De repente me lembrei que existem lugares cujas geografias são altamente musicais. É assim no Beco das Garrafas, no Rio, nas ladeiras do Pelourinho, em New Orleans, em alguns becos do Harlem. No clipezinho a seguir, Cynda Williams canta Harlem Blues, belíssimo número que tem um Wesley Snipes fingindo tocar no palco, mas que tem na retaguarda mesmo dois gigantes do jazz: Terence Blanchard (no trompete) e Brandford Marsallis (nos saxofones soprano e tenor). Transporte-se para um clube no meio do Harlem, no meio de um filme de Spike Lee… Boa viagem!
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dez cantoras para um domingo sem sol
Toda lista é pessoal; toda lista é imperfeita; toda lista é ordenada ao bel prazer…
Para você, que passou por aqui, ofereço uma listinha de dez cantoras para hoje…
Conte até 10. Ouça mais ainda…
Marisa Monte apresenta uma utopia na geografia: Vilarejo
Billie Holiday canta o seu amor: My man
Sarah Vaughan também fala do amor: My funny Valentine
Diana Krall embala The look of love
Ella Fitzgerald canta Summertime
Elis Regina interpreta Águas de Março (tente não chorar…)
Amy Winehouse brilha com Tears dry on their own
Bruna Caram mostra uma versão muito pessoal de Feira moderna
Sade me fala de uma tal Jezebel
Ana Laux me presenteia com Ballad of strings
ainda perdido em lost
Se você ainda não viu o último episódio de Lost, aquele que encerra as seis temporadas, aconselho a não ir adiante na leitura aqui. Se já assistiu, siga. Se não é fã de Lost, não tem problema, talvez interesse assim mesmo…
Tenho impressões muito pessoais sobre o episódio final de encerramento da série. Foi um longo capítulo com o seguinte dilema: dar desfecho à trama ou responder aos muitos mistérios que ela suscitou? Os produtores preferiram a primeira opção. Por isso, quem esperava ter todas as respostas pode ter ficado frustrado. Não foi o meu caso. Gostei bastante do que vi. Não totalmente, mas já esperava que qualquer desfecho poderia levar à decepção.
Penso que foi um final voltado para os verdadeiros fãs da série, aqueles que acompanharam os Losties durante os últimos seis anos. Daí ser um episódio concentrado no encontro, no reencontro. O desfecho das tramas paralelas, o realinhamento dos casais, o perdão e alguma redenção. Os miniclipes que recuperam as trajetórias dos personagens trazem uma carga extra de emoção. Lost acabou se revelando uma série muito mais sobre relacionamentos do que sobre mistérios. A Ilha se coloca como uma arena onde os atritos, as aproximações, a colisão de interesses, tudo isso e mais fermentam as ações humanas. Com isso, a Ilha se consolida como a metáfora transcendental da vida. Os mistérios funcionam com as pistas falsas que encontramos durante a trajetória.
A imperfeição dos personagens, seus sentimentos contraditórios, as escolhas pragmáticas, a moral conveniente, tudo isso tempera a série, dando a ela contornos mais difusos e camadas de profundidade diversas. E sejamos francos, não estávamos acostumados a ver isso numa série de TV.
Foi muito bom acompanhar tudo isso. Espero a próxima jornada…
lost NÃO termina hoje
Ao contrário do que possa parecer, a série mais comentada da TV dos últimos anos não termina hoje. E tenho lá minhas razões pra acreditar nisso. Não se trata de nenhum golpe de marketing ou manipulação de Benjamin Linus. Acho que o evento televisivo mais esperado do ano nos Estados Unidos (e fora) vá funcionar hoje muito mais como um desfecho formal, e menos como um final.
O aparato montado para a transmissão de hoje à noite dá contornos épicos. Espetaculares. Me lembro do burburinho para o episódio final de Friends – que ficou dez anos no ar – e para E.R. – que ficou 18, e aqui no Brasil foi veiculado como Plantão Médico. E nada se compara. Para se ter uma ideia, a ABC estará cobrando US$ 900 mil para cada 30 segundos de intervalo comercial durante a transmissão. Serão dedicadas cinco horas da programação para o final de Lost. Primeiro, a emissora exibirá um resumo de duas horas das seis temporadas. Depois, virá o Series Finale, com hora e meia de duração. O resto será preenchido com anúncios, e só com essa transmissão, a ABC deve faturar U$ 45 milhões, informa o ótimo Dude We are Lost. É um acontecimento televisivo, semelhante ao Super Bowl, quando dezenas de milhões de americanos param tudo para ver a final do futebol deles…
Mas como eu dizia, Lost não termina hoje.
Depois de seis temporadas e um punhado generoso de mistérios, a série estabeleceu um novo patamar nas produções televisivas. Não apenas porque os gastos por episódio se aproximem dos consumidos por produções cinematográficas modestas, mas porque a qualidade narrativa e a capacidade de envolvimento do público superou o cinema. Sim, sejamos francos. Nos últimos anos, é a TV quem manda. As produções televisivas têm sido muito mais ousadas, exitosas e influentes que os arrasa-quarteirões dos estúdios. Compare-se a geração de filmes e séries/seriados desde o ano 2000… E Lost ajudou a puxar o sarrafo pra cima.
Lost é um fenômeno desses tempos. É um produto da cultura de fã, que já existia bem antes, mas que foi hipertrofiada pelas potencialidades da internet e das redes sociais. Lost é crossmedia, é narrativa transmídia. Não termina no desfecho do episódio, pois continua nos fóruns, nos podcasts e chats. Um personagem pode até bater as botas num momento, mas ressurge nas listas eletrônicas, nas conversas de corredores, nos blogues que reescrevem a trajetória do finado, nas fanfictions…
Como eu dizia, Lost não termina hoje. Esta é a minha primeira certeza.

A segunda é que ficaremos todos decepcionados com o que iremos assistir. Sim, ficaremos. Passados seis anos, catalisada toda a ansiedade e expectativa, nenhum desfecho possível (ou impossível) irá nos satisfazer. Mesmo que todos os mistérios sejam competentemente solucionados. Mesmo que nossos prediletos se salvem, deixem a Ilha e refaçam suas vidas da melhor maneira. Nada disso vai aplacar a nossa ânsia pelo capítulo final.
E quer saber? Pouco importa. Ao menos para mim. Isso porque eu tenho uma terceira certeza. Em Lost, mais importante que o desfecho é a viagem. Qualquer que seja o final, o que fica é o acumulado ao longo desses anos: a mitologia, a galeria de personagens, a Ilha, as loucuras que desafiam a ciência e os sentidos, a Iniciativa Dharma, Os outros… Como diz Jorge Drexler, “amar la trama más que al desenlace”… O que fica é a história, a narrativa, a contação. Adultos e crianças se comportam da mesma forma: adoram ouvir histórias, se fascinam por elas, e embarcam nos seus ritos. As crianças, sem vergonha e sem cansaço, pedem que as mesmas histórias sejam contadas, que os trechos tenham os mesmos acentos, as mesmas pausas, os mesmos diálogos. O prazer não está no final, está no meio, no percurso, no curso da ação. Os adultos também fazem assim, mas de forma escamoteada, alugando filmes que já assistiram, assistindo à reprise do final da novela no sábado, revendo jogos, que chamamos de clássicos. Adoramos replay de gols. Adoramos remakes de filmes… Mais uma vez, o que conta é a história, o meio, a trama, o enredo, e não o seu fecho.
E mesmo sem ter ainda assistido ao Series Finale – e o farei na segunda ou terça -, a impressão que tenho é a mesma que tive quando estava prestes a zerar Grim Fandango, delicioso game de PC dos anos 90. Na cena final, um personagem nos lembra que, nas melhores viagens, o que menos importa é o destino e mais percurso, o trajeto. Por isso, Lost não termina hoje. Não termina mais…
5 anos monitorando
Hoje, este blog faz cinco anos de postagens ininterruptas. Criado no UOL, migrou há exatos três anos para o WordPress, e como estamos sendo muito bem tratados, por aqui devemos ficar por mais um bom tempo.
Em cinco anos, muitas coisas mudam, outras amadurecem. Para falar das mudanças, um post só não daria conta. Mas do lado de cá do teclado, permanecem dois sentimentos:
- o entusiasmo pelo gesto e pelo estilo de vida blogueiro
- e a imensa gratidão pela sua leitura
Beijos, queijos e caranguejos!
os nerds também amam
Amam, e se reproduzem!
Nas esquinas da Rede, acabei topando com um novo blog do Marcelo Träsel, voltado especificamente a sua nova condição: a de futuro pai. Fiquei feliz, pois é acima de tudo uma glória estar neste lugar. Fiquei feliz também pelo Träsel, que é um cara doce-raivoso, agridoce, destemperado… bem temperado!
Mas o título do blog dele – O pai nerd – me fez juntar as pecinhas que haviam caído no chão: os nerds estão se multiplicando. Träsel não é o único cara num “estado interessante”. Alex Primo está na fila e deve receber seu rebento no meio do ano… Em fevereiro, foi a vez de Raquel Recuero, e no ano passado (ou em 2008?) foi o André Lemos.
Tudo bem que ainda falta uma galera (adriamaral, gabizago, mcaquino, sandramontardo), mas um passarinho azul me contou que eles estão treinando…
O maior barato é imaginar que, daqui a uns 10 aninhos, esses filhotes estarão jogando spacegame, produzindo conteúdo colaborativamente, compartilhando experiências e olhando para a Rede de hoje como quem se detém diante de um jornal velho e amarelado…
um anti-manual de educação
É muito comum uma certa atitude de todos os pais para com seus filhos. Parece que fomos biologicamente programados para alimentar grandes expectativas sobre a prole, de maneira a projetar sobre as crianças nossas insuficiências, nossos insucessos. Quer dizer: pais sempre querem que seus filhos sejam muito, mas muito melhores do que jamais sonharam. Dessa esperança vem o super cuidado, as altas exigências, muita sobrecarga e quase a asfixia.
Não sou diferente, e acredito que pouquíssimos pais conseguem desviar dessas armadilhas. Quando soube que esperávamos um bebê, corri à livraria em busca de títulos que me ensinassem a ser um pai melhor, que me dessem o caminho das pedras, e que me orientassem na melhor educação possível para o inquilino do útero de minha esposa. Me frustrei de cara. Naquela época – e não faz muito, quase sete anos -, não havia títulos no mercado editorial dedicados ao pai. Pensei até em escrever um, com dicas e experiências diversas, mas desisti disso semanas atrás quando terminei de ler “Sob Pressão”, de Carl Honoré. Isso porque o livro é um ótimo anti-manual de educação de filhos, tudo aquilo de que precisamos nesse momento.
Trombei com o livro nessas lojas de aeroporto, abarrotadas de obras de auto-ajuda empresarial e best-sellers de vampiros juvenis. “Sob Pressão” me chamou a atenção pelo subtítulo: “Criança nenhuma merece superpais”. Folheei e trouxe o volume comigo, encaixando a sua leitura nos intervalos possíveis. E por que estou falando tanto do livro?
Ora, porque ele é um excelente chacoalhão nos pais que simplesmente funcionam como torniquetes para seus filhos: enchem-nos de manias, lotam suas agendas, consomem suas energias com preocupações neuróticas, planejam suas vidas como se fossem as de seus pets… “Sob Pressão” nos chama a atenção para que deixemos as crianças serem crianças, para que cuidemos delas no limite de seu bem-estar, conforto e segurança; e não deixemos de viver nossas vidas vivendo as da prole. No final, o próprio Honoré confessa que, no início, queria escrever uma bússola para os pais, mas igualmente perdido, deixou de lado o projeto e pôs-se a pensar em voz alta como os pais precisamos nos colocar na posição de pais e não de dublês dos filhos.
Os perigos da vida continuam existindo. As pressões externas e internas soterram a todos. Tecnologia, consumo exacerbado e violência gratuita fecham o cerco em torno da ninhada. Mas Honoré nos lembra que isso não é novidade, e que gerações e gerações sobreviveram apesar de todas as adversidades. Liberdade, cuidado, equilíbrio e respeito pelo outro – mesmo que ele não tenha nem um metro de altura e ainda dependa de você para ir ao banheiro. Tudo isso aprendi com Carl Honoré e suas angústias, que também são as minhas. Se ficou curioso, vá ao site do autor ou o siga no Twitter… aliás, faça isso junto com seu filho!
sobre a convocação de dunga
Pensei em escrever algo, mas nada superaria meu genial amigo Frank Maia:

uma cidade, uma canção (atualizado!)
Jay-Z e Alicia Keys fazem uma ode à Big Apple, e New York se oferece num retrato bem recortado, caprichosamente emoldurado e cool.
Sabe, São Paulo merecia algo parecido…
ATUALIZAÇÃO-RELÂMPAGO:
Mal postei o clipe acima, e o conectado António Granado me informa que lá em Portugal já circula com muito sucesso uma paródia da canção de Jay-Z. Trata-se de Diana Piedade e Rui Unas contando suas desventuras na Margem Sul. Ironia, Ritmo e Poesia.
miles e coltrane, um encontro
Porque hoje é sábado… (para Demétrio Soster)
Miles Davies e John Coltrane num espetacular tema para a vida inteira: ‘Round Midnight
meu filho quer ser “desenhor”
Aos seis anos, eu não sabia nada de nada. Mais de trinta anos depois, a coisa continua na mesma.
Mas não desanimem: novas gerações chegam para salvar o mundo e converter a humanidade numa nota de rodapé relevante no Grande Livro da Vida no Universo. Meu filho, por exemplo, nem completou seis anos e já sabe o que quer. Quando crescer, vai ser “desenhor”. Isso mesmo! Ela vai desenhar, criar personagens novos, colorir o mundo, apagar as coisas ruins, e por aí vai.
Você duvida?
Veja só o que o moleque já apronta com uma folha amassada e um punhado de canetinhas quase-sem-tinta, toquinhos de giz de cera e canetas esferográficas…
(compilado e legendado pela Ana Laux)
sobre livros e percursos
Existem livros que trazem consigo muito mais histórias que suas páginas contam. A trama, os personagens, as ações estão ali, mas o próprio-livro-como-coisa às vezes escreve narrativas a respeito de si mesmo.
Ontem, me deparei com um desses casos. Soube pelo Twitter que o André Lemos estava lançando o seu “Caderno de viagem: Comunicação, Lugares e Tecnologias”, um e-book gratuito sobre seu tempo de pós-doutoramento no Canadá. Fiquei curioso, baixei e depois me pus a olhar as mais de 300 páginas com um misto de curiosidade e encantamento. Quando percebi, já estava lendo, e devorando as páginas curtinhas, caprichadamente editadas para serem lidas com bastante conforto na própria tela do computador.
Lançado em vários formatos – inclusive para kindle e outros leitores digitais, com opção de impressão em papel -, o livro é interessantíssimo. Híbrido de diário de bordo, álbum de fotos inusitadas, e compilação de insights conceituais, “Caderno de Viagem” é atraente até mesmo para quem não quer saber do Canadá, não se interessa por traquitanas tecnológicas ou por quem sequer imagine quem é o seu autor. O livro interessa pois traça um mapa que reúne ideias muitíssimo importantes para todos nós, humanos: comunicação, cidades e caminhos.
Por isso e por outras razões, a gente consome o livro sem parar, em poucas horas. Seja motivado pelos mapas que o próprio André desenha de suas caminhadas pelas ruas de várias cidades; seja pelo que se pode imaginar desse narrador no momento de suas ações.
Produzido em meio a um ano sabático, o livro é um belo exemplo de como ciência e sensibilidade, narrativa agradável e pesquisa social, tecnologia e geografia se encontram. Aliás, não é que cairia bem se os editores lançassem uma versão em audiobook? É que aí, o “leitor” baixaria em seu IPod, e – caminhando – ouviria as páginas de André, tendo uma espécie de companheiro na jornada…
Como eu disse, o livro foi concebido num período sabático, aquele tempo em que artistas e intelectuais deveriam se devotar um tempo maior para maturar ideias e projetos, enfim, uma puxada de freio no campo das ideias e emoções. Que nada! Como o próprio André conta no livro, de sabático, o período não teve nada. Foi um tempo de muito trabalho, de muita produção, de muito empenho. O “Caderno de viagem”, que ele agora nos oferece, é apenas um dos muitos frutos desse ano no Canadá; desse período fértil, vieram artigos acadêmicos, palestras, capítulos de livros, comunicações científicas e até mesmo um filho…
Enfim, como eu disse no início, existem livros que têm suas próprias histórias. “Caderno de viagem” é um desses generosos casos…
***
Mas a vida nos atropela mesmo. E os livros com ela. Semana passada, encontrei em minha página no Facebook um recado inusitado de uma total desconhecida. Ela me contava que escrevia de Campinas (SP), onde havia ganho um livro com uma assinatura minha, seguido de uma data e uma localidade: 05 de outubro de 1992, Bauru.
A moça ficou curiosa diante do fato de que o livro continha outras marcas. Carimbos de um sebo de Itajaí (SC), mas o volume havia sido comprado em Ribeirão Preto (SP) por um amigo que a presenteara. A moça deve ter pensado: como esse livro veio parar aqui e quem é esse cara da assinatura? Entrou na internet e acabou me encontrando lá no Facebook (e em lugares não comentáveis aqui…).
O livro andou. Por caminhos que sabe-se lá quem determinou…
Este é mais um exemplo de como livros e percursos nos interessam, nos chamam a atenção. A ponto de a história que acabei de escrever ser até mais interessante que o próprio livro em questão. (A propósito, era um exemplar de “Comunicação em prosa moderna”, do Othon Garcia)
lições de inocência com meu filho
Consciente ou inconscientemente, às vezes, me esqueço que meu filho nem completou seis anos. Falo com ele quase tudo, converso de igual para igual, e há quem diga que isso é muito natural: afinal, os dois têm a mesma idade mental, dirão meus detratores.
Mas para além desse detalhe, é o próprio menino quem me alerta quando estou indo rápido demais, quando estou usando palavras incompreensíveis ou quando minhas ideias são completamente irracionais. Ele me olha no fundo dos olhos, seriíssimo, espalma a mão direita, dobrando levemente o polegar para dentro da mão e pergunta. Suas questões são diretas, nem sempre vocalizadas com precisão, pois a boca não acompanha o pensamento. E é aí nesses momentos em que o menino me ensina, me mostra que a inocência está ali, que um estágio superior ao humano pode se manifestar numa criaturinha como aquela.
Alguém, cético até a medula, já diagnosticou que a inocência é um câncer. Mas vá lá! Permita-se relembrar o que é estar inocente, desconhecer, acreditar numa nuvem como chão… Ser inocente é um estado de graça, um átimo de segundo que nos escapa à medida que envelhecemos.
Noites passadas, eu assistia à TV com o pequeno e ele me perguntou onde o apresentador do programa morava. Eu disse que ele era de bem longe, que era um novaiorquino típico. O menino me olhou incrédulo. Me concedeu um, dois segundos. No terceiro, suas sobrancelhas – que são as minhas em miniatura – subiram até a metade da testa. “Então, ele não fala português?”
“Não, ele fala inglês!”
“Mas, pai – mão espalmada para a frente, polegar ajudando a fazer um quatro – mas, pai, ele tá falando português agora. Eu tô entendendo…”
A inocência despencou sobre o meu colo. Entendi que o menino simplesmente ignorava que o programa era dublado. Ele sequer imaginava que havia muita gente por trás daquilo de traduzir, dublar, sincronizar, modular os tons, gravar e substituir a voz original.
Fiz um esforço sobrehumano para explicar a ele que alguém “emprestava” a voz ao apresentador da TV, que alguém falava em português o que era dita anteriormente em inglês. O menino ouviu tudo com uma calma de lama do Tibete. Apenas o par de sobrancelhas dançava pra cima e pra baixo. Os olhos, de repente, se abriram, cresceram, brilharam. O rosto dele ficou todo iluminado. O pequeno não disse mais nada. Mas não foi preciso: eu tinha certeza de que ele estava descobrindo algo novo, novíssimo para ele. Como quem olha o mar pela primeira vez. É a descoberta em estado bruto, seminal, primitivo, sem fingimentos ou arremedos. Dessas descobertas que apenas são o efeito colateral da inocência. Essas descobertas só existem porque descortinam para a gente um mundo novo, um panorama inédito, uma paisagem jamais vista.
Eu sorri para ele, que me devolveu na mesma moeda. Ele entendeu. Eu percebi que tinha testemunhado um instante importante ali. A descoberta dele, a inocência se lhe escapando, a luz do conhecimento apagando a ingenuidade. Isso não durou mais que poucos minutos. Não havia mais ninguém na sala. Não tive cúmplices. Foi tão sensível e duradouro que me fez pensar nisso que escrevo. Nas perdas e nos ganhos; no paradoxo que junta consciência e inocência, feito ímãs. Conhecer é perder a inocência; saber é sepultar a ingenuidade; saber é tornar-se mais familiar às coisas e ao mundo; saber é se localizar melhor no mundo e na vida… Coisas tão importantes e tão desimportantes diante daqueles dois olhinhos me mirando sérios. Olhinhos e sobrancelhas que me fazem agora – solitário num quarto de hotel – escrever essas divagações que apenas um post pode conter.
florianópolis, 103 mil dias depois
A cidade dos meus sonhos, a cidade que me fez perder o sono, a cidade que hoje me embala as noites faz hoje 284 anos. Florianópolis é ilha e é continente; é capital e é refúgio; é um recanto de liberdade e traz no nome uma homenagem a um presidente tirânico. Já foi Nossa Senhora do Desterro e ainda hoje é asilo, é exílio, é degredo, é desterro, é oásis.
Passados mais de 103 mil dias de seu surgimento no mapa, a cidade faz e se refaz. Todos os dias.
A equipe do Cotidiano.ufsc, projeto liderado pela professora Maria José Baldessar, produziu um especial em homenagem à cidade. Vale a visita.
o nascimento do jazz numa tragédia recheada de blues
São muitas as histórias que cercam a origem da palavras “jazz”. São muitas as lendas que tentam traduzir a palavra “blues”. Numa delas, uma mulher conta que, ao retornar da igreja, numa manhã de domingo, deitou-se na cama e olhou para o teto com um sentimento tão profundo, uma tristeza tão atroz, e este era um sentimento tão blue… O blues virou lamento, virou ruminação, choro contido… O jazz é um gênero que se destaca dos demais pelo improviso e por uma escala musical de DNA negro. Diferente da escala europeia, a matriz do jazz tem uma blue note, uma nota blue. 
Como o samba, o jazz e o blues não são apenas sofrimento e tristeza. Mas como no ritmo dos morros, a música dos pântanos, dos bairros negros, do algodoal e das planícies inundáveis tem lá as suas tragédias, as pequenas-grandes tragédias do cotidiano. Sem querer, esbarrei numa delas esta semana. Numa livraria de aeroporto, encontrei “Buddy Bolden’s Blues”, de Michael Ondaatje. O livro estava numa pilha de títulos vendidos a R$ 8,90. Subtexto: não valia muita coisa. Não tanto pelo preço, mas pelo que li na orelha, trouxe o volume comigo, e o devorei em dois dias.
Além de ser assinado por um importante autor – “O paciente inglês” é sua obra mais famosa -, “Buddy Bolden’s Blues conta a história de uma das raízes do jazz, o cornetista negro que imprime seu nome na capa. Mas o livro não é uma biografia, é um romance. Não é apenas ficção, é da linhagem de livros que ignora as fronteiras entre o real e o imaginado, entre o lembrado e o inventado. 
Buddy Bolden é uma lenda por vários motivos: tocava seu cornetim de uma maneira tão diferente que ajudou a inventar uma nova música; era talentosíssimo, e nunca gravou; trabalhava como barbeiro durante o dia e tocava em boates à noite; enlouqueceu aos 31 anos e tentou resgatar sua sanidade até os 55, quando deixou-se morrer no sanatório; pouco ou quase nada se sabe dele, e apenas uma foto esmaecida e desfocada testemunha a sua real existência.
Ondaatje se vale dessa espessa zona de incerteza para construir-reconstruir-criar a história de um dos fundadores do jazz. E, claro, com ele, mergulhamos nas ruas insalubres de New Orleans, na virada do século 19 para o 20. Os bairros manchados pelos crimes e pelas contravenções, as hordas de prostitutas, traficantes e personagens que beiram a esquisitice. O ambiente moralmente fronteiriço. A vida difícil, a pobreza material e a riqueza espiritual dos anônimos que ajudam a fundar uma nova página na arte e na expressão humanas.
A tragédia de Buddy Bolden soa como um blues. Há sonho, há amor, há sexo e loucura. O sopro no bocal do instrumento, o coração pulsante, um indisfarçável sentimento de estrangeiridade no mundo. O romance de Ondaatje é tocante e não é preciso gostar de jazz. É bem escrito, bem pesado, e funciona como o dardo cuspido por uma zarabatana: vai direto ao alvo. Zarabatana ou cornetim, tanto faz.
Wynton Marsalis, o mais talentoso trompetista de jazz desde Miles Davis, nasceu em New Orleans, a Meca do jazz. Reverente à tradição de seu gênero e ramo mais evidente de uma árvore jazzneológica, Marsalis mostra “Buddy Bolden’s Blues”, música também conhecida como “Funky Butt”. Feche os olhos e abra os ouvidos.
mataram o glauco e um pedaço do nosso riso
Que coisa mais sem graça!
O cartunista Glauco e seu filho foram mortos noite passada em Osasco. Teria sido uma tentativa de sequestro, segundo os primeiros relatos. Que lugar é este onde se atira em dramaturgo, onde se mata cartunista, onde se trucida crianças?
Quando assassinam um cara que nos faz sorrir ficamos todos mais tristes. Não há humor que resista.
Acompanho o Glauco há mais de vinte anos. Conheço Geraldão há tempos. Já vi milhares de vezes as tetas empinadas de Dona Marta. Me intriguei como aquele traço apressado, disforme e relaxado poderia ser tão sintético nas piadas… Fui fã (sou fã) de Glauco nos tempos de Los Três Amigos, uma bem sucedida joint-venture que também envolveu o Laerte e o Angeli. Glauco, era notório, tinha o traço mais primário dos três, mas uma vez ouvi da própria boca do Laerte uma história que me desconcertou: as histórias eram escritas e desenhadas pelos três artistas, mas não eram raras as vezes em que Laerte e Angeli não entregavam as suas partes. Quem então copiava o traço e os personagens dos colegas? Glauco! Ele carregava os dois nas costas…
Era uma molecagem entre eles. Sacanagem de meninos. Típico de Geraldão e Geraldinho.
Não tem graça nenhuma matarem o Glauco!
cinema paraíso
Um velho projecionista. Um garoto fascinado pela luz. Uma paixão em comum e uma amizade infinita. A cidade é minúscula e temos a vida inteira pela frente. “Cinema Paradiso” é desses filmes que fazem os espectadores se desmancharem em lágrimas, com um sorriso tímido no final.
Philippe Noiret dá uma aula de atuação. Sem exagero, Enio Morricone compôs uma das canções mais inesquecíveis do cinema. Mas pouco se comenta de uma letra que Dulce Pontes fez para o tema. Veja o belo poema…
Era uma vez
Um rasgo de magia
Dança de sombra e de luz
De sonho e fantasia
Num ritual que me seduz
Cinema que me dás tanta alegria
Deixa a música
Crescer nesta cadência
Na tela do meu coração
Voltar a ser criança
E assim esquecer a solidão
Os olhos a brilhar
Numa sala escura
Voa a 24 imagens por segundo
Meu comovido coração
Aprendeu a voar
Neste Cinema Paraíso
Que eu trago no olhar
E também no sorriso
Ouça agora o resultado, mas não se reprima: está escuro no cinema e ninguém vai ver você chorando…
a brisa do coração
Um velho jornalista que não quer confusão. Um jovem impetuoso que não tolera a censura e a perseguição política. Um regime duro e intolerante. Uma canção inesquecível: “A brisa do coração”. É um emocionante Marcello Mastroiani no cinema; é um soberbo Enio Morricone nos arranjos; é a tocante Dulce Pontes na canção-tema…
“According to Pereira”, com direção de Roberto Faenza, é de 1995, e circulou pouco por aqui sob o título de “Páginas da revolução”. É um filme pra chorar e pra sonhar. Mesmo depois de quinze anos… Assista à canção…
bye bye johnny
Johnny Alf morreu. Ele era uma encruzilhada do jazz com a bossa nova.
Agora, ele vai martelar suavemente as teclas do seu piano no céu. As nuvens vão tremeluzir com a sua voz aveludada.
No video abaixo, uma performance dele de sua conhecidíssima “A brisa e eu”…
é domingo, e espinosa está na área
Terminei esta semana de ler “Céu de Origamis”, o mais recente caso de mistério do delegado Espinosa. Pra quem não se lembra, ele é o personagem principal do escritor carioca Luiz Alfredo García-Roza, e já protagonizou oito romances desde 1996. De longe é a maior experiência na literatura policial brasileira.
O livro é ótimo e desde “Uma janela em Copacabana”, eu não me envolvia tanto com a narrativa do autor e com o estado de ser do personagem. Se você leu “Na multidão” e ficou com impressão de que o delegado da 12ª DP penduraria as chuteiras, esqueça. Espinosa está de volta. Hoje é domingo, mas ele deve estar perambulando do Leme à Ipanema…
Neste vídeo, Garcia-Roza apresenta um pouco o mais recente livro. Para adoçar…
metafísica com meu filho
Do alto de seus cinco anos e meio e do banco de trás do carro, Vinicius veio com essa:
“Pai, o papai do céu é feito do quê? Ele é homem ou é bicho?”
“Não é nem uma coisa, nem outra. É uma força da natureza!”
“Uma força da natureza? Mas ele é feito do quê? Ele não é um homem?”
“Não, não é… é outra coisa…”
“Mas ele não morreu? Aquele da cruz?”
“Não, Vinicius. Esse é o filho dele! O papai do céu é Deus!”
“O papai do céu é Deus!?? Meu Deus!!”
“É…”
“E aquele outro era o filho dele?!”
“É…”
“E por que ele deixou o filho dele morrer?!”
“Não sei, filho… eu não tava lá…”
“Mas, pai! Ele não podia ter salvo o filho dele? Ter dado um raio e pow!”
“…”
“Puxa! Até o Darth Vader ajudou o filho dele…
a confissão de um crime pela tv
Parecia coisa de cinema: um homem marcado pelo tempo, caminhando por um cemitério, com as mãos metidas nos bolsos do sobretudo, os cabelos esvoaçando no vento. Suas palavras secas dando a gravidade devida ao que ele contava: um crime. Parecia um filme, mas não era. Era a vida real, era uma pessoa notória confessando um crime cometido há alguns anos. Era o apresentador Ray Goslin, da BBC, no alto dos seus 70 anos, contando como matara seu ex-amante para ter de lhe poupar sofrimentos indizíveis por causa da Aids.
A confissão feita pela TV deve estar provocando tremores de terra na Inglaterra, além da prisão de Goslin.
Para além do carnaval midiático que se possa fazer com o episódio, me assaltam muito mais as questões éticas ali envolvidas. Não posso deixar de lembrar do caso do filósofo Louis Althusser que asfixiou a própria esposa, Helene, no quarto que dividiam e que lhe causou a pior condenação a que os franceses conhecem: a impronúncia. Em ambos os casos, temos pessoas célebres e aparentemente acima de quaisquer suspeitas ligadas a homicídios de pessoas amadas e próximas. Nos dois casos, temos ações motivadas pela compaixão à dor alheia e o cumprimento de pactos de lealdade extrema. Temos crimes sim, é verdade. Temos a violação da lei, a transgressão de valores, mas a manutenção de outros. Extermina-se a vida para pôr fim à dor, ao sofrimento. Faz-se pelo amor ao outro, para satisfazer um pedido… é a compaixão, o dó, a lealdade, o compromisso, o atendimento a uma súplica de quem se ama. Mesmo que essa resposta se traduza na morte do outro amado…
Nos dois casos, Althusser e Goslin colocam seus nomes no rol dos homicidas, dos degredados, dos imperdoáveis. Do inapelável.
Difícil é defender seus atos, fácil condená-los. Difícil é aceitar o que fizeram, mesmo que os juristas atribuam um rótulo eufêmico: o suicídio assistido. Mas é preciso entender que seus atos não foram intempestivos, irracionais ou impensados. Suas decisões de cunho prático passaram inevitavelmente por seus escrutínios morais. Goslin e Althusser colocaram seus princípios e seus sentimentos na balança de maneira a ver o que mais pesava, o que mais fazia sentido, o que mais preenchia seus corações e mentes. O filósofo e o comunicador, ambos homens vividos e experientes, devem ter consumido noites pensando antes de sufocarem suas vítimas. E talvez essa palavra – “vítimas” – não seja a mais apropriada para as situações. Naturalmente, não devem ter visto seus objetos de amor como vítimas de suas ações, mas vítimas maiores de seus sofrimentos.
O que mais distingue o caso de outro é a confissão pública de Goslin. Segundo colegas de trabalho mais próximos, o apresentador decidiu contar o que havia feito num programa de TV por uma questão de coerência, de lealdade, de fidelidade ao público. Ele preparava um programa sobre a morte e vira tantas fontes abrindo seus corações e contando suas histórias que não achara justo guardar para si a sua própria. Goslin contou. Nunca saberemos o quanto há de interpretação e de espontaneidade no curto minuto de sua fala no vídeo de sua confissão. Como antes, Goslin deve ter pensado muito antes de agir. Meditou, pesou, tomou a decisão. Seu semblante está carregado, seus cabelos dançam ao sabor do vento. Ele nos oferece cada palavra como se oferecesse seu pescoço. Abre o segredo, olha diretamente a câmera e baixa o rosto, compungido. No segundo em que se detém olhando para a frente, confessa como se nos olhasse direto nos olhos. Depois, deixa cair a cabeça e se retira do enquadramento da câmera. São segundo apenas, mas o drama está lá. O drama da escolha ética, o drama de quem tem a coragem de tomar uma decisão, estando ela certa ou errada. Pouco importa ao leitor agora se concordo ou não com a ação de Goslin. Mais relevante é ver como é preciso ter coragem para decidir, para tomar caminhos, para aceitar o vento no rosto após dar o primeiro passo.
Escolher entre matar o amante ou deixá-lo sofrer até que seja naturalmente levado é uma decisão ética. Escolher entre manter o segredo ou confessar o crime diante das câmeras para todos é uma decisão de cunho ético. A vida exige coragem, pois as escolhas precisam ser tomadas a todo o momento. Alguém já falou que a vida não tem ensaio e que se aprende a viver, vivendo. O episódio de Goslin nos confirma tudo isso e nos mostra como hoje, mais do que nunca, os segredos adormecem mas não têm um sono pesado. As câmeras são nossos olhos, são confessionários. As comunidades imaginadas são coletivos de cumplicidade. Os crimes continuam a acontecer debaixo de nossos narizes e pouco ou nada sabemos deles.
É profundamente triste o que aconteceu com Goslin e seu parceiro. Seu drama me assaltou e me impeliu a escrever essas poucas linhas sobre um assunto tão complexo. Um tema que nunca poderia se esgotar num post: esta certeza de que estamos sós em nossos momentos mais verdadeiros, onde se deve refletir e tomar decisões. Incontornavelmente. Indefinidamente.
locke, sawyer, hurley e sun estão de volta
Ontem, a ABC deu a largada à já famigerada última temporada de Lost.
No Brasil, a expectativa não é menor pelo desfecho da série que renovou padrões narrativos na televisão nos últimos anos. Por isso, a AXN vai retransmitir os episódios com apenas uma semana de diferença da cronologia original.
Se você consegue aguardar mais uma semana, contente-se com o vídeo promocional…
gatos, jazz e desenhos animados
sade está de volta
Depois de quase uma década sem gravar, Sade Adu retorna em fevereiro com um novo disco. É o que informa o site oficial.
Mas antes do lançamento, já dá pra assistir ao single que é executado em rádios: Soldier of Love
O vídeo é lindo, e aos 51 anos, Sade está em plena forma: a voz aveludada, o visual cativante, as letras poderosas, o suíngue nas canções, e belas histórias de amor para contar…
stella by starlight
É só a imagem de um disco tocando, mas é Miles Davis executando Stella by starlight.
Divino.
Feche os olhos e abra os ouvidos. Afinal, é domingo.
um clipe, lá do fundo da memória
Há quem teorize sobre as lembranças. Há quem pesquise sobre elas. Existem ainda aqueles que só se assombrem diante das próprias memórias. Estou entre esses. De repente, esta semana, ouvi uma música lá do fundo das minhas recordações. Na verdade, era um clipe que eu havia assistido no Fantástico: Roberto Carlos cantava As Baleias, em 1981.
Sim, eu sei. Roberto Carlos é brega, é coisa de velho, está fora de moda… Sim, ele pode ser um intérprete ultrapassado, um ícone restrito a uma camada de fãs, mas o cara é um compositor maiúsculo.
Veja o clipe abaixo com os olhos fechados e os ouvidos bem abertos. Você vai entender porque… é simplesmente lindo…
tem mais gente de mudança
Não sou o único a desencaixotar a vida nesses dias… meu camarada Dauro Veras também está de endereço novo. Enquanto adoto um novo CEP físico – agora em Florianópolis -, Dauro se muda para o wordpress e para um domínio próprio. Aqui, a bagunça está diminuindo, mas por lá, as coisas já estão bem arrumadinhas.
Felicidades, meu caro!
2010 já é!
O ano que começa hoje já começou antes do seu primeiro minuto. Começou num pensamento furtivo, numa esperança que me escorreu dos dedos, num sonho que alimentei outro dia. 2010 já é. Pessoalmente, inicio o ano e a nova década muito bem. Depois de seis anos, retorno à cidade mais maravilhosa do mundo: Florianópolis. Retorno em definitivo, espero, à cidade que viu meu filho nascer, me viu sorrir sem dó pra vida, me recebeu como a um nativo.
Inicio 2010 na cidade que amo, no emprego em que sonhei, com a mulher que desejei, e com o astral batendo no Everest. 2009 foi bom, 2010 será melhor. Se os céus puderem me ouvir, faço três pedidos: saúde, paz de espírito e bom humor.
Tudo isso pra mim e para os que me rodeiam. O resto, bem, o resto xácomigo!
2010 terá feriados, dias ensolarados, noites maravilhosas, e pra completar vai começar numa sexta, feriado, e com lua cheia.
Quer mais?
Feliz ano novo, leitores!
(Este blog pode ficar fora do ar nos próximos dias por problemas de conectividade)
2009: uma retrospectiva muito pessoal
2008 foi um ano difícil. Já 2009 foi um tempo de conquistas e de batalhas. Como estamos em fins de dezembro, cabe um balanço, uma avaliação do período. Por isso, ofereço a seguir uma rápida retrospectiva. Siga-me se for capaz!
Janeiro: Comecei o ano com turbulências domésticas. Todo o mundo tem problemas, mas iniciar 2009 com esses tremores me fez decidir dar mais tempo à família o que me obrigou a dizer uma série de “Não” nos meses seguintes. A vida ensina, e na maioria das vezes, as decisões que tomei foram as mais acertadas. Em janeiro, fiz rapidíssima viagem a Brasília para iniciar uma parceria de pesquisa com a Unesco que se mostrou muito rica e interessante. Neste mês, ingressei na minha fase Apple e com o primeiro MacBook. Um deslumbre!
Fevereiro: Mês lotado de reuniões e entraves burocráticos. Nem parecia mês de Carnaval. As aulas começaram pra valer – três disciplinas na graduação! -, mas antes dei uma fugidinha para São Paulo e assisti a um dos meus irmãos casar. Festerê em família. Acertei com a Unesco para atuar como um dos consultores numa pesquisa sobre indicadores da qualidade jornalística.
Março: Duas orientandas do Mestrado em Educação defenderam suas dissertações, o que me deu orgulho e satisfação. Dei início a um tratamento dentário que me deu despesas indigestas. Comecei a migração de nove anos da revista Contrapontos para um portal exclusivo, o que significa dizer transferir manualmente quase 300 artigos. Sem bolsista ou técnico de apoio, passei uma temporada no inferno da Informática, só não tive LER/DORT por sorte. Me decepcionei com a não realização de um curso de especialização que planejei. Sem alunos suficientes, a pós em Mídias Digitais não saiu do papel… Comecei a me preparar para um concurso público na UFSC.
Abril: Mês de orientações constantes a quatro monografias. Páginas e mais páginas de leitura num ritmo alucinante. Fui a Belo Horizonte para o Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, revi amigos e fiz contatos excelentes. Assumi a coordenação do Prêmio Adelmo Genro de Pesquisa em Jornalismo: uma trabalheira insana!
Maio: Mergulhei em leituras sobre ensino de jornalismo. Tudo porque queria participar mais ativamente das discussões para a reforma das diretrizes curriculares nos cursos de jornalismo. Cheguei a participar de uma das audiências públicas em São Paulo, e escrevi diversos posts e artigos sobre o tema. Dei uma escapadinha para ir ao Intercom Sul em Blumenau.
Junho: Sofri com ataques ferozes de rinite. Cheguei a consultar um alergista, mas como sou teimoso não dei bola pro doutor. Fiz 37 anos e meu filhote fez cinco. Pensei mil vezes: tô ficando velho. Foi um mês intenso e de oscilação nas emoções: tristeza intensa e felicidade avassaladora. Assisti com pesar a queda no Supremo Tribunal Federal da obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Passei por uma maratona de provas no concurso da UFSC e fui aprovado em primeiro lugar. Era o final de um ciclo de dez anos na Univali…
Julho: Não tive um segundo de descanso. Fechei disciplinas, engatei em reuniões e preparei planos para o segundo semestre. Ao mesmo tempo, fiquei de sobreaviso pela nomeação na UFSC. Fechei quatro monografias de conclusão de curso e vi meus quatro orientandos passarem bem por suas bancas. O segundo semestre começou e lá fui eu novamente…
Agosto: Comemorei diversos aniversários na família que tem uma penca de leoninos (entre os quais, a minha amada). Fui nomeado na UFSC, me despedi da Univali e parti para novos desafios profissionais no melhor curso de Jornalismo do Brasil. Um deles foi ter paciência no trânsito que liga o continente à parte insular de Florianópolis. Cheguei inclusive a bater o carro. Azar…
Setembro: Trabalhei intensamente com outros três colegas na pesquisa sobre indicadores da informação jornalística. Consegui quitar minha casa e me tornei um feliz proprietário: o sonho da casa própria é mesmo universal! Dei início a um novo projeto: o Observatório da Ética Jornalística, objETHOS. Fiz palestras em Novo Hamburgo (RS) e Piracicaba (SP): esse pessoal não tem juízo não?
Outubro: Trabalho, trabalho e só trabalho. Eu nem vi o mês passar…
Novembro: Publiquei a primeira edição da revista Estudos em Jornalismo e Mídia sob minha responsabilidade. Publiquei com meus alunos de graduação um número do jornal laboratório Quatro. Concluí as aulas de três disciplinas e fiz arremates finais no projeto da dissertação de meu orientando no Mestrado. Arrumei encrencas com um vizinho.
Dezembro: Sonhei com o tetracampeonato brasileiro do São Paulo, mas assisti a taça escapar pelos dedos… Afundei em bancas e reuniões. Concluí um curso que fiz à distância sobre ferramentas digitais para professores de jornalismo. Vi meu nome entre os novos bolsistas em produtividade no CNPq. Suei nos primeiros dias de um verão que promete. Comecei a afivelar nossas malas para uma mudança de endereço: de volta a Florianópolis, sonho de anos…
Como adiantei, 2009 foi um ano de batalhas e conquistas. Que 2010 seja também inesquecível, definitivo e maravilhoso. Para mim, para os meus, e para você que me acompanha por aqui.