é a independência jornalística uma ilusão?

Terra arrasada?Um dos aspectos que mais me chamou a atenção quando tive acesso às entrevistas com os principais gestores de mídia do país é que era consensual a necessidade da independência editorial para a sobrevivência do jornalismo e das empresas que disso vivem. Foi em 2009 e eram entrevistas com 22 editores-chefes, diretores e publishers de todas as regiões, e eu estava – junto com outros colegas – concluindo uma pesquisa sobre indicadores de qualidade de informação para a Unesco.

O argumento repetido é que as empresas precisam construir condições para se fortalecer financeiramente de maneira a não depender de verbas publicitárias dos governos. A independência editorial é, então, um resultado da independência comercial. O raciocínio é lógico, linear e de fácil convencimento.

Pois esta semana voltei a ouvir interessantes declarações sobre a independência jornalística. Eu participava, no Rio, do encontro da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica), e acompanhei a mesa redonda “Mídia e democracia: questões teóricas”. Na sessão de perguntas finais, alguém da plateia questionou os palestrantes sobre a hipótese de que alguns veículos de imprensa chantageariam o governo federal com a ameaça de publicação de escândalos políticos, tentando atrair para si mais verbas publicitárias. Mesmo sem mencionar explicitamente, o indagador colocou o problema da independência da imprensa nacional.

Bem humorado, o presidente da Compolitica, Afonso de Albuquerque (UFF), disse que todas as relações humanas de alguma forma são baseadas em chantagem. “As relações sentimentais, mais ainda”, brincou, completando que a hipótese pode acontecer com alguma frequência e por parte de alguns veículos e governos. Quer dizer, é da regra do jogo, pertence à lógica que tensiona esses atores. Tentando desviar de um “cinismo” de seu colega de mesa, Fernando Lattman-Weltman (FGV) também deu de ombros diante da chantagem. “Olha, ninguém é independente. Ninguém. Nem mesmo os mortos, afinal, eles dependem da gente para serem enterrados! Por isso, nem vale a pena lutar por esse valor, pela independência”, afirmou.

Confesso que uma fala tão convicta ficou martelando a minha cabeça. Não porque me apegue tanto a certos valores, mas porque venho assistindo nos últimos anos à franca demolição de uma série deles no campo do jornalismo. Não mais se acredita em objetividade; a imparcialidade é questionada a todo momento; a verdade é relativizada; a ética é flexibilizada; a independência editorial não merece ser cultivada… Com isso, parece que daqui a pouco não vai sobrar pedra sobre pedra…

Afinal, esses valores, por décadas, serviram de alicerces para o jornalismo, tanto do ponto de vista ético quanto para garantir padrões mínimos para a sua execução técnica. É verdade que o jornalismo já não é mais o que foi; que a sociedade mudou; nossas percepções de espaço e tempo também foram transformadas; e o mundo e a vida são outros. Entretanto, temo que, no afã de se reformar o jornalismo, jogue-se a criança junto com a água do banho.

A pergunta que agora assalta a minha consciência é: se estamos em busca de uma nova ética para este novo jornalismo, em que mesmo ela estaria apoiada?

Alguém aí se arrisca a responder?

afinal, como se narra a dor?

Os tiros da manhã de quinta-feira na zona oeste do Rio de Janeiro sacudiram as atenções da maioria dos brasileiros. Como se estivéssemos em um sono profundo, fomos atirados da cama para perceber uma realidade assustadora e terrível. O resultado aterrador do massacre na escola de Realengo era algo que sempre imputamos aos norte-americanos, um povo tão beligerante que se arma até em supermercados. O resultado do massacre é uma fila de corpos de quem cultivava seu futuro ainda de forma muito adolescente. O resultado é o aparecimento de personagens como o atirador, movido por razões ainda desconhecidas, moldado pela solidão, frustração e pensamentos doentios.

Infelizmente, o país já havia visto adolescentes vitimados pela violência urbana. Desconhecido ainda era o anônimo que encarna o mal e dispara o gatilho não mais a esmo, mas escolhendo suas vítimas, alvejando órgãos vitais, recarregando reiteradamente as armas, disposto a acabar com tudo.

(Trecho do Comentário da Semana, que assino hoje no objETHOS. Na íntegra, aqui)

 

 

o major me ligou

21h44 de ontem e toca meu celular. Não reconheci o número que chamava, mas atendi. Do outro lado, uma voz calma, num tom baixo, anunciou que se tratava do major Marcio Luiz Alves, responsável pela Defesa Civil em Santa Catarina. Respeitosamente, desculpou-se de estar ligando àquela hora e justamente no celular, e perguntou se eu tinha tempo para falar com ele. Respondi afirmativamente, e ele revelou que me ligara por conta de um post neste blog, em que eu questionava a atitude dele se candidatar em 2010 a uma vaga na Assembleia Legislativa.

No post de janeiro deste ano (leia aqui), eu me questionava se aquele gesto não teria sido oportunismo, já que o soldado frequentava com assiduidade os meios de comunicação locais. À época do post, eu “pensava em voz alta”, tentando investigar as razões da minha discordância de sua atitude.

Pois bem, não é que ontem me liga o major?

Como jornalista, não foi a primeira vez que alguém me procurou para comentar o que escrevi. Já recebi telefonemas mais inflamados, menos educados, alguns até ofensivos, outros elogiosos. Já recebi ameaças ostensivas e veladas, e chamadas que tentavam me convencer de que aquela não era a melhor maneira de narrar ou descrever algo.

Mas o telefonema do major me surpreendeu ontem. Não por ele ter ficado “chateado” com o que escrevi, mas pelo tom cordato, civilizado; pela atenção que dispensou ao contar pacientemente sua trajetória pública. Me surpreendeu também o fato de ele encontrar o telefone pessoal de um blogueiro desconhecido e tentar falar com ele pessoalmente, para explicar suas razões. Ele poderia ter ignorado, ou deixado um comentário no blog… Achei, no mínimo, atencioso. O major tinha o claro propósito de tirar uma má impressão que eu mantinha dele, e isso me fez pensar sobre como as redes sociais, os blogs, e as novas tecnologias de informação e comunicação podem aproximar mais e mais as pessoas. Imagine se todo político tivesse esse canal aberto com seus eleitores? Imagine se também ocorresse o contrário: um eleitor indignado com seu representante ligaria para ele se queixando?

Pois esses novos dispositivos de comunicação que dispomos permitem o encurtamento de certas distâncias. No meu caso, me manifestei num blog. Por alguma razão qualquer, o major leu e quis falar com aquele cara que dele escreveu, quis conhecer um eleitor anônimo. Em termos de democracia, não é pouca coisa. Em outros tempos, um militar te ligaria para tirar satisfação e não para prestar informações. Nos quase vinte minutos de chamada, não me senti pressionado a apagar meu post ou a fazer qualquer retratação. Do outro lado da linha, o major em nenhum momento insinuou isso. Percebi que ele respeitou minha opinião, e porque achei o caso surpreendentemente positivo e por respeito a ele, faço esse registro.

congresso internacional de ética

Acontece hoje, amanhã e quarta na Universidade de Sevilha, Espanha, o 1º Congresso Internacional de Ética da Comunicação.
Veja a programação aqui.

 

e se tivéssemos um sistema deontológico?

Hoje, no Observatório da Ética Jornalística, assino um artigo em que defendo a concepção e implementação de um sistema deontológico para o jornalismo brasileiro. Esse tal sistema nada mais seria do que um conjunto de ferramentas e ações para fortalecer uma ética que ajude a redefinir nossa profissão. Mas por quê?, você pode perguntar. Eu respondo: acho que hoje em dia a definição dos contornos dessa atividade passa antes por vias deontológicas do que por jurídicas.

Quer saber mais? Vai lá no objETHOS!

 

 

 

ética para blogueiros

A definição de padrões de conduta para quem navega na web é um assunto bastante polêmico e recorrente. Desde o surgimento da grande rede, alguns cidadãos mais preocupados tentaram estabelecer algumas regras mínimas para uma convivência virtual. Surgiam as netiquetas, isto mesmo, no plural. Listinhas que tentam normatizar os comportamentos no ciberespaço existem aos montes, e de alguma maneira isso evoluiu para duas direções: a mais robusta delas é a das políticas de privacidade, algo mais institucional e corporativo e que tenta sinalizar ao visitante de um site alguns limites na sua interação com aqueles conteúdos e ambientes; uma segunda “evolução” das netiquetas são os códigos de conduta para blogueiros e redes sociais.

Já houve algumas tentativas de regramento das atitudes de blogueiros, mas todas elas ficaram ou muito restritas a grupos ou mostraram-se pouco eficientes. Trocando em miúdos: parece haver uma resistência maior da comunidade de usuários de estabelecer regras de conduta, receando que firmar um pacto como este possa “engessar” os blogs, cercear a ação de seus titulares.

Este medo é justificado? Talvez sim, mas não quero discutir isso agora. O que me interessa mesmo é trazer esse assunto à tona, já que ele me interessa bastante. Tanto como pesquisador da área quanto como blogueiro. E é aqui que eu queria chegar!

Códigos de ética para blogueiros são importantes? Podem ser.

São eficientes? Talvez.

São necessários? Ainda não sei, mas sei de uma coisa: não se pode conviver em grupo sem um conjunto mínimo de critérios e valores que sinalizem limites para os indivíduos. Sem isso, corremos o risco de atropelar as pessoas, ignorando aspectos importantes da sociabilidade humana. Não estou falando que todos os blogs devem seguir as mesma regras de ortografia, de distribuição visual de seus conteúdos, de oferecimento de links, etc.

Eu me refiro a aspectos mais profundos, a exemplo de valores como respeito a quem visita o blog, criatividade na oferta de conteúdos, inteligência na expressão de ideias, independência editorial, originalidade e inovação, entre outras coisas. Claro que cada um pode criar e manter o blog que bem lhe der na telha. Mas como qualquer meio de comunicação, um blog não pode descuidar daqueles que consomem seus conteúdos, que interagem com eles, que o replicam e por aí vai.

De maneira muito particular, tenho algumas regras no Monitorando:

a) Não reservo espaço para anúncios publicitários: tento “preservar” meu leitor da enxurrada de banners, pop-ups e outras interferências nos posts que tenham caráter comercial. A razão é muito simples: não ganha dinheiro com o blog e não tenho esta intenção. Ao me dedicar ao Monitorando, de alguma maneira, quero ter uma presença pessoal na web, estabelecer conexões com outras pessoas e ainda contribuir com algum conteúdo a este grande projeto de inteligência coletiva que é a web.
b) Não faço troca de links: o motivo é igualmente simples. Indicar um endereço na internet é como indicar um restaurante para um amigo, um hotel para um visitante, e por aí vai. Não pode ser qualquer indicação; é como empenhar a própria palavra. Existe uma responsabilidade embutida ali. Se alguém oferece um link, testo e vejo que vale a sugestão, indico, naturalmente. Mas trocar links não é só fazer uma ação entre amigos, é também estalecer uma reciprocidade compulsória, distante da espontânea indicação. Eu ainda prefiro a liberdade de escolher a quem indicar.
c) Não bajulo quem não mereça: as razões são as mesmas do item anterior.
d) Não ofereço links patrocinados: novamente, o que me desmotiva a fazer isso é a busca de uma independência editorial para o blog. Quero manter a liberdade que um blog me reserva. Nesta semana, por exemplo, fui procurado por um portal com a seguinte proposta: eu escreveria um post de até 300 palavras sobre um determinado assunto e me pagariam 25 euros por isso. Depois de escrever, eu deveria comunicar ao portal sobre o post, eles o cadastrariam e seria feito um vínculo entre meu post e o tal portal. Resumo da ópera: eu produziria conteúdo qualificado para o portal sobre o tal assunto e ganharia um dinheirinho. Declinei. Não se trata de pudor, não estou rasgando dinheiro, nem sou maluco. Mas é que prefiro escolher sobre o que escrever, quem linkar e quando fazê-lo. Prefiro ter a liberdade, inclusive, de citar esse caso, de falar abertamente sobre o tema. É uma questão de princípio, um

Sou melhor que os outros blogueiros? Claro que não.
O Monitorando é melhor que outros endereços por aí porque tem essas regrinhas? Claro que não, até porque os critérios que aferem qualidade são muito mais diversos, amplos e complexos.

Mas eu faço questão de criar limites para a minha conduta, de adotar essas regras e apresentá-las aos meus leitores. Acho mais honesto e franco, pois é nisso também que a internet se apoia, acredito eu. Mas mais importante que criar e seguir regras de conduta é pensar sobre elas. É nisso que consiste o raciocínio ético, é desta forma que se experimenta uma reflexão de caráter moral. Parece tão fora de moda, né? Mas que nada! Os valores e os princípios são uma necessidade da experiência humana, caminhos pelos quais nos aproximamos e nos afastamos uns dos outros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

pra que serve uma foto mesmo?

Um dos maiores prêmios do fotojornalismo contemporâneo acaba de ser dado a um trabalho desconcertante: o retrato de uma jovem afegã que teve nariz e orelhas cortados pelo marido. A fotografia assinada pela sul-africana Jodi Bieber e publicada na capa da Time em agosto do ano passado venceu o World Press Photo. Ousada e agressiva, comovente e revoltante, a imagem correu o mundo por conta da sua contundência e do impressionante alcance da publicação que a estampou nas bancas.

Mas por que o jornalismo recorre a um expediente desses ainda hoje? Afinal, para que serve uma foto dessas?

Tento responder a isso lá no objETHOS

 

wikileaks e a liberdade na web: grátis!

A editora Graciela Selaimen, do Nupef, informa que acaba de sair mais uma edição da revista poliTICs, agora com o tema Wikileaks e a liberdade da web: ataques e resistências.

A publicação pode ser acessada gratuitamente aqui.

Veja o sumário

>Algumas lições importantes que o caso Wikileaks ensina – Graciela Selaimen

>Por que o Wikileaks polariza a política de internet norte-americana – Milton Mueller

>Ética jornalística, novas mídias e eleições no Brasil – Rogério Christofoletti

>Lanhouses no Brasil: desafios a enfrentar – Alexandre Fernandes Barbosa e Winston Oyadomari

>A Lanhouse nas palavras de quem faz – Mario Brandao

>Wikiliquidação do Império? – Boaventura Souza Santos

>Qual o potencial de uma rede? – Alexander R. Galloway

mídia & política voltou

A boa notícia vem de Brasília:

O Observatório Mídia&Política está de volta e lança a primeira edição de 2011 com um assunto polêmico: a comunicação no governo Lula. Como se desenvolveu a política de comunicação nos dois mandatos de Lula? De que maneira funcionou a Secretaria de Comunicação da presidência da República? Como foi a  comunicação de Lula com a população?

O Mídia & Política reúne pesquisadores do quilate de Venício A. Lima, Luiz Gonzaga Motta, Fabio Pereira, Samuel Pantoja Lima e Thaïs Mendonça, e faz parte da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi)

liberdade de expressão e auto-regulação

A Unesco promove hoje e amanhã em Paris um amplo seminário que vai discutir liberdade de expressão e auto-regulação na Europa. O evento vem sendo anunciado com alarde desde o ano passado e avança nos empreendimentos da organização no debate sobre segurança dos jornalistas, liberdade da internet, liberdade de imprensa no mundo e marcos regulatórios para a mídia em diversas partes.

Por questões operacionais, a Unesco dividiu o seminário em dois eventos seguidos:

Simpósio Internacional sobre Liberdade de Expressão

Conferência sobre ética jornalística e auto-regulação na Europa: novas mídias, velhos dilemas

 

o objethos em 2011

Sabe o Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), projeto que coordeno com o professor Francisco José Karam na UFSC? Em 2011, teremos novidades, conforme se pode ver no post que reproduzo…

O Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) tem grandes planos para o ano que vem. Por isso, neste período de festas natalinas e de recesso escolar, a equipe trabalha nos bastidores do projeto, planejando novas ações para 2011.

Podemos adiantar três boas notícias:

1. Em 2011, o objETHOS vai ampliar a produção e difusão de conteúdos exclusivos sobre ética jornalística, publicando diariamente

2. Em 2011, o objETHOS virá com um novo projeto gráfico, com visual mais atraente e amigável

3. Em 2011, o objETHOS vai promover o 1º Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo, evento previsto para junho.

 

ética em destaque na nova edição da líbero

O número 26 da Líbero, a revista científica da pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, já está disponível na rede. Em destaque, o tema da ética na comunicação, presente em pelo menos quatro artigos. Vale conferir. O sumário é o seguinte:

TEXTOS EM CONTEXTO
O Fórum de Pesquisa Cásper Líbero e os desafios da pesquisa em comunicação na era do capitalismo global
Cláudio Novaes Pinto Coelho / Maria Goreti Juvencio Sobrinho

Comunicación y sociedad del conocimiento: proyectos de investigación em la región mediterrânea (Europa y Norte de África)
Teresa Velázquez

ARTIGOS

A ética como discurso estratégico no campo jornalístico
Luís Mauro Sá Martino

A inversão do olhar: perspectivas para a análise de discurso nos estudos da comunicação
Kleber Mendonça

Visualização de informações estruturada por bancos de dados digitais: o Jornalismo em sintonia com a complexidade informativa contemporânea
Walter Teixeira Lima Junior

Faces e interfaces que se revelam nas práticas discursivas das organizações
Regiane Regina Ribeiro / Marlene Marchiori / Wilma Vilaça

Ética do discurso e deliberação mediada sobre a questão das cotas raciais
Ângela Cristina Salgueiro Marques

Ensino de deontologia jornalística: um olhar sobre os currículos dos cem cursos mais antigos do país
Rogério Christofoletti

La presencia del deporte en el periodismo científico de los diarios en línea: una comparación entre Brasil y España
André Kauric / Santiago Graino Knobel / Adilson Luiz Pinto

A reflexividade no tensionamento do individual e do coletivo no discurso da revista Vida Simples
Márcia Franz Amaral / Gisele Dotto Reginato

O Conar e a regulação da publicidade brasileira
Juliana Santos Botelho

A cultura mediada pelos gêneros: uma investigação sobre os desdobramentos da família em anúncios de TV
Vanessa Rodrigues de Lacerda e Silva

Os formatos de anúncio publicitário no rádio: proposta de classificação dos diferentes tipos de patrocínio
Clóvis Reis

RESENHAS

O que importa é ser feliz?
Frederico de Mello Brandão Tavares

Educar e entreter: a construção da cidadania e a busca pela audiência na TV
Rafael de Oliveira Lourenço

 

 

 

para saber do rio, cadernos de reportagem!

Se você está interessante nos mais recentes acontecimentos que movimentam o Rio de Janeiro, não pode deixar de conhecer o Cadernos de Reportagem, um projeto do curso de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF).
O blog foi criado há dois meses, é produzido pelos alunos do curso e coordenado pelos professores Ildo Nascimento e Sylvia Moretzsohn.
Jornalismo crítico e antenado.

um centésimo de segundo em seis minutos

Um dilema ético clássico do fotojornalismo num filme curto e certeiro.

dilemas éticos na cobertura da guerra no rio

Todas as cabeças se voltaram para o cerco ao crime organizado no Rio de Janeiro. Muito rapidamente, discuto alguns dos dilemas éticos que a cobertura jornalística está apresentando nesses primeiros dias de noticiário:

Os poucos dias de cobertura têm-se revelado nada fáceis para os jornalistas destacados para acompanhar as ofensivas. Por mais preparado que esteja o profissional, subir ladeiras, esgueirando-se de tiros, vestindo pesados coletas à prova de bala, fazendo passagens ao vivo sem ofegar muito são tarefas que exigem condicionamento físico, equilíbrio emocional, raciocínio rápido e frieza. Não é demais lembrar que, no front, o jornalista é o único que não está armado, que não pode trocar tiros. É um alvo relativamente fácil e a identificação de seu colete pode funcionar mais como ponto de referência, chamariz, do que como alerta, salvo-conduto.

Nas redações, o nervosismo também prejudica a tomada de certas decisões: há muito jogo, inclusive a vida dos colegas nas ruas. A pressa de divulgar amplia muito a margem dos erros e contribui perigosamente para as estatísticas desabonadoras do jornalismo. Como qualquer guerra, a Rio reserva uma série de dilemas éticos para os jornalistas.

Quer ler na íntegra? Vá ao Observatório da Ética Jornalística, objETHOS!

 

privacidade, interesse público e equilíbrio

Como qualquer atividade humana, o jornalismo se equilibra em valores. Interesse público, equilíbrio no tratamento das informações e respeito à privacidade são alguns deles.

Na coluna de hoje, a ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, escreve que muitos dos leitores daquele jornal se queixaram da reportagem que denunciava que Mônica Serra, esposa do presidenciável José Serra, teria feito um aborto há décadas no Chile. Os leitores criticaram o jornal pela invasão de privacidade e questionavam o valor jornalístico da matéria assinada por Mônica Bérgamo. A ombudsman reconheceu que a reportagem trata de um assunto delicado e “quase inverificável”. Mas defende a oportunidade de tratar do tema, tão explorado na campanha eleitoral não apenas por Serra, mas por sua rival Dilma Rousseff. Suzana Singer conclui:

É, sem dúvida, polêmico e desconfortável fazer jornalismo da vida privada. Mas, à medida que os dois candidatos -Serra e Dilma- assumem personagens quase fictícios nessa campanha, justificam-se os esforços em tentar desnudá-los.

Um leitor mais exigente poderia indagar: Quer dizer que para “desnudar” um candidato os jornalistas podem até mesmo invadir o seu passado, a sua privacidade?

Particularmente, não sei se é pra tanto, mas a se pensar… A se pensar nos limites para o jornalismo, inclusive o praticado pelos jornalões como a Folha. Em setembro passado, durante a Semana do Jornalismo aqui na UFSC, a mesma ombudsman da Folha deu detalhes sobre como o seu jornal se orienta para cobrir os candidatos. Entre outros indicadores, estão as pesquisas eleitorais, e quem está na frente recebe mais atenção que os demais. Não proporcionalmente em termos de espaço, mas em termos de investigação. Isto é, quem está na frente tende a ter mais preocupação do jornal em “desnudar” seu passado, suas ações, suas promessas.

Confesso que essa orientação me incomoda. Ela se distancia muito de uma cobertura equilibrada, balanceada e justa. É certo e esperado que a imprensa fiscalize, investigue, vasculhe informações atrás de detalhes que atendam ao interesse do público, da coletividade. Mas é preciso fazer isso de lado a lado, não impulsionado por pesquisas ou sondagens, mas por valores mais perenes e amplos. Ficar ao sabor do vento não me parece garantir uma boa jornada nesses tempos tão revoltos…

“garanta o seu emprego que eu garanto a minha dignidade”

O apresentador Paulo Beringhs, da TV Brasil Central, afirmou ao vivo que sua emissora teria recebido ordens para não realizar entrevista com o candidato Marconi Perillo (PSDB) ao governo de Goiás. Em seguida, sinalizou que por conta daquela informação muito possivelmente não estaria no dia seguinte na mesma bancada…

(dica da professora Maria José Baldessar, também publicado no Portal Imprensa)

curso de ética jornalística a distância

(Reproduzido do objETHOS)

O projeto Knight Center for Journalism in the Americas, dirigido pelo brasileiro Rosenthal Calmon Alves, está com inscrições abertas para um curso de ética jornalística para a era digital. O curso é gratuito, a distância e totalmente em inglês. O ministrante é o professor Edward Wasserman, referência obrigatória para os estudos da área, com diversas obras do gênero e com assento nas universidades de Washington e Lee em Lexington, Virginia.  Wasserman é ainda um especialista em mudanças tecnológicas, controle de mídia, plágio, fontes de confidencialidade e conflito de interesses.

O curso é dirigido a jornalistas da América Latina e Caribe com pelo menos três anos de experiência e que tenham um inglês em nível intermediário, isto é, que falem, escrevam e leiam no idioma.

Mais informações: http://bit.ly/b3UWXY

 

 

democracia e jornalismo: vagas limitadas

Está em Florianópolis? Já se inscreveu neste evento?

tom moralista domina a campanha

Acabo de postar um comentário sobre esta segunda etapa das eleições:

Para além das plataformas eleitorais, José Serra e Dilma Rousseff têm se preocupado emdemarcar posições também no campo dos valores. Não é à toa que o tema mais influente nos primeiros dias foi o aborto: envolve discussões de cunho social, pessoal, moral e religioso. (…) O que se viu nos primeiros dias deste segundo turno pode ser a tônica da etapa final da campanha: um debate menos político e mais moral, uma disputa mais de valores do que de propostas.

Leia a íntegra no objETHOS.

veja derrapa. de novo

A edição que está nas bancas da revista semanal de informação mais influente do país é categórica: o governo Lula não quer jornalismo nenhum e está fazendo de tudo para cercear a liberdade de imprensa.

Impositiva, editorializada, recheada de adjetivos e carente de dados, a matéria de capa – A imprensa ideal dos petistas – é assinada por Fábio Portela. Em oito páginas fartamente ilustradas, a Veja desfere frontais ataques ao governo numa espécie de revide após declarações críticas do presidente Lula na semana passada. Lula se queixava da imprensa, o que é natural e esperado de qualquer governante. Veja transforma as reclamações em ações concretas do governo para deter os meios de comunicação e os jornalistas. Este é o raciocínio, que – convenhamos – não se sustenta pela absoluta falta de dados da realidade e argumentos no plano discursivo.

A revista exagera.

Sim, estamos a menos de uma semana das eleições e os ânimos estão inflamados. Mas isso não justifica exagerar.

Se um estrangeiro ou alienígena lesse a reportagem, sua impressão seria a de que vivemos num país ditatorial, que não existe liberdade individual e que o exercício profissional dos jornalistas é impedido pelas instituições. E isso não é verdade. A questão da liberdade de expressão e de imprensa é um nervo exposto, delicado, quando se discute solidez democrática, estabilidade política e vigência de estado democrático de direito. Historicamente, há uma relação tensa entre governos e mídia, pois alguns interesses de lado a lado não coincidem e, às vezes, se contrapõem. Os governos têm suas funções, a mídia também. Consagrou-se para o jornalismo a tarefa de fiscalizar os poderes, o que significa denunciar abusos, investigar, revelar e apresentar à sociedade sintomas do mau funcionamento das relações entre estado e cidadãos.

Com isso, reafirmo: é natural que os governantes se queixem da imprensa. Assim como é natural os jornalistas reafirmarem a defesa das liberdades de imprensa e expressão, e perseguirem sua função de cães de guarda frente os poderes instituídos. Mas a própria reportagem da Veja não sustenta o pânico que tenta instaurar. Das seis “ameaças” do governo apresentadas num box da página 79, nenhuma se efetivou. Por quê? Por várias razões, entre as quais o fato de que o país é mais complexo do que supõe a revista e que as instituições, se e quando contrariadas, atuam politicamente, fazendo funcionar um sistema de pesos e contrapesos para estabilizar a democracia.

Por isso, a reportagem da Veja derrapa. É mais campanha antigoverno do que peça jornalística. Basta contar as fontes ouvidas. Não se ouve o lado denunciado. O governo ou fontes ligadas a ele são apenas mencionadas; não foram procuradas, ouvidas ou entrevistadas. Ouvir os lados é essencial no jornalismo. Ser parcial e não promover a pluralidade de opiniões e versões é tão ou mais perigoso quanto as “ameaças” do governo…

objethos está mais multimídia

A partir de hoje o site do Observatório da Ética JornalísticaobjETHOS – oferece um novo serviço aos seus leitores: áudios de entrevistas com jornalistas sobre o tema da ética. A seção Ponto de Vista traz podcast produzido pelas repórteres do projeto, acompanhado de um slideshow. A entrevista de estreia é com a repórter Eliane Brum, que abriu a 9ª Semana de Jornalismo na UFSC.

O objETHOS é um projeto de pesquisa e extensão que coordeno no Departamento de Jornalismo junto com o professor Francisco José Karam. Nosso objetivo é desenvolver investigações científicas sobre o grande tema da ética no jornalismo, além de produzir conteúdos que possam servir de referência para profissionais, acadêmicos e demais pessoas que se interessem pelo assunto. O objETHOS surgiu há um ano e já conta com a valiosa parceria do Observatório da Imprensa.

Enquetes, pensatas, resenhas de filmes, artigos, comentários e análises podem ser acessados gratuitamente.
Passe por lá!

jornalismo, mercado de trabalho e novas funções

Estou em Caxias do Sul (RS) para uma participação relâmpago no 33º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, promovido pela Intercom. A convite do professor Felipe Pena, da UFF, compus com outros colegas uma mesa que discutiu hoje à tarde as novas funções profissionais na atividade jornalística.

Por conta da GOL, cheguei cinco horas atrasado na cidade. Meu roteiro inicial era estar por aqui às 10h30 e só fui botar os pés na Universidade de Caxias do Sul às 15h45. Detalhe: a mesa começou seus trabalhos às 14 horas. Por simpatia e benevolência dos colegas da mesa e da plateia atenta, tive 10 minutinhos para falar, antes que a sessão terminasse. Mas disse aos presentes que deixaria neste blog a íntegra do texto que embasou a minha fala e que não está disponível nos anais do evento.

Promessa feita, promessa paga!

os 10 piores defeitos dos jornalistas

  1. Faltar com o rigor ou a ética.
  2. Acreditar que é o único que conhece “a verdade”.
  3. Achar que é infalível.
  4. Pertencer a uma falsa elite de “jornalistas medalhões”.
  5. Criar manchetes a partir de perguntas capciosas.
  6. Autocensurar-se por vários motivos.
  7. Acreditar que é juiz ou salvador.
  8. Confiar demais nas fontes.
  9. Esquecer que seu objetivo principal é informar as pesssoas.
  10. Acomodar-se em recursos fáceis como o “copia-e-cola” ou “google”.

Calma. A lista não é minha.

A jornalista Esther Vargas conta que a lista surgiu a partir da pergunta “Qual é o principal defeito de um jornalista?”, lançado na página Clases de Periodismo no Facebook.

Você concorda ou discorda? Antes, conheça a lista inteira.

e agora, não é censura?

O 8º Congresso Brasileiro de Jornais terminou na semana passada com a sinalização de que a entidade maior do setor, a ANJ, criará até o final do ano um conselho de autorregulamentação. Segundo a presidente da associação nacional, Judith Brito, o órgão deve ter sete membros e vai se ocupar da aplicação do código de ética da entidade. A notícia faz lembrar a ruidosa discussão de seis anos atrás, quando a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) defendeu a criação de um Conselho Federal de Jornalistas. Em 2004, a proposta causou grande polêmica, dividindo a categoria e espalhando mal estar no mercado.

O cenário cindido tinha de um lado, a defesa da necessidade de um órgão que pudesse regular a atividade jornalística, observando regras de acesso à profissão e aplicando o código de ética da categoria. No outro lado, havia o medo de que a a instância se tornasse um instrumento de censura ao jornalismo. O fato é que a ideia do Conselho Federal de Jornalistas foi rechaçada, muito por conta de uma ampla campanha que promoveu o terror na sociedade: um grupo de sindicalistas iria censurar os meios de comunicação! O resultado foi o arquivamento da proposta e a perda de uma oportunidade história para se discutir limites éticos e práticos para o jornalismo nacional.

Agora, uma ideia semelhante vem à tona. Não é preciso ir muito longe para ver que a proposta de um conselho de autorregulamentação dos jornais tem parentescos com a do Conselho Federal de Jornalistas. Há preocupações legítimas de se garantir a ética nos negócios e a responsabilidade social dos jornais. Mas o que causa surpresa é que, agora, não se rotula a proposta de censora, inibidora da liberdade de expressão no setor. Ora, o que mudou em seis anos? O conceito de liberdade de imprensa se modificou? O jornalismo se tornou mais livre desde então? Foram definitivamente afastadas as tentações de centralização da opinião e de controle da informação?

Nada disso. Os contextos atual e o de 2004 são bem semelhantes: o jornalismo ainda continua sua luta cotidiana em prol da pluralidade e da liberdade de informação e opinião; o jornalismo mantém seu compromisso com a democracia, na defesa do direito e no atendimento ao interesse público; o jornalismo continua sendo hostilizado por governos, empresas e cidadãos comuns que não se conformam com sua função fiscalizadora. O que distingue 2004 de 2010 é a cada vez mais evidente constatação de que o cenário da comunicação está em transformação acelerada, e que os jornais impressos em particular precisam se reposicionar no mercado; que precisam se reinventar para dividir a atenção e as verbas publicitárias com os meios eletrônicos e instantâneos; que não podem se acomodar sob pena de não sobreviverem. Isto é, motivações muito mais econômicas que políticas orientam a Associação Nacional dos Jornais a retomar um papel de protagonismo – já que essa expressão está tão em moda – no ecossistema informativo brasileiro. Os jornais querem manter seu prestígio junto a camadas sociais influentes; querem sobreviver e prosperar. E para fazê-lo é imperativo que se reaproximem da sociedade, que se reposicionem politicamente, empunhando bandeiras que são estratégicas, legítimas e populares, como a qualidade e a ética.

Um conselho de autorregulamentação para os jornais, gerido pela entidade empresarial do setor, é legítimo e é bem-vindo. Assim como um conselho federal para a categoria, a exemplo de entidades classistas que aproximem as profissões com a sociedade, como é o caso da Ordem dos Advogados do Brasil ou do Conselho Federal de Medicina. A sociedade precisa de órgãos ou instrumentos que promovam a ética e os valores, que incentivem a qualidade de produtos e serviços, que defendam os direitos individuais – como a privacidade e a liberdade de opinião – e os direitos coletivos – como o direito de ser bem informado. Não se trata aqui de defender um burocratismo que se apoie em entidades, conselhos, comitês que mais emperram que facilitam a vida do cidadão comum. Trata-se mais de promover o surgimento de iniciativas que possam se constituir em instrumentos verdadeiros e efetivos que auxiliem os públicos no consumo crítico das informações e do entretenimento.

Por isso, acho uma boa ideia a do conselho de autorregulamentação da ANJ. Como defendi claramente a existência de um Conselho Federal dos Jornalistas, proposta pela Fenaj. Aliás, penso que as duas entidades e outras ligadas às comunicações poderiam se aproximar mais em algumas lutas em comum. A ética no jornalismo preocupa também à Associação Nacional dos Editores de Revista (ANER), ao Fórum Nacional pela Democratização das Comunicações (FNDC), à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) ou à sua irmã, a Abra, entre outras entidades. Um bom primeiro passo pode ser dado na discussão e elaboração de um código de ética comum a elas. Durante a Conferência Nacional de Comunicação, em dezembro do ano passado, foi aprovada uma resolução para um Código de Ética do Jornalismo, primeiro documento que seria chancelado tanto por jornalistas quanto por empresas, que teria força de lei e que seria mais efetivo que os acordos deontológicos hoje tão segmentados.

Esta é uma proposta que a ANJ poderia abraçar agora já que está tão disposta a promover a ética jornalística…

ex-hacker existe?

Ao final da leitura de “Watchman – a vida excêntrica e os crimes do serial hacker Kevin Poulsen”, uma pergunta me martelou a cabeça: as pessoas podem mudar tanto assim?

Não que a biografia assinada pelo jornalista Jonathan Littman tenha me levado a pensar nisso. O livro conta como um adolescente norte-americano pacato, tímido e muito hábil se torna uma espécie de Inimigo Público Nº 1 nos Estados Unidos no começo dos anos 1990. Na década anterior, Kevin Poulsen era um gênio que se aventurava a hackear comunicações telefônicas, e em seguida passou a operar computadores se convertendo num impetuoso invasor de sistemas, acusado pelo FBI inclusive de espionagem.

Poulsen foi também o primeiro hacker a cumprir uma pena de prisão por seus atos – quase cinco anos atrás das grades – e ficou fora de circulação justamente no período em que a internet fervilhava, e novas gerações de hackers apareciam.

Mas como eu disse, não foi a leitura de sua biografia que me chacoalhou tanto. Foi juntar seu passado com sua atuação no presente. Poulsen deixou a cadeia em 1996, e passou a trabalhar com segurança online. Sua empresa chegou a ser adquirida pela gigante Symantec, e hoje Kevin Poulsen é ninguém menos que um dos editores-sêniores da Wired, a mais influente revista de tecnologia do mundo. O que é ter um ex-hacker na redação? O que teria feito com que Poulsen deixasse a adrenalina de seu cotidiano para “baixar a bola” e trabalhar com jornalismo? O tempo nos presídios o regenerou?

Na CampusParty deste ano, a organização trouxe Kevin Mitnic, outro lendário ex-hacker que cumpriu pena, deixou o “lado negro da força” e virou consultor de segurança. Assim como seu xará, Poulsen deixou tudo pra trás?

Alguém já me disse que “uma vez hacker, sempre hacker”. Isso porque o negócio nessa atividade não é dinheiro nem fama, mas entusiasmo pelo risco, respeito dos pares e outros valores de uma ética muito particular. Aliás, foi por conta da ética hacker que cheguei à biografia de Poulsen e venho estudando outros textos. Minha pesquisa sobre novos valores éticos que poderiam contagiar a prática jornalística esbarra na ética hacker e na presença de outros atores no cenário comunicativo contemporâneo. Mas a dúvida persiste: existe ex-hacker?

O que você acha?

o estupro, a denúncia, o jornalismo e as redes sociais

Na semana que passou um email explosivo se espalhou como rastilho de pólvora na Grande Florianópolis: adolescentes filhos de gente importante da mídia e da elite teriam violentado uma jovem na cidade. A denúncia se disseminou pelos porões da internet, sob a assinatura difusa de “mães do Colégio Catarinense”. Cocei os dedos para escrever sobre o assunto, mas não tive elementos suficientes para fazer uma análise mais equilibrada, mais detida, mais focada.

O César Valente fez isso hoje, e recomendo a leitura no blog dele.

jornalistas mineiros e um projeto para o brasil

Após uma saga de proporções épicas, estou em Araxá para o 11º Congresso dos Jornalistas Mineiros, um evento organizado pelo sindicato local e cujo tema é bem oportuno para este ano de eleições: “O jornalista profissional na construção de um projeto para o Brasil”.

Fui convidado pela organização para debater com o jornalista Leandro Fortes (Carta Capital)

a formação profissional, a regulamentação e a ética. Mas o encontro reserva outros momentos, como uma mesa redonda sobre conjuntura política e eleições presidenciais (com Plínio de Arruda Sampaio, da Unicamp, e Marcos Coimbra, do Vox Populi) e outra sobre convergência de mídias e precarização do trabalho, com os professores Juliano Maurício Carvalho (Unesp) e César Bolaño (UFS).

O evento começou ontem à noite e prossegue até amanhã.

Mais informações: http://congressosjpmg.wordpress.com

a morte no jornal e o jornalismo ferido

Uma reportagem cotidiana sobre um crime banal vem causando algum alvoroço nas redes sociais e em listas eletrônicas por aí. Assinada por Afonso Benites e publicada em 28 de maio passado na Folha, a matéria provoca mal estar por conta de dois trechos que, de jornalísticos, nada têm. Leia, com meus grifos:

José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90). Era dia de promoção —a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.

As queixas que colhi por aí são de duas naturezas: técnicas e éticas. Em alguns comentários, elas se fundem. Mas de maneira geral, as reclamações se resumem a três:

  • A Folha de S.Paulo estaria fazendo merchandising no meio de uma peça jornalística, contrariando uma antiga divisão de territórios no terreno da comunicação e no interior do próprio negócio das notícias: jornalismo de um lado e publicidade de outro. É a velha separação Igreja-Estado, dois poderes na sociedade que devem se respeitar, conviver em relativa harmonia e preservar suas autonomias, sem mútua intervenção.
  • A Folha de S.Paulo estaria banalizando a violência urbana na medida em que notícias policiais estariam se prestando a veicular informações de cunho publicitário. Pouco importam as três vítimas esfaqueadas no hipermercado. Interessa mais é aproveitar a situação para evidenciar produtos e promoções.
  • A Folha de S.Paulo teria ultrapassado o limite do mau gosto, do respeito à vida alheia, tripudiando com perigosa ironia o fato noticiado e suas circunstâncias.

Confesso que a leitura da matéria me causou um tremendo estranhamento. Não me soou bem, me pareceu sarcástica, oportunista (no sentido mais arrivista), infeliz. Quis me manifestar nas listas eletrônicas, mas me contive. Optei por sentir as reações e em todos os casos foram críticas, quando não raivosas.

Um dos poucos a escrever um pouco mais serenamente sobre o caso foi Marcelo Träsel, que oferece uma interpretação do caso. Entre outros aspectos, ele não vê publicidade descarada na matéria e o crime maior está em como o jornalismo se alimenta de assassinatos e outros delitos para se prevalecer. “A meu ver, a sociedade não perderia nada se as histórias policiais fossem simplesmente banidas dos noticiários”, escreve Träsel. Pelo que pude entender, o autor exime o repórter da responsabilidade sobre o produto final, concede-lhe o benefício da dúvida, mas não poupa a indústria que se nutre do sangue.

Penso ligeiramente diferente. A indústria é implacável e muitas vezes se alimenta de crimes, de escândalos, de polêmicas para engordar seu noticiário, hipertrofiar sua audiência. Mas repórteres, redatores e editores também têm lá suas responsabilidades. No processo de produção jornalística, muitas mãos moldam, alteram e às vezes descaracterizam o texto original. O produto final pode ser muito diferente do que saiu do teclado do repórter, e responsabilidade se dilui. Mas não evapora. Dar o benefício da dúvida ao repórter é sensato pois faz prevalecer o princípio da presunção da inocência.

Mas o fato é que os elementos que causam estranhamento no texto de Afonso Benites poderiam ter sido simplesmente suprimidos. Por uma razão mais do que simples: não são jornalisticamente informativos. Basta voltar ao parágrafo e lê-lo sem os trechos grifados. Algo essencial fica de fora? Não, não fica. Essas sobras não têm estatuto jornalístico, mas contém informações que realçam características comerciais do produto – a faca – e da situação – um dia de uma promoção específica no hipermercado.

Por isso que o episódio inspira debates em torno da ética jornalística. A inserção na reportagem dos trechos grifados adiciona também elementos que contrariam o que convencionamos esperar do jornalismo. Ele é composto por informações que se orientam por interesses coletivos e públicos, e não por interesses de grupos e motivações primordialmente mercantis. Não porque o jornalismo seja melhor que a publicidade ou porque esteja acima do capitalismo. Mas porque o jornalismo se balize por valores que o aproximem mais da democracia do que do mercado. Historicamente, o jornalismo se desenvolveu como uma tecnologia social para as comunidades que servia. Na medida em que se aprimorava, a imprensa construiu em torno de si um conjunto de práticas que a credenciava como fiscal dos poderes, denunciadora de abusos, defensora da livre expressão e do pluralismo no pensamento. A sociedade foi delegando tais funções ao jornalismo, e este foi tecendo para si uma frágil, mas importante teia de sustentação: finalidade pública, função social.

O mal estar que senti ao ler a matéria de Afonso Benites – e pelo jeito não fui o único – é o sintoma do descolamento entre o que se vê no jornalismo e o que dele se espera. É o desvio de função que nos faz torcer o nariz. É uma indisfarçável sensação de estar sendo traído que nos preocupa, que nos indispõe.

O ruidoso episódio na Folha não mata o jornalismo, mas provoca uma incômoda ferida. Ela pode evoluir, arder, infeccionar. Mas também pode secar e cicatrizar. Qualquer diagnóstico é apressado… Irônico é perceber que não foi a faca quem feriu o jornalismo, mas o seu preço estampado na matéria.

o futuro do jornalismo na visão dos jornalistas

A Federação Internacional de Jornalistas (IFJ) promoveu de 25 a 28 de maio seu congresso mundial, cujo tema foi “Empregos, Ética e Democracia”. Se você, como eu, não estava em Cádiz (Espanha) nesses dias e se interessa pelo assunto, vá ao hotsite do evento, acompanhe as (raras) postagens no Twitter ou ainda assista aos vídeos no Canal Vimeo.

Interessante também é conferir o documento “Informe sobre o futuro do jornalismo”, onde são reunidas ideias em torno das muitas mudanças na profissão, no mercado e na própria organização classista dos jornalistas. Para sindicalistas ou não.