me prendi a esse tal “fio”…

Esbarrei em “Por um fio” num sebo. Só conhecia o doutor Drauzio Varella da TV, e não de seu bestseller “Carandiru” ou outros menos célebres. Acabei levando “Por um fio” pelo preço convidativo, pelo bom estado do exemplar e por um punhado de palavrinhas bem encaixadas no texto da contracapa. Não cheguei a deixar o livro adormecer duas noites na estante e ataquei algumas páginas.

Nem tanto pela prosa, mas mais pelas histórias, fui ficando e devorando capítulos e capítulos. Para quem ainda não ligou o título à obra, “Por um fio” é um livro de memórias autobiográficas do médico mais famoso do Brasil, um respeitado oncologista que volta e meia aparece no Fantástico ou em programas do gênero. “Por um fio”, no entanto, não é nada digestivo, pelo contrário. As histórias que se colhe por lá são alguns resultados de mais de trinta anos de clínica do doutor Drauzio enfrentando casos complicados, incuráveis e surpreendentemente curados.

Sem cerimônia, o leitor é apresentado a todo tipo de moléstia grave, com especial atenção a cânceres e tumores diversos. Sem alternativa, o leitor desfila pelo corredor que separa vida, morte e sobrevida. Fortes, intensas, emocionantes, inesquecíveis, as histórias são também prosaicas, banais, cotidianas para um médico que carrega nas costas as esperanças de parentes aflitos, as dores pessoais e as perdas com as quais precisa conviver. A medicina ali é mostrada como um campo de batalha sem glamour, mas com muito trabalho. O dia-a-dia dos médicos não é faustoso nem heroico. Os momentos finais dos pacientes, seus humores, seus familiares quase sempre são mostrados com cores cruas, pouco vibrantes. A vida é mais dura, aprende-se logo nas primeiras páginas. A luta pela vida é mais ainda. O câncer atinge o rico e o pobre, mata homens e mulheres, e ataca também a quem o enfrenta, no caso, os médicos. A Aids também se mostra virulenta e epidêmica, cruel e irônica.

“Por um fio” é um bom livro para quem almeja ser médico. É um bom livro para quem quer aprender mais da vida e da morte. Para quem quer se aproximar dessa espécie que convencionamos chamar homem. Isso porque revela imperfeições, fraquezas, incertezas e inconstâncias. Isso porque nos atira na cara a dureza e a sensibilidade, a esperança e o desalento, a vitalidade e a inevitabilidade do maior evento da vida.

Nas pouco mais de 200 páginas do livro, o choro fica espremido entre os curtos capítulos. Contive as lágrimas como quem economiza água. Melhor guardar para quando for justificado. Melhor chorar nos maiores dramas. Ao final do volume, o choro ficou embargado; não veio a apoteose, o clímax. Talvez porque o livro espelhe com forte fidelidade a vida, seus altos e baixos. No capítulo final, o desfecho é dilacerante e simbólico. A cena fica congelada no tempo, suspensa por um único fio. Tão frágil e tão elástico, como se a ele se prendesse o mundo e a vida.

história do natal digital

O sempre conectado Marcos Palacios manda a indicação de um videozinho muito criativo e bem-humorado. Como seria se Jesus estivesse pra nascer hoje em dia, no meio de tantas redes sociais? Os portugueses do ExcentricPT imaginaram isso. O resultado está a seguir. Veja, por exemplo, o que é seguir a Estrela de Belém…

videozinho pra animar…

Ops! Este blog quase está criando teia de aranha! Três dias sem posts na blogosfera equivalem a décadas. Porque a vida não espera, deixo um videozinho de uma banda que não conhecia, mas que Carolina Dantas apresentou: The XX. Inclusive, o tema – Teardrops – foi tomado de empréstimo para as vinhetas do Ponto de Vista do objETHOS.

 

mais um romance do abc

Márcio ABC, um dos melhores jornalistas com quem – ainda – não trabalhei, convida para o lançamento de seu segundo romance, Desrumo. O primeiro, não sei se você lembra, é o Parabala, de 2002.

dois anos da tragédia hoje

Chove sem parar em Florianópolis, mas não é de assustar. Diferente de há dois anos, quando sofremos com as maiores enchentes da história do Vale do Itajaí. Aliás, hoje, faz exatamente dois anos do dia em que várias cidades foram tomadas por uma água barrenta, pútrida, perigosa e mortífera.

Dias de intensa chuva, solo encharcado, maré alta, tubulações entupidas, e outros fatores combinados contribuíram para que as águas não escoassem para o mar, alagando mais de 80% de Itajaí. Além dos milhões de reais de prejuízos, tivemos dezenas de milhares de pessoas desabrigadas e desalojadas, 135 mortos e incontáveis recordações de dias muito, mas muito difíceis mesmo.

Estive entre os desalojados, registrei parte desta história e também me juntei aos voluntários que acudiam a cidade submersa. A Arca de Noé, uma rede social na internet, surgiu e ajudou no que pôde. Outros grupos se articularam e a cidade foi se reerguendo. O mesmo se deu em Blumenau, em Ilhota e outros municípios afetados.

Diferente do que pensávamos nos piores momentos, o mundo não acabou. Diferente do que pensávamos nos momentos mais esperançosos, não vieram os recursos para a reconstrução da região e para o fortalecimento de um sistema de defesa civil. Como nos fizeram acreditar no meio da tormenta, a vida se refez, as construções foram reerguidas, os laços de amizade se fortaleceram. Mas as memórias, essas ainda não dissiparam…

não pare; continue o seu caminho!

Para caminhantes. Para bons bebedores. Para quem gosta de boas histórias e respeita a tradição. Para todos esses, um vídeo, dica de Carlos Damião:

um amigo furou a fila

Estou em São Luís (MA), no meio de um evento acadêmico, e pelo Twitter sou avisado da morte repentina de um amigo. Aos 45 anos e de câncer. Sim, eu já sabia que o jornalista Fernando Arteche estava doente há meses. Mas sabia também que ele estava lutando bravamente contra essa doença atroz. Dava relatos disso em seu blog, Os Trabalhos e os Dias.

A última vez em que nos falamos foi há alguns meses, num outro evento em Novo Hamburgo (RS). Nos abraçamos e trocamos alguns palavras por minutos. Ele não estava abatido, e exibia o tom saudável que lhe era próprio. E isso não é nenhum exagero. Tenho provas disso.

Há alguns anos, dividimos um apartamento num hotel em Salvador. Novamente, era um evento acadêmico – eu sei, a gente trabalha demais. Estava um sol senegalês, horário de almoço, e o Fernando ia correr na orla da praia. Não acreditei. E ele foi. Correu milhas e voltou levemente arfante. Era um atleta amador, gostava de esportes e amigos; um cara que amava também a vida, o filho e a esposa. Tinha voz doce e abraço apertado. Sorriso franco e pinta de galã. Gostava de música, mas não era muito alto, nem tinha olhos azuis. Era respeitado como jornalista e como professor e pesquisador da área. Era um cara simples, comum e sempre bem-vindo.

O Luís Fernando Verissimo costuma dizer que a morte é uma indignidade. Eu acho a morte uma pena. Uma pena sem fim. Por isso que é uma dor sem palavras a perda do Arteche. Fernando furou a fila. Não se faz isso com os amigos, cara!

o que me surpreendeu no “manual do frila

Devorei ontem o Manual do Frila, que meu amigo Maurício Oliveira lançou no início da semana. Não me surpreendeu o texto leve e bem humorado, afinal trabalhei com o autor e essa é uma das muitas qualidades dele. Não me surpreendeu a objetividade do livro, afinal a editora Luciana Pinsky – minha editora, inclusive – tem lançado títulos no mercado que se caracterizam por sua utilidade e foco bem preciso.

O que eu não esperava era o imenso despudor do Maurício de não apenas dividir sua experiência como jornalista freelancer, mas de escancarar detalhes tão pessoais e íntimos de seu cotidiano. Nas páginas do livro, sabemos da trajetória do repórter, de seus êxitos e mancadas, de seus filhos e esposa, de como organiza seu tempo cotidianamente, e até mesmo do que pretende fazer após os 40 anos.

O Manual do Frila é declaradamente uma obra pessoal, mas os depoimentos colhidos junto a outros freelancers ampliam sua abrangência. Quer dizer: não se trata de uma biografia, mas o tom confessional do Maurício me surpreendeu. Por uma única razão: tenho menos coragem para me mostrar do que ele.

Mas você percebeu: este post é apenas uma impressão muito particular sobre o livro. Se vale a pena ler? Sim, vale. As histórias contadas são ótimas; as dicas, preciosas; os conselhos, úteis; e o livro vem a calhar, pois a bibliografia brasileira sobre o tema é praticamente inexistente…

o retorno de house

Setembro terminou com a volta do seriado mais irônico e bem roteirizado da TV: House, MD. Trata-se da sétima temporada, o que entre os fãs pode significar a continuidade ou não da história. Eu explico: o ator Hugh Laurie, que interpreta o médico do título, teria assinado contrato até o sétimo ano, e há boatos que ele estaria como seu personagem, enfadado e disposto a jogar tudo pra cima.

Fofocas à parte, o fato é que a série voltou com tudo. Vi os dois primeiros episódios e me contagiei com as novidades na trama.

Contrariando todos os prognósticos, House e Cudy estão juntos. Uma crise reaproxima e incendeia os sentimentos. De volta ao hospital, eles decidem informar a todos que estão namorando, o que inclui comunicar formalmente o Departamento de Recursos Humanos, afinal Cudy é a chefe de House. Um receio secreto de ambos é que o romance interfira nas decisões profissionais e vice-versa. Bem, e aí a coisa vai…

Mas o que me chamou mais a atenção é que encontramos um House diferente, permitindo-se uma segunda chance, buscando alguma felicidade. Para isso, contraria algumas das suas convicções, submete-se, o que – convenhamos – é a morte para ele. Mas este House diferente, na minha leitura, é um personagem que está se esforçando para aprender a amar. Isto mesmo: House está tentando aprender a amar. Talvez pela primeira vez efetivamente.

Não é pouco.

Aliás, se formos pensar, os herois desta narrativa têm muita dificuldade no terreno sentimental. House parece se sabotar a todo instante: não cede, é repulsivo e desagradável até mesmo para os amigos; Foreman, sob a máscara da seriedade e soberba, é rude e não consegue cativar Thirteen; Taub vive um casamento tumultuado, cheio de interditos e mentiras; Wilson evita se relacionar desde que perdeu Amber; Chase e Cameron não se acertam por causa de um luto do qual ela não consegue se livrar; Cudy busca se realizar como mãe adotiva ao mesmo tempo em que tenta preencher seu coração…

Diante de tantos insucessos amorosos, parece vigorar uma equação no Princeton-Plaisnboro Hospital: médicos salvam vidas mas não podem ser felizes. Do ponto de vista narrativo, a fórmula rende muitas idas e vindas, mas vendo a sétima temporada me passou algo pela cabeça: se House pode amar, se pode se dar bem nisso, todos os demais também conseguem. Seria uma boa maneira de se terminar o seriado… Não que eu queira, claro. Mas resultaria num bom desfecho, até porque não é novidade nenhuma a certeza de que assistimos a House não pelos sintomas estranhos e doenças raras, mas pelos dramas pessoais dos médicos daquele Departamento de Diagnóstico.

a realização do sonho de uma vida

Existem coisas que desejamos por anos e anos; coisas pelas quais lutamos, suamos e quando conseguimos… o que é que fica?

Wile Coyote mostra:

um soberano nas telas

Apesar do desastre de ontem, entra em cartaz hoje o filme “Soberano”, que conta a saga do time seis vezes campeão brasileiro, tri mundial e por aí afora. Será que chega às salas de exibição de Florianópolis??

um manual para jornalistas freelancers

Maurício Oliveira é um dos jornalistas mais talentosos com quem já trabalhei.
Talentoso e experiente, ele já passou por algumas das redações mais fervilhantes do jornalismo brasileiro. Há algum tempo, é um freelancer que não para em casa de tanto trabalho que lhe aparece. É como ele mesmo ensina: não se pode dizer “não” mais de uma vez para o mesmo contratante…

Pois o Maurício está anunciando que logo-logo as melhores e piores livrarias do país vão receber seu Manual do Frila, editado pela competente Luciana Pinsky, minha editora também na Contexto. Para ver do que trata o livro, veja o sumário; para ler a apresentação, vá por aqui.

quadrinhos, jornalismo, teoria e arte nacional

Três notas rápidas que se cruzam num mesmo assunto: histórias em quadrinhos.

  • Quadrinhos e Jornalismo: acontece amanhã, às 14h30, no Mestrado em Jornalismo da UFSC a defesa da dissertação “Imagem, narrativa e discurso da reportagem em quadrinhos de Joe Sacco”, de Juscelino Neco de Souza Júnior. O trabalho é uma vigorosa leitura das narrativas do jornalista maltês que inaugurou um novo gênero na área: a reportagem em quadrinhos. Tendo como base o filósofo Michel Foucault, a dissertação transita pelo jornalismo, pelas artes visuais e pelo cinema. O trabalho foi orientado pela professora Gislene Silva. Acompanhe a transmissão ao vivo aqui.
  • Quadrinhos e Teoria: alunos da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA) estão produzindo histórias em quadrinhos eletrônicas, com recursos multimídia, e apoiados no conceito de modernidade líquida do teórico Zygmunt Bauman. A “Equipe do PH” surgiu no Laboratório de Jornalismo Digital e Novas Mídias e teve orientação da professora Kalynka Cruz. Conheça o site, leia e baixe em formato PDF.
  • Quadrinhos no Brasil: junte um jovem escritor premiado e um cartunista criativo desde o útero. Misture tudo e agite antes de ler. O resultado é “Cachalote”, que está nas livrarias brasileiras e se revela o lançamento brasileiro do ano em termos de quadrinhos. O livro de quase 300 páginas reúne cinco histórias que não se cruzam, mas que se entremeiam e que envolvem o leitor. Os enredos são de Daniel Galera e os desenhos de Rafael Coutinho. O primeiro escreveu o excelente “Cordilheira”. O segundo não bastasse ter talento e traço marcante, é filho de Laerte. Se gostei? Sim. Bastante. “Cachalote” vale ler, ter e estudar. E a baleia onírica, fantástica, misteriosa é uma poderosa metáfora da felicidade.

abbey lincoln foi pro céu

Uma voz do jazz subiu uma escala.

hq-con bombou!

O Floripa Music Hall ficou pequeno pra tanta gente neste sábado, durante a HQ-CON. Pelo que me lembro, esta é a primeira convenção de quadrinhos da cidade, e a casa de shows no centro ficou abarrotada de gente ao longo do dia. Milhares de pessoas passaram pelo local, espremendo-se entre as cadeiras dispostas para assistir aos debates e a área de circulação aberta. Confesso que me impressionei com o que vi. Quando cheguei pela manhã com meu filho, na abertura do evento, um grupo bem menor de pessoas aguardava a abertura dos portões. “É a meia dúzia de aficcionados de quadrinhos de sempre”, pensei. Que nada!

A casa foi enchendo e depois do almoço estava cheia. Um sucesso!

Eddy Barrows, desenhista do Superman, e dr Banner

Como convém, havia exposição de originais, encontro com artistas – como Eddy Barrows, que desenha o Superman, e Ricardo Manhães -, venda de gibis novos e usados, e alguns outros artigos para colecionadores. Diversas mesas com roteiristas e desenhistas aproximaram os fãs de quadrinhos catarinenses de alguns realizadores de outras praças, principalmente São Paulo. O concurso de Cosplay também convenceu alguns a aparecem fantasiados de seus personagens favoritos, vindos dos quadrinhos, dos animés ou dos games. Levei meu filhote vestido de Hulk e ele fez grande sucesso, mas se cansou bastante e não conseguiu esperar colher as glórias na competição: foi pra casa da avó. Atendi ao pedido, afinal “Hulk esmaga!”

Mesmo em sua primeira edição, a HQ-CON revela um incrível potencial comercial, cultural e social. Seus realizadores irão enxergar como um evento como este pode não apenas mobilizar tanta gente como também render dividendos e ajudar a difundir as subculturas ligadas à cultura de fãs. O que que quero dizer com isso? Ora, da próxima vez, será preciso fazer a convenção num espaço maior, com infra-estrutura tão boa como a que vimos hoje, mas com a presença de mais expositores, mais divulgação na mídia e mais cuidados na organização, principalmente com relação ao cronograma. Houve atraso de mais de duas horas em algumas atrações…

Se você não foi, mas quer um resumo, veja o que achei de bom e de ruim na HQ-CON:

Positivo

  • A escolha do local de realização; o Floripa Music Hall é central, limpo, bem iluminado, com bons banheiros e com estacionamento fácil (e de graça). É verdade que o estacionamento não é muito grande a ponto de permitir a entrada da Enterprise, mas bastava para veículos civis…
  • O preço dos ingressos: R$ 15,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia). Para um evento que começa às 10 da manhã e vai até até as 19 horas é bem barato.
  • Os convidados das mesas representam parcela interessante da produção atual de quadrinhos. Para quem não os conhecia, estava aí uma chance; para os mais bem informados, foi uma forma de revê-los
  • Trazer artistas para conversar com os fãs, desenharem por lá, e trocarem ideias é sempre muito legal. Aproxima o realizador com o seu público. Deveriam ter sido mais “explorados”.
  • Sorteios de brindes e gincanas sempre são muito divertidos.
  • A heterogeneidade do público foi uma grata surpresa. Sim, encontrei com os nerds de sempre, os cabeludos e barbudos, as meninas esquisitonas, mas vi a vovó que trouxe o neto, o professor de matemática que estava de passagem pelo centro, a bonitona que entorta os pescoços dos rapazes, enfim, várias camadas que se interessam pelo assunto. Isso é muito positivo, pois quadrinhos deixa de ser assunto de gueto…

Negativo

  • Não havia muita opção para alimentação e os preços praticados no interior da convenção eram extorsivos
  • Houve atraso na abertura dos portões e os debates se estenderam para além de seus horários, comprometendo todo o cronograma. Poderiam ter chamado o Wolverine pra ser o mediador: ninguém estouraria o horário!
  • Faltou um grande nome nacional entre os debatedores. Quem sabe ano que vem convidem alguém para uma conferência de abertura. Talvez a organização escolha um homenageado da edição e ele possa ser o cara do momento…
  • Havia poucos expositores e vendedores, e eles estavam confinados a espaços bem limitados. Sebos da cidade, lojas de games, camisetas e suvenires poderiam estar por lá também… afinal, nenhuma convenção de quadrinhos trata apenas de quadrinhos. A cultura de fã abarca games, seriados, livros, animés, vestuário, lembrancinhas diversas…
  • Não ter convidado escolas e articulado a vinda de mais crianças e pré-adolescentes. Vi poucos por lá. A maioria levada por pais ou parentes que já gostam da Nona Arte. Mas fazer com que estudantes frequentem um evento de quadrinhos é também uma importante iniciativa de formação de leitores.
  • Senti falta de grandes editoras ou lojas de quadrinhos, de alcance nacional. A presença de comerciantes locais deu um charme especial e mostrou que há um mercado regional, mas a vinda de grandes players daria mais opções ainda aos consumidores.
  • Por fim, acho que a convenção pode ter uma cobertura ao vivo pelas redes sociais. Twitter, Facebook, YouTube, Orkut e outros lugares estão aí mesmo pra expandir o universo…

coltrane, lego e animação

Michal Levy oferece uma alucinante animação tendo como fundo musical “Giant Steps”, um clássico de John Coltrane. A gravação do saxofonista é de 1959, o filme original é de 2001, mas em 2004 ganhou nova edição da animadora israelense. Junte o jazz com blocos coloridos que mais parecem pecinhas de Lego. Chega de papo! Veja você mesmo!

(dica do Ricardo Lombardi, do Desculpe a Poeira)

porque ainda é dia dos pais

Uma das frases mais conhecidas do cinema é justamente esta:
“Lucke, eu sou seu pai!”

Em homenagem aos pais visitantes deste blog, meu pequeno Darth Vader dá o ar de sua graça.

neve em santa catarina

Meu amigo Frank Maia dá o recado…

uma carta de filho pra pai

Tenho um amigo recente, embora já o admire há anos. Mas a vida só me aproximou dele faz poucos meses. É inteligente, sensível, sereno, muito competente e escreve com uma delicadeza que estremece alicerces de arranha-céus. Quer um exemplo disso? Então, leia a carta que Dauro Veras escreveu para o pai dele, que tem 85 anos e está numa esquina escura da vida…

É lindo, é humano.

fique de olho nesse cara

Li, quase num fôlego só, o livro de estreia de Flávio Izhaki: “De cabeça baixa”. É verdade que recebi o volume há uns dois anos e ele ficou chocando na estante, acenando para furar a fila e cair nas minhas mãos. Ontem, sem motivo nenhum, apanhei o livro, compacto e bem editado, e passei a folhear. Em duas páginas, ele já havia me fisgado, o que é bom sinal.

Pois o carioca de pouco mais de trinta anos tem o punho firme, uma narrativa bem amarrada e um estilo bastante elegante. Com personagens que cabem numa mão só, Izhaki constroi um romance intrigante, especular e muito contemporâneo. E nada simples.

A história é a seguinte:
Felipe Laranjeiras é um carioca que se exilou em Curitiba após o final de um relacionamento e o fracasso do primeiro livro. Parece um estrangeiro, fugindo de si e do mundo. Num dia qualquer, vai a um sebo e se depara com um volume de seu próprio livro, o que já seria um golpe no estômago para qualquer escritor. Afinal, os sebos parecem masmorras onde se descartam os livros que indesejamos. Não bastasse isso, o livro traz uma dedicatória do próprio Felipe a alguém de quem não se lembra. Uma mulher. Felipe fica curioso. E sua curiosidade transborda quando percebe nas margens das páginas anotações pra lá de afrontosas à obra. O que acontece? Felipe vai atrás da mulher que escreveu tudo aquilo.

Posto o roteiro, o leitor que aperte os cintos, pois a viagem será cheia de turbulências e reviravoltas. O livro é envolvente, rápido e certeiro. E seu autor… ouviremos falar bastante dele!

Se você se interessou pelo romance, conheça o blog do autor e assista a um trailer que ele produziu para o livro.

paulo moura foi pro céu

Se o Brasil fosse a pátria do jazz, teríamos perdido um dos grandes mestres.
Como não é, perdemos um grande músico muito mais reconhecido no exterior.
Paulo Moura seria o nosso Lester Young.

viva españa!

A Espanha sagrou-se campeã mundial de futebol hoje à tarde.
Em homenagem, ofereço Miles Davis em inesquecíveis performances do clássico “Concierto de Aranjuez”, presentes no disco “Sketches of Spain”

Viva España! Viva el jazz! Viva la vida!

brasil fora do copa

Minha mulher ficou triste. Meu filho só um pouquinho. Eu, irritado com o trio de arbitragem.

Acabou para o Brasil.

Mas eu queria estar agora na coletiva do Dunga…

quem inventou o laptop?

Não foi nenhum engenheiro do MIT. Nem um mecatrônico japonês da Sony.

Foi Clarice Lispector. A prova está na foto abaixo:

saramago na 1ª página

Um rápido panorama das edições de hoje nos principais jornais portugueses:

O Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias


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dois momentos com saramago

Saramago está morto. Saramago está vivo.

No final dos anos 90, o escritor veio ao Brasil – como tantas outras vezes – para lançar livros e receber homenagens. Eu fazia Mestrado em Linguística na Universidade Federal de Santa Catarina, e o Conselho Universitário aprovou a concessão do título de doutor honoris causa à eminente figura. Saramago veio a Florianópolis, e a honraria seria acompanhada por uma conferência sua.

O auditório da Reitoria estava lotado de autoridades – leitoras ou não do velho escritor. O hall da Reitoria também estava apinhado de gente, todos ávidos para ouvir aquela voz calma. Foi necessário colocar telão para que as pessoas que transbordaram o prédio acompanhassem a cerimônia. Saramago esbanjou elegância, humildade, lucidez. Foi emocionante ouvi-lo, mesmo envolto àquela pompa toda e eu tendo que me acotovelar para poder ver os melhores momentos.

Com Saramago, aprendi que a glória é irmã da discrição.

***

Nos mesmos dias, um amigo próximo participou de uma atividade que envolvia o escritor. Em sua estada na cidade, alunos e professores do curso de Letras encontraram uma brecha na agenda do homenageado para um encontro numa sala, pretexto para debates e troca de ideias. Eu não estava lá, mas confio no que me foi contado.

A sessão – que deveria ser informal – insinuou-se para lá de circunstanciosa. Teve abertura e tudo. Saramago, todo sem graça. O que é que estou a fazer aqui, murmurou, passando a mão pelos longos cabelos na nuca. Alguém fez uma pergunta ordinária, e o escritor emendou com resposta igualmente comum. A plateia, digo os convivas, aplaudiram entusiasticamente. Saramago perdeu a paciência, conta o meu amigo que aquilo testemunhou. Se vamos começar assim, melhor que terminemos. Todos ficaram estupefatos, baixaram suas bolas e a sessão passou a ser mais palatável.

Com Saramago, aprende-se que a pompa é uma falsa sombra do reconhecimento.

era uma vez um verão

Você pode não gostar de jazz. Pode nem saber quem foi Chet Baker. Mas se tem dois dedos de sensibilidade e nove minutinhos de tempo livre, feche os olhos e ouça “Once upon a summertime”, em interpretação soberba do trompetista que despencou do quarto andar de um hotel em Amsterdã. Era a madrugada de uma sexta-feira 13. 13 de maio de 1988.

Vale a nota, mas vale mais a vida e a música.