibilizam como voluntários, o caráter que lhes sustenta a alma. Fala-se de mau exemplo, de minoria de aproveitadores, de falta de educação. Mas qualquer discussão sobre a conduta humana é complexa demais para ser resumida a um punhado de palavras.

Claro que é odioso ver pessoas rapinando como abutres roupas e alimentos, muitas vezes cedidos por quem pouco tem. Claro que gera uma indignação mortal ao assistirmos o escárnio, o prevalecimento e o oportunismo dos chacais, fardados ou à paisana.

Mas é preciso lembrar que uma tragédia como a que se abateu sobre os catarinenses revela o que há de melhor e pior no ser humano. Não é fatalismo da minha parte, nem ceticismo. É só a preocupação de mais um diante de sinais quase inequívocos de nossa falência moral, do ocaso dos valores, da frouxidão das virtudes. Fazer o bem sem ver a quem tornou-se um ditado bonitinho, clichê desgastado que até rima. Doar-se, dar-se, oferecer-se e resistir às tentações que a vida nos impõe a toda hora é que é difícil.

o futuro da internet: eu sei…

O que os principais nomes da tecnologia podem dizer dos próximos anos da rede mundial de computadores?

Bem, vamos lá…

  • Plataformas móveis, como celulares, devem ser os principais dispositivos de conectividade da maioria das pessoas lá por 2020;
  • Na mesma época, reconhecimento de voz e interfaces de toque também serão bastante disseminadas;
  • A transparência na vida pessoal e na organizacional deve crescer, mas não necessariamente teremos mais tolerância ou compaixão;
  • Deve se tornar mais acirrada a queda de braço entre leis duras de direito autoral e o movimento pela flexibilização desses direitos, cópias não-autorizadas e o compartilhamento;
  • A separação entre tempo pessoal e tempo dedicado ao trabalho, e entre realidade física e virtual ficará ainda menor para os conectados;

Como eu sei tudo isso?
Não, não tenho bola de cristal. Mas o Pew Internet & American Life Project sabe, e acaba de divulgar um amplo relatório com uma pesquisa com empresários e especialistas do setor. O relatório – que você pode ler aqui – tem o título de The Future of Internet, e já é o terceiro de uma série. Tem 138 páginas, e está em inglês, no formato PDF.

Para este estudo, foram ouvidas 1196 pessoas influentes e atuantes no meio.
Ainda não terminei de ler, mas o sumário executivo – este que citei acima – já é bem atraente…

lições de neocolonialismo na compra de camisa

Duas coisas me irritam muito quando vou comprar roupas:

  • etiquetas que viram estampas
  • estampas escritas em inglês

Eu explico.

Você vai a uma loja, observa a vitrine, escaneia o mostruário todo, fuça, mexe, pergunta para os atendentes, e sai da loja aborrecido quando só tem camisas com a logomarca dos fabricantes. Não é uma estampa bonita, uma padronagem interessante, o bom gosto ou qualquer coisa do tipo.  É a marca mesmo, o carimbo da indústria têxtil. Outro dia, num shopping qualquer, fui atraído por uma faixa que anunciava 50% de desconto em toda a loja. Corri pra lá.

Olhei todas as camisas em exibição na vitrine e nas araras. Todas as peças, eu disse todas tinham o carimbo da Beagle na frente e algumas atrás também. Pela metade do preço, as camisas – que nem eram bonitas – custavam em média 35 reais. Isso. Você paga 35 reais para desfilar por aí, fazendo propaganda da camisaria.

Detesto isso.

É odioso também quando você só encontra camisas com dizeres em inglês. Tem de tudo. Tem frases idiotas, slogans sem nenhum sentido, até mesmo expressões escritas de forma errada. Claro! Estamos no Brasil, e aqui todos somos fluentes em inglês. Conjugamos o verbo To Be na concepção, quando o espermatozóide meets o óvulo. É o começo da vida, quer dizer, da life.

Um tremendo colonianismo, uma besteira de achar chique vestir roupas que dizem besteiras num idioma que não é o nosso! Por que não fazem também em grego, em mandarim, em farsi ou no alfabeto cirílico? Já que pouca gente entende mesmo, e a idéia não é comunicar, mas enfeitar…

Pior que isso é quando a gente encontra roupas com dizeres em português, mas com erros de ortografia e pontuação. Hoje, numa outra loja, encontrei a camisa abaixo, que fiz questão de fotografar…

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Só pra constar: faltam duas vírgulas.

Só pra constar: descida, o substantivo ligado ao verbo descer, é com sc. Decidir é optar. E, claro, eu decidi não levar a camisa…

direitos humanos, 60 anos da declaração

Esta semana, a Declaração Universal dos Direitos do Homem completou 60 anos.

Modestamente, indico o link de um blog que criei para um curso que dei na Universidade da Amazônia, no Pará: Mídia e Direitos Humanos

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a tragédia e ilhota

O jornalista Dauro Veras foi a Ilhota, em plena Linha Vermelha, para uma reportagem sobre a tragédia no Morro do Baú. Voltou a Florianópolis com um punhado de imagens aterradoras e muitas histórias sobre famílias e sonhos destruídos. Ele mesmo narra…

Cheguei ontem de uma viagem de trabalho a Ilhota e Blumenau, onde fui levantar informações pra uma reportagem sobre a reconstrução depois da enxurrada. Foram dois dias impactantes, não só pelas cenas de destruição que pude presenciar, como pelo trauma emocional das pessoas com quem tive contato. Ouvi histórias de perdas terríveis que ainda estão sendo assimiladas com dificuldade (atenção psicólogos, Santa Catarina precisa de voluntários!). Também pude observar belos exemplos de força de caráter, solidariedade e coragem diante das adversidades.
Veja mais aqui

voluntários minguam; a cidade quer retomar a rotina

Dezoito dias depois da enchente que alagou o Vale do Itajaí, já é bem visível um impasse em Itajaí: na medida em que a cidade tenta retomar a rotina, cai o número de voluntários que se dedicam à rede de apoio às vítimas da tragédia. O impasse é natural, já que o momento é outro.

No Centro de Eventos da Marejada, a movimentação de populares é menos intensa, e a coordenação local chega a dispensar os serviços dos poucos voluntários por volta das 21h30. É verdade também que a quantidade de donativos vem diminuindo gradativamente nesses dias, mas ainda há um volume expressivo de suprimentos que precisam ser triados, separados e distribuídos. Nos primeiros dias do esforço  coletvo, centenas de pessoas se revezavam no recebimento de alimentos, materiais de higiene e limpeza e roupas, e outras centenas carregavam os caminhões com destino aos flagelados. O panorama agora é outro.

A cidade tenta restabelecer o seu ritmo cotidiano. As chuvas pararam, o nível dos rios já pode ser considerado normalizado. A grande maioria dos 78 mil desabrigados ou desalojados já retornou as suas casas ou cercanias. Os serviços públicos foram quase que completamente restabelecidos.

Preocupados com a temporada de verão, o governo estadual, a imprensa e o empresariado local têm batido na tecla de que o estado já está pronto para receber os turistas. Ágil, o governo colocou esta semana no ar um site que pretende não apenas promover os destinos do estado, mas oferecer também informações atualizadas sobre condições de estrada e serviços, meteorologia, condições de balneabilidade das praias e outros dados que interessam a todos, não apenas aos turistas. A iniciativa é inteligente, mas ainda é difícil saber se os turistas visitarão o estado após o susto do final de novembro.

De qualquer forma, Santa Catarina precisa tanto dos turistas de outros estados quanto dos voluntários locais. Dos primeiros, depende a infra-estrutura de diversão, gastronômica e hoteleira. Dependem os empregos no setor, e uma parcela importante no mix da receita econômica. Dos voluntários, se espera a boa vontade de sempre, a solidariedade, a abnegação e dedicação sem preço e com um valor inestimável.

carregando o mundo nas costas

sisifo

Atlas era o titã que carregava os céus nas costas. Os artistas da época se acostumaram a representar o fortão como um homem que sustentava o globo. Mais tarde, alguém resolveu colocar a figura na capa do livro de mapas, e a moda pegou tanto que todos passaram a chamar o tal livro de atlas.

Ok, e daí?

E daí que estou me sentindo como se carregasse o mundo nas costas nos últimos dias.

Não que eu seja uma espécie de titã ou que eu me ache capaz de fazer o que Atlas fazia. Não. O fato é que estou soterrado de trabalho por conta do final do ano, do acúmulo de tarefas e de uma semana perdida por conta da enchente. Tudo resolveu acontecer agora…

Por isso, peço a minha meia dúzia de leitores que tenha paciência, pois vou postar algo digno de nota aqui, entre uma coisa e outra.

Para se ter uma idéia, tenho quatro bancas de TCC esta semana e preciso ler uma dissertação de mestrado e mandar um parecer por escrito antes da sexta-feira. Tenho que terminar de escrever um artigo e revisar um livro até a outra semana. Sem contar que preciso ainda migrar 21 edições de revista impressa para uma versão eletrônica no novo portal de periódicos que a Univali vai lançar em breve.

E não é só… mas já chega…

Tô mais para Sísifo que para Atlas: quando penso que terminei de rolar a pedra morro acima, ela despenca morro abaixo…

monitor de mídia leva o 2º lugar no prêmio caixa-unochapecó

A reportagem “Qual o futuro da Praia Brava?”, publicada originalmente no Monitor de Mídia, ficou em 2º lugar na segunda edição do Prêmio Caixa – Unochapecó de Jornalismo Ambiental. A reportagem multimídia é assinada pelas acadêmicas Gabriela Azevedo Forlin, Marina Fiamoncini e Stephani Luana Loppnow, e tem infografias de Joel Minusculi. Venceu a reportagem “Consumo crescente de água mineral provoca contradições”, de Esther da Veiga e Marina Bento Veshagem, estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina, e em terceiro lugar ficou “O desafio de preservar sem sucumbir”, do jornalista Wagner Gris, diplomado pela Unochapecó.

Os vencedores disputaram com trabalhos vindos dos três estados da região Sul, e receberam prêmios de R$ 1,5 mil a R$ 4,5 mil.

As reportagens foram julgadas pelos critérios de relevância e adequação das informações; adequação do conteúdo ao formato de webjornalismo; utilização dos recursos da web; propriedade e adequação das fontes de informação; capacidades interpretativa e argumentativa; linguagem jornalística e coesão ecoerência textual.

A iniciativa do prêmio brinda os dez anos do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Unochapecó. A comissão que avaliou os trabalhos foi composta pelos jornalistas Sérgio Luiz Gadini (PR), Reges Shwaab (RS) e Elias Machado (SC). Todas as reportagens premiadas podem ser vistas aqui.

(Momento coruja: estou muito orgulhoso com a performance de meus meninos do Monitor!)

uma rede social contra as enchentes de sc

Em 2005, na passagem do furacão Katrina pela Flórida, diversas redes sociais emergiram, informando do epicentro dos acontecimentos tudo o que a grande mídia tinha dificuldades para mostrar. À época, as redes sociais também prestaram serviços, estabelecendo contatos entre diversos atores de forma a fazer chegar donativos e suprimentos o mais rapidamente aos atingidos.

Em Santa Catarina, em novembro deste ano, por conta das enchentes no Vale do Itajaí, blogs, wikis e outras redes sociais também jogaram um papel importante. Em questão de horas, blogs como o Alles Blau informavam como estava a situação em Blumenau, e em Itajaí, o Desabrigados reunia as informações sobre quem tinha deixado suas casas, procurava amparo e parentes perdidos. Na mesma cidade, a Arca de Noé, outra rede social, unia esforços dispersos para informar e prestar serviços.

Nesta rápida entrevista, o criador da Arca de Noé – o ex-secretário municipal da Criança e Adolescente Raciel Gonçalves Júnior – relata a experiência e a importância das redes sociais em momentos cruciais como os vividos no final do mês passado.

O projeto Arca de Noé foi uma das mais positivas iniciativas online em meio à tragédia em SC. Como ele começou? Quem teve a idéia e como ele foi concretizado?
Raciel Gonçalves Jr. –
Sábado (22-nov), às 23h42m28s, meu irmão Rinaldo que mora no Loteamento Santa Regina, Bairro Espinheiros, me chamou no MSN (olha a tecnologia aí), preocupado com a situação. Ele vinha monitorando a subida das águas (mesmo tendo a informação de que aquela área não era sujeita a enchente). Às águas do Rio Itajaí-Açú naquele momento estavam a 100 metros do loteamento. Ele registra que a sua filha tinha chegado do Bairro São Vicente e que tinha passado de moto – sem problemas. Registra que a casa do prefeito eleito Jandir Bellini estava debaixo d’água. Ele tinha contatado o ex-marido da nossa irmã (contador da Secretária de Desenvolvimento Regional de Itajaí) que o avisou que realmente as coisas começavam a preocupar a Defesa Civil Estadual e que a TV Brasil Esperança já estava transmitindo ao vivo as primeiras notícias e pedidos de doações para as primeiras famílias alojadas no CAIC. Assisti a uma conversa ao vivo e por telefone do apresentador Denísio Dolásio Baixo da TV Brasil Esperança com o Márcio Xavier, empresário do ramo imobiliário aqui de Itajaí (somos amigos) e imediatamente a minha reação foi de pegar o meu notebook, roupas e produtos de higiene que estavam solicitando como doação e solicitei ao namorado da minha filha que me levasse para o posto de voluntários que o Márcio estava montando, já antevendo que a noite ia ser longa.

No caminho de casa até o centro (a sede da Imobiliária Xavier é ao lado da Igrejinha, ali em frente à Delegacia da Receita Federal), me veio à mente a lembrança de minha mãe que em noites assim – de muitas chuvas e trovoadas, nos reunia na sala (somo em oitos filhos), e para nos acalmar e para que não sentíssemos medo, lia a Bíblia… Escutei a história bíblica de Noé muitas vezes… Quanto à idéia e concretização, nada foi planejado, nasceu naturalmente… Eu já havia respondido a um convite da Revista InfoExame para entrar na rede que eles haviam criado no NING. Assim, conheci o NING e já havia criado lá a REDE PIÁ (que ainda mantenho para discutir políticas públicas de atendimento à criança e ao adolescente). Incialmente, registrei a Rede Social Arca de Noé apenas para manter um registro de nossos contatos, pendências, e pedidos de ajuda e de doações…

Viramos a madrugada de sábado (22) para domingo, articulando várias ações efetivas. Eu tive um terminal de contêineres em Itajaí (Sulpartner Contêineres Ltda), e sempre vi ali uma possibilidade de com aquelas “caixinhas amigas” ajudar os outros em caso de fatalidades… Eles favorecem a logística para armazenar mercadorias, transportar e acolher pessoas, podem ser posicionados e arrumados de muitas maneiras… A ONU monta verdadeiras cidades com eles… As prefeituras de várias cidades assoladas regularmente por furacões na costa americana e no caribe, se utilizam dessas estruturas para proteger pessoas em casos de calamidades e existem empresas que exploram esse nicho de mercado.

Esta é a primeira vez que você usa redes sociais na internet para a mobilização social? Que outras experiências anteriores já teve?

Raciel Gonçalves Jr. – Eu fui um dos dez primeiros clientes da Melim Informática que introduziu a internet em Itajaí. Se não me engano, fui a terceira pessoa a arquivar em HTML puro uma página pessoal. “Nos Bares da Vida” era um diário das nossas andanças na boêmia… No terceiro setor, sou webmaster para a Associação Passos de Integração (também um dos fundadores, diretor e ex-presidente). Mais recentemente, criei e mantenho o Adoção Brasil . É a primeira vez que administro um número tão grande de membros que se registram (538*) e visitam (9.500*) um domínio mantido por mim – 91.193 page views. (*Sitemeter. Dados de hoje (9), 14:00h. Contando desde 27/11).

Aliás, por que lançar mão desses recursos tecnológicos nesse momento?
Raciel Gonçalves Jr. –
Trata-se de um recurso que favorece a interação e permite que rapidamente se disponibilize às pessoas com acesso à internet, mesmo as que apenas têm um domínio básico, acesso fácil e independente (obviamente que limitado a um padrão previamente configurado), mas com alto nível de qualidade e que está disponível 24 horas, ou seja, se você perdeu alguma informação, na web certamente ela estará disponível e atualizada, nem mesmo o rádio e a TV conseguem tanta interatividade.

Como você situaria esses esforços online em comparativo com os dispendidos pessoalmente?
Raciel Gonçalves Jr. – No meu caso particular, e tenho certeza que para muitas outras pessoas, a sensação é a mesma, os nossos esforços físicos foram tão extenuantes quanto o daqueles que foram observados presencialmente. Na primeira semana, eu não dormi mais do que 2 horas por dia, nos recolhiamos, mas a todo momento éramos acordados via fone e também porque não conseguíamos dormir. Você fecha os olhos e tenta relaxar, o cérebro dorme, mas é um sono cortado, agitado, que incomoda e que nos faz levantar e continuar a trabalhar. Os casos em que não conseguimos uma solução efetiva, apenas ligamos para a pessoa e a confortamos, solicitando que se mantivessem calmos porque tinha alguém que havia escutado e que estava imbuído de chegar até eles. Em relação a outros, nos foi possível assegurar que estavam bem e que podiam aguardar por ações mais organizadas da Defesa Civil. Para outros a Rede Social Arca de Noé articulou e disponibilizou caminhões, contêineres vazios, barcos, lanchas, donativos e voluntários. Também observamos que, aos poucos, muitos profissionais da mídia passaram a buscar aqui os informes e orientações para seus ouvintes. A Arca de Noé também disponibilizou rapidamente Formulários Eletrônicos e Planilhas Eletrônicas que facilitaram o trabalho da Defesa Civil na organização de uma listagem de pessoas desaparecidas e encontradas, serviço esse, realizado em parceria com o Instituto Areté, que é uma proposta nova, ainda em gestação, que chega para trabalhar pelo fortalecimento das políticas públicas de atendimento à criança e ao adolescente.

Que resultados esperava alcançar com a Arca de Noé? Que resultados alcançou até agora?
Raciel Gonçalves Jr. – Inicialmente, só visamos disponibilizar uma ferramenta acessível que favorecesse a mobilização e articulação para ações efetivas. Agora, temos recebido manifestações de várias partes do Brasil que estão nos animando a continuar mobilizando e articulando ações visando agora trabalhar permanentemente pelo fortalecimento da Defesa Civil em nossa região. Em números auditados pelo Sitemeter , nós alcançamos 9.500 visitas e 91.193 page views. Os resultados que mais interessam não temos como mensurar, mas as referências positivas a nossa iniciativa, em jornais de circulaçao nacional (Folha online, Estadão online, blogs, etc.) e as 2.160 referências ao nosso domínio no Google nos asseguram que a iniciativa foi exitosa.

Qual o futuro da Arca de Noé?
Raciel Gonçalves Jr. – A nossa expectativa é de que em terra, ela sirva de QG (quartel general) para os importantes desafios que teremos pela frente, nos somando as iniciativas que estão surgindo e que visam a construir uma Defesa Civil forte, aparelhada e treinada, mobilizada e articulada, enfim, viva!

governos podem monitorar a mídia?

A resposta parece óbvia, mas vale a pena ler a notícia que saiu hoje no Jornalismo nas Américas, do Knight Center:

Plano do governo de criar observatório da mídia causa repúdio dos jornalistas

A União dos Jornalistas de Honduras (CPH) disse que a proposta do governo de criar um observatório federal da mídia representa a intenção de controlar e censurar os meios de comunicação, segundo o El Heraldo.

A presidência anunciou na semana passada que pretende criar este órgão para fiscalizar as informações que os meios de comunicação publicam e divulgam.

Em um editorial, o jornal La Prensa qualificou a iniciativa como uma tentativa de controlar a mídia independente, e de deixar que as pessoas no poder ditem os padrões jornalísticos da objetividade e do profissionalismo.

game não é coisa de criança!

Mais da metade dos adultos norte-americanos jogam algum tipo de game, seja em seus computadores, em consoles, em celulares, etc. Para ser mais exato, eles são 53% da população naquela faixa etária. Esse dado e outros mais foram divulgados ontem pelo Pew Internet & American Life Project numa pesquisa sobre consumo adulto de games.

Alguns dados que destaco:

  • Entre os mais velhos – com 65 anos ou mais -, perto de um terço se dedica aos games todos os dias. Os velhinhos jogam mais até que os adultos mais jovens…
  • Os adultos norte-americanos compõem uma população diversificada se o assunto é consumo de games.
  • Eles jogam mais em computadores do que em consoles. Mas entre os mais jovens, os consoles são mais populares.
  • Quatro em cada cinco adultos jogam com outros adultos.
  • Como esperado, a maioria dos jogadores é do sexo masculino.
  • Jogos online ainda ocupam uma fatia modesta na vida desses gamers.

A pesquisa foi realizada entre 24 de outubro a 2 de dezembro de 2007, com uma amostra de 2054 adultos maiores de 18 anos, incluindo aí 500 usuários de telefones celulares. Margens de erro vão de 2 a 3 pontos percentuais.

Um resumo da pesquisa pode ser lido aqui.

***

Neste ano, a indústria de games norte-americana deve chegar a um faturamento de US$ 22 bilhões, conforme uma consultoria de mercado. Só em outubro, a venda de equipamentos, consoles, programas e acessórios passou de US$ 1,35 bilhão. Leia mais em matéria da Folha de S.Paulo. Conforme outra reportagem, do IDG Now, apesar da crise, o mercado cresceu 18% no período. “Uma das explicações para o bom resultado é que, em tempos de crise, as diversões dentro de casa são mais valorizadas, justamente por serem relativamente mais baratas”, explica a matéria.

são paulo, tri! são paulo, hexa!

spfc

Títulos Internacionais

:: Títulos

– Libertadores da América: 92 – Copa Conmebol: 94
– Mundial Interclubes: 92 – Recopa Sulamericana: 94
– Libertadores da América: 93 – Libertadores da América: 2005
– Recopa Sulamericana: 93 – Mundial Interclubes: 2005
– Supercopa da Libertadores: 93
– Mundial Interclubes: 93
Títulos Nacionais
:: Títulos
– Campeonato Brasileiro: 77 – Campeonato Brasileiro: 2006
– Campeonato Brasileiro: 86 – Campeonato Brasileiro: 2007
– Campeonato Brasileiro: 91 – Campeonato Brasileiro: 2008
– Torneio Rio-São Paulo: 2001
Títulos Estaduais
:: Títulos
– Campeonato Paulista: 31 – Campeonato Paulista: 80
– Campeonato Paulista: 43 – Campeonato Paulista: 81
– Campeonato Paulista: 45 – Campeonato Paulista: 85
– Campeonato Paulista: 46 – Campeonato Paulista: 87
– Campeonato Paulista: 48 – Campeonato Paulista: 89
– Campeonato Paulista: 49 – Campeonato Paulista: 91
– Campeonato Paulista: 53 – Campeonato Paulista: 92
– Campeonato Paulista: 57 – Campeonato Paulista: 98
– Campeonato Paulista: 70 – Campeonato Paulista: 2000
– Campeonato Paulista: 71 – Supercampeão Paulista 2002
– Campeonato Paulista: 75 – Campeonato Paulista: 2005
Torneios Exterior
:: Títulos
– Pequena Taça do Mundo (VEN): 55
– Troféu Jarrito (MEX): 55
– Quadrangular de Cali (COL): 60
– Pentagonal de Guadalajara (MEX): 60
– Pequena Taça do Mundo (VEN): 63
– Torneio de Firenze (ITA): 64
– Troféu Colombino (ESP): 69
– Torneio de Verão de Tampa (EUA): 82
– Quadrangular de Guadalajara (MEX): 89
– Quadrangular de Leon (MEX): 90
– Torneio da Amizade (CHI): 90
– Cidade de Barcelona (ESP): 91
– Ramón de Carranza (ESP): 92
– Teresa Herrera (ESP): 92
– Cidade de Barcelona (ESP): 92
– Cidade de Santiago (CHI): 93
– Santiago de Compostela (ESP): 93
– Troféu Jalisco (MEX): 93
– Cidade de Los Angeles (EUA): 93
– Los Angeles Soccer Cup (EUA): 99
– Quadrangular de Pachuca (MEX): 99
Torneios no Brasil
:: Títulos

– Torneio Nunes Freire (MA): 76

– II Copa São Paulo: 76
– Taça Governador do Estado (SP): 80
– Torneio Luis Henrique Rosas (SC): 85

– Taça Eduardo José Farah (SP): 88

– Torneio Rei Dadá (MG): 95
– Copa dos Clubes Brasileiros Campeões Mundiais (MT/DF): 95/96
– Supercopa da Conmebol (MT): 96
– 3ª Euro América Cup (SP): 99
– 1ª Copa Constantino Cury (SP): 2000
Outras Conquistas
:: Títulos

– Torneio Início Paulista: 32

– Torneio Início Paulista: 40
– Torneio Início Paulista: 45

– Taça dos Invictos 46: 23 jogos

– Taça dos Invictos 72: 15 jogos
– Taça dos Invictos 75: 39 jogos
– Troféu Fair Play: 95
– Troféu Fair Play: 98
– Copa São Paulo de Juniores: 93
– Copa São Paulo de Juniores: 2000
– Taça dos Invictos 2005: 13 jogos

ecos do 6º encontro da sbpjor

Promessa é dívida. Então, lá vão alguns apontamentos muito pessoais sobre o 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, que aconteceu na Universidade Metodista – em São Bernardo do Campo, entre 19 e 21 de novembro.

Ainda produzimos pouco

Um dos representantes da área da Comunicação no CNPq, Juremir Machado da Silva, contou um pouco dos bastidores da carnificina que é disputar e distribuir bolsas de produtividade para pesquisadores no país. Segundo ele, a comissão de área avaliou 136 processos contra mais de 600 dos cientistas da Física e Astronomia. Nas ciências duras, a demanda é maior, logo a “quota” também tende a ser mais generosa. Na Comunicação, por exemplo, a fatia das bolsas de produtividade distribuídas é de 0,89%, uma miséria, convenhamos.

Ainda conforme Juremir, a comissão de área recebe as propostas, avalia e indica prioridades de concessão. Leva-se em conta o currículo do pesquisador (70% da nota), a sua capacidade de formação de novos pesquisadores (20%) e quesitos como liderança e experiência de gestão. A nota geral é o que se convencionou chamar de IPQ, Índice Geral de Produtividade.

O trocadilho do evento

Silvio Waisbord, da George Washington University, foi o conferencista do encontro. Simpático e bem humorado, começou sua fala em tom grave. Ele teve que tomar uma decisão ao elaborar a conferência: ou destruía o português falado ou o escrito. Optou pelo segundo. “Eu sei que o poder corrompe, mas o powerpoint corrompe mais”, disse, provocando gargalhadas na platéia.

Sua apresentação em powerpoint realmente maltratava a língua daqui, mas a palestra foi inspirada e particularmente interessante para se pensar pesquisa em jornalismo e democracia.

Há que se registrar ainda que Waisbord não foi um conferencista comum, desses que cumprem o compromisso acertado, fazem suas malas e se vão. Não. O argentino radicado nos Estados Unidos há décadas participou de todas as atividades do evento nos dias seguintes, fazendo anotações, conversando com as pessoas e contribuindo com perguntas e comentários.

Novo portal e coleção de livros

Muito em breve, a SBPJor inaugura um novo site. A idéia é agora oferecer um portal de referência para a pesquisa em jornalismo no Brasil. Segundo a diretora editorial da entidade, a Tattiana Teixeira, o internauta terá acesso a todos os textos apresentados nas edições do encontro nacional e da Brazil Conference, com motor de busca próprio e outras novidades. A seção da bibliografia básica de jornalismo será reformulada, podendo ser acessada de forma exclusiva pelos associados. Fotos, vídeos e outros badulaques devem dar uma turbinada no site. A se conferir…

Outro anúncio feito por Tattiana é o lançamento breve de uma coleção de livros bem básicos de jornalismo, voltados para auxiliar a graduandos, mestrandos e doutorandos. O objetivo é editar obras curtas, que tratem de conceitos-chave da área, e que ofereçam uma revisão de literatura sobre eles, de modo a apresentar de forma panorâmica uma metodologia, um modelo ou algo semelhante. Ainda sem nome definido, a coleção terá livros assinados por renomados pesquisadores nacionais, e deve ser lançada em formato eletrônico (e-books).

Próximos encontros e BJR

As sétima e oitava edições do Encontro da SBPJor já têm locais definidos. Em 2009, ele acontece em São Paulo, na USP, e no ano seguinte, em São Luís, no Maranhão. A Brazil Conference ainda está em banho maria. A razão é simples: o evento é complicado para organizar, e a crise mundial que está elevando o dólar à estratosfera só torna a situação mais complexa (e cara) ainda.

A partir de 2009, a Brazilian Journalism Research – editada pela SBPJor – será editada apenas em versão eletrônica, mas com uma novidade: bilíngüe. Com isso, a entidade quer ampliar a leitura e o alcance da publicação. Ao torná-la eletrônica, desaparecem as fronteiras geográficas, e cai consideravelmente o custo de edição. Ao publicar em inglês e português, tanto o público brasileiro quanto o estrangeiro podem acessar e consumir os artigos.

Explico: autores brasileiros mandam seus textos em português e inglês. Os estrangeiros mandam em inglês, e a SBPJor cuida de traduzi-los. Ficou bom assim?

Homenagens merecidas

A plenária dos associados da SBPJor decidiu a concessão – em 2009 – de dois títulos especiais a pesquisadores brasileiros que merecem recebê-lo: sócia honorária: Cremilda Medina e sócio benemérito: Luiz Gonzaga Motta. Essas modalidades estão previstas no Estatuto da entidade.

o cérebro é uma gambiarra que dá pau direto

A firmação anterior não é minha. Com um tom bem mais elaborado e rótulo científico, o psicólogo norte-americano Gary Marcus defende a idéia de que o cérebro não é lá um produto do design inteligente e que apresenta defeitos constantes que se refletem na nossa vida cotidiana.

A tese está no livro “Kluge” (gambiarra, em português) e hoje, o Mais! da Folha de S.Paulo traz uma entrevista com o cientista que já foi pupilo do também polêmico Steven Pinker.

Como a matéria é para assinantes, reproduzo um trechinho:

Engenheiros americanos costumam usar a gíria “kluge” ao se referirem a soluções improvisadas para problemas em projetos. A falta de iluminação numa casa nova pode rapidamente ser resolvida, por exemplo, com um fio desencapado, uma lâmpada velha, uma extensão e esparadrapo. Esse tipo de gambiarra, diz o psicólogo Gary Marcus, da Universidade de Nova York, é também a melhor analogia para descrever a mente humana.
“Kluge” é o título do novo livro de Marcus, dedicado a mostrar como nossas faculdades mentais mais caras -consciência e raciocínio lógico- foram construídas pela evolução aproveitando estruturas cerebrais primitivas, na falta de algo melhor. Dá para o gasto, mas o preço que pagamos por não sermos fruto de um “projeto inteligente” é que nossa gambiarra cerebral freqüentemente entra em curto-circuito.
Auto-engano, teimosia, presunção -e crenças religiosas- seriam todos efeitos colaterais da forma como a mente é estruturada. Nossa memória, também, parece ser ótima para um caçador identificar pegadas de animais, mas não muito para guardar senhas de banco.
Analisando suas teorias à luz de experimentos psicológicos, Marcus mostra o quanto somos capazes de violar a racionalidade que supostamente é a marca registrada do Homo sapiens, o homem que sabe. Em um fenômeno conhecido como “ancoragem e ajuste”, por exemplo, o cérebro é normalmente induzido por valores arbitrários -o autor descreve um experimento no qual números que saíam numa roda da fortuna influenciavam voluntários a responder uma questão não-relacionada, como “qual é a porcentagem de países africanos na ONU?”
Outro fenômeno analisado por Marcus a chamada “preparação”, ou indução subliminar. As pessoas tendem a responder a perguntas sobre suas vidas com mais otimismo depois de assistir a “Os Smurfs” do que a “O Ladrão de Bicicletas”.
Diante disso, Marcus acusa seu próprio professor Steven Pinker -o papa da psicologia evolutiva- de superexaltar o cérebro humano como um órgão perfeitamente adaptado.

ciclo sobre ética jornalística na bahia

De Cachoeira, na Bahia, vem o convite para um evento que deveria acontecer em todos os cantos do país, dada a grande importância do tema…

O I Ciclo de Ética na Mídia da UFRB, ocorrerá na próxima quarta-feira, 10 de dezembro, a partir das 14h:30, no colégio Sacramentinas, em Cachoeira-Bahia. A proposta é que os convidados relatem aa suas experiências pessoais sobre a ética na área em que atuam. Portanto, o ciclo terá especialistas e jornalistas dos seguintes veículos de comunicação: TV, rádio, internet, impresso e publicidade.
O evento se justifica como o fórum adequado para que alunos e professores tenham uma visão mais ampla das questões éticas que envolvem, não apenas a mídia, mas também os consumidores dos conteúdos. Recentemente tivemos casos de cobertura midiática que estão sendo questionados nacionalmente e exatamente por isso convidamos profissionais que atuam nos veículos de comunicação de massa para debater os problemas éticos enfrentados nas coberturas de casos conflituosos como o de seqüestros (Caso Eloá) e de assassinatos (Caso
Isabela), que causam comoção devido à transmissão ao vivo do drama e relatos sem o cuidado para as questões éticas.
O QUE: I Ciclo de Ética na Mídia da UFRB
QUANDO: dia 10 de dezembro de 2008, a partir das 14h:30
LOCAL: Auditório do Colégio Sacramentinas, em Cachoeira
INFORMAÇÕES: (71) 81909547; (75) 81655792; (75) 91136064
INSCRIÇÕES: no local
ENTRADA: Franca

as coisas vão se normalizando

Este blog mudou bastante a sua rotina nas últimas três semanas.

Em 18 de novembro, eu deixava um post em que prometia “na medida do possível” contar aqui e no Twitter o que estava acontecendo de mais interessante no 6º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. Pois é, não deu. Em São Bernardo do Campo, tive diversos problemas de conexão, além da correria habitual desses eventos curtos em que a gente revê muitos amigos, quer acompanhar todos em suas programações e aí falta tempo até pro banho…

Voltei de São Paulo com a cabeça em Santa Catarina, afinal a chuvarada que iria se transformar num dilúvio já tinha começado. Relatos de casa davam conta de que as aulas haviam sido canceladas e que não havia previsão de tempo firme. Cheguei no sábado, 22, e no domingo aconteceu a enchente. Deixei minha casa por quatro dias e a vida online ficou mais à deriva ainda.

Só consegui consultar caixa postal, feeds e blog no dia 25, quando escrevi um longo post sobre as enchentes no estado. Primeiro de forma intuitiva, usei este espaço para organizar minhas idéias e meus sentimentos sobre aquilo que vivíamos. Depois, percebi que além disso, o blog serviria para avisar amigos da situação por aqui e para dar relatos deliberadamente impressionistas sobre o evento.

De forma surpreendente, as visitas a este espaço explodiram. Não que eu não saiba o quanto a tragédia tenha atraído a atenção e a curiosidade das pessoas. Mas não imaginava que um simples blog como este alcançasse a visibilidade que conseguiu nesses dias, chegando a um pico de 2146 visitas no dia 26 de novembro, um recorde para este espaço. Em média, temos 200 e poucas visitas diárias…

De lá pra cá, as coisas vêm se normalizando. A vida lá fora mostra isso, mas nossas estatísticas também, veja abaixo.

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A queda vertiginosa dos acessos aponta para o gradativo desinteresse das pessoas em ler sobre a tragédia catarinense, sobre o desastre que vitimou – pelo menos – 120 pessoas, desabrigando e desalojando outras 78 mil. Melhor assim. Que as pessoas retomem suas vidas, suas rotinas, seus cotidianos. Que Itajaí, Blumenau, Ilhota e outras atingidas passem a se reconstruir, a se reinventar, a se refazer.

Sim, é preciso ir adiante. Tenho dito com alguma insistência que é necessário continuar remando, pois ainda há rio. Que seja assim e que voltemos ao que sempre nos queixamos: a rotina.

enchentes em itajaí (14)

O medo voltou ontem à noite. Choveu forte em Itajaí por volta das 22 horas.

No Twitter, amigos de Florianópolis e Blumenau relatavam que também despencava o céu por aquelas cidades. A saraivada de 40 minutos deixou a todos em estado de alerta.

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Minha esposa chegou a monitorar o nível da enxurrada na nossa rua. Sileciosamente, passei a pensar num plano de fuga. Uma amiga ligou oferecendo pouso caso a água ameaçasse entrar.

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Diferente da semana passada, desta vez, senti medo. Um medo de que tudo se repetisse.

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Brinquei dizendo que estava traumatizado, e talvez seja alguma verdade. O fato é que não estou conseguindo muito me distanciar desses acontecimentos todos para fazer uma análise mais fria, mais objetiva. Admiro os colegas que estão formulando hipóteses sobre o uso dos microblogs nessa crise, os que estão avaliando o papel da mídia, etc… Eu, que estou acostumado a ler a mídia por dever profissional, confesso que estou com dificuldades tremendas de tecer juízos acerca disso.

Já disse aqui. Posso dizer que não fui afetado diretamente pelas cheias, já que meus prejuízos pessoais são ínfimos perto do estrago que vejo ao redor. Mas é uma confusão de sentimentos, um redemoinho selvagem, que gira na minha cabeça. Vi cenas muito tristes, comoventes mesmo. Mas meus olhos ainda estão secos. De forma dramática, já desejei que estivessem cegos. Besteira. É preciso ver para tentar entender.

O que nos faz demasiados humanos?

Esses dias que nos separam do fatídico domingo, 23, esmaecem um pouco as imagens. O que me fica muito presente ainda são impressões. Aliás, esses meus relatos aqui, são deliberadamente impressionistas. Testemunhais.

Ficam-me as impressões. Um cheiro de chorume que persiste na cidade. Um amarelo barrento que se tatuou nas paredes quando a água e o lodo baixaram. As montanhas – sem exagero – de móveis imprestáveis, descartados por quase todas as residências. O choro incontido das pessoas diante da TV, a perplexidade de todos, até os mais velhos.

Fica também uma pergunta: o que é que nos faz humanos, então? São as coisas que acumulamos? São as memórias e histórias que imprimimos nas coisas que guardamos? São nossos medos e os restos dos sonhos, levados pela enxurrada? Não sei. Sinceramente, não sei.

A solidariedade, a amizade, a doação, a dedicação ao outro também me deixam impressionado. Nunca vi uma corrente de ajuda tão forte, tão extensa, tão contagiante. As pessoas doam coisas, oferecem-se como voluntárias nos trabalhos de triagem e encaminhamento dos donativos. As pessoas ofertam suas próprias casas a desconhecidos. Comovem-se com um drama que chacoalhou com a vida de todos. Um amigo meu escreveu dizendo que talvez a solidariedade seja a mais nobre das nossas virtudes. Eu emendei afirmando que ela nos fazia mais humanos.

Nossa vulnerabilidade tornou-se nossa força. A certeza de que podemos perecer num estalar de dedos nos uniu. Damos as mãos, oferecemos ajuda, mas era preciso passar por tudo isso para compreender essa lição?

Boas notícias

Uma amiga ligou ontem, anunciando que o Sindicato dos Professores de Itajaí e região conseguiu uma verba junto a uma rede de solidariedade da CUT para dar assistência aos educadores atingidos pelas cheias. O montante foi obtido numa “vaquinha” feita por outros sindicatos, e o dinheiro será usado para a compra de cestas básicas e… livros! Sim, tem professor que perdeu tudo, inclusive seus materiais de trabalho. Conheço um que perdeu cerca de dois mil volumes, inclusive obras raras e fora de catálogo. Outro salvou apenas 40 livros de seus quase 800!

A iniciativa do Sinpro quer resgatar a dignidade dos colegas atingidos, cujas vidas foram arrastadas pelas chuvas. Para professores, livros não são um luxo, são seus instrumentos de trabalho, estão diretamente associados ao seu bom desempenho profissional.

(Nos próximos dias, o sindicato fará levantamento dos afetados e dará os principais encaminhamentos. Pedidos de ajuda podem ser feitos diretamente neste email)

Outra boa notícia é que a rede social virtual Arca de Noé, criada em apoio às vítimas das cheias, vai continuar trabalhando nas próximas semanas. A rede se constituiu numa forma alternativa de comunicação, tentando ligar desabrigados, voluntários e autoridades em torno do salvamento e atendimento aos flagelados.

enchentes em itajaí (13)

Atualizando os números da Defesa Civil:

Até agora são:

  • 114 mortos
  • 19 desaparecidos
  • 27410 desabrigados
  • 51297 desalojados
  • um milhão e meio de atingidos

enchentes em itajaí (11)

novosaite

A Defesa Civil criou um novo site para agregar as informações sobre as enchentes em Santa Catarina: http://www.desastre.sc.gov.br

Até agora são:

  • 110 mortos
  • 19 desaparecidos
  • 27410 desabrigados
  • 51297 desalojados
  • um milhão e meio de atingidos

virando a página

Ultrapassamos, hoje, as cem mil visitas a este blog.

Isso me surpreende e me alegra. Por isso, agradeço aos leitores que passam por aqui e aos que recomendam nossos links. Para brindar o momento, para afastar o baixo astral e para iniciar um outro ciclo, inauguramos um novo layout.

O tema usado a partir de agora é o Cutline, criado por Chris Pearson.

Como sempre, entre e fique à vontade.

enchentes em itajaí (10)

Passei a tarde de hoje no Centro de Eventos da Marejada, o pavilhão onde acontece a maior festa da cidade e onde se montou o centro de recebimento e distribuição de donativos. Havia centenas de pessoas por lá, separando alimentos, montando cestas básicas, dobrando e triando roupas. Voluntários, autoridades, militares das mais variadas patentes e corporações, anônimos e famosos da região, todos trabalhavam com rapidez, cadência e vontade.

A todo o momento chegam carretas lotadas, automóveis particulares, caminhões, gente a pé com sacolas. É muito alimento, muitas roupas de uso pessoal e de cama, muito material de higiene e limpeza. As doações vêm de diversas partes, num volume estrondoso e rápido.

No interior do imenso pavilhão da Marejada, senti um clima diferente dos anteriores. Não mais a tensão, a carranca, o semblante carregado das pessoas. Não mais a nuvem negra pairando sobre as cabeças. Senti um espírito cooperativo, vibrante, aglutinador. Percebi nos rostos das pessoas um brilho difuso, uma esperança agora incontida. Havia a generosidade de antes, mas uma energia mais positiva, mais voluntariosa, determinada a seguir e a ajudar.

Como escreveu o Joel Minusculi, é hora de recomeçar. Não é vontade de esquecer, de virar a página. Mas de ir adiante. Rogério Kreidlow, por exemplo, evoca a figura de um narrador para contar a sua própria vontade de contar o que se perdeu nessa tormenta toda. Um texto lindo e comovente.

Luto e luta

Andando pelas ruas da cidade, a impressão é uma só: aconteceu uma hecatombe por aqui. A quantidade de móveis destruídos descartados é inacreditável. Num mesmo quarteirão, quase todas as casas têm entulhos nas suas fachadas. O prefeito Volnei Morastoni, em entrevista à TV, deu um número assombroso: ele calcula que serão necessárias cerca de onze mil viagens de caminhão para recolher todoo entulho e lixo resultante das cheias. “A quantidade é tão grande que a cada quatro casas enchemos um caminhão”, completou.

A tristeza é grande. A desolação é tamanha, e o sentimento de abandono e perda são indescritíveis. Mesmo assim, tenho encontrado gente que prefere a luta ao luto. Sim, gente que tem uma coragem verdadeira e inquebrantável. Gente que te olha nos olhos e diz com convicção que a vida vai entrar nos trilhos, que as coisas vão se ajeitar, que os prejuízos foram muitos, mas mais importante é estar vivo. É arrepiante estar aqui e ver essas demonstrações inequívocas de força e alma.

A medida da água

No final de semana, foi tudo muito rápido. Em dez horas, tivemos a maior enchente da história de Santa Catarina, e uma das maiores catástrofes ambientais do país. Foi o nosso Katrina. Na manhã do domingo, por volta das 10 horas, minha esposa registrou a chegada das águas na esquina de casa, conforme se vê abaixo.

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Quando a água chegou ao ponto mais alto, estava pela cintura. O lodo tomou tudo.

Ana Laux
Fotos: Ana Laux

A água só foi vazar mesmo na terça e na quarta. O que ficou tatuado no asfalto era um misto de lixo, de pedaços de móveis e objetos pessoais perdidos, de corpos de animais, de lama ressecada. A destruição deixada pela enxurrada foi apenas uma dimensão das cicatrizes que ficaram na memória e na vida de quem passou por tudo aquilo.

Sim, é hora de ir adiante. De se reerguer, sacudir os cabelos e olhar para a frente. A vida é mais.

enchentes em itajaí (9)

O Monitor de Mídia produziu no início deste ano um videozinho sobre as principais enchentes em Santa Catarina. Veja:

enchentes em itajaí (8)

Deu no New York Times:
http://www.nytimes.com/aponline/world/AP-LT-Brazil-Flooding.html?_r=1

enchentes em itajaí (6)

(*) Algumas fotos da enchente podem ser vistas no link abaixo:
http://gavetadoautor.wordpress.com/2008/11/27/aviso-gaveta-do-autor-sem-atualizacao-ate-dia-1o-de-dezembro

(*) Um blog para organizar informações sobre doações:
http://santacatarinaurgente.blogspot.com

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(*) Mais um blog para auxiliar:
http://arcadenoe.ning.com

(*) Bookmarks no Delicious:
http://delicious.com/tag/scurgente

enchentes em itajaí (5)

Retornei ontem à noite para casa. Foram mais de 80 horas de tensão permanente, apreensão, e sofrimento. Voltamos e enfrentamos a lama e a sujeira. Na segunda, barcos passavam na frente de casa, onde o nível da água chegou à minha cintura. Em casa, o lodo marcou 30 cm nas paredes. Foi pouco, muito pouco, perto do que vi pela cidade. Tenho amigos que perderam tudo, pois a água tomou as habitações por completo.

Foi tudo muito rápido. Muitos não acreditavam que seriam atingidos, já que suas casas tinham mais de um piso. Outros nem tiveram tempo para retirar seus carros ou móveis. Felizmente sobreviveram, mas outros não.

A enchente aconteceu no domingo, e conforme os dias iam passando, crescia a ansiedade para conferir o tamanho do estrago. Quem havia deixado sua casa queria logo voltar. No retorno, surpresa, perplexidade, tristeza, solidão. Desolação.

Sorte, azar, destino

Diante de tudo o que vi, diante de tudo o que vejo e leio, não consigo me desviar de um sentimento: fui poupado. Me sinto um afortunado por ter sobrevivido, por ter sido pouco atingido e por tantos amigos que me ligaram, me escreveram, enfim, ofertaram ajuda, conforto e solidariedade.

São quase cem mortos. Os números não estão consolidados. Teremos mais corpos, inevitavelmente. Nas ruas, já desde ontem, restos de móveis, entulho, e lixo se acumulam. Camas, portas, sofás, geladeiras, fogões, berços, guarda-roupas, pedaços de madeira, mesas, todos jogados. Não prestam mais. Em alguns pontos, muros inteiros caíram, trechos de rua cederam, placas e postes tombaram. As ruas estão marrons, com lama ressecada, sujeira e desordem.

Na segunda, o trânsito era caótico. Carros na contramão, semáforos sem funcionar, filas e impaciência. Enxurradas leitosas como café-com-leite. Na terça e na quarta, saques em vários pontos assustaram a todos. Parecia o caos, uma terra sem lei, uma falência completa da ordem. Hoje, decretaram toque de recolher, e após as 22 horas não se pode andar pela cidade sem justificativas. É uma tentativa de restabelecer a segurança, e resgatar a sorte.

Operação de guerra

Na segunda e terça, fiquei impressionado com o circo armado em Itajaí. Havia policiais civis, militares e federais atuando. Chegaram homens da Marinha e do Exército e alguns da Força de Segurança Nacional. Vi o Bope também nas ruas. Vi lanchas nas principais ruas, blindados e muitos caminhões camuflados, como as fardas dos militares. 23 helicópteros coalharam o céu.

No Centro de Eventos da Marejada, chegavam carretas e mais carretas com alimentos, roupas, colchões e cobertores. Cordões de voluntários desembarcavam as cargas fazendo as chegar nas pilhas no canto do imenso pavilhão. Havia um espírito impressionante de preocupação, de urgência, de querer ajudar. Mais impressionante é perceber como as pessoas estão se reerguendo. Nas ruas, ainda impera um silêncio tenso. As pessoas se olham nos olhos, se comunicam num instante, tornam-se cúmplices na desgraça.  Todos aqui têm uma história para contar sobre a tragédia. Todos. Isso é inesquecível, atordoantemente inesquecível.

Mas parece que a coragem dessa gente é maior que o pesadelo, que a devastação. Me arrepiei há pouco com isso, com a vontade sem fim de dar a volta por cima.

Tenho aprendido tanto nesses dias! Tenho visto tanta coisa, e pensado tanto na vida! Esta é uma experiência transformadora. O pesadelo ensina.

Esses são dias em que se envelhece anos.